Tamborilando os dedos sobre a mesa, Valêncio aguardou com muita paciência o início do depoimento. Cleiton, por sua vez, havia pedido um pouco de água.

O delegado se levantou, foi até o garrafão e trouxe um copo com água. O acusado bebeu vagarosamente, sorrindo para o homem à sua frente. Qualquer outro ali no lugar sucumbiria às provocações do modelo.

— Todo mundo já sabe que você é culpado. Ficar com brincadeirinhas para cima de mim não vai te ajudar em nada.

— Jiboia.

— Oi?

— A jiboia que eu criava e fiz um daqueles vídeos snuffs. Sabe... quando eu vi ela engolir aquele gatíneo... hahahaha. Que sensação.

— Foi assim que você começou matando? Sabia que os psicopatas sempre fazem dos animais suas primeiras vítimas.

Ele encarou bem Valêncio. Pediu mais água. O delegado se negou, Cleiton negou que deporia.

— Então não há nada para se fazer aqui. Com licença.

— Você prometeu. Prometeu à família do Marcelo que arrancaria uma confissão minha. Estou certo? Se estou certo, e este depoimento se encerrar assim, você não é um homem de palavra.

— Escute, nem tente manipular!

— Vamos lá, Val. Eu sei que consegue. Pegue a minha água. Á-G-U-A.

O delegado foi ao refeitório da delegacia, pegou uma garrafa pet e encheu com água do garrafão. Colocou em cima da mesa.

— Está aqui. Agora me conta de uma vez.

Cleiton pegou o copo descartável e pôs água. Bebeu vagarosamente.

— Tudo começou quando conheci Marcelo no curso preparatório. Ele era gostoso, por isso foi uma paixão avassaladora.