2 Bonnie's
2 A voz de um anjo
Notas iniciais
Karen poderia jurar que um anjo estava no palco, cantando para ela, e apenas para ela.
A voz era tão delicada que ela sentia-se embalada como um neném no peito da mãe, e quando a música acabou, sentiu um frio repentino e fora do normal, ela tinha voltado para a realidade.
Sabia que daqui a poucos minutos a garota iria cantar outra música, mas não aguentava esperar. Teria que se contentar em olhar para a cantora, que na verdade não era nada feia, muito pelo contrário. Era o tipo de garota que Karen adoraria ter em uma cama de motel.
Sim, ela era uma lésbica assumida. Nunca gostou de homens.
Não, ela não tinha uma história trágica de estupro, nem a famosa historinha que algum homem tinha abandonado ela e desde então ficou com trauma deles. E seu pai também não tinha fugido de casa para ficar com outra mulher. Era simplesmente dela, simplesmente o que ela gostava. Claro que tinha beijado alguns homens para experimentar, mas não gostou de nenhum, pareciam tão sem graça. E foi completamente o contrário quando aos quatorze anos ela experimentou os lábios da sua ex-melhor amiga.
Um barulho perto do palco a chamou atenção, pelo que parece que a loirinha iria voltar a cantar. Estava na mesa ao lado do palco e graças a isso pode ter uma boa visão da garota, o rosto dela estava muito vermelho, e suas pernas falhavam. Ela ia cair, e Karen percebeu isso a tempo de se aproximar do palco para segura-la.
Dito e feito, ela caiu do palco aterrissando nos braços da morena, que se surpreendeu com a leveza dela, é como se o único peso que ela sentisse fosse das roupas e dos acessórios. Será que era uma daquelas garotas super preocupadas com o peso que ficavam sem comer por dias? Como era mesmo o nome delas... ? Anoréxicas! Isso.
Bem, não importava no momento, ela tinha desmaiado e já havia um grupo de pessoas se reunindo em volta da loira para ver o que tinha acontecido, e isso começou a incomodar Karen, se aquela multidão toda continuasse agrupada em torno dela poderia foder o plano todo.
Decidiu acalmar a todos levando a garota até os fundos e colocando-a sobre um balcão.
Aquela boate era o alvo da sua gangue naquela noite, mas aquela mulher tinha que aparecer e estragar tudo.
Ouviu uma voz atrás de si, era o chefe da boate, teria que começar sozinha.
— Vadia desgraçada, não consegue nem completar a porcaria de um show. — O homem falou com desprezo, e cuspiu ao lado do corpo da garota. Ainda perguntavam por que Karen desprezava homens... — Não devia ter confiado naquele viadinho do Luiz. Só porque ele é filho do dono daquela lanchonete acha que sabe de alguma coisa. Tsc.
A morena observava com repudio as ações do homem, ele falava alto, quase gritando. Suas mãos grossas e gordas se mexiam para cima e para baixo, além de que a cada segundo ele proferia palavras de baixo calão.
— E você sua vagabunda, — Ele estava falando com ela? — quem mandou tirar essa putinha da boate? Deveria ter a acordado e obrigado ela a continuar a cantar!
Ela retirou calmamente a arma de dentro do seu vestido, e colocou dentro da boca do homem no meio de mais um de seus berros.
— Que boca suja, talvez uma bala ajude a limpa-la.
Antes irritado e hiperativo, agora estava quieto e amedrontado como uma gazela sendo caçada por um tigre. Ou melhor, uma tigresa.
Ela o fez ficar de joelhos, e o amarrou em uma mesa presa ao chão, era divertido ouvi-lo implorar pela sua vida. Uma pena que não poderia cumprir isso, ele havia visto seu rosto e poderia muito bem dedura-la para a polícia. Gostava da atual aparência que tinha, e não queria mudar mais uma vez.
E então, ela ouviu os gritos vindos de dentro da boate, seus parceiros haviam chegado, não tinha mais porque manter ele como prisioneiro, e por isso agora a boca dele estava sendo lavada com o próprio sangue.
Olhou para trás antes de colocar a máscara, e percebeu que a cantora continuava desmaiada. Ela devia estar mesmo muito ruim para não ter acordado com toda aquela barulheira, decidiu coloca-la no porão antes de ir, seria péssimo se uma inocente como ela se machucasse.
Besteira. Estava mentindo para si mesma de novo, ela nunca ligou para nenhum inocente que caia em suas mãos, a verdade é que ela queria ouvir aquela voz de novo. A voz angelical que a fez se esquecer de todos os crimes hediondos que havia cometido, mesmo que por poucos minutos.
E ela a ouviria de novo, nem que fosse a força. Claro que essa era a última opção, primeiro tentaria faze-la cantar por vontade própria, isso se saísse viva daquele furto. Era um risco da sua profissão, um risco que ela amava correr.
Por isso não hesitou em abaixar a máscara e correr para dentro do grande salão. Os gritos quando a arma passou de cabeça a cabeça eram doces como choro de criança, era fascinante como um ser humano tão esnobe recorresse aos seus mais primitivos instintos, que o faziam correr como tolos, e chorar por suas vidas. E no final poderia sair fingindo que nada tivesse acontecido, e se encontrasse o mesmo homem esnobe, ele a trataria com desdém olhando com o queixo erguido, mas ela riria se lembrando de quando ele estava de joelhos, chorando aos pés dela.
E no final tudo havia saído como o planejado. Para ela. Já para um dos novatos na gangue tudo tinha ido muito mal, até porque agora ele provavelmente estaria sendo feito de donzela em uma das celas de prisão. O idiota tinha sido pego, não sabia como ele havia sido admitido no grupo com aquelas habilidades de merda. Afinal para ela, só precisou voltar para o porão que ninguém a percebeu.
Os policiais foram tão estúpidos que nem sequer perceberam o alçapão que o tapete escondia.
Falou cedo demais, tinha ouvido um barulho atrás de si. Tinham a encontrado?
Ah! Não. Era a garota que mais cedo ela havia deixado aqui, tinha até se esquecido. Ela tinha acabado de acordar, passava a mão pela cabeça, devia estar dolorida por ter ‘dormido’ naquele balcão. Ao abrir os olhos e se deparar com Karen, a loira se assustou, acabando por bater a cabeça numa prateleira atrás dela.
A morena tentou não rir e se aproximou dela, como se estivesse se aproximando de um animal ferido.
— O que... O que aconteceu? — A loira falava com a voz rouca, o que na opinião de Karen a deixaria muito sensual, se seu cabelo não estivesse desarrumado, sua roupa não tivesse amassada e não escorresse um pouco de baba pelo canto de sua boca.
— Nada demais. — Ela se sentou na beirada, se aproximando da garota — Você desmaiou e caiu do palco, então eu te trouxe aqui. Ah, também houve um assalto e o dono da boate foi assassinado.
Os olhos da loira se arregalaram, tanto quanto pela frieza da outra, quanto pela noticia.
— Droga! — Ela esbravejou e socou o balcão.
— Uhn, você era muito próxima dele?
— Não, o desgraçado ainda não tinha me pagado pelo show.
A morena soltou uma gargalhada alta, esse era o tipo de garota que ela gostava.
— Bem, tarde demais para isso. — Ela respondeu ainda rindo e esticando a mão para outra. — Prazer, me chamo Martha.
Karen havia mentido sobre o nome dela, isso era esperável. Ela não podia confiar seu verdadeiro nome a uma estranha que acabara de conhecer. Nem os mais íntimos parceiros dela sabiam.
— Emma. — Ela sorriu e retribuiu o aperto de mão.
— Emmy — Disse Karen (ou Martha), experimentando a fonética do apelido. Iria chama-la assim a partir de agora — venha, vou te levar para sua casa.
— Ah, não. Não é preciso, eu me viro. Pego um táxi.
— Com que dinheiro? O que você iria ganhar com a apresentação? — A morena sorriu sarcástica e Emma se amaldiçoou mentalmente por ter se esquecido disso. — Vamos, que mal eu posso fazer?
Nesse momento mil coisas se passaram pela cabeça dela, mas mesmo assim decidiu seguir a garota que tinha acabado de conhecer.
Afinal, que mal ela poderia fazer?
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