11 Cores em uma
1 Azul
Notas iniciais
Tronco fitava o próprio reflexo no grande espelho, presente da rainha Poppy em seu último aniversário. Seus dedos percorreram a pele do rosto, o verde claro que agora parecia tão natural, como se sempre tivesse sido assim. Um ano atrás, ele ainda carregava o tom acinzentado de quem vivia nas sombras. Mas ela mudara tudo.
A imagem no espelho embaçou por um instante. Ele piscou, afastando a memória daquele dia em que Poppy aparecera em seu abrigo com o presente surpresa.
“Todo mundo merece se ver direito", dissera ela, empurrando o presente em suas mãos antes que ele pudesse protestar. Seus dedos haviam tremulado ao desembrulhar, não pelo objeto, mas pelo calor dos dedos cor-de-rosa que brevemente tocara os seus.
Às vezes, sua mente escapava para imaginar como seria a vida sem aquela troll rosa ao seu lado. Logo se forçava a parar. Pensava no que mais admirava nela: a maneira como enchia o espaço com risadas, a coragem que desafiava até a chefe berg, o jeito como transformava um desastre em música. E aquela beleza... Não a das festas ou coroas, mas a dos pequenos gestos, o modo como franzia a testa ao concentrar-se, ou como seus cabelos rosa brilhavam ao sol.
Mas ultimamente, a felicidade de vê-la todos os dias esvaíra-se como água entre os dedos. Há semanas, seus encontros resumiam-se a acenos distantes ou conversas apressadas entre reuniões. "É só a coroa", ele repetia. "Ela não está te evitando." Mas quando a via cercada de conselheiros, rindo como antes, só que nunca para ele, uma pontada no peito o lembrava de que algo morrera ali.
Ele sentia falta das conversas bobas, das músicas, do jeito como o cheiro dela — doce como morango — o fazia esquecer o mundo. Sentia falta do sorriso. Até da teimosia.
Naquele dia, enquanto penteava o cabelo azul, imaginou-a em seu trono, debruçada sobre mapas e tratados. Ou talvez dançando com os amigos, como fazia antes. Será que ela ainda canta sozinha às vezes.
Ao colocar o pente de madeira na mesa, seus olhos pousaram no pequeno relógio de sol que Poppy lhe dera no inverno passado. Os ponteiros de musgo indicavam que já passava do horário combinado com o rei Peppy na biblioteca. "Merda", murmurou, pegando às pressas seu casaco de folhas secas.
O caminho até a Biblioteca Troll era familiar, a trilha de terra batida, as pontes de teia de aranha reforçadas, os pequenos cogumelos bioluminescentes que ele mesmo plantara para iluminar o trajeto noturno. A cada passo, tentava afastar a imagem de Poppy que insistia em surgir em seus pensamentos.
Passou quase uma hora e meia narrando contos — alguns arrancavam risadinhas, outros apenas olhares distraídos. Mas uma história, em especial, capturou toda a atenção:
— “Há muito tempo, nossa vila era dividida por estilos musicais. Vivíamos em paz, até que o Príncipe Orchid descobriu a Pedra Celeste. A pedra revelou um poder sombrio... e o troll azul de cabelos vermelhos o usou para o mal. Tomou as aldeias, se declarou rei e espalhou o medo. A Grande Mama previu que alguém o derrotaria, e a profecia se cumpriu. Ele caiu... e a pedra desapareceu para sempre.”
Quando fechou o livro, Tronco notou os olhos arregalados e cheios de lágrimas das crianças. Algumas começaram a chorar. Tentou acalmá-las com palavras doces, mas era tarde demais. Suspirando, sentou-se e ficou ali, esperando o cansaço vencer o medo. Releu a história em silêncio. Havia algo nela que o prendia.
Depois que as mães vieram buscar os filhos, Tronco seguiu para o casulo do rei Peppy. O velho troll tinha pedido para vê-lo.
No caminho, viu Poppy cercada por Cetim, Chenille e outros conselheiros. A voz dela era animada, como sempre. Os olhos brilhavam. Mas Tronco, parado à distância, sentiu-se invisível. Deu um passo, pensou em chamá-la. Um dos trolls falou mais alto e ela virou de costas. Ele recuou.
Chegou ao galho do casulo e bateu três vezes. A voz rouca respondeu:
— Entre!
— Tronco, meu garoto! — exclamou Peppy, sorrindo ao largar o livro e abrir os braços.
— Oi, rei Peppy — respondeu, sem jeito, inclinando a cabeça.
— Nada de formalidades, filho. É bom ver você! — E o puxou para um abraço apertado, quase esmagador.
Tronco se desvencilhou com um leve sorriso.
— O senhor que me chamou...
— Ah, é verdade! — Peppy bateu na testa. — Aceita um bolinho e um suco? Fui eu que preparei.
— Agradeço, mas tenho umas coisas para resolver no abrigo. Se puder ir direto ao ponto...
— Claro, claro. — Peppy sentou-se no sofá e indicou o lugar ao lado. — Sei que você é próximo da minha filha, então vou ser direto.
Tronco franziu a testa.
— A Poppy é uma excelente rainha. Mas está sobrecarregada. E eu queria saber... se você pode ajudá-la.
— Eu já ajudo. Cuido da segurança da vila, mantenho as rotas de fuga, as armadilhas... tenho até planos de emergência prontos.
Peppy o interrompeu com um gesto.
— Não falo disso. Quando foi a última vez que conversou com ela de verdade?
A pergunta bateu fundo. Tronco desviou o olhar.
— Faz... alguns dias.
— Exato. E ela precisa de alguém. Precisa de você.
Tronco tentou entender.
— O senhor quer que eu fique mais presente?
Peppy olhou sério.
— Quero que você case com ela.
As palavras cortaram o ar como uma faca. Tronco sentiu o suor escorrer pelas costas, as mãos tremerem sobre os joelhos. O rosto do rei era sério, mas os olhos suplicavam.
— S-Senhor, o que está pedindo é... — engasgou, os dedos enterrando-se nas pernas. — Poppy é uma líder ótima. Ela não precisa de mim.
— Não é sobre necessidade, filho. — Rei Peppy inclinou-se para frente, o cheiro de bolinho de canela envolvendo-os. — É sobre felicidade. Vejo como você a olha quando pensa que ninguém vê.
Tronco apertou os punhos. Uma imagem invadiu sua mente: Poppy rindo, girando sob a luz do sol, os cabelos rosa tocando seu ombro como um segredo. Mentir doía mais do que ele imaginara.
— Eu... não a amo.
A frase saiu rouca, e o rei suspirou, como se reconhecesse o som de uma alma se partindo.
Levantou-se e saiu antes que Peppy insistisse. Caminhou de volta para casa com a cabeça em chamas. Repetia a mesma mentira para si mesmo, tentando sufocar a única verdade que doía: ela o fazia sentir algo que ele não sabia explicar.
Tão distraído, nem percebeu quando saiu da vila e entrou na floresta. Só notou o silêncio quando ouviu o grito: agudo, fino, desesperado.
Sem pensar, correu em direção ao som.
Entre as árvores, viu uma troll cercada por aranhas, aquelas mesmas criaturas que um dia atacaram Poppy. Ela estava caída, desmaiada.
Tronco parou, ofegante. O coração acelerou ao ver o rosto da estranha. Havia algo ali... algo que ele não soube nomear.
As aranhas avançaram.
Ele se colocou na frente dela, firme, com os punhos cerrados.
Não deixaria ninguém mais se machucar.
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