Com todo o sentimento de empolgação que estava sentindo, Sherlock tomou uma atitude que lhe seria impensada há alguns dias atrás, pegou na mão de Molly e a guiou pelo caminho que levava até o Jardim. Corria, puxando Molly com ele e sendo seguidos pelos animais da encantadora. Sentia-se como estivesse levando Molly para partilhar de um mundo secreto, um mundo onde só ele e ela poderiam entrar. Quando chegaram à trilha dos muros cobertos por relva, Sherlock soltou a mão de Molly, que estava rindo da empolgação do garoto, e buscou a chave em seus bolsos. Olhou cautelosamente para os lados e assegurando-se de que ninguém estava por perto, adentrou a relva, abriu a porta e puxou Molly para dentro.

O sorriso que Molly tinha estampado em seu rosto rapidamente se desfez, dando lugar a uma expressão que misturava incredulidade e admiração.

– Acha que o jardim está vivo? – perguntou o garoto ansioso.

– Ele está vivo sim, Sherlock! Ela está vivinho da silva! Olhe só! – a garota se dirigiu até um galho de uma das roseiras e cortou um pedaço – Está vendo esse verde? É seiva! É como sangue pra plantas! Se está verde, é porque está vivo!

Molly sorriu e se dirigiu as outras plantas, reconhecendo cada uma apenas olhando-as de longe.

– Ali são os lírios! – apontou para alguns pequenos brotos – Ali teremos lindas campânulas! E o jardim inteiro está envolto a rosas! Isso aqui vai ficar muito lindo na primavera! – informou.

A cada frase que Molly dizia, Sherlock ficava cada vez mais empolgado e encantado. Como uma pessoa da mesma idade que ele podia saber tanto sobre plantas?

– Olhe, Sherlock! Tem ninhos por toda a parte! Parece que seu amigo fez um ninho aqui também!

Sherlock então olhou o pequeno pássaro de peito ruivo sobrevoar a árvore onde o balanço estava pendurado, e pousar em um ninho feito cuidadosamente em um dos galhos.

– Nunca pensei que um dia veria esse lugar...- falou a encantadora em um sussurro.

– Sabe aonde estamos?

– Estamos no antigo jardim da Sra. Lestrade! O que foi fechado quando ela faleceu! – confirmou. – Me impressiona você o ter encontrado! Mas o destino sempre sabe o que faz!

– Que quer dizer?

– Martha me contou que depois que fechou o jardim, o Sr. Lestrade se isolou do mundo e mal fala com as pessoas! Está sempre triste e com uma expressão vazia no rosto!Muita gente tentou achar a chave durante esses dez anos, mas você, que chegou faz pouco tempo, encontrou o jardim, e isso pode significar alguma coisa!

– Martha? – perguntou Sherlock confuso.

– É o nome da minha irmã! Não sabia? Martha Hudson!

Sherlock riu.

– Não sabia, só chamava ela de Sra. Hudson!

Molly também riu, até que os olhos da garota recaíram sobre um montinho de grama que Sherlock havia arrancado.

– Quem fez isso? – perguntou se dirigindo até o local e examinando.

– Fui eu! – falou o garoto já receoso que tivesse feito algo de errado.

– Mas isto está incrível! Parece trabalho de profissional!

– Sério?

Molly assentiu.

– Está perfeito! Você arrancou todas as ervas daninhas que estavam impedindo esse pequenos bebezinhos de crescer – disse referindo-se aos brotos .

– Eles pareciam sufocados, então achei que deveria tirá-los!

– Foi um ótimo trabalho! – elogiou a garota.

– Molly, você pode me ajudar a dar vida a esse jardim? Pode me ajudar a plantar coisas novas e a cuidar dele?

Sherlock tinha o rosto extremamente vermelho de vergonha. Teve dificuldades em fazer o pedido, e apenas despejou tudo, como se as palavras saíssem de sua boca e caíssem diretamente nos pés da menina. Estava nervoso, e nem sabia o motivo, apenas sentia que não queria que ela recusasse o pedido. Molly apenas sorriu, e com toda a sinceridade que seus olhos castanhos emitiam, concordou em ajuda-lo.

Quando a sineta do almoço tocou em seguida, Sherlock olhou com desolação para a menina.

– Pode ir! – ela falou – Eu vou ficar aqui e limpar alguns brotinhos!

– Não quer vir junto comigo? – ofereceu.

– Não! Não devo, senão posso trazer algum problema pra Martha! Vá, eu fico aqui até começar a anoitecer!

– Eu volto então! – disse empolgado e saiu correndo do jardim.

Correu por todo o caminho, porém agora, tentava dar mais velocidade aos seus passos. Tinha pressa, queria voltar logo ao jardim. Quando chegou no quarto, abriu a porta com violência, assustando uma Sra. Hudson que estava terminando de ajeitar a mesa do almoço.

– Eu vi Molly, eu vi Molly! – gritou o menino sentando-se imediatamente.

– Viu? Eu sabia que ela viria! – disse a outra empolgada – O que achou dela?

– Acho que ela é maravilhosa! E linda! – respondeu.

– Linda? Bom, ela é bem bonitinha, mas ninguém em casa acha que ela é linda!

– Pois eu acho!

– O nariz é arrebitado demais!

– Eu adoro nariz arrebitado!

– E o cabelo tá sempre bagunçado!

– Pois eu adoro o cabelo dela! Adoro o nariz e o cheiro dela!

– O cheiro? – estranhou a empregada.

– É! Ela tem cheiro de flores e grama, e eu adoro esse cheiro!

A Sra. Hudson riu.

– Parece que ela te encantou também, né menino! Come logo seu almoço,vai!

Sherlock riu também, mas antes que pudesse enconstar em seus talheres, a Srta. Donovan adentrou o quarto. Tinha uma expressão assustada e assim que viu Sherlock soltou uma pequena exclamação.

– Por que esse garoto está nesse estado? – disse referindo-se as manchas de terra na roupa dele. – Vamos, levante e se troque imediatamente! O Sr. Lestrade quer vê-lo!

– O..meu tio? – perguntou o garoto sem acreditar.