17° Desafio Sherlolly- O Jardim Secreto
2 A Porta e a Chave
Notas iniciais
Faltava pouco tempo para que o sino do almoço tocasse, mas Sherlock decidiu que exploraria o quanto pudesse, nunca tivera muita fome mesmo. Quando despediu-se do jardineiro, continuou seu passeio, até notar que o pequeno pássaro de peito vermelho havia voltado e o rodeava.
– Ah, é você de novo! – exclamou o garoto tentando seguir o pássaro com o olhar.
O pequeno pássaro o rodeou e depois pousou em um arbusto bem na sua frente, piando sem parar.
– Sinto muito, ainda não sei falar a língua dos pássaros! Talvez Mycroft ou Molly possam me ensinar depois!
O pássaro levantou voo mais uma vez e o rodopiou e seguiu em frente, como se estivesse chamando o garoto.
– Quer que eu o siga?
O pássaro piou em resposta, e apesar de Sherlock não saber falar a língua dos pássaros, decidiu que encararia aquele piado como uma confirmação. O pássaro seguiu pelos muros e Sherlock foi ao seu encalço, porém, em determinado momento, o pássaro pousou em um galho alto de uma árvore do outro lado do muro. E Sherlock não pode mais acompanha-lo.
– Não é justo! Eu não estou achando a entrada desse jardim! – reclamou enquanto procurava por uma porta.
De repente um lampejo surgiu na mente de Sherlock. Um jardim sem porta, de muros altos com relva. Seu coração deu um pulo de alegria e entusiasmo. Aquele deveria ser o tal Jardim Secreto do qual a Sra. Hudson falara. Sherlock olhou para o pequeno pássaro que soltou um leve piado, como se tivesse confirmando as suspeitas do garoto.
– Como eu entro? Onde é a porta? – perguntou o menino.
No mesmo instante, o pássaro levantou voo e sobrevoo um trecho do muro, pousando em um pequeno trecho de relva. Sherlock correu para lá, ele afastou a relva debaixo de onde o pássaro havia pousado e sua respiração parou por breve segundo. Lá, debaixo de toda aquela relva, estava uma maçaneta. A decepção foi grande quando ao tentar girá-la, Sherlock constatou que a porta estava trancada. Era óbvio, pensou, afinal um Jardim Secreto não deveria ser aberto, ou qualquer um entraria e não seria mais secreto. Mas a pergunta agora era: aonde poderia estar escondida a chave?
Sherlock ouviu a sineta do almoço, e apesar de não sentir muita fome decidiu que voltaria para a mansão, assim quem sabe poderia colher mais informações a respeito do local da chave com a Sra. Hudson. Entusiasmado com a possibilidade de poder entrar no jardim, Sherlock correu o mais depressa que pode. Ele passou pelo pequeno caminho que dava para os jardins, pela entrada e pelo hall da casa. Parou um pouco antes de subir as escadas para respirar um pouco, e em apenas uma única inspiração, subiu as escadarias com toda a velocidade que pode. Entrou com tudo no quarto, assustando uma pobre Sra. Hudson que ajeitava a mesa do almoço.
– Affe! Mas que pressa é essa?! – exclamou assustada.
Sherlock retirou o casaco e o cachecol, jogando-os em cima da cama, depois sentou-se na cadeira, retirando a tampa da bandeja que a Sra. Hudson acabara de trazer.
– Mas o que é isso? Está com fome agora, é? Também pudera, mal tocou no café da manhã!
Mas para a decepção da Sra. Hudson, Sherlock fechou novamente o tampo da bandeja, servindo-se apenas do suco que ela trouxera.
– Não estou com fome, só queria saber o que iria ser servido! — falou o garoto após beber um longo gole de suco.
– Você é um menino curioso! – disse a Sra. Hudson rindo enquanto observava a cena daquele garoto magricela tomando outro gole do suco – A propósito, minha mãe mandou isso pra você!
A Sra. Hudson retirou dos bolsos do avental um pequeno caderno com capa de couro e um lápis bem apontado.
– Mamãe disse que pode ser divertido pra você! – explicou enquanto entregava os presentes para o garoto – Ela falou que você pode se distrair desenhando ou escrevendo! Você já sabe escrever, não?! – perguntou.
– Claro que sei! – respondeu o menino com os olhos brilhando. Nunca havia ganho um presente na vida, tudo o que ele havia ganhado era o que ele mesmo pedia para seus empregados. Por mais que não soubesse explicar, aquele gesto espontâneo da mãe da Sra. Hudson fez com que ele dissesse algo que jamais pensou em dizer para ninguém.
– Muito obrigado!
A Sra. Hudson sorriu, levemente surpresa.
– Você é uma criança estranha, qualquer outra teria vindo e me dado um beijo na bochecha!
– Você quer um beijo?! – perguntou Sherlock sem evitar uma careta, arrancando um riso da Sra. Hudson.
– Apenas quando tiver vontade de fazê-lo! – respondeu com ternura- Termine seu almoço e volte a brincar!
Sherlock apenas levantou-se, com seu caderno e lápis em mão e saiu.
– Mas não vai comer nada? – ouviu uma indignada Sra. Hudson falar antes de chegar a escadaria.
Rindo da reação que causara a senhora, Sherlock desceu e voltou aos jardins. Mais especificamente, ao jardim que havia acabado de descobrir ser o provável Jardim Secreto que ouvira falar. Rodeou-o inúmeras vezes, mas nada. Nem chave, nem outra entrada que não fosse à porta trancada. Depois de horas de procura minuciosa, bufou frustrado e voltou para mansão.
– Parece que hoje você não vai poder ir lá fora! – comentou a Sra. Hudson trazendo café da manhã, enquanto Sherlock ainda estava semi-acordado em sua cama. – O tempo está feio, já já deve começar a chover!
– O tempo estava feio ontem também, e nem por isso choveu! – foi a resposta do garoto enquanto coçava os olhos, espantando o restante de sono que ainda tinha.
– Olha só, to admirada de ainda estar dormindo! Da primeira vez que vim aqui, você já estava de pé e todo emburradinho! – comentou sorrindo enquanto ajeitava a mesa.
– Deve ser por que andei demais ontem! Não estou acostumado! – explicou enquanto saia da cama e ia em direção à mesa.
– Tem mingauzinho quentinho pra você, e torradas e geleia! Só coisa gostosa!
– Não tenho fome, mas vou querer um pouco de chá!
– Mas, como assim? Nossa senhora, se meus irmãos vissem essa mesa de café, com certeza eles comeriam tudo sem nem esperar eu terminar de servir!
– Leve para eles, então!
Sra. Hudson soltou uma exclamação.
– Não posso! Não é minha comida! E você deveria comê-la, já é tão magrinho que parece que vai se partir no meio!
Sherlock riu, no início detestava ouvir as histórias da Sra. Hudson, mas por algum motivo, estava começando a gostar. Adorava quando ela falava de sua casa, de sua mãe, de seus irmãos e de Molly, a encantadora de animais.
– Mamãe diz que criança tem que comer! Quanto mais gordinha melhor! É sinal de criança saudável!
– Não tenho culpa, só não tenho fome! – protestou o menino em defesa.
– Principalmente mingau – continuou como se não tivesse ouvido o menino – Molly adora mingau, principalmente quentinho e com uma pitada de canela por cima! Ela diz que não precisa de mais nada na vida!
– Molly gosta de mingau? – perguntou o menino interessado.
– Adora! Diz que é um prato simples, mas que se sente da realeza quando o come! – respondeu empolgada por falar na irmã mais nova.
Sherlock então tomou uma atitude que fez com que o queixo da Sra. Hudson caísse. Ele pegou a colher em sua frente e a depositou no mingau, pegando uma medrosa quantidade. Levou-a à boca e engoliu.
– Minha nossa senhora! – exclamou a Sra. Hudson baixinho.
– É gostoso! – falou o menino após engolir – É realmente bom!
– Experimente com uma pitada de canela! – aconselhou a empregada apontando para o pequeno vidro na frente da tigela de mingau.
Sherlock pegou o vidro e colocou uma pitada generosa no mingau, servindo-se de uma nova colherada logo em seguida.
– Molly tem razão, é realmente muito bom! – disse o garoto depositando a colher ao lado da tigela. Levantou-se da mesa e foi em direção ao armário escolher uma roupa.
– Só vai comer isso?! – perguntou a Sra. Hudson.
– Só queria experimentar! Já que Molly gosta! – completou baixinho.
– Ai menino, você não tem jeito! – falou a outra enquanto recolhia a bandeja e saia do quarto, deixando um Sherlock em meio às sorrisos.
Depois que terminou de trocar, Sherlock foi até a janela, e para a sua decepção, realmente estava chovendo, tal como a Sra. Hudson previu. “O que se tem para fazer por aqui?”, perguntou-se já mal-humorado por não poder continuar sua busca atrás da chave do jardim. Entrou no quarto de brinquedos onde a Srta. Donovan o havia levado em sua primeira noite, mas após uma longa olhada, não se interessou por absolutamente nada que houvesse lá. Decidiu sair e conhecer a casa, já que era uma casa enorme e com muitos quartos, provavelmente seria uma coisa divertida a se fazer.
Começou seguindo pelo corredor de onde ficava seu próprio quarto, achando uma escadaria no fim dele, subiu as escadas e tentou entrar no primeiro quarto que surgiu. Trancado. Não desanimou, continuou seguindo pelo corredor e virou à direita, em outro corredor, muito mais escuro que os outros. Observou diversos quadros na parede, de pessoas que nunca vira antes. Tinha um homem de aparência ranzinza, que Sherlock achou ser muito parecido com ele, viu uma moça de rosto gordo e gentil, um senhor de aparência fechada e austera, um bebê gordinho sorridente ao lado de uma menina de rosto frio e inexpressivo. Sherlock perguntou-se se todos eram seus parentes, e se eram, qual seria o grau de parentesco entre eles. Seguiu andando e entrou em um pequeno quarto que estava destrancado. Era um quarto tão grande, senão maior, do que o seu. Ele olhou pequenos elefantes indianos em uma prateleira, juntamente com outros bibelôs muito bonitos e ornados. Mais a frente viu uma penteadeira, já percebendo que aquele quarto deveria ter pertencido a alguma mulher. Sherlock se aproximou e viu pentes de madrepérola, um grampo de jade, um colar de pérolas pendurado no espelho, e um porta-retratos, que Sherlock levou um susto quando viu quem estava na foto, era sua mãe ao lado de uma moça muito parecida com ela, que ele deduziu ser sua tia falecida. Sherlock admirou um pouco a foto, sua mãe estava tão feliz e bonita como ele podia se lembrar. Raramente vira sua mãe, mas sabia que ela era uma mulher muito bonita e que atraia a atenção e admiração de todos que a conheciam. Sua tia era absolutamente uma cópia de sua mãe, e Sherlock começou a pensar na possibilidade delas serem gêmeas. Suas mãos deslizaram suavemente pela penteadeira enquanto seus olhos examinaram o local sobre uma nova visão: seria aquele o antigo quarto de sua mãe? Suas mãos alcançaram as pequenas gavetas da penteadeira e a abriram. Havia um boleto de cartas de sua mãe endereçadas a sua tia, ele as leu. Algumas contavam de sua nova vida na Índia, de seu casamento e, Sherlock olhou surpreso, dele.
“Ele tem meus olhos, mas o rosto é inteiramente do pai. É um menininho lindo e adorável, espero que você venha logo conhece-lo! Queria ficar mais perto dele, mas James absolutamente não deixa, diz que devo fazer contatos sociais e deixar Sherlock aos cuidados dos empregados...”
Sherlock depositou a carta com cuidado novamente na gaveta e voltou a remexer. De alguma forma, ler aquilo o entristeceu, mas também fez com que seu coração disparasse. Sua mãe queria ficar com ele? Gostava dele? Sempre achou que ela lhe era indiferente. Sherlock abriu a última gaveta continha apenas um papel amassado, e o garoto olhou intrigado. Pegou o papel e o desamassou, então uma chave de ferro caiu em seus pés. O garoto viu algo escrito no papel e a chave no chão. Leu o que estava escrito no papel:
“Não posso mais, não aguento mais! Guardo aqui seu tesouro, junto com todos os seus outros tesouros!”
O garoto ofegou de empolgação, recolheu a chave do chão com cuidado e a analisou: era do mesmo ferro da porta do jardim. Aquele quarto não era de sua mãe, era de sua tia. Sherlock segurou o grito de entusiasmo e guardou a chave em seus bolsos. Esperava que a chuva parasse amanhã, então, iria correndo ao jardim testar a chave na porta, embora tivesse certeza de que ela iria abrir.
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