2 Bonnie's
1 Prólogo
Notas iniciais
Emma é uma ótima cantora, aliás, dizer que ela é ótima é uma estupidez, ela é a própria musa da música encarnada.
Uma pena que os ouvintes dela não passavam de trolls com um sentido para música tão alta quanto a de um surdo. Por isto, só conseguia trabalhos em bares chinfrins e no máximo em alguma festa de uma adolescente revoltada que estava debutando, era tão humilhante e entediante. Mas ela necessitava disso para sobreviver.
Apenas sobreviver, porque ela já não mais vivia, só sobrevivia.
Morava em um apartamento patético; o quarto, a cozinha e a sala eram o mesmo cômodo, e o banheiro mal tinha espaço para ela se sentar. Comia tão pouco, que sentia inveja das pessoas anoréxicas, por elas ao menos terem a escolha de não comer.
E após checar a geladeira mais uma vez, verificando novamente que não tinha comida alguma lá, começou a se arrumar para o seu trabalho como garçonete a noite, já que nos bares que fazia show não pagavam mais de cem por noite — e claro que não era toda noite que ela conseguia —, ela necessitava de outro trabalho para pagar o aluguel, e se desse sorte conseguiria roubar alguma comida da despensa.
Ela prendeu seu cabelo em um rabo de cavalo, tentando esconder as pontas coloridas já desbotadas que ela tinha pintado há três meses — quando ainda tinha esperança na vida e na sua carreira —, a cor vermelha tonalizava bem com o tom loiro “pelo de rato”. Uma pena que agora estava mais rosa do que vermelho.
Ela queria pedir para trocar seu uniforme de trabalho, mas sabia que nenhum serviria nela melhor que esse. Ela estava tão magra que a roupa P lhe ficava enorme. E seus olhos pretos estavam bem escondidos pelas olheiras, à maquiagem que ela usava nas apresentações até podia disfarçar bem, mas era cara, cara o bastante para comprar um mês de comida. Mesmo assim seu extremo narcisismo a obrigava a escolher a maquiagem ao invés da comida.
Nada estava indo como planejado. Em sua mente ela fugiria da casa dos pais depois que completasse a maioridade, iria para a capital, começaria cantando em bares pequenos, então seria descoberta por um olheiro e seria disputada por diversos estúdios de gravação. Uma pena que isso era apenas na sua mente, na dura realidade ela havia fugido apenas quando completou vinte anos, por medo e hesitação, foi para uma cidade que nem sequer parecia existir, sua primeira apresentação foi numa casa de strippers, ela não sabia como reagir quando enquanto ela cantava os homens tentavam passar a mão nas suas pernas expostas. Além de que nenhuma gravadora sequer chegou a responder quando ela enviou os CD’s betas.
Agora sentada no ônibus que ia em direção ao seu trabalho, só conseguia pensar no show que executaria a uma semana. Ela finalmente conseguiu um trabalho decente, seria numa boate às onze horas da noite, e só terminaria as quatro da madrugada, mas valeria muito a pena pelos seiscentos reais que ela ganharia. E isso graças a Luiz. Luiz era o chefe de Emma na lanchonete, e também a paixão dela desde que começara naquele emprego.
Não tinha jeito de não se apaixonar, afinal tanto na aparência quanto na personalidade ele era maravilhoso. Era moreno, com olhos verdes e um sorriso que faria qualquer garota surtar, e ela não era diferente.
Pensando nisso seguiu viagem soltando pequenos suspiros e sorrisos bobos.
~*~
Karen havia acabado de acordar, e não fazia a mínima ideia de onde estava.
Ela já estava irritada pela luz solar batendo no seu rosto, fazendo-a acordar. Sua visão demorou para se acostumar, mas quando se acostumou, arrependeu-se de ter aberto os olhos.
Estava novamente na sarjeta de uma rua próxima a boate que frequentara a noite passada, sua cabeça parecia explodir e o gosto de vómito habitava sua boca.
Pegou o primeiro táxi que apareceu, se certificando primeiro que tinha o pagamento na sua bolsa. Ao entrar checou um espelho de mão que estava na sua bolsa — que graças a tudo que há de mais sagrado, não foi roubada —, e viu sua aparência de bêbada acabada, seus cabelos pretos azulados, bem curtos estavam todos para cima, pelo menos graças ao tamanho ela só passou a mão e já não estavam mais bagunçados.
Não deveria ter aceitado aquele convite, sabendo que teria de trabalhar hoje. Mas não conseguiu resistir, estava na seca a um bom tempo e sair para pegar alguém não faria mal nenhum.
Só não devia ter participado daquela competição de bebidas... Ela não é exatamente fraca para isso, só digamos que o cara com quem ela competia era muito forte nisso.
Karen checou o celular, vinte novas mensagens, ela com certeza deveria ter feito alguma merda muito grande a noite passada. Não iria ler elas agora, talvez preferisse não lê-las nunca.
Quando viu a rua rosa em que seu apartamento ficava, pediu para o motorista parar a duas quadras de lá, ela não achava seguro que o homem soubesse seu endereço.
— Mas sabe, é uma pena. Eu acabo de perceber que não tenho um centavo nessa bolsa. — Karen mente, o que ela tinha ali poderia comprar até mesmo o carro dele.
O motorista velho e gordo da um sorriso sem vergonha; — Não tem problema querida. Tenho certeza que podemos achar outro meio para que você me pague. — Ele insinuou, passando a mão na perna dela, que foi logo repelida.
— Que bom que concordamos com isso. — Ela sacou a arma que estava na sua cinta-liga, apontando para a cabeça do velho. — Que tal, a sua vida pela minha corrida?
O homem paralisado de medo não disse nada, apenas destrancou as portas, e saiu correndo desesperado. Pronto, ela havia lhe entregado o seu pagamento.
Karen saiu lentamente do carro, cantarolando alguma música que havia grudado na sua cabeça, ela agia como se nada demais tivesse acontecido. Mas afinal, nada aconteceu mesmo, aquela era uma rotina normal.
Uma rotina normal para uma ladra internacionalmente conhecida.
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