17º Desafio Sherlolly
5 Amor além da vida - Capítulo 5
Notas iniciais
– Ei, John. Onde você esteve? — Marie me levou de volta à casa e não demorou muito para que John aparecesse, mas ele parecia sério e abatido.
– Estive trabalhando. Chamaram-me novamente. — Lembrei que ele trabalhava com as almas perdidas e isso me deu uma ideia do porquê ele parecia tão incomodado, não devia ser um trabalho fácil.
– Tenho que te agradecer por ter encontrado Marie. — Estou realmente grato. Se não fosse por ele, provavelmente eu nunca a reencontraria em meio à tantas pessoas.
– Ela está muito feliz. E eu espero que você esteja bem, Sherlock... Principalmente agora.
John senta-se no banco ao meu lado e eu não entendo onde ele quer chegar. Por que ele disse "principalmente agora"?
– Passaremos por algo muito difícil nesse momento. Saiba que estou com você e que não está sozinho. — John começa a falar e sinto meu corpo todo estremecer de tensão. — Molly está morta. Ela se matou. Não é nada que jamais imaginei que ela pudesse fazer.
Não, não, não! Não pode ser! Há um engano. Eu compreendo as palavras ao mesmo tempo em que elas não fazem o menor sentido para mim.
– Como disse, você não nos conhece. — Sinto a raiva me dominar, John achou que podia prever tudo sobre nós. Ele estava errado. Errado. — É um risco das almas gêmeas? Um não existe sem o outro? — Respiro fundo, tentando me acalmar e não deixo que ele responda — Mas ela está bem... Sua dor acabou, assim como a minha. Quando posso vê-la?
– Você não entende...
– Ela não se apegará como eu, não tentará ficar no plano terrestre... Quando posso vê-la, John? Responda!
Vejo um olhar de pena partindo dele e isso me assusta. Muito.
– Nunca. Você nunca a verá. Ela cometeu suicídio e suicidas vão para outro lugar. — Mais uma vez as palavras dele chegam até mim de forma confusa. A única coisa que consigo pensar é que tudo isso é algo proposital para nos manter separados.
– Por que você está punindo-a?
– Não é punição, Sherlock. — John mantém o tom calmo, tentando me passar uma tranquilidade que não existe.
– Ela já sofreu o bastante! Você sabe disso!
– Não há juízes ou crimes. Todos são iguais. É assim que as coisas funcionam aqui.
– E suicidas vão para o inferno? Não há nenhum maldito julgamento nisso! — Eu me levanto e o empurro, sentindo o ódio correr por minhas veias. Devia me sentir assim no paraíso? Era correto esse tipo de sentimento?
– Quer brigar, Sherlock? Ou você se esconde disso ou entende isso. O que você chama de inferno é para os que não sabem que estão mortos. Eles não percebem o que fizeram ou o que aconteceu. Estão preocupados demais com a vida, tanto que eles...
– Preocupados demais? Isso não se aplica a Molly! — Eu quero quebrar algo, quero bater em John, quero ferir. Quero me ferir. Quero a dor física ao invés da que estou sentindo agora.
– Não, não se aplica. Suicidas são diferentes. Eles não vão ao inferno por serem imorais ou egoístas. Eles vão por outro motivo. Cada um de nós tem um instinto, e há uma ordem natural para nossa jornada. Molly violou isso. Ela não quer enfrentar a vida. Ela não perceberá ou aceitará o que fez e passará a eternidade reprisando isso. Pensando sobre tudo o que aconteceu.
– Você ainda diz que ela não está no inferno. Se isso não é o inferno, o que é John?
– O inferno de cada um é diferente. Não é só fogo e dor. O verdadeiro inferno é sua vida completamente errada, fora do padrão. Você fica em um eterno círculo.
De repente o céu do meu paraíso reflete o que estou sentindo e vejo trovões e raios, seguidos de uma forte tempestade. É exatamente como meu interior está.
– Sou sua alma gêmea. Posso encontrá-la. — Eu soo confiante, resoluto.
– Você não entende como...
– Não é sobre entender! — Minha voz se altera e estou quase gritando. — É sobre não desistir. Você disse que não existem regras. Sobre aquela árvore roxa, por exemplo. Se não existem regras, como pode dizer que todos suicidas são iguais?
– Não posso, não posso. Mas ninguém nunca viu um suicidar voltar!
A determinação toma conta de mim. Eu vou conseguir, vou trazer Molly de volta. E ela irá morar em nossa casa dos sonhos. Comigo. Nós ficaremos juntos novamente, custe o que custar.
– Fique por perto, John. Você ainda não viu nada. — Não há outra opção para mim. Molly é minha alma gêmea e se eu não estivesse com ela, uma parte de mim sempre estaria faltando. Eu conseguiria lidar com isso caso ela estivesse seguindo em frente com a vida e nós nos reencontrássemos no futuro, mas não podia cogitar deixá-la no inferno.
– Certo, você merece sua chance. — John passa a mão pelo rosto, parecendo cansado ao dizer isso e eu o encaro sem acreditar. — Nós encontraremos um rastreador.
Não sei exatamente o que "rastreador" quer dizer, mas encaro John e vejo em seus olhos que mais uma vez ele está comigo e não me deixará sozinho. Encontraremos Molly e isso é a única coisa que importa.
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