17º Desafio Sherlolly

4 Amor além da vida - Capítulo 4


Depois que consigo me recuperar o suficiente, nós caminhamos pelo imenso jardim até que sou atraído por uma figura. Molly. Corro até ela desesperado, vendo-a pedalar na mesma bicicleta vermelha de quando nos conhecemos. Meu coração dispara com a possibilidade de encontrá-la novamente e eu corro ainda mais... Apenas para não encontrar nada, como uma miragem.

– Fantasia não é o que você precisa agora, Sherlock. — O tom de John é de repreensão, o que me incomoda um pouco.

– Não, eu preciso dela.

– Vocês pensarão diferente com o tempo. — John é tão irritante agora quanto era em vida e eu não o suporto mais.

– John, você não nos conhece. — Digo com determinação e vejo o que parece ser tristeza passar por seus olhos. Não entendo a razão dele se sentir triste por meu comentário, além do fato de eu estar zangado.

– Gostaria de conhecer.

Antes que eu possa responder, meus olhos se focam em um boneco de pelúcia em uma colcha sobre a grama. Marie. Vou até ele e seguro em minhas mãos, emocionando-me mais uma vez.

– É o Tigger... Katie o destruiu uma vez. Ela está aqui, não está? Marie. Onde ela está?

– Aqui não é grande o suficiente para todos terem seu próprio universo... Então não é por isso que você não os viu ainda. — As palavras dele saem com mágoa e mais uma vez eu não consigo entender o por quê de tudo isso.

– O que quer dizer? Eu quero ver meus filhos, John!

– Quando você quiser, você os verá.

A imagem de Marie doente aparece em minha cabeça. Eu tinha andado ocupado com alguns casos que aconteceram em sequência nos últimos meses daquela memória, e confesso que tinha estado afastado da minha família.

– Não precisa estar em algum outro lugar? — Marie me pergunta quando meço sua febre. Sorrio para ela e nego com a cabeça.

– Que tal jogarmos xadrez? Eu poderia te ensinar. — Ela sorri abertamente para mim. O sorriso de Molly.

– Você me ensinaria?

Volto para o presente e percebo que em algum momento desmaiei e nem sequer percebi, já que acordo na casa dos sonhos. Talvez John tenha me transportado sem que eu percebesse. Ouço passos vindo até mim e viro-me para a porta.

– Com licença. John precisou trabalhar e pediu para que eu o encontrasse. Tudo bem?

É uma jovem oriental quem vem me buscar. Ela sorri abertamente e sua alegria me contagia. Para ser cordial, eu olho o crachá que ela tem fixado em sua roupa a fim de verificar seu nome.

– Leona... Bonito nome.

– Obrigada. — Ela responde, sempre sorrindo. — John disse que você tem se isolado. Quer ver outras pessoas? Talvez a cidade?

Aceno que sim. Preciso mais do que nunca ver pessoas.

– Feche os olhos... Até então você esteve no seu mundo de pinturas, mas esse é o meu.

É como um uma antiga peça de teatro, com fadas, bailarias, mágicos. Crianças e animais brincam e correm por todos os lados. Vejo Katie aos nossos pés novamente. De onde ela surgiu?

– Então... Existe o trabalho... — Comento, porque me interessa trabalhar e ocupar a mente.

– Sim. John é um missionário. Ele salva almas perdidas.

– Como eu.

– Dificilmente... São aqueles que não conseguem entrar aqui. — Até mesmo quando fala sobre isso, Leona sorri.

– Estão no inferno?

– De certa forma... Eu trabalho com animais — ela muda de assunto -, e Katie é uma amiga antiga.

Perco-me observando pessoas voando como bailarinos pelo céu de Leona. É incrível.

– Para onde eles estão indo?

– Ajudar as pessoas a nascerem de novo na terra.

– Reencarnação?

Ela não me responde. Pelo visto eu tenho muito sobre o que aprender nesse lugar.

– John disse que era para eu te alegrar. Você tem dificuldades...

– Em perder minha esposa. Sim. — Pela primeira vez percebo um ar triste passar por Leona e sua expressão se fecha.

– E seus filhos?

– Eles morreram anos atrás. Por isso estou preocupado com minha esposa. Foi um acidente de trânsito e culpa foi do motorista do caminhão, mas Molly acha que se ela tivesse dirigindo isso não teria acontecido. Ela se culpa. E provavelmente se culpa pela minha morte também, já que eu estava indo fazer um favor a ela. — As palavras se atropelam, como se eu precisasse desesperadamente contar tudo isso a alguém.

Leona me leva até uma canoa e nós começamos a navegar pelo extenso lago do seu universo. Começo a divagar olhando as águas e lembrando de minha família. São tantas coisas que não vivemos, tantas coisas que eu não disse...

– Onde você estava? — Leona me tira dos meus pensamentos. — Sua mente tem vagado a tarde toda.

– Pensando em alguém... — Pensando em Molly, em Ian, em Marie...

– Conte-me uma memória sua... Talvez com sua filha. — Leona pede com interesse e eu sorrio ao começar a me lembrar de Marie. A doce e geniosa Marie.

Ela observa o móbile com fadas e bailarinas que existe em seu quarto enquanto nós jogamos xadrez. Eu o fiz quando Marie ainda era uma criança e até hoje ele a faz se perder em pensamentos e sonhos.

– É para lá que vamos quando morremos? — Ela aponta para o móbile.

– Isso é só um sonho, amor. Um sonho lindo, mas sonhos... — Não gosto de quebrar suas ilusões, mas Marie achava que quando morrêssemos viveríamos em um conto de fadas. Eu não tinha ideia do quanto ela estava certa.

– Eu sei... Não são reais. — A voz dela é chateada, como sempre que eu falava algo racional.

– Já passa da meia-noite.

– Eu não venci ainda. — Marie me olha com determinação.

– É sua primeira vez.

– Eu gosto de não ter vencido. Significava que você não está facilitando e quando eu vencer, realmente vencerei. Quero jogar até que eu vença. A menos que você queira parar. — Sua expressão é dura, desafiando-me a desistir do jogo.

– Não. Vamos jogar até você vencer.

Ela morreu três meses depois. Jogamos todas as noites e significou muito para mim essa proximidade com Marie. Ela nunca venceu.

Lágrimas voltam a inundar meus olhos ao ter essa lembrança de Marie. Queria poder abraçá-la novamente. Queria poder dizer o quanto ela era importante... O quanto eu a amava. E ainda amo.

– Eu não tinha essa aparência em corpo... — Leona começa a me contar. — Voamos para Singapura uma vez. E meu pai sorriu para a aeromoça que tinha essa aparência e usava um crachá, "Leona". — Vejo os olhos dela ficarem brilhantes pelas lágrimas não derramadas, como o meu. — Ele disse que mulheres asiáticas são tão adoráveis, graciosas e inteligentes.

– Ele não quis dizer somente elas. — Afirmo, sentindo a primeira lágrima escorrer pelo meu rosto.

– Eu sei. Foi só algo que ele disse e pensei: quando eu crescer quero ser assim.

Por Deus, Marie...

– Ainda quer jogar xadrez?

– Acho que eu esperei por meu parceiro. — Ela sorri abertamente para mim. Aquele sorriso. E é então que eu a vejo ali, na minha frente, com a mesma imagem da última vez. Uma criança se tornando adulta.

Abraço-a como nunca tinha feito antes, como se ela pudesse me manter a salvo. Como se agora nós estivéssemos salvos.

Marie... Eu a tinha reencontrado.

Notas finais
Sempre me emociono nesse... hauahauahaua