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3 Capítulo 3 ~Fornecedor
Notas iniciais
Sábado, 16 de março, 09:00h, Mansão dos avós Cullen
─ Esse lugar continua mágico ─ Bella murmurou, encarando o imenso jardim de meus pais. Era na parte coberta que planejávamos fazer a festa de Vanessa, pois Forks era imprevisivelmente chuvosa mesmo no verão.
Nós havíamos esperado que a neve fosse embora para visitar o local, uma vez que poderia atrapalhar o processo criativo de Bella, segundo o que ela mesma dissera. A grama ainda estava um pouco prejudicada pelos meses de inverno, quando o frio era ainda mais rigoroso em nossa cidade, mas até junho, com certeza, estaria reavivada o suficiente para a festa.
─ Você adorava ficar aqui com o Emmett, né? ─ Minha tentativa de jogar verde falhou quando Bella me encarou de maneira séria.
─ E você também ficava aqui com a Tânia. ─ Ela ergueu o queixo em desafio e me perguntei quantas memórias uma criança de 9 anos (era a idade que Bella tinha quando namorei a mãe de Nessie) poderia levar consigo para a vida adulta.
Mas ela havia cometido um erro ao fazer aquela comparação. Para mim, estava me dando a certeza de seu envolvimento com meu irmão mais novo. Parecia, então, que a minha jogada não havia falhado tanto assim.
─ Está admitindo algo, Senhorita? ─ perguntei, aproximando-me dela lentamente. Sorri quando suas bochechas ficaram vermelhas e me questionei porque ela não dizia logo que tivera sim algo com Emmett. Não que eu duvidasse de quando me contara sobre o tal cara mais velho, mas aquilo não significava que os dois nunca tivessem ficado.
─ Admitindo o que?! ─ exclamou, claramente exasperada ─ Você ainda vai me enlouquecer, Edward Cullen. ─ Bella revirou os olhos.
─ Ele sempre enlouqueceu, o que mudou de lá para agora? ─ A voz grossa de Emmett ecoou pelo local e Bella sorriu imediatamente antes de se virar na direção dela e correr para os braços de meu irmão, que a ergueu do chão num de seus abraços de urso ─ Estava com saudades.
Os olhos dele estavam brilhando enquanto encarava Bella e os dois logo se envolveram numa conversa animada. Por que meu coração se apertava com aquela visão? Não fazia sentido me sentir daquele jeito! Será que eu estava traindo o meu próprio irmão ao passar as últimas semanas pensando tanto em Bella? Nós havíamos nos aproximado consideravelmente desde nossa conversa no almoço em que ela organizara lá em casa. Naquele dia, passamos a tarde toda de olho em seis adolescentes que estavam mais interessados em saber sobre as nossas vidas amorosas do que em terminar o trabalho.
Respondemos à intermináveis perguntas sobre nossas escassas experiências – a maioria, de acordo com Bella, falava de seu coraçãozinho partido e como ela tinha “superado” sua paixonite (o que eu não achava ser verdade); enquanto eu tentava introduzir um pouco de juízo na mente daqueles jovens, para que eles não tivessem filhos muito cedo: basicamente um “não sigam meus passos!”.
─ Você sente muitos ciúmes da Bella, né? ─ Nessie disse baixinho e gargalhou quando viu minha cara assustada. Como ela aparecera ali sem que eu percebesse? ─ Por que não acredita neles? É muito óbvio que a Bella era apaixonada por outra pessoa! E acho que ainda é.
─ É?
Como Vanessa sabia daquilo? Será que havia conversado com Bella a respeito? Ela sabia quem era a tal pessoa?
─ Pai, como... ─ Ela respirou fundo e fechou os olhos, como se contasse até mil para recuperar sua paciência ─ Deixa pra lá. Não seria legal me intrometer na vida dela com os meus achismos.
─ Acho bom mesmo. Vai cuidar da sua vida que já tá de bom tamanho ─ falei, ignorando seus resmungos. Minha atenção, inevitavelmente parecia presa às atitudes de Bella e Emmett. Talvez eu precisasse lembrá-lo de sua esposa, que provavelmente ainda estava adormecida em seu quarto.
Então, aquela era apenas a minha moral me cutucando, dizendo que os dois não estavam agindo de maneira correta com Rosalie, certo? Não havia partezinha alguma de mim gritando que os dois me deviam algo também, porque não faria o menor sentido. Mas havia. O meu peito parecia dilacerado só com a ideia de eles ainda nutrirem sentimentos um pelo outro, mas... Segundo o que Vanessa dissera, se eu acreditasse em Bella, não haveria motivos para sentir ciúmes dela com Emmett, porque os dois nunca haviam tido algo... Que porra, eu estava mesmo com ciúmes deles?
E quando Rosalie apareceu – e depois os meus pais – e abraçou Bella bem apertado, como velhas amigas se reencontrando, meu cérebro pareceu fritar mesmo sob o Sol fraco de Forks. Todas as minhas certezas começaram a se dissipar, como se não fizessem mais sentido, e tudo o que eu achava saber sobre Bella e Emmett foi envolvido numa grossa camada de neblina.
10:30h
─ Então aqui vão as mesas, e lá o buffet com todas as suas escolhas latinas. ─ Bella foi apontando para os cantos do jardim enquanto desenhava um esboço do que dizia numa folha.
─ Bella, sabe o que eu tava pensando? Seria legal uma pista de dança, hein ─ Nessie sugeriu e em seguida gesticulou para um espaço vazio no desenho de Bella.
─ Caralhos, Vanessa, cada hora você me aparece com uma novidade ─ falei baixinho para que mamãe não escutasse meu palavrão e minha filha estreitou os olhos para mim.
─ Pode, ou não pode? ─ Ela me encarou com seus olhinhos pidões e soube na hora que já tinha vencido ─ Eba! Obrigada, pai!
Bella riu, ao nosso lado, e desenhou um quadriculado com uma bola “voando” no céu – o “globo espelhado” das baladas.
─ Sabe, Nessie, eu estava dando uma olhada em alguns vídeos e, nesse tipo de festa geralmente há 15 meninas que representam cada ano de vida da aniversariante, você chegou a pensar sobre isso?
─ Hum, acho que não gosto da ideia. Nem tenho 15 amigas ─ Nessie respondeu-lhe com uma pequena careta.
─ Certo... Então acho que também não vai querer um Príncipe, vai? ─ Bella arqueou uma sobrancelha quando as bochechas de Vanessa se tornaram vermelhas e fiquei intrigado com o rumo daquele assunto.
O que cargas d’agua era um Príncipe em Quinceaneras?
─ Não ─ Vanessa respondeu rapidamente, antes que eu pudesse perguntar. Ela não parecia muito convencida de sua própria resposta, mas Bella apenas assentiu.
─ Então acho que podemos ir a Seattle, não? ─ sugeriu Bella ─ Quanto mais cedo formos, mais cedo voltaremos.
─ Sim, vamos! ─ Nessie exclamou, animada para torrar o meu dinheiro. O melhor era que Bree e Maggie iriam conosco, então a conta poderia aumentar consideravelmente e eu esperava ter o apoio de Bella para controlá-las quando necessário.
11:40h, Loja de Decorações II, Seattle.
─ Bella, o que é um Príncipe? ─ perguntei assim que as meninas se distanciaram um pouco mais de nós, em busca dos tons de toalha perfeitos para as mesas.
Ela pareceu hesitar um pouco, como se pensasse na melhor maneira de me contar sobre o assunto:
─ É o par da aniversariante. Geralmente eles têm uma dança especial logo depois da valsa com o pai. Vocês vão valsar, não vão? Foi por isso que Nessie pediu a pista de dança, eu deduzo.
─ Dançar, Bella? ─ perguntei embasbacado ─ Não danço desde o meu baile de formatura do colegial e eu dancei com a minha mãe nele... E...
─ Comigo ─ Bella murmurou, parecendo mergulhar em suas próprias lembranças ─ Ainda tenho aquela foto que seus pais tiraram de nós dois no meio da pista, uma pré-adolescente e um pré-adulto ─ brincou ela.
─ Você ainda nem tinha completado 11 anos, né? ─ perguntei, lembrando-me daquela coisinha pequena que um dia ela havia sido, e ela assentiu. Bella deveria ter feito parzinho com o Emmett naquela noite, mas quando ele decidiu dançar com Alice (que deveria dançar comigo), foi a melhor amiga dele quem fez parte da cerimônia de encerramento de minha vida escolar.
─ Eu parecia mais com um menino do que com uma garota ─ disse ela, observando alguns preços nas prateleiras e os anotando num caderno ─ Se eu não estivesse usando um vestido, naquela noite, certamente pensariam que você estava dançando com um cara.
Encarei seu rosto, surpreso por suas palavras, e esperei-a parar de escrever até que ela finalmente ergueu os olhos para mim; percebi que estava constrangida, embora ela mesma tivesse falado aquilo.
─ Eu era mais reta do que uma porta, Edward ─ constatou e não demorou muito para suas bochechas ficarem vermelhas.
Ela era. Era, no passado. Pensar de tal forma fez as minhas bochechas corarem e senti-me como um adolescente idiota reparando pela primeira vez no corpo da garota pela qual estava atraído. Pensar de tal forma me fez constatar que eu vinha me sentindo feito um adolescente com uma frequência exagerada nas últimas semanas, na maioria das vezes quando estava perto de Bella, ou ao imaginá-la ao meu lado. Pensar de tal forma fez-me perceber que eu estava me sentindo atraído pela possível ex-namorada/rolo/ficante de meu irmão.
Aquilo era muito, muito errado, mas a culpa por me sentir daquela maneira dava lugar, cada vez mais, à esperança de que ela e Emmett tinham sido sinceros comigo durante todo aquele tempo.
─ Isso mudou, claramente. ─ Não consegui me conter e sorri quando Bella ficou ainda mais vermelha.
─ Achou que eu seria para sempre uma pré-adolescente desbundada? Seria terrível se não tivesse mudado ─ Bella comentou, parecendo ainda constrangida e me arrependi por minha falta de sutileza. Ela não me queria reparando nela.
─ Hum... Mas vamos voltar ao Príncipe, sim? ─ Tentei mudar de assunto, torcendo para que ela não me denunciasse por falta de modos.
─ À valsa de pai-e-filha, você quis dizer? ─ perguntou, arqueando uma sobrancelha ─ Estávamos falando sobre como você adoraria valsar com a Nessie, não era? ─ Bella meneou com a cabeça na direção de minha filha que se aproximava junto às amigas, cada uma segurando uma cesta cheia de decorações.
─ Valsar? A gente vai valsar, papai? ─ Vanessa me perguntou em tom surpreso ─ Uau! Em quase 15 anos de vida não me lembro de um único momento em que você estivesse dançado. ─ Ela não conteve a risada e foi acompanhada pelas amigas.
─ Com certeza esse mico eu não vou pagar ─ respondi-lhe.
Como havia comentado com Bella, eu não dançava há quase 13 anos – e não era como se eu soubesse dançar naquela época, de qualquer forma.
─ Ahhhh... ─ Nessie fez uma cara desgostosa.
─ Acho que vocês têm tempo o suficiente pra ensaiar e isso não ser mais um “mico" ─ disse Bella e as meninas concordaram imediatamente. Parecia que elas estavam bem dispostas a me ver passando vergonha no meu (também) dia de aniversário!
─ Isso aí, papai. Vai ser a nossa dança especial! ─ minha filha exclamou, completamente animada.
Revirei os olhos, sabendo que sempre me rendia aos pedidos de Vanessa, e que de nada adiantaria lutar contra a parte de minha personalidade que fazia de tudo para agradá-la.
─ Uma dança ─ enfatizei.
─ UMA DANÇA! ─ Nessie concordou com os olhinhos brilhando e sorriu para mim de maneira dengosa.
Vanessa sabia como me arrancar o que bem queria, mas naquele caso em específico, ela só queria uma dança em seu dia especial. Realmente não me custaria nada ceder – a menos, claro, que eu pagasse um mico gigante, o que era bem possível.
─ Agora vamos pagar essas coisas que já estou ficando com fome ─ Nessie falou e começou a saltitar pela loja em direção ao caixa e foi acompanhada por Maggie e Bree.
─ Ei, você não vai pedir pra Bella verificar essas compras? ─ perguntei-a antes que ela se afastasse demais. E antes que ela me fizesse gastar dinheiro desnecessariamente.
Nós ainda iríamos almoçar fora!
─ Não precisa, a Bella confia em mim. ─ Vanessa piscou e novamente se dirigiu ao caixa.
Bella, ainda ao meu lado, deu de ombros, como se concordasse com minha filha e foi atrás dela. Contive um suspiro de preocupação e as segui até o setor de pagamento.
14:30h, Loja de Vestidos, Seattle.
─ Esse aí tá muito decotado, mais um tiquinho aqueles moleques vão conseguir ver coisas que nem em sonhos eu espero que consigam ─ falei, assim que Vanessa saiu do provador com um vestido azul escuro longo, mas com um decote em “v" que chegava quase ao seu umbigo.
O vestido exibia sua pele de uma maneira que me deixava extremamente desconfortável, e com certeza deixaria pouco para a imaginação dos seus amigos movidos a hormônios adolescentes. E, obviamente, a última coisa que eu queria era vê-la numa situação parecida com a que eu me encontrava 15 anos antes.
─ Poxa, pai! ─ Ela fez um biquinho.
─ É adulto demais para você.
Bella finalmente concordou comigo:
─ Tem que ser um vestido confortável, Nessie, não pode ser só bonito, ou te vestir bem. Lembre-se de que você vai pular, dançar e se divertir, talvez um decote desse tamanho não seja o mais adequado, principalmente se você não estiver acostumada.
─ Não, ela não está. Ela mal usa vestidos! ─ resmunguei e Nessie tentou retrucar.
─ Vamos ver outro, Nee. ─ Foi Bree, a mais sensata do trio de amigas, quem sugeriu e, por um milésimo de segundo de surto, pensei em lhe comprar um vestido como retribuição, mas a voz da razão ecoou em minha cabeça a tempo.
─ Tá bom, mas só se a Bella aceitar a minha proposta ─ disse minha filha, arqueando uma sobrancelha e fitando sua organizadora como se ela fosse uma moeda de troca.
Quando foi que Vanessa havia virado uma chantagista?
─ Que proposta? ─ Bella perguntou, parecendo meio intimidada.
─ Na hora da festa, não quero mais você como assessora. Quero que vá como minha convidada.
Os olhos de Bella se arregalaram, mas o poder de persuasão de minha filha era muito grande. Ela até tentou contestar, mas Vanessa insistiu o suficiente para ganhá-la. E então as três adolescentes andaram tranquilamente pela loja à procura de um vestido, enquanto uma Bella embasbacada continuava ao meu lado no sofázinho em frente aos provadores.
─ Acho que vou precisar de um vestido novo ─ disse Bella, após um suspiro. Ela se levantou e se espreguiçou antes de me encarar com as bochechas rosadas ─ Você me ajuda?
Eu não entendia nada de moda, mas não poderia recusar um pedido daqueles.
...
─ Eu nem te perguntei se você concordava com a Nessie ─ Bella murmurou enquanto olhava as araras de vestidos de festa. Sabia que ela estava se referindo ao fato de ir à festa como convidada.
─ Não me oponho à proposta dela ─ falei e sorri ao vê-la pegando um vestido azul e encarando-se num espelho próximo às araras com a peça sobre seu corpo. Bella ficava incrível naquela cor.
─ Tem certeza? ─ perguntou, olhando-me pelo reflexo do espelho.
─ Você ainda vai me ajudar a vigiar os aborrecentes, não vai?
Bella deu uma risada e assentiu com a cabeça.
─ Então você vai como convidada ─ falei, sorrindo ainda mais quando ela mesma sorriu. Os sorrisos dela eram apaixonantes pra caralho.
─ Acho que vou experimentar esse aqui ─ disse ela. Contive minha boca para não lhe rasgar elogios, pois era óbvio que o vestido lhe cairia como uma luva, ela ficaria simplesmente perfeita nele; apenas concordei com a cabeça e a segui de volta até a área dos provadores.
Bella entrou num dos provadores e achei que, àquela altura, Vanessa e as meninas já teriam voltado para lá, mas estava enganado. Um pouco preocupado, estava prestes a mandar uma mensagem para minha filha, quando vejo somente a cabecinha de Bella para fora da cabine. Suas bochechas estavam costumeiramente vermelhas e percebi que ela queria falar comigo.
Aproximei-me dela com cautela, já que não sabia se ela estava ou não vestida. Pensar nela de outra forma não faria bem para a minha sanidade – ainda que essa, por vezes, parecesse ter ido para o beleléu, quando na presença dela.
─ Pode fechar o zíper para mim, por favor? ─ Bella me pediu assim que eu estava perto o suficiente. Assenti e suspirei em alívio ao vê-la quase completamente vestida (e achei-me um idiota por pensar que ela me chamaria até ali, caso contrário).
Suas costas pálidas e desnudas, no entanto, serviam como um tipo de provocação. Mas eu precisava me controlar. Forcei meus dedos a encontrarem o fecho do zíper na porra da base de suas costas, mais um pouquinho e eu encostaria em seu bumbum avantajado, que era magnificamente abraçado pelo tecido do vestido, evidenciando, sem trocadilhos, toda a sua abundância e generosidade. Então, como poderia ordenar que meus dedos apenas fechassem aquela peça, quando o que eu mais queria era tocar a sua pele e fazê-la minha? Minha? Ela já tinha sido de meu irmão, o que tornaria aquilo totalmente errado! Mas e se ela não tivesse sido? Se os dois estivessem falando a verdade, que mal teria em tê-la?
Jamais seria um cafajeste com Bella, deixaria tudo às claras, e diria que a atração que eu estava sentindo por ela era totalmente física e não me oporia se quisesse ter algo comigo, no sentido de aplacar toda aquela tensão, que sabia não partir apenas de mim. Estando há tantos anos sem me envolver com alguém (e tendo afirmado para Vanessa que não sentia falta daquilo), surpreendi-me comigo mesmo ao notar que estava disposto à sucumbir à tentação que era Isabella Swan.
Só seria tão errado quanto passar por cima de meu irmão, porque eu também sabia que Bella já tinha sofrido por alguém antes. Talvez ela estivesse à procura de seu príncipe encantado (e não de um encontro meramente sexual), que com certeza não poderia ser eu.
─ Edward, está tudo bem? O zíper emperrou? ─ Bella me perguntou, encarando-me com seus olhos chocolate doces e inocentes através do espelho do provador.
Bella poderia ser minha irmãzinha mais nova. Era isso o que ela deveria ser para mim, não um objeto de desejo. Mas, porra, ela não era a minha irmãzinha. Ela pode realmente não ter namorado Emmett. E talvez, ela também se sentisse atraída por mim!
Suspirei pela milésima vez e neguei com a cabeça, tentando que o gesto também me fizesse esquecer todas aquelas ideias malucas.
─ Só me distraí um pouco, Bella, me desculpe ─ murmurei, tentando não parecer muito constrangido ─ Aqui, pronto. Está fechado! ─ Com um movimento rápido e preciso, subi o zíper por suas costas e fechei o vestido.
─ Obrigada ─ ela disse baixinho, ainda me fitando pelo espelho com o par de bochechas coradas.
─ De nada. ─ Se contenha, se contenha, se contenha ─ Está linda, essa cor combina perfeitamente com você. ─ Os órgãos dos meus sentidos pareciam não querer colaborar; os meus olhos percorreram todo o seu corpinho, marcado nos lugares certos pelo corte do vestido, e minha boca não se controlou ao proferir aquele elogio.
Minha mente também flutuou para o dia da formatura do Ensino Médio dela, quando ela usou um vestido naquele mesmo tom de azul. Apesar de estar linda Bella não queria ir de jeito nenhum ao baile, porque, de última hora, seu par (ao qual eu não conhecia) havia desistido de ir com ela, mas nós conseguimos convencê-la com pretextos do tipo: “já está tudo pago", e que seria um “desperdício" ela não usufruir daquele momento com amigos e família. Ela estava visivelmente chateada, mas sempre achei que fosse porque sentia ciúmes de Emmett e Rosalie, mais do que por qualquer desistência alheia. No fim, talvez, o seu par fosse o tal cara por quem ela era apaixonada na época (e por quem eu desconfiava que ela ainda tinha sentimentos por).
─ Obrigada ─ disse Bella, ainda mais baixo, tirando-me de meus pensamentos.
Afastei-me do provador e fechei a cortina, quase morrendo do coração ao ver Vanessa, Maggie e Bree praticamente do meu lado, cada uma com um sorrisinho presunçoso no rosto e uma montanha de vestidos nos braços.
─ O que tava fazendo no provador com a Bella? ─ minha filha perguntou, arqueando a sobrancelha direita.
─ Não estava no provador. Apenas as minhas mãos... ─ Calei-me quando percebi que dizer aquilo nos levaria a conversas ainda mais estranhas. As três apenas riram da minha cara ─ Estava ajudando Bella a fechar o vestido.
─ Huuuum ─ Vanessa falou em tom provocativo e as três bobinhas riram novamente ─ Depois você vai ajudá-la a abri-lo e a tirá-lo também?
A pestinha se escondeu atrás das melhores amigas antes que eu pudesse lhe dar um sermão. Ela foi salva por Bella, que abriu a cortina do provador e realmente pediu ajuda com o zíper do vestido novamente.
─ Ah, que bom que as meninas já voltaram, elas podem te ajudar ─ falei, empurrando as três na direção dela. Chega de tentações!
─ Ah, tudo bem ─ Bella concordou e abriu espaço para que as três entrassem naquele pequeno recinto.
Esperei por cerca de meia hora, ansioso para saber de suas escolhas, mas como duas noivas, ambas decidiram que só revelariam suas roupas no dia da festa. Fiquei um pouco preocupado, principalmente em relação ao vestido de Vanessa, mas Bella me assegurou de que ela havia feito uma ótima escolha. Sendo assim, dirigi-me ao caixa e paguei pelos dois vestidos, mesmo sob os protestos de Bella. Ela estava, de bom grado, gastando o seu sábado naquele “trabalho” e não havia me cobrado nenhum centavo; não me custaria nada lhe fazer um agrado como forma de agradecimento.
21:00h, Cozinha Edward e Vanessa.
─ Obrigada por hoje, papai, essa festa vai ser maravilhosa porque você não é mão-de-vaca! ─ Nessie disse, animada, enquanto me abraçava de lado ─ E
Ri de sua constatação e beijei o topo de sua cabeça. Talvez, quando Vanessa tivesse os próprios filhos (obviamente num futuro bem distante), ela entendesse que não era sacrifício algum lhe fazer algo especial de vez em quando. Seu nascimento era o momento mais importante da minha vida, e cada ano ao lado dela merecia muito ser celebrado.
─ Não há de quê, Moranguinho ─ respondi-lhe, apertando suas bochechas fofinhas.
Nessie revirou os olhos e resmungou sobre aquele apelido.
─ Quero te perguntar algo ─ falei, sentando-me à mesa da cozinha. Vanessa estreitou os olhos, claramente desconfiada de minhas meias-palavras, mas sentou-se de frente para mim.
─ O que é? ─ perguntou curiosa.
─ Esse negócio de “Príncipe” na festa ─ comecei, tendo a certeza de que tinha acertado em cheio quando as bochechas dela se tornaram vermelhas e ela desviou o olhar para suas mãos sobre a mesa ─ Tem alguém com quem você gostaria de ter uma dança especial?
Vanessa abriu e fechou a boca diversas vezes e chegou até a engasgar com a própria saliva. Tinha realmente algo acontecendo!
─ Não ─ ela mentiu em tom baixo.
─ Você tá gostando de alguém. ─ Quis dizer aquilo em forma de pergunta, mas meu tom saiu mais acusatório do que eu gostaria. Não a recriminaria se estivesse interessada em outra pessoa, mas estava preocupado que ela me escondesse uma coisa daquelas, afinal, ainda acreditava que não existiam segredos entre nós.
─ Não ─ ela negou de novo, em tom mais firme, mas assim que ergueu seus olhos para mim, tive a certeza de que estava mentindo.
─ O que é? Eu sou o seu pai, pode me contar.
─ Não tem ninguém.
─ Olha só. Se tiver, eu vou entender, mas preciso que seja responsável aqui. Já conversamos sobre isso, mas pelo visto nunca é demais reforçar; há coisas que precisa ter em mente quando estiver na intimidade com alguém, precisa colocar a razão acima da emoção em alguns momentos, em relação tanto à proteção, quanto ao consenso. Não quero que chegue aqui arrependida por ter se entregado cedo demais a alguém que não te merece de verdade. Claro que você vai fazer sexo, mais cedo, ou mais tarde, mas tem cara por aí que não presta, filha, que só vai querer a sua inocência...
Interrompi-me quando Vanessa ficou tão vermelha que achei que estivesse tendo um treco.
─ Eu não estou fazendo sexo. Nem interessada em alguém. Muito menos interessada em fazer sexo com alguém. Tenho todos os motivos e exemplos do mundo para não sair fazendo isso a torto e a direito, então não se preocupe.
─ Hum, filha, não foi isso o que eu quis dizer ─ murmurei. Era difícil falar sobre aquilo e imaginá-la como um ser como eu: com vontades e curiosidades, mas tentava tratá-la do mesmo jeito que se ela fosse um filho meu. Além do mais, era melhor conversar logo do que ela aparecer grávida, ou doente, na minha porta ─ Quis dizer que é normal sentir desejos, não vou te recriminar se conhecer alguém legal, alguém com quem se sinta à vontade para se entregar. Mas quero que esteja ciente das consequências...
─ Pai! ─ Vanessa me interrompeu, passando as mãos pelo rosto impacientemente. Depois, ela as estendeu em direção às minhas, as quais pegou ao me encarar de maneira séria ─ Eu estou ciente dessa merda toda desde os meus 10 anos de idade, quando fiquei mocinha e você se desesperou, lembra?
Tentei não rir daquelas minhas próprias lembranças, mas aquele tinha sido um momento cômico – embora, na época, parecesse trágico.
─ Se eu sinto desejos? É mais curiosidade mesmo, mas... ─ Ela se calou e mordeu o lábio inferior, calando-se. Vanessa fechou os olhos momentaneamente e corou ainda mais quando os abriu ─ Quero me casar virgem.
Ela disse a última parte tão baixinho que quase não a escutei. Estava surpreso por ouvir aquilo dela; achei que fosse mais moderna que eu, mas, pelo jeito, era mais romântica do que tinha pensado. Claro, ela poderia mudar de ideia no futuro, mas eu esperava que encontrasse alguém com ideias parecidas, ou, ao menos, respeitasse as dela.
─ Tudo bem... ─ Fui tudo o que consegui formular, ainda surpreso. Ela me deu um sorrisinho tímido e saiu apressada da cozinha, rumo ao seu quarto. Toquei meu próprio rosto para verificar que aquela conversa tinha, de fato, acontecido e comecei a organizar a louça de nosso jantar.
Sexta-feira, 5 de abril de 2019, 18:30h, Cozinha Edward e Vanessa.
─ Foi tão bonitinho você comprando o vestido pra Bella! ─ disse Vanessa, olhando a fatura do meu cartão de crédito. Os vestidos dela e de Bella estavam bem ali no meio, parcelados em 5x de U$100,00. Era por compras como aquela que eu ficava cada vez mais pobre.
─ A Bella merece um agrado de vez em quando, sabe? ─ Eu gostava de saber que estava empobrecendo por colocar um sorriso na cara daquelas duas. A pouco mais de dois meses da festa, era cada vez mais estranho aqueles momentos em que passava apenas com Vanessa, como se uma parte de mim ansiasse pela presença de outra pessoa (uma única “outra pessoa”).
─ Ela merece, né, papai? ─ Vanessa novamente me provocava, e revirei os olhos ─ Você deveria agradá-la de outras formas também.
Ela estava se referindo a sexo?
─ Tipo como?
─ Chama ela pra sair ─ respondeu ela, de maneira séria, o tom brincalhão tinha desaparecido totalmente e ela, como de manhã, parecia saber mais do que deixava transparecer. Pelo menos ela não estava sendo maliciosa!
─ Por que eu faria isso? ─ Era difícil não corar, mas eu tentei.
─ Porque vocês têm química pra caralho ─ disse ela, não poupando o palavrão ─ E... ─ Vanessa hesitou (preocupando-me um pouco).
─ E...?
─ E eu acho que ela seria uma madrasta muito legal...
Uau! As duas já haviam avançado tanto em sua relação? Vanessa começou a rir de minha cara embasbacada e tornou a me abraçar.
─ Sabe na semana passada, quando a Bella me levou ao salão pra fazer a prova do cabelo e da maquiagem? ─ perguntou, apoiando a cabeça em meu peito e me encarando com seus olhos idênticos aos meus. Assenti e ela suspirou antes de continuar a falar ─ A gente... Encontrou a Tânia lá, sabe...
Meus olhos quase saltaram para fora das órbitas e franzi o cenho, preocupado quando as bochechas de minha filha começaram a corar. Isso só acontecia quando ela estava com muita vergonha, ou com muita raiva.
─ O rapaz tava passando um troço lá no meu cabelo para começar a fazer o penteado e ela apareceu dizendo que ia me pagar um alisamento. Que eu estava parecendo uma doida com o cabelo todo bagunçado.
Vanessa era como eu, narrava aqueles fatos como se estivesse contando como havia passado o dia na escola, mas sabia como, por dentro, estava toda machucada. Embora estivesse claramente brava, – e ela tentasse esconder – seus olhos não conseguiam mentir para mim.
─ Aí... A Bella se intrometeu, porque eu fiquei tão atordoada na hora que nem consegui dizer nada ─ Nessie continuou ─ A Bella mandou ela cuidar da vida dela, que em quase 15 anos, nunca tinha se importado em pagar uma fralda para mim, que eu não precisava de nada vindo dela e que meu cabelo era o mais lindo que ela já tinha visto na vida ─ completou ela, com os olhinhos já marejando ─ Se a Bella sempre cuidou de mim... Por que você nunca ficou com ela?
Ah, eu estava finalmente entendendo aonde Vanessa queria chegar! Minha filha achava que o fato de Bella ter cuidado dela me fazia, imediatamente, ter que me envolver com ela.
Mas Nessie balançou a cabeça negativamente antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
─ Não. Não foi isso o que eu quis dizer ─ murmurou, como se estivesse lendo a minha mente ─ Não tenho 5 anos de idade para pensar dessa forma egoísta. Não é só por mim. A Bella é uma mulher incrível, papai. Como pôde deixá-la escapar? Seis anos nem é tanta diferença de idade assim!
O que aquela garota queria dizer com aquilo? Será que a semana tinha sido intensa demais? Talvez Nessie precisasse descansar!
─ Seis anos? Vanessa, como assim deixá-la escapar? Nós nunca...
As palavras se entalaram em minha garganta quando um pensamento muito improvável perpassou por minha mente. E se eu fosse o cara mais velho de quem Bella tinha gostado? E se ela ainda gostasse... De mim!
Vanessa me encarava de maneira séria e segurou meu rosto com as duas mãos, de maneira firme. Porra, ela sabia! Mas como?
─ Você...
─ Você deveria ir atrás dela. Tipo assim, agora ─ minha filha disse, meneando com a cabeça em direção à porta ─ Sabe por quê? ─ Neguei com a cabeça, enquanto sentia meu coração disparando em meu peito com a possibilidade de algo muito ruim estar prestes a acontecer, diante do tom de Vanessa ─ Porque eu fiquei sabendo que ela ia dar uma chance pro fornecedor dela. Acho que ela cansou de esperar por você.
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