17° Desafio Sherlolly- O Jardim Secreto
5 Tio Lestrade e Um dia com Molly
– Por que esse garoto está nesse estado? – disse referindo-se as manchas de terra na roupa dele. – Vamos, levante e se troque imediatamente! O Sr. Lestrade quer vê-lo!
– O..meu tio? – perguntou o garoto sem acreditar.
– Martha, o que está esperando? Ande, apronte esse garoto!
A sra. Hudson levantou-se imediatamente e se dirigiu ao guarda-roupa, procurando alguma vestimenta adequada. Ela estava tão em choque quanto Sherlock.
Em menos de quinze minutos, o menino já estava pronto para ir até o encontro de seu tio. A Srta. Donovan então o acompanhou pelos corredores até uma porta de madeira escura e grande. Ela deu três batidas e então um fraco “entre” pode ser ouvido.
– Entre e não fale nada além do necessário! – advertiu a governanta abrindo a porta e empurrando Sherlock para dentro.
Antes que o garoto pudesse falar ou perguntar qualquer coisa, a porta foi fechada às suas costas. Sherlokc olhou em volta apreensivo, a sala estava totalmente escura, apesar de ainda ser dia lá fora, salvo pela lareira acessa.
– Pode se aproximar! – falou uma voz fria vinda da poltrona logo à frente da lareira.
Sherlock respirou fundo para reunir toda a coragem que tinha, e em passos firmes, andou em direção a poltrona. Um homem de cabelos grisalhos, que aparentava ter muita idade estava olhando para ele. Sherlock pode ver a falta de brilho nos seus olhos, e isso, por um tempo, o assustou.
– Sou seu tio Lestrade! – falou tentando dar um sorriso – Sinto muito por não ter ido te buscar no porto!
– Está tudo bem! – respondeu o garoto.
Um silêncio constrangedor se instaurou durante alguns segundos. Sherlock não sabia exatamente o por que, mas percebeu que seu tio não era mal como imaginou ser. Quando a Srta. Donovan disse que ele não gostava de crianças, decidiu naquele momento que não gostaria do seu tio, mas vendo-o agora, aparentemente tão debilitado e triste, Sherlock não conseguia sentir nada além de pena. O quanto ele deveria ter gostado de sua tia para ficar nesse estado, ele se perguntou.
– Estão te tratando bem aqui? – ele questionou repentinamente.
– Estão sim! São todos gentis, em especial a Sra. Hudson!
– Bom,bom...- ele balbuciou – Existe algo que você precise? Algo que você queira!
Sherlock pensou por um tempo, ali estava uma oportunidade perfeita.
– Eu queria...um pedaço de terra! – pediu cautelosamente.
Seu tio o olhou confuso.
– Um pedaço de terra? – repetiu
Sherlock confirmou.
– Sim! Um pedaço de terra, pra eu poder plantar!
– Que tipo de coisas você quer plantar? – perguntou exibindo algo parecido com um sorriso.
– Flores! Quero plantar todas as flores que puder! E quero estudar todas elas!
– Quer estudar as flores?
– Sim! Ganhei um caderno da mãe da Sra. Hudson e anoto nele todas as curiosidades sobre plantas que eu aprendo! A irmã mais nova dela, Molly, também sabe tudo sobre plantas, e eu quero aprender muito com ela!
Por um instante, Sherlock se esqueceu de que estava falando com um tio desconhecido, que ele nunca vira ou ouvira falar, e começou a tagarelar como uma criança normal faz com alguém com quem tem muita intimidade. O sr. Lestrade sorriu silenciosamente após o discurso do garoto, um sorriso melancólico.
– Você pode escolher o pedaço de terra que bem lhe agradar, menino! – respondeu.
Sherlock respirou aliviado e então o Sr. Lestrade foi até uma campainha. Assim que a apertou, uma Srta. Donovan apareceu.
– Pode leva-lo! O garoto está bem cuidado!
A srta. Donovan fez uma espécie de reverência e arrastou Sherlock para fora, guiando-o de volta ao seu quarto, onde a Sra. Hudson o esperava. Assim que deixou Sherlock em seu quarto, a Srta. Donovan virou-se para a empregada.
– Martha, termine de dar o almoço a essa criança! Ou o Sr. Lestrade vai pensar que a estamos matando de fome, de tão magro que ele é!
– Estou engordando! – protestou o menino, pois era verdade. Nesses últimos dias em que vinha comendo, suas meias já estavam mais apertadas, e não caindo pelos calcanhares.
A Srta. Donovan, entretanto, não lhe deu ouvidos e saiu assim que deu as ordens a Sra. Hudson.
– Ela realmente me detesta! – pensou em voz alta.
– Ela detesta todo mundo! – disse a Sra. Hudson rindo – Agora venha almoçar e me conte como foi! O que achou do Sr. Lestrade?
– Achei ele triste!
– Triste?!
– É! Tinha uma expressão tão triste, que me deu até pena!
– É assim desde que a esposa morreu! Tadinho, nunca se recuperou! Mamãe diz que ele era realmente apaixonado por ela!
Sherlock nunca tinha sido o tipo de garoto de sentir compaixão por alguém, ou de mesmo se interessar pelo problema dos outros. Mas ele também não era o tipo de garoto que pegava na mão das pessoas, que as deixasse beijarem-lo na testa ou que mesmo risse de histórias que elas lhe contavam. Mas Sherlock já não era o mesmo menino desde que chegara a Misselthwaite. Desde que chegara ele havia sentido coisas que jamais imaginou que seria capaz de sentir. Desde que Sra. Hudson mencionara Molly pela primeira vez, até o momento em que ele vira seu tio naquela tarde, Sherlock descobriu que ele era capaz de se importar e gostar das pessoas, por isso, naquele momento, enquanto ele terminava seu almoço, uma ideia surgiu em sua cabeça. Assim que terminou o almoço, voltou correndo para o jardim. Molly ainda estava lá, trabalhando em um canteiro de tulipas.
– Molly, tive uma idéia genial! – falou o garoto enquanto se dirigia até aonde a menina estava. – Vamos curar o jardim e torna-lo florido, e então, trazer meu tio pra cá!
– O sr. Lestrade? Pra que?
– Eu o vi hoje, e ele é exatamente como você o descreveu! Ele tem a aparência mais triste do mundo! Acho que se curar o jardim e deixa-lo do jeito que era antes, ele vai se lembrar do quanto a minha tia gostava de jardins e vai voltar a sorrir!
Molly sorriu.
– Eu sabia que tinha um motivo pra você ter achado a chave, Sherlock! Foi coisa do destino mesmo!
– Você me ajuda, Molly?
– Claro que ajudo! Eu disse que ajudaria, então eu ajudo! Vamos deixar esse jardim lindinho da silva!
– Você já disse essa expressão uma vez, mas o que ela significa? – perguntou franzindo as sobrancelhas.
– Qual expressão?
– Da silva!
Molly riu.
– Você não sabe? É quando a gente quer dizer que é bastante, ou muito!
Sherlock riu também, e Molly o acompanhou. Os dois começaram a rir e não pararam, como se achassem graça em algo que só eles conseguiam entender. Quem os visse agora, jamais diria que se conheceram naquele mesmo dia, pois pareciam amigos de anos, tamanho o entendimento entre eles.
Quando anoiteceu, Sherlock acompanhou Molly até a entrada da charneca, e depois voltou para a mansão. Nunca tinha tido um dia tão divertido como esse antes, e se encontrava ansioso pela manhã seguinte, já que Molly prometera que voltaria, e que voltaria com Pangaré, um pônei que ela acabara de socorrer. Naquele dia, Sherlock apenas constatou o que já sabia, Molly Hopper era a menina mais maravilhosa que ele já havia conhecido, ou como ele aprendera, maravilhosa da silva.
Na manhã seguinte, enquanto tomava seu café, Sherlock fez um pedido especial para a Sra. Hudson.
– Uma cesta de piquenique?
– É! – confirmou – Com tudo de gostoso que tiver dentro, assim eu não preciso voltar para o almoço e posso ficar mais tempo com Molly nos jardins!
Sra. Hudson sorriu.
– Pode deixar, vou pedir pra colocarem comida pra quatro, por que aposto que vocês dois vão sentir muita fome, de tanto que vão brincar!
Sherlock mostrou-se satisfeito e agradeceu. Assim que terminou de se trocar, a cesta já estava pronta, então foi correndo para o jardim, aonde ele tinha combinado de se encontrar com a nova amiga. Ao chegar à porta do jardim, Molly já estava lá com o pardal Amêndoa, a raposa Rabudo e o pônei Pangaré.
– Onde está a Branquinha? – perguntou referindo-se a ovelha do dia anterior.
– Ficou em casa! Deixei com a mamãe hoje!
– Vamos conversar lá dentro!- Sherlock olhou cautelosamente , e certificando-se de que não havia ninguém, afastou a relva, abriu a porta e adentrou no jardim junto com Molly e os bichinhos.
– Olha o que eu trouxe pra gente! – falou Sherlock mostrando a cesta – Podemos almoçar juntos agora!
– Eu trouxe algumas coisas também! – disse Molly mostrando uma sacola – Uns pães doces que a mamãe fez de café da manhã e umas sementes pra gente plantar!
– Sério?! Quais plantas?
– Algumas prímulas, petúnias e eu também trouxe umas de amor-perfeito!
Apesar de não conhecer nenhuma dessas flores, Sherlock mostrou-se extremamente empolgado.
– Vamos plantá-las então!
Molly concordou, e eles decidiram que o melhor lugar para se plantar as prímulas seria próximo à cortina de campanulas. Já as petúnias foram plantadas em volta da fonte, junto com o amor-perfeito. Molly ensinou Sherlock à forma correta de se podar uma planta e como adubá-las. Sherlock anotava tudo em seu caderno, maravilhado com cada coisa que aprendia. Depois de uma longa manhã de trabalho, Sherlock e Molly almoçaram o conteúdo da cesta que Sherlock trouxera, e Molly contou como conheceu Pangaré. Contou que salvou ele de alguns homens que queriam leva-lo a força e acabaram quebrando sua pata, e por conta disso, abandonaram-no na floresta. Contou também que depois de alguns cuidados, a pata dele voltou ao normal e que agora ele corria como qualquer outro pônei. Sherlock ouviu tudo fascinado, e contou a Molly sobre os encantadores que havia visto na Índia.
– Eu agradeço, Sherlock! Mas não sou nenhuma encantadora! – falou Molly enquanto ria da comparação – Sou só uma garota normal!
– Você é uma encantadora, sim! – protestou – Você me encantou, antes mesmo de eu te conhecer! Eu nunca tinha me interessado por ninguém antes da Sra. Hudson me falar de você!
Molly sorriu, levemente tímida.
– Ora, então acho que você é um encantador também, porque quando Martha me falou de você, eu fiquei super curiosa pra te conhecer!
– Sério?! – exclamou o garoto surpreso.
Molly confirmou. Sherlock então se aproximou do ouvido da menina e sussurrou.
– Você gosta de mim?
Molly riu envergonhada.
– Claro que gosto! Acho que você é o menino mais maravilhoso que já conheci!
Sherlock não pode evitar sorrir ponta a ponta depois da declaração de Molly.
– Eu também acho que você é a menina mais maravilhosa que já conheci! – revelou contente.
Os dois sorriram sem graça.
Depois do almoço, Molly ensinou Sherlock a montar no Pangaré, e os dois trotaram pelo jardim, enquanto a garota, Rabudo e Amêndoa caminhavam logo atrás. Sherlock insistiu para que Molly lhe ensinasse a falar com os pássaros, coisa que a garota tentou, mas Sherlock não conseguia aprender a assobiar, e cada tentativa arrancava altas risadas dos dois. Molly e Sherlock consertaram o pequeno balanço, reforçando as cordas para que elas não quebrassem mais, e passaram o resto da tarde brincando no balanço. Próximo ao horário de Molly ir embora, eles devoraram os pães doces que a mãe da garota havia dado, e com uma nova promessa de encontrar-se no dia seguinte, Sherlock acompanhou Molly até a entrada da charneca e voltou para a mansão.
Deitou-se com um enorme sorriso no rosto. Não poderia existir dia mais perfeito que aquele.
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