17° Desafio Sherlolly- O Jardim Secreto
3 Sherlock encontra o Jardim e Molly
No dia seguinte, assim que acordou, Sherlock correu para a janela. Viu com contentamento que seu desejo se realizara, o céu, apesar de nublado, não estava nem um pouco com cara de chuva. Correu para o armário se trocar, mal a via a hora de poder entrar no jardim. Assim que havia terminado de amarrar seus sapatos, Sra. Hudson entrou com seu café da manhã. Ao ver o menino de pé e já vestido, a empregada levou um susto.
– Mas já de pé?! – exclamou. – Ainda ontem tava morrendo de sono!
– Quero aproveitar o dia! – falou enquanto abria a bandeja de prata que ela trouxera, servindo-se de um pouco do chá e passando geleia em uma torrada que a enfiou na boca. Dirigiu-se ao cabideiro e pegou seu casaco, cachecol e chapéu.
– Já vai sair? — perguntou Sra. Hudson confusa sem obter uma resposta, pois Sherlock já havia desaparecido correndo pelo corredor.
– Meu deus, esse menino é muito inconstante! – resmungou baixinho enquanto retirava a mesa.
Sherlock correu em direção ao jardim, passou pelo grande hall, foi até a pequena trilha cheia de árvores, passou pelos jardins de ervas e frutas, e enfim, chegou ao muro alto coberto por relva. Colocou sua mão dentro da relva e encontrou a maçaneta. Seu coração disparou, era agora. Pegou a chave em seu bolso e a colocou na fechadura, tal como sabia, encaixou-se perfeitamente. Ele virou a chave e sentiu a porta destrancar e a empurrou com algum esforço, por conta da relva que havia crescido em volta da porta. Entrou no jardim e soltou uma exclamação de admiração, nem em seus sonhos Sherlock podia imaginar o que encontraria ali, várias árvores, trepadeiras, flores e arbustos. Uma fonte no meio e, curiosamente, um balanço caído, com apenas uma das duas cordas preso ao galho de uma árvore. Apesar de todas as plantas estarem cinzas e aparentemente sem vida, Sherlock achou que aquele era o lugar mais mágico que já vira na vida. Aquele jardim deveria ter sido o mais lindo jardim que já existiu, se ao menos pudesse saber se as plantas ainda estavam vivas, saberia que quando a primavera chegasse, aquele jardim voltaria a ser o mais lindo do mundo. Talvez Mycroft soubesse, mas não poderia perguntar a ele, ninguém poderia saber que ele havia encontrado o jardim, caso soubessem, poderiam trancá-lo de novo e sumir com a chave de modo que ninguém mais a encontrasse. Não, Sherlock deveria encontrar outra alternativa. Viu alguns pequenos brotos perdidos no meio de uma grama muito alta, “Talvez estejam sufocando!”, pensou. Retirou seu casaco e passou a cavar, removendo as gramas pela raiz e liberando os pequenos brotos, que agora pareciam muito mais agradecidos por poderem respirar. Sherlock sorriu esperançoso, talvez nem tudo estivesse morto naquele jardim afinal, e então suas mãos começaram a trabalhar no próximo broto e no próximo e no próximo, e assim foi durante toda a manhã. Quando a sineta do almoço soou, Sherlock viu-se totalmente sujo e suado, mas ficou orgulhoso de si mesmo ao ver o monte de grama que havia removido. Pegou o casaco e correu para a mansão, estava faminto! O cheiro de terra e o árduo trabalho despertaram nele uma fome que jamais sentiu, e quando chegou ao seu quarto, a Sra. Hudson espantou-se pelo estado do menino.
– Tava rolando na terra?! – exclamou.
Sherlock riu, mas não respondeu. Lavou as mãos e o rosto e depois se sentou à mesa. Mas as surpresas não paravam por ai, Sra. Hudson ficou totalmente perplexa após ver que ele havia devorado todo o almoço que ela lhe trouxera.
– O que houve? Foi picado pelo bicho da fome?
– É que hoje a comida está boa! – respondeu o menino após engolir o grande pedaço de bife que havia colocado na boca.
– A cozinheira que vai ficar feliz! Ela sempre reclamava que você nunca tocava na comida! – falou a empregada com bom humor enquanto recolhia os pratos totalmente vazios e os colocava em cima da bandeja.
– Sra. Hudson, a senhora sabe alguma coisa sobre plantas? – perguntou o garoto enquanto limpava a boca no guardanapo.
– Olha, eu não conheço muita coisa não! Mas Mycroft conhece, aliais, ele é o fazendeiro chefe daqui! Podia perguntar pra ele!
– Não! Mycroft é muito mal-humorado! – respondeu o menino pensando em uma desculpa bem rápida.
– Bom, a Molly também sabe tudo de plantas! Aliais, ela que cuida das plantas lá de casa! Mamãe fala que ela tem o dedo verde, é só ela encostar que nasce planta de tudo que é jeito!
– Pode pedir pra Molly me ensinar? – perguntou Sherlock empolgado.
– Claro que posso! Vou mandar uma carta pra mamãe hoje à noite, dai peço pra Molly vir aqui!
– Sério? Molly viria?!
– Claro que vem!
A empolgação de Sherlock só ia crescendo, primeiro havia encontrado o jardim, e agora, finalmente conheceria a encantadora de animais. Será que ela gostaria dele? O coração de Sherlock não poderia estar mais descompassado só de pensar em como Molly seria e se gostaria dele. E se ela não gostasse? Segundo Sra. Hudson todos gostavam de Molly, e ele acreditava nisso, ele mesmo já gostava da menina sem nunca conhece-la, mas no geral ninguém gostava de Sherlock, todos o evitavam e ele não tinha amigos.
– Será que Molly vai gostar de mim? – exteriorizou seu pensamento em voz alta.
Sra. Hudson riu da preocupação do garoto.
– Claro que vai gostar, por que não gostaria?
– É que ninguém costuma gostar de mim, no geral! – explicou.
– Eu gosto de você! E tenho certeza de que Molly também vai adorar você! Principalmente do jeito que você está agora!
Sherlock sorriu com a resposta da Sra. Hudson.
– Eu também gosto muito de você! – respondeu o menino.
Sra. Hudson se inclinou e fez algo que Sherlock acharia invasivo se fosse qualquer outra pessoa, mas era a Sra. Hudson, e ele verdadeiramente gostava dela. Por isso, não achou ruim que ela lhe sapecasse um beijo na testa. Na verdade, até gostou muito desse gesto, e teria contado isso a ela, não fosse pelo sino da Srta. Donovan tocando.
– Preciso ir! – informou pegando a bandeja apressadamente – Pode deixar que envio a carta pra mamãe!
E deixando um Sherlock com uma sensação quente e agradável no peito, saiu.
Na manhã seguinte, Sherlock acordou cedo novamente, mas diferente da manhã anterior, ele tomou todo o seu café, acabando com a tigela de mingau e as torradas.
– Nunca te vi com tanta fome! – falou a Sra. Hudson novamente satisfeita por levar os pratos limpos para a cozinha. – Parece que o ar puro está te fazendo bem!
– Adoro lá fora! – exclamou o menino empolgado enquanto terminava seu chá.
– Mamãe disse que era ao que faltava pra você! Ela vivia dizendo que sua falta de apetite era porque você devia ficar preso em uma casa o dia todo, e que brincar nos jardins e respirar ar puro iam abrir um buraco no seu estomago que só!
– Sua mãe estava certa, como sempre! – concordou o garoto sorrindo.
– Ahh, dexa eu te falar, recebi a resposta da carta de mamãe hoje de manhã!
A respiração de Sherlock prendeu assim que a Sra. Hudson mencionou a carta.
– Molly vai vir assim que terminar o café da manhã! Ela vai estar te esperando na entrada da charneca!
Sherlock deu um salto.
– Então ela já deve ter chego! – exclamou entusiasmado.
Correu até o cabideiro, colocou o casaco e o cachecol com tanta pressa, que ficou até meio desajeitado, e arrumou o chapéu no caminho, enquanto correu pelas escadarias, deixando uma Sra. Hudson rindo da cena que acabara de presenciar.
Sherlock correu, passou pela trilha, pelos jardins, pelo grande pátio, chegando, enfim a cerca que separava o terreno de seu tio á entrada da charneca. Ofegante e ansioso, procurou alguém que se parecesse com uma encantadora de animais por todos os lados. Então ouviu uma música suave vindo de algum lugar da charneca. Seu coração prendeu, e sem saber o motivo, procurou a origem da música. Não demorou em encontrar, ali, apenas a algumas árvores de distancia, havia uma menina de cabelos lisos, soltos e selvagens, de nariz vermelho e arrebitado e um vestido remendado. Ela tocava uma flauta, enquanto uma raposa estava deitada em seu colo, um pequeno pardal estava pousado em um galho próximo a ela, e uma ovelha estava confortavelmente aninhada ao seu lado. Os olhos do menino se iluminaram, ali estava a tão esperada encantadora de animais.
A menina, ao ver o garoto parado apenas há alguns poucos metros de distância, parou a música e se levantou, sob o protesto de todos os bichos presentes, que levantaram a contra gosto e a seguiram, enquanto ela caminhava em direção à Sherlock.
– É o menino Sherlock? – perguntou com um sorriso tão aberto, que fez com que o coração do garoto desse um pulo.
– S...sou! – confirmou nervosamente.
– Sou Molly Hopper, irmã da Sra. Hudson!
– Eu...eu sei que é! – falou o menino com o rosto ardendo.
– Estes são Rabudo, Amêndoa e Branquinha – falou apontando para a raposa, o pardal e a ovelha, respectivamente. – E este seu amiguinho, quem é?
Sherlock então viu o pequeno pássaro de peito ruivo piando em um arbusto próximo a ele. O garoto nem havia notado a sua presença.
– Não é meu, é do Mycroft! – explicou o menino, sem saber se aquele pássaro tinha um nome.
– Tem certeza? Ele parece gostar mesmo de você!
E Molly fez algo que Sherlock achou ainda mais encantador. Ela imitou o som que o pássaro de Mycroft fazia, mas o som saiu tão parecido que Sherlock se perguntou como ela conseguia fazer isso. Não demorou muito e o pássaro respondeu, com outro piado.
– Ele me disse que sabe todos os seus segredo, Sherlock! – falou Molly rindo – Parece que ele é mesmo seu amigo!
O coração de Sherlock parou ao ouvir isso.
– E então, o que deseja saber sobre plantas? – perguntou a menina.
Sherlock olhou nervosamente para ela, e hesitante, perguntou:
– Sabe guardar segredo?
– Claro que sei! Eu guardo todos os segredos da charneca!
– Guarda mesmo? Mesmo que seja algo...ruim?
–E por que seria ruim?
Havia algo reconfortante na voz dela, algo que fazia com que Sherlock tivesse certeza de que poderia confiar nela.
– Eu roubei um jardim! Não roubei na verdade, apenas peguei pra mim porque as pessoas não o queriam mais! – a voz de Sherlock estava trêmula, mas ele olhou nos olhos de Molly firmemente durante toda a confissão. – Mas se souberem que eu o encontrei, podem tirá-lo de mim!
Molly sorriu.
– Está tudo bem, Sherlock! Eu nunca falei pra ninguém dos ninhos ou tocas que encontro na charneca, e com certeza, não falarei do seu também!
Sherlock suspirou aliviado e sorriu, sabia que podia confiar nela, não sabia por que, mas sabia que podia.
– Vou te levar até o meu Jardim Secreto! — disse confiante.
Fale com o autor