15º Desafio Sherlolly

2 Reencontrando Você


Notas iniciais
Agora sim! :)

Nunca mais o vi até que tivessem se passado dezesseis anos e Sherlock entrara no St. Barts, onde eu trabalhava, como se sua vida dependesse daquilo. Não houve reconhecimento em seus olhos, mas eu soube quem ele era no mesmo instante.

Não sei se o pior era descobrir que ele ainda mexia comigo como se eu estivesse de volta aos 12 anos, ou se era o fato de ainda enrubescer e me atrapalhar com as palavras toda vez que eu estava perto dele. Apesar de todos os anos, parecia que as coisas não tinham mudado tanto assim para mim.

É claro que fiquei extremamente chateada por ele não me reconhecer e me tratar com indiferença quase sempre. Ok, sempre. Sherlock parecia ter ser tornado alguém extremamente frio. Não que ele já não fosse naquela época, mas agora ele parecia totalmente alheio a qualquer sentimento. Por outro lado, era bom vê-lo saudável, aparentemente livre das drogas — apesar da queda pelo cigarro. Eu não tinha boas recordações das últimas vezes em que o vi, e vê-lo assim era reconfortante.

John veio até mim pouco tempo depois que reencontrei Sherlock e me contou que eles dividiriam um apartamento em Baker Street.

– Não acredito que ele não reconheceu você! Sherlock não...

– John! – O interrompi. – Sherlock nunca deu a mínima para o que eu sentia ou deixava de sentir, então provavelmente ele não lembra sequer meu nome. E pelo amor de Deus, não conte a ele!

– Mas, Molly... Ele...

– Não, John!

Ele suspirou longamente e eu o encarava exigindo uma resposta.

– Tudo bem, Molly.

Claro que ele aceita de forma resignada, mas eu não me importo. Espero de coração que ele realmente cumpra isso porque já é constrangedor demais pensar em todas as cartas sem resposta que escrevi e não preciso lidar com mais essa situação depois de tantos anos.

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– SHERLOCK! Não minta para mim. Tem certeza que você nunca viu Molly antes?

O detetive encarou o amigo por um longo momento.

– Faz diferença?

– É claro que faz diferença. Não se faça de idiota, Sherlock.

– John... Eu sabia que Molly trabalhava ali antes mesmo de pensar em aparecer por lá. E foi necessário menos de meio segundo para que eu a reconhecesse. Ela continua corando toda vez que eu olho para ela.

– Eu sabia! Eu sabia! Por que você não conta para ela?

– Não se meta nisso, John. Temos trabalho a fazer antes de qualquer coisa, então não enrole tudo colocando Molly Hooper no meio. Ela tem a vida dela.

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Sherlock não deu nenhum indício de que me conhecia, nem mesmo quando eu tentava puxar algum assunto. Às vezes ele conversava comigo quando estávamos sozinhos no laboratório, mas sempre evitava habilmente falar do passado. Também, eu não sei o que eu pretendia tentando voltar àquela época. Caso ele lembrasse eu ia falar o que? Ah sim, era eu quem te mandava aquelas cartas ridículas. Não, acho que não funcionaria muito bem.

Ridiculamente, eu fazia tudo que ele me pedia na esperança de ficar próxima. Inclusive ajudei-o a fingir a própria morte, o que resultou em mais alguns anos distantes e sem notícias.

Foi quando ele voltou que as coisas ficaram estranhas, muito estranhas. Principalmente quando ele disse que eu sempre tinha contado. Meu coração deu um salto querendo entender que o sempre se referia a nossa época de escola. Mas não podia ser, podia?

Minhas memórias voltaram com força total quando Sherlock apareceu drogado no laboratório. Toda a raiva que eu senti anos atrás foi descontada nos três tapas que desferi em seu rosto. Os tapas estavam carregados de vários outros sentimentos além da raiva. Ali estavam toda a mágoa, tudo que ele me fez passar – talvez até sem querer -, todo o sentimento não correspondido. Tudo estava ali.

Quando cheguei em casa naquele eu dia eu chorei. Chorei por todos os anos em que não o tinha esquecido. Por todas as vezes que meu coração ainda batia por ele. Por todas as vezes que eu enrubescia quando ele me olhava. Por todas as vezes que eu ainda o queria para mim.

–-- --- ---

– Oi Molly. – Sherlock estava em Londres novamente depois que a ameaça de Moriarty voltou a pairar sobre nossas cabeças. Só não entendia o que ele estava fazendo aqui, no laboratório, parecendo tímido.

– Oi Sherlock, precisando de alguma coisa? – Ele só me procurava para isso, no final das contas.

– Sim... Você pode me acompanhar até Baker Street?

– Agora? – Não falei que ele só me procurava quando precisava de alguma coisa?

– Sim, é de extrema importância.

Enfim, como sempre, eu fui. Não trocamos nem uma palavra pelo caminho e eu estava me sentindo terrivelmente incomodada. Esperava chegar logo, acabar com o que ele precisava e voltar para o meu apartamento, onde ficaria longe da ameaça chamada Sherlock. Ameaça à minha sanidade.

Subimos as escadas ainda em silêncio e ele me seguia enquanto eu ia a frente, esperando apenas que ele abrisse a porta.

– Então?

Ainda sem dizer nada, ele pegou uma caixa de madeira em sua estante e me entregou.

– Abra. – Sua voz era baixa e incomum, deixando me desconfiada.

Abri e meu coração quase saiu pela minha boca no segundo em que reconheci a minha própria letra infantil. Os corações, os desenhos, as folhas decoradas. Meu Deus. Estavam todas ali, na minha frente. Caminhei até o sofá e me joguei nele, com a caixa presa firmemente em minhas mãos. Eu não tinha coragem de erguer os olhos e encarar Sherlock. Ele sabia o tempo todo... O tempo todo.

– Molly...

Mantenho meu olhar nas cartas amareladas pelo tempo. Ele se ajoelha próximo a mim e eu definitivamente não sei o que fazer.

– Molly... Eu me apaixonei por você quando você perguntou em que série eu estava, daquele jeito tão irritante e invasivo. Me apaixonei ainda mais por cada carta, cada palavra e cada olhar que você me dava. – Ele não estava dizendo isso, estava? – Mas eu era muito novo. Nós éramos muito novos... Eu não queria aquilo para mim naquela época. Para ser sincero, até pouco tempo atrás eu ainda negava isso. A minha busca por adrenalina e fuga do tédio me levou ao cigarro e as drogas. Em meus delírios naquele dia em que você me viu drogado, eu precisava falar com você. Urgentemente. Mas você ficou com medo de mim, com razão. Você se encolheu para longe de onde eu estava. Eu fiquei arrasado, mas não impediu de me afundar ainda mais nas drogas. Meus pais me levaram embora de Londres, para uma afastada cidade no interior... Nos piores momentos eu lia suas cartas, Molly. Apesar do amor da minha família, era o seu amor que fazia com que eu quisesse me reerguer. – Sherlock faz uma pausa e eu não lembro mais como se respira. – A garota. Eu a paguei para que encenasse aquilo comigo. Ela precisava encontrar o seu diário desaparecido e em troca eu pedi que fizesse aquela cena. Eu queria que você desistisse de mim para sempre. Eu era só um garoto problema que não acrescentaria nada na sua vida. Quando você me disse tchau no último dia de aula, você não sabia, mas eu sim. Era para sempre.

Em um enorme ato de coragem eu ergo os olhos para encará-lo. Não havia a menor dúvida de que eu estava sonhando, não estava? De repente, quando eu menos esperava, estava ouvindo tudo que quis ouvir a vida inteira.

– Eu voltei para Londres depois de longos anos e só fui até o St. Barts porque sabia que você estava lá. Percebi no mesmo segundo em que coloquei meus olhos em você que meus esforços de nada adiantaram. Meu coração ainda cismava em bater de forma desordenada toda vez em que eu te via. Você continuava corando ao me olhar e isso me quebrava todas as vezes. – Sherlock sorriu e eu correspondi, percebendo só agora que estava chorando. Ele ergueu uma das mãos e enxugou minhas lágrimas, arrancando outro sorriso de mim. – Tentei manter você em sua vida segura, longe de mim e de todos os meus problemas. Decepcionei você novamente quando apareci drogado no laboratório. Eu sei disso, mas daquela vez era realmente para um trabalho. Não me olhe assim, é verdade. Enfim, toda minha vida se enrolou e tudo que estava cada vez mais certo era que eu não podia ficar longe de você nunca mais. John sabia, naquela época, que eu não era indiferente aos seu sentimentos e por isso ele não acreditou que eu não tinha te reconh...

Interrompo tudo que ele está dizendo quando o puxo para mim e o beijo. Pelo amor de Deus, são quase 20 anos esperando por isso e Sherlock não para de tagarelar. Tudo que eu queria ouvir estava na primeira frase “eu me apaixonei por você”. Era só isso que bastava para mim.

– É muito estranho se eu falar agora que meus sentimentos por você ainda são os mesmos daquela época, talvez só um pouco mais... Adultos? – Eu pergunto a ele quando nosso beijo é interrompido.

– Acho perfeitamente normal. Afinal, eu só tenho 14 anos e estou começando a... Ficar (?) com uma linda garota de olhos castanhos brilhantes que ruboriza com facilidade toda vez que está tímida. O que é quase todo o tempo.

– Será que o Sherlock de 14 anos falaria essas coisas?

– Provavelmente não, mas ele também não te beijaria assim.

Não, definitivamente ele não me beijaria assim. E eu também, com meus 12 anos, não sairia arrancando as roupas dele assim. E nós não nos enroscaríamos no sofá assim e acordaríamos na cama pela manhã assim. Quem disse que o tempo não pode ser benéfico?

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1 anos depois...

– Mas que raios, por que você tem que vendar meus olhos?

– Porque é uma surpresa, Molly!

– Ok, ok... Vá em frente...

Sherlock me venda e me ajuda a entrar no carro. Ele dirige por um longo caminho e eu não faço a mínima ideia de onde estamos indo. Quando ele finalmente me ajuda a sair do carro eu estou em níveis extremos de curiosidade.

– Onde estamos?

– Acalme-se. Por aqui.

Sorrio quando entramos no local porque nem todo o tempo do mundo fará com que eu esqueça o cheiro, os sons... A atmosfera é outra e todas as imagens invadem minha mente.

– Sherlock... Eu já sei onde estamos...

– Não estrague tudo, Molly!

– Estamos na escola! – Arranco minha venda e olho em volta. Mesmo que o pátio esteja vazio, eu vejo as crianças por todos os lados em minhas lembranças. Vejo a mim mesmo ali... E Lily, e Julie, e Naomi... Sherlock... Naquele canto onde ele sempre ficava com sua turminha de esquisitos. A saudade se instala em mim em um misto de alegria e tristeza. Sherlock sorri convencido ao meu lado porque sabe o efeito que sua ideia causou. Ele segura minha mão e me leva para o lugar onde costumava ficar.

– Era aqui que você deveria ter passado o ano. Ao meu lado.

Nós ficamos ali, abraçados, por um longo período. Viro de costas para ele, olhando a quadra, a cantina e todo o resto. Os braços de Sherlock estão protetoramente em minha volta e eu dou um pulo, totalmente imersa em meus pensamentos, quando ele beija meu pescoço. Ouço sua risada e por um momento imagino nós dois ali, um pouco mais que duas crianças.

Vejo eu passando a minha frente, rindo freneticamente com Lily após tê-lo beijado pela primeira vez. Sinto meu rosto ficar quente de verdade quando penso em encontrá-lo no dia seguinte. Nós andamos de mãos dadas pelo pátio. Ficamos abraçados com timidez.

Viro-me e encaro Sherlock e por uns instantes vejo o mesmo garoto com olhar assustado que me encarava anos antes. Agora entendo seus medos, suas confusões com sentimentos.

– Obrigada...

– Você voltaria no tempo se pudesse? Para vivermos tudo isso?

Olho profundamente para ele e tudo que poderia ser, tudo que eu fantasiei, tudo que eu desejava. Os momentos não vividos, as experiências não trocadas.

Então lembro do último ano que passamos. De tudo que fizemos e vivemos até agora. Aproximo-me lentamente dele, beijando-o com carinho seus lábios, passando por seu rosto até chegar em seu ouvido.

– Eu não voltaria nem por um segundo... Para não correr o risco de não conhecer o homem com quem passei esse último ano. – Eu sussurro.

Os olhos dele brilham para mim e eu sei que estou exatamente no lugar e tempo que deveria estar.

Notas finais
Mudei um pouco o negócio, mas foi por uma boa causa de efeito... kkkkkkkkkkkk
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!