15º Desafio Sherlolly

1 Conhecendo você


Estou com medo. Muito medo. E o motivo? Terminei o primário e agora fui obrigada a mudar de escola para continuar meus estudos. Isso é aterrorizante para mim e a única coisa que me conforta é que minha melhor amiga Lily também mudou e está na mesma turma que eu. Ao menos isso! Porque quando chego no portão da escola, carregando minha mochila e tímida até o último fio de cabelo, tudo me parece extremamente estranho. Os alunos são tão... Altos e... Velhos. Parecem ter anos e anos a mais do que eu.

Todos conversam, conversam e conversam. Sinto-me perdida e envergonhada, como se todos estivessem olhando para mim. Para completar minha sorte matutina, Lily se atrasou. Ela sempre chegava em cima do horário. Sempre! Mas que droga!

Pensava em mil xingamentos para quando ela chegasse, mas quando a vi descendo do carro do seu pai meu coração disparou aliviado e esqueci tudo que eu diria. Passamos pelo portão da escola e era como se entrássemos em um universo novo. Estávamos empolgadas e maravilhadas com tudo que se abria a nossa frente, por esse motivo as aulas passaram rápido. Aproveitamos o intervalo para observar todas as pessoas e logo vimos vários grupos, de vários estilos. Eram tão diferentes da escola anterior, onde só havia crianças brincando de pega-pega no recreio. Aliás, aqui ninguém usava a palavra recreio e muito menos corria pelo pátio.

Com Lily ao meu lado eu me sentia segura e logo fizemos várias amizades em nossa turma. Julie e Naomi viriam a ser as mais significativas, além de Lily. Os dias foram se passando e eu me divertia cada vez mais na nova escola. Não queria sair dali nunca mais. Eu estava com 11 anos e me achava no topo do mundo.

Nossa turma começou a ganhar fama de mais bagunceira de todo o colégio, mesmo que fossemos os mais novos — se bem que a turma era formada por muitos alunos que haviam reprovado diversos anos. Eu era disputada para provas e trabalhos que eram feitos em grupo, e não me importava em ajudá-los. Acabava me divertindo também com isso, de qualquer forma.

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Minha vida tomou um novo rumo e novas cores quando eu o vi. Estava indo embora sozinha pela rua e acabei alcançando John, que estava na minha turma. Foi só quando já estávamos conversando por um tempo que eu reparei que ele estava acompanhado de um garoto. O garoto mais tímido e misterioso que eu tinha visto até então. Sua expressão era fechada e ele apenas caminhava ao nosso lado, com as mãos segurando a alça da mochila. Meu coração rapidamente deu um pulo e eu acabei sendo extremamente petulante.

- Hey, estranho. Em que série você está?

- Sexta. — A voz saiu tão baixa que eu mal pude ouvir e ele não me olhou nos olhos. Ok, nada mal, eu estava na quinta.

- E qual o seu nome?

- Sherlock. — Mas, hein? Quase não escuto, mas acho que entendi certo. Ele não diz mais nada e eu também não sei mais o que dizer, então continuo conversando com John e olhando de relance para Sherlock a todo momento. Infelizmente ele não compartilha do nosso assunto, apenas chuta as pequenas pedras pelas ruas onde passamos.

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- Estou apaixonada! Ai meu Deus, ele é tão foooofo.

Estou na casa de Lily jogada no chão do seu quintal, abraçando meus joelhos e suspirando loucamente. Ela me olha desconfiada e ri de mim. Me apaixonar não era algo incomum de acontecer, mas dessa vez era verdadeiro! Ela tinha que acreditar em mim!

- Sherlock. Ele se chama Sherlock. S-H-E-R-L-O-C-K.

- Já entendi, Molly.

- Ahhh ele é tão lindo!

- Aham. Amanhã você me mostra quem é, então. Podemos falar de outra coisa agora?

- Ok, ok. Mas ahhhh...

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No dia seguinte na hora do intervalo eu corri mostrar Sherlock para Lily. E também para Julie e Naomi, mas ninguém se empolgou, o que achei até bom. Queria Sherlock apenas para mim. Pena que ele parecia nem ao menos me notar.

- Vocês viram? A Rose, da 8ª série, foi pega fumando escondido. — Julie chega um tanto espantada para contar a novidade. — Está suspensa por dois dias.

- Mas... Gente... Nós somos todos tão novos! — Lily fica surpresa com a notícia. E eu também. Não era uma realidade do nosso dia a dia até então.

- Sei lá... Eu não entendo por que as pessoas querem estragar a vida. Ainda mais com essa idade. E parece que estamos rodeados de vários, levando em consideração os restos de cigarro que tem atrás da quadra. — As meninas concordam comigo, mas logo meus pensamentos voam para outras coisas. Ou outra pessoa.

Preciso fazer algo para me aproximar dele. Mas agora estou mais tímida do que nunca, como se estivesse estampado em minha testa que estou apaixonada. Era como se ele soubesse, se toda a escola soubesse, se o mundo soubesse! Antes de conhecê-lo eu não tive problemas em puxar assunto, mas agora... Já sei! Puxo Lily pelo braço:

- Me ajude a escrever uma carta hoje!

- Carta? Você vai escrever uma carta?

- Sim!

Ela revira os olhos, mas mesmo assim me ajuda mais tarde quando, novamente, estou em sua casa. Pego trechos de músicas e misturo com coisas da minha própria imaginação. Escrevo uma página e dobro a folha no formato de uma dobradura que aprendi.Espero que ele goste.

- Você entrega para mim amanhã?

- Eu? — Ergo a sobrancelha para ela. — Sim, entrego, claro. — Lily corrigiu rapidamente, para minha felicidade.

Quase não dormi a noite de ansiedade e a carta foi entregue no dia seguinte. Não houve uma resposta.

Mesmo assim, depois dessa houveram inúmeras outras cartas e bilhetes. A única coisa que consegui em troca foram alguns olhares que eu não sabia se poderiam significar algo ou se ele só me achava maluca. De qualquer forma, me deixavam terrivelmente vermelha.

Algum tempo se passou antes que eu tivesse a primeira decepção de verdade.

Nós quatro descíamos as escadas a toda velocidade após saber que nosso professor havia faltado e a frente via-se o portão de entrada da escola já fechado. Estávamos atrás de um lugar tranquilo em que pudéssemos fofocar em paz.

Meus olhos procuram Sherlock o tempo todo, mesmo quando acho que ele está dentro da sala de aula. Por esse motivo, é claro que eu o encontro antes que todas as outras o veja.

Ele está do lado de fora da escola, com um garoto da nossa turma que é um dos que já reprovaram vários anos e não é o que chamamos de bom exemplo. Um mau pressentimento toma conta de mim e eu seguro Julie pelo braço.

- Vamos voltar.

- Por que? Vamos ficar na escada, não tem ninguém e podemos conversar em paz.

Meu estômago se retorce, mas eu não consigo negar ou ter personalidade suficiente para voltar sozinha. Então, elas estancam quando veem o que eu já vi há muito tempo. Seguro Naomi agora e meu desespero é crescente.

- Ele está fumando, Naomi. — Minha mão está gelada e ela olha para a mesma direção que eu, vendo sobre o que estou dizendo. Sua expressão fica séria e eu sei que não estou imaginando coisas.

Talvez seja comum hoje. Mas para mim, com 11 anos, idealizando alguém perfeito, isso era como se o mundo caísse sobre minha cabeça. Era uma grande rachadura em tudo que eu tinha sonhado, como se olhasse para os lados e visse meu mundo ruindo.

Sentei-me no degrau da escada, ouvindo as meninas tagarelarem a minha volta, tentando fazer da situação algo normal. Eu sei que elas não sabia como agir nessa situação e, principalmente, com meu abatimento. Além do que para elas não tinha a mesma gravidade, é óbvio.

Encarei Sherlock, que estava de costas para mim, enquanto ele conversava e ria com o outro rapaz. O nome dele era George e nós trocamos poucas palavras até então porque ele me assustava. Não demorou para que ele, que estava de frente para onde eu estava, me visse. O que eu não esperava era que ele, sorrindo, dissesse algo para Sherlock, fazendo-o se virar para mim.

O rosto dele se fechou em uma expressão séria quando seus olhos encontraram os meus. Ele me encarou por alguns segundos antes de abaixar o olhar e deixar que o cigarro caísse no chão, pisando em cima dele.

Por um momento pareceu que ele estava até chateado por eu ter visto o que não devia, talvez estivesse um pouco envergonhado.

Levantei-me e não podia mais ficar ali. Graças a Deus as meninas me seguiram e passaram o resto do dia me consolando, enquanto eu estava deitada com a cabeça no colo de Naomi.

Passei o restante das aulas cabisbaixa e para completar tudo, na saída do colégio eu caminhava junto com Julie pela rua quando vi Sherlock andando em minha direção. Ele estava pálido e sua pele suava. Fiquei com medo e meu coração disparou. Parei por um segundo, mas quando Sherlock cambaleou para cima de mim eu me encolhi junto a Julie e continuei a andar. Eu sabia o que significava, mas não queria aceitar e muito menos falar em voz alta. Drogas.

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Meus dias passaram de forma normal antes do próximo golpe. Não houveram mais cartas, nem cigarros, nem drogas. Ao menos que eu tivesse presenciado. Tudo seguia uma certa normalidade.

Nós estávamos na parte baixa do pátio em um dia pela manhã. Lembro de estar rindo de alguma piada que um dos meninos de nossa turma tinha contado quando olhei para cima, onde Sherlock ficava com alguns dos excluídos da sua turma e ter uma sensação ruim novamente.

- Vamos subir? Quero comprar algo na cantina. — Julie me chama.

- Não, não quero subir.

- Vamos lá, Molly. Por favorrr.

Não sei por que me rendo aos pedidos delas, mas de qualquer forma eu respiro fundo e de braços dados nós atravessamos uma das quadras e subimos as escadas.

Se o meu frágil castelo de cartas não tinha caído, agora ele cairia de uma só vez. Quando olhei na direção onde Sherlock estava, ele passava o braço pelo ombro de uma garota. Novamente ele abaixou os olhos quando me viu e seu rosto enrubesceu levemente. Senti lágrimas inundarem meus olhos e percebi o silêncio quando minhas amigas seguiram o meu olhar.

Nós sabíamos o que aquele gesto significava ali, naquela escola, na frente de todos. Principalmente com uma garota que não era sua amiga e nem da sua turma.

Ali eu decidi por um ponto final ao que sentia, mesmo que a cena nunca mais houvesse se repetido. Não que tivesse obtido sucesso no meu objetivo, mas eu tentei. Tentei não pensar, olhar para outros meninos, me distrair com qualquer outra coisa.

Mas, ainda era impossível evitar olhá-lo toda vez que eu o encontrava e principalmente quando ele retribuía.

No último dia de aula daquele ano, eu me sentia triste. Refleti sobre tudo o que tinha acontecido e todos os amigos que havia feito. Nossa turma havia aprontado demais e eu já imaginava que seríamos separados. Meus olhos se encheram de lágrimas, mas ela não caíram.

Nós fazíamos uma festa de despedida e eu saí pela sala de aula, andando pela escola que estava vazia naquele momento. Mesmo sabendo que voltaria para o próximo ano, eu me despedia de todos os lugares nos quais tive histórias divertidas.

Estava subindo as escadas, de volta para minha sala, quando por alguma ironia do destino Sherlock vinha descendo. Não sei como nem por que, mas reuni toda a coragem que restava em mim para sorrir e dizer:

- Tchau.

- Tchau. — Foi tudo que ele disse em resposta e valeu muito mais do que tudo que havia acontecido comigo naquele ano.

Os pais dele o levaram embora de Londres por causa do envolvimento com drogas.

Nunca mais o vi.

Notas finais
Calma, não criemos pânico! Há um segundo capítulo! ;)