17° Desafio Sherlolly- O Jardim Secreto
6 "No Jardim, Estou no Jardim!"
Durante todo aquele mês, Sherlock acordava cedo, comia, pegava a cesta de piquenique e se encontrava com Molly no Jardim Secreto. Os dois passavam o dia trabalhando no jardim e brincando. Molly contava para Sherlock tudo o que sabia sobre plantas e animais, e Sherlock retribuía o gesto da menina ensinando para ela tudo sobre a Índia e as histórias que sua babá contava para ele.
Os dias se passaram tranquilos, e quando a estação das chuvas chegou, Sherlock, ao mesmo tempo que amaldiçoou não poder mais desfrutar seu tempo com Molly, agradeceu pela chegada das chuvas, que assim que acabassem trariam a primavera, e com ela, um jardim florido.
Era hora de começar a colocar seu plano em prática.
Em uma tarde de chuva, enquanto Sra. Hudson estava sentada próxima a lareira costurando, Sherlock achou que era a hora perfeita para começar a fazer perguntas. Abaixou seu livro e pediu mais chá para a empregada, e assim que lhe serviu, o garoto começou com o interrogatório.
– Sra. Hudson, por que meio tio nunca está em casa? Sabe pra onde ele vai?
– Ai menino, não sei não! Ele não fica mais por aqui desde o falecimento da esposa dele! – respondeu enquanto servia chá na pequena xícara de porcelana – Nunca mais ele foi visto por aqui por mais de duas semanas! Chega e já vai!
– E você sabe pra onde ele vai?
Sra. Hudson pensou um pouco antes de responder. Sentou-se novamente próxima a lareira e pegando sua costura de volta, falou.
– Olha, acho que dessa vez ele foi pra Londres! Não é muito longe, mas sei que ele pretende pegar um navio pra Suiça depois que as chuvas pararem!
Sherlock mostrou-se desesperado ao ouvir a noticia.
– Não podemos deixar! Se ele for pra Suiça vai ser mais difícil fazê-lo voltar a tempo!
– Voltar a tempo de que? – perguntou a Sra. Hudson confusa pela reação do garoto.
– Sra. Hudson, quando exatamente acabam a estação das chuvas? – o garoto foi correndo até a escrivaninha, onde pegou papel, pena e o tinteiro, sem dar atenção a pergunta feita pela empregada.
– Bem, pelas minhas contas devem acabar daqui há duas semanas!
– A senhora precisa me ajudar! Aqui! – entregou-lhe o papel, a pena e o tinteiro – Escreva o que vou lhe dizer!
– Mas o que aconteceu com você?! Pra que isso?!
– Apenas escreva! – ordenou impaciente.
Sra. Hudson assustada com o comportamento esquisito do garoto, concordou. Sherlock então respirou fundo e começou a ditar.
– Caro Sr. Lestrade, meu nome é Martha Hudson e trabalho como empregada em sua casa, cuidando especialmente do menino Sherlock...
Enquanto o garoto ditava, a Sra. Hudson escrevia. Sherlock não tinha certeza se seu plano iria funcionar, mas era uma situação de emergência. Se o tio partisse para Suiça, não tinha garantias de que ele ainda voltaria na primavera, e se não visse o jardim florido, todo o plano que havia traçado com Molly iria por água a baixo.
– A srta. Donovan não quis que eu lhe dissesse, – continuou – mas o menino Sherlock encontra-se muito doente ..
– De jeito nenhum! A srta. Donovan vai me matar! – exclamou a empregada parando de escrever imediatamente.
– Por favor, Sra. Hudson, apenas continue a escrever! Prometo que nada irá lhe acontecer! Eu assumirei toda a responsabilidade!
Sra. Hudson hesitou, sua expressão denunciava todo o nervosismo e insegurança que sentia. O garoto sabia que ela estava se arriscando. Poderia perder seu emprego por isso, mas Sherlock tinha que apostar nela. Se ele escrevesse a carta, seu tio não acreditaria, ou talvez não viesse, mas sendo uma empregada, ele certamente ficaria preocupado e viria.
Após um tempo, Sra. Hudson concordou, conformada com a atitude do garoto, e voltou sua mão em posição de escrita. Sherlock suspirou aliviado e sorriu agradecido.
– O menino Sherlock encontra-se muito doente – retomou o ditado – e chama pelo senhor! Por favor, venha ver o menino! O mais rápido que puder!
Após Sherlock terminar de ditar e a Sra. Hudson terminar de escrever, a carta foi fechada em um envelope, e a Sra. Hudson prometeu que entregaria para o mensageiro na manhã seguinte. Sherlock agradeceu, mas apesar de toda a insistência da empregada, não revelou seus planos, afirmando apenas que seria uma surpresa para todos.
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A previsão da Sra. Hudson se realizara, e duas semanas depois lá estavam Sherlock e Molly no jardim, olhando o resultado daquele período de chuva. Milhares de brotos de flores cresciam, quase prontas para desabrochar. As árvores que antes tinham uma aparência cinza, agora estavam marrons e com pequenos pontos verde-vivo nos galhos.
– Está nascendo, Molly! – falou o garoto sorrindo – O Jardim está criando vida!
Molly concordou sorrindo.
– E você vai ver que daqui a pouquinho ele vai estar mais lindo do que nunca!
Sherlock assentiu, e então contou a menina sobre a carta que havia enviado ao seu tio.
– Ele deve iniciar viagem hoje ou amanhã, segundo minhas deduções! – revelou o menino.
– Por que tem tanta certeza?!
– Ora, aqui é uma região de terra, as estradas devem estar cheias de lama, não seria seguro viajar durante a época de chuva! – contou – Mas agora, com a época de chuvas terminada, a lama vai secar e a estrada voltará a ser segura! Ele saindo de Londres entre hoje ou amanhã, deve chegar daqui em dois dias ou três!
– Você é o garoto mais inteligente que já conheci! – falou a menina admirada. – Se ele chegar em dois dias, o jardim já vai estar prontinho pra receber ele!
Sherlock assentiu, e os dois empolgados, andaram pelo jardim admirando todas as plantas que estavam prestes a nascer. Quando a sineta do almoço tocou, Molly já estava pronta para se despedir, mas Sherlock a impediu.
– Vem almoçar comigo hoje! – pediu o garoto.
– Não posso Sherlock, posso trazer problemas à minha irmã!
O garoto ergueu o nariz, como se fosse de novo aquele menino mandão que havia acabado de chegar da Índia.
– Ninguém vai fazer nada com a Sra. Hudson! Eu não vou deixar! E acho bom já se acostumarem com a sua presença naquela casa, quando a gente se casar, você vai ter que morar lá comigo!
Molly riu da colocação do amigo.
– Não podemos casar, Sherlock! Somos crianças! – argumentou, mas Sherlock deu de ombros, como se tal detalhe não importasse.
– Quando a gente crescer, a gente casa! – falou com naturalidade e a garota concordou.
Os dois foram para a mansão almoçar de mãos dadas.
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Lestrade estava agoniado fazia dias. De uns dias para cá vinha tendo sonhos estranhos, sonhos que jamais pensou que voltaria a ter após dez anos. Sua esposa estava sentada no balanço do jardim, aquele fatídico balanço, de onde ela caíra. Mas o curioso em seu sonho, é que sua mulher estava feliz e o chamava, pedia para que ele viesse ao jardim. Ele esticava as mãos em direção a ela, mas então ele sentia ser tragado para fora do jardim e a porta fechada logo em seguida. Ele gritava pelo nome dela, mas ela era incapaz de ouvir.
Em compensação ele ouvia as palavras dela: “O Jardim, estou no jardim!”.
Algo estava errado, e ele sabia disso. Seus temores se confirmaram quando recebeu uma carta da mansão, Sherlock estava doente e pedia por ele. Lestrade mal conhecia Sherlock, mas sabia que como tutor legal do menino era o responsável por ele. Não podia viajar imediatamente, se pudesse, teria ido sem pensar duas vezes. Esperou com ansiedade até o final da temporada das chuvas, e assim que os primeiros raios do sol da primavera atingiram o chão, Lestrade organizou sua carruagem e partiu de volta para a mansão em Misselthwaite.
Foram três dias de viagem, e assim que chegou, Lestrade correu diretamente para o quarto de Sherlock. Não havia ninguém, e isso fez com que o coração dele se agitasse. Será que o garoto havia morrido durante esse tempo? Foi então que novamente pode ouvir a voz de sua mulher “No Jardim, estou no Jardim!”. Por algum motivo aquilo o estava perseguindo. Lestrade correu em direção ao antigo quarto onde havia depositado os bens que eram de sua esposa e revirou a escrivaninha. A chave não estava lá. Com a excitação crescendo em seu peito, Lestrade correu até o jardim, não podia ser possível?! Será que alguém havia aberto o jardim?! Chegando no muro, tateou o muro por cima da relva, procurando pela porta, e assim que encontrou a maçaneta, pode ouvir o barulho alto de risadas infantis vindo do outro lado.
Seu coração parou.
Ele girou a maçaneta lentamente e abriu a porta com cuidado. Seus olhos contemplaram, o jardim que até então ele julgava morto e sem vida, cheio de plantas e flores. Foi então que um corpo infantil bateu nele, e para sua surpresa, ali estava Sherlock, totalmente saudável e com um sorriso enorme no rosto.
– Tio! – exclamou o garoto feliz – O senhor chegou bem na hora!
– A tempo? Você está bem? Me disseram que estava doente! – falou exasperado.
– Estou bem, juro! Só pedi para a Sra. Hudson escrever aquela carta para que o senhor viesse ver o jardim!
Então, novamente Lestrade olhou em volta, sendo invadido por inúmeras lembranças que aquele lugar emitia.
– Como você entrou aqui?! – perguntou com a voz embargada por um quase choro.
– Eu achei a chave...e achei a porta! – explicou – E Molly e eu trouxemos ele de volta a vida!– falou apontando para a garota que estava a alguns poucos metros de distância. – Pro senhor, tio!
– Pra mim?!
– O senhor parecia tão triste quando eu te conheci, e quando eu soube que minha tia amava esse jardim e as flores, achei que o senhor se recuperaria se visse o jardim lindo de novo!
Lestrade deixou algumas lágrimas silenciosas e abraçou Sherlock com força.
– Obrigado! – sussurrou.
Quando Sherlock, Lestrade e Molly saíram do Jardim de mãos dadas, todos exclamaram surpresos, e mais ainda quando anunciou que o jardim estava reaberto. Sherlock ficou satisfeito pelo seu plano ter obtido sucesso. A partir dai, tanto Sherlock quanto Lestrade ganharam uma nova oportunidade de terem aquilo que sempre desejaram, uma família.
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