Valêncio foi deixar o lixo na lata perto da guarita de segurança quando viu alguns moradores a conversar com o zelador. O burburinho era audível de longe.

— O que foi que houve, seu Pimenta?

— Seu Cláudio, hoje pela manhã bem cedo encontrei um cachorro morto na lata. Eu já comuniquei à síndica, por isso os moradores estão aqui.

— Será que o bicho morreu de doença?

— Não, seu Cláudio. O bicho tinha sangue. Tenho pra mim que ele foi espancado até a morte.

Após a breve conversa com Pimenta, o delegado entrou no carro e partiu para a delegacia. Independentemente da tragédia com o pobre animal, sua atenção principal estava voltada ao assassino do esquartejamento.

— Alguma novidade?

— Aquele jornalista que recebeu a mão está na sua sala.

O Roberto esperava ansioso pela chegada de Valêncio. Assim que o delegado chegou foi logo entrando na sala.

— Então se lembrou de alguma coisa que pode me ajudar?

— Sim.

Um escrivão chegou para anotar o depoimento de Roberto.

— Acho que isso é obra de Ferdinand Hugo.

— Ferdinand Hugo?

— Há dois anos um vídeo na internet chamou a atenção. Nele aparecia um rapaz mascarado com dois gatos. No vídeo ele pega os gatos, que eram filhotes, coloca dentro de um saco plástico e depois sufoca-os até a morte.

— Meu Deus.

— O vídeo foi compartilhado pelo zap diversas vezes e muitas pessoas se revoltaram. Protetores de animais e até o Ibama queriam saber quem era o cara do vídeo, mas nada foi encontrado. Pouco tempo depois outro vídeo foi compartilhado. Agora o rapaz afogava um cachorro pequeno. Dessa vez ofereceram dinheiro pelo captura do meliante, mas nada foi achado de novo.

— E encontraram o cara?

— Um terceiro vídeo foi compartilhado. Dessa vez ele tava com uma cobra dessas grandes tipo jibóia. A víbora come um filhote de gato. Dessa vez houve uma campanha maciça para encontrar o culpado. Foi quando a verdade veio à tona. Uma pessoa disse que em Sorocaba havia um rapaz que trabalhava como modelo que tinha uma cobra parecida com a do vídeo. Eu morava na capital paulista e uma semana depois um cara foi ao meu encontro reclamando que ele não tinha nada a ver com aquilo. Ferdinand Hugo. Durante dias eu tentava arrancar uma confissão dele e até recebi uma ameaça. Uma carta foi enviada para o jornal com um teor ameaçador e aí eu parei. Foi quando eu vim pro Ceará transferido.

— E você acha que o Ferdinand Hugo matou o Marcelo e entregou um pedaço do corpo para você como vingança?

— Sim.

Valêncio levou um susto ao perceber que as coisas estavam se encaixando. O tronco da vítima encontrado no prédio onde morava e também o cachorro morto.

— Acho que ele mora no meu prédio.