Notas iniciais
Obrigada a todos que comentaram o primeiro capítulo, estava ocupada atualizando outras fanfics, por isso a demora de postar, estou me organizando ainda. Feliz Ano novo

Olhos azuis encontraram-se com as pupilas negras das aranhas. Tronco analisou, por breves segundos, as características de uma delas: enormes pernas, cabelo verde arrepiado, corpo coberto por pelugem rosa e, por fim, uma boca com presas afiadas.

Recuou um passo, tropeçando na desconhecida. Considerou meios para escapar dali, não era a primeira vez lutando contra aquelas criaturas, mas ainda assim levava desvantagem.

Usou o próprio cabelo como um chicote para atacar os insetos, e manteve esse ritmo até o momento em que agarrou a garota troll, colocou-a no ombro e saiu em disparada.

Teve a ideia de se camuflar atrás de um arbusto, transformando suas mechas azuis em verde musgo.

Pela fresta do cabelo, observou os animais desistirem. Agradeceu mentalmente.

Ao sair da posição e deixar a troll sobre a grama, inclinou o ouvido ao peito dela e, em seguida, checou seu pulso. Um sentimento de alívio se refletiu por um momento em seu rosto, antes que sua atenção se voltasse para a aparência da estranha.

Estranhou a pele cinza-escura, semelhante à que ele mesmo tinha antes de descobrir suas verdadeiras cores. O cabelo, preso em uma trança lateral, era um penteado ousado, poucos na vila Troll o usariam, por medo de quebrar os fios. A cor vermelha do cabelo lembrava sangue.

Uma cicatriz no olho esquerdo lhe provocou desconforto: um corte de dois centímetros. Quis tocar para sentir a textura, mas desviou o olhar para a armadura de metal que cobria todo o corpo dela. As mãos estavam protegidas por luvas pretas.

Um símbolo da folha cintilou na armadura, e uma pontada aguda perfurou a têmpora de Tronco. Ele cambaleou, visões embaralhando-se como tinta na água: Uma mulher de cabelos azuis, cantando baixo... um berço de folhas secas... o cheiro de queimado.

Quando a dor cessou, Storm estava de pé, a espada no seu pescoço, mas seus olhos negros brilhavam com algo além de raiva, reconhecimento.

— Seu cabelo é azul — sussurrou ela, a voz áspera como o vento em galhos mortos. — Onde está a pedra?

— Que pedra?! — Tronco engoliu em seco, a lâmina pressionando sua garganta.

Storm riu, um som sem alegria. — Acha que é coincidência, filho da folha.

Tomado por uma aflição nervosa, os músculos não reagiram ao impulso de recuar, e as palavras ficaram sufocadas na garganta. Permaneceu ali.

A obscuridade dela transmitia um olhar desconfiado.

O silêncio pairou por instantes. Ela pensou em dizer algo, mas contrariando o impulso, apenas agradeceu por ele tê-la salvado. Decidida a partir, Tronco correu em sua direção, tentando questioná-la, mas um assobio dela trouxe um enorme pássaro negro.

Olhos dourados o encararam. Ele recuou, assustado, mas não foi o pássaro que o desconcertou, foi ela.

A troll já montada na criatura, o observava. Mas havia algo diferente agora. Seu olhar, antes afiado como lâmina, suavizou por um instante. Tristeza velada, antiga, brilhou em seus olhos como um eco do passado. Como se, ao encarar Tronco, estivesse vendo alguém que já conheceu… ou perdeu.

Tronco sentiu o peso daquele olhar e franziu o cenho, confuso. Não havia ameaça ali. Nenhuma hostilidade. Apenas um silêncio carregado de algo que ele não sabia nomear.

— Espera! Qual é o seu nome? — perguntou ele.

Ela abriu a boca como se fosse dizer algo, mas se conteve. Seus lábios se curvaram em um quase-suspiro, e ela desviou o olhar.

— Storm. — Susurrou, como se o próprio nome fosse uma maldição.

Então, com um leve comando, ela puxou as rédeas da ave. O pássaro ergueu as asas com força, lançando uma rajada de vento pelas árvores. Tronco se agachou, protegendo o rosto com o braço, enquanto ela sumia entre as copas, deixando apenas o farfalhar das folhas e um mistério no ar.

Ele permaneceu ajoelhado ali por mais alguns segundos, o coração acelerado… não pela ameaça, mas pela sensação incômoda de que aquela troll levava consigo mais do que respostas.

Talvez até uma parte da verdade sobre ele mesmo.

— Filho da folha... — questinou intrigado.

***

De volta ao seu burker, mais precisamente no quarto, Tronco sentou-se na cama. Respirou profundamente, passou as mãos pelo cabelo e olhou ao redor.

As paredes de barro estavam enfeitadas com retratos e fotos com seus amigos. Riu ligeiramente, cada imagem o forçava a sorrir. Concentrou-se numa em particular: Poppy o abraçava por trás, seu semblante radiante contrastando com a irritação dele.

Lembrou do símbolo da folha na armadura de Storm. Tristeza o comoveu e afligiu. A imagem daquela mulher, vinda de um flashback ou alucinação, se recusava a sair de sua mente.

Desviou o olhar para a penteadeira ao lado da cama, abriu a gaveta de madeira e pegou um retrato. Com delicadeza, passou os dedos sobre a moldura e depois sobre a fotografia, contemplando o rosto da avó.

Um sorriso verdadeiro e sentimental se formou em seus lábios. Uma lágrima solitária escorreu pela bochecha e caiu na foto. O remorso e a culpa o atormentavam todos os dias, sentia-se responsável pela morte dela.

Uma mão em seu ombro o despertou do devaneio. Era Poppy, que se acomodava ao seu lado. Ele guardou o retrato de volta na gaveta.

Silêncio. Sempre que tentava falar, olhava para ela sem expressão. Estava cansado daquele mês de tristeza solitária e da expectativa sombria. Estar com a rainha era seu refúgio.

Ela o abraçou. O gesto foi suficiente para curar qualquer dor ou mágoa. Uma conexão íntima e saudável.

Com o queixo sobre o ombro dela, inalou sua fragrância natural — uma mistura de morango e melancia. Suspirou suavemente, amando como ela se encaixava perfeitamente em seus braços.

Relutante em soltar o abraço, permaneceu por mais tempo do que necessário. Quando a soltou, manteve a mão unida à dela.

— Você está bem?

Ele sorriu, apesar da tristeza.

— Estou. Mas tudo bem não estar bem o tempo todo. — Deu de ombros, soltando a mão rosa da amiga e desviando o olhar para os próprios pés.

— Quer conversar?

Essas perguntas o incomodavam. Odiava falar de seus sentimentos — por isso escrevia poesias. Palavras escritas são mais fáceis.

— Tive um tipo de lembrança… visão… não sei direito. — O rosto rosado dela, com a textura suave e natural, o distraía. — Acho que vi minha mãe. Mas é impossível. Ela morreu quando nasci.

Apesar da aflição em falar sobre seus tormentos, suportou. Nunca foi imune à dor.

Poppy quis abraçá-lo de novo. Talvez várias vezes. Queria compartilhar sua angústia.

— E se ela estiver viva, Tronco? E se o que você teve foi uma memória bloqueada? Podemos falar com meu pai...

Ele a interrompeu, seco.

— Agradeço pela oferta, Poppy. Mas deve ser outra paranoia minha.

Ela captou o sarcasmo.

— Ei, da última vez que você teve uma “paranoia” — fez aspas com os dedos —, estava certo. Os Bergens nos atacaram.

Viu o olhar brilhante da rainha. Levantou-se da cama, desviando os olhos para outro ponto qualquer.

— Às vezes queria saber quem sou.

A tristeza repentina a fez querer animá-lo.

— Bem, você terá muito tempo para descobrir. E eu estarei ao seu lado para ajudar a transformar azul em verde.

Ela se colocou à sua frente e deu uma leve batida em seu braço.

— Azul em verde? — Ele a olhou, confuso.

— Sim! — disse animada. — “Existe uma cor em cada um de nós…”

A rainha começou a cantar.

Seus cílios brilhavam, os olhos rodeados de um rosa intenso — fascinaram-no.

— Oh, não! Sem música dessa vez. Sei que você ama cantar, mas precisa ser o tempo todo? Agora?

— É o melhor remédio para seus problemas. — As sardinhas em suas bochechas reluziam como glitter. — Não é?

Ele revirou os olhos, mas simpatizou com ela.

— Que tal um sorriso, hein? — a jovem cutucou repetidamente a barriga dele, adorando como era fofa e macia, diferente dos outros trolls.

— Para, Poppy! — ordenou, rindo com cócegas.

Animada pelas gargalhadas, ela continuou os gestos. Num movimento rápido e preciso, ele a derrubou na cama, segurando seus pulsos contra o colchão de folhas e pele animal. Uma risada alta e graciosa escapou dos lábios da rainha, e o som o extasiou.

Poppy estava debaixo dele, tão quente quanto o sol do meio-dia. Seu perfume de morango invadeva seus pulmões, e Tronco percebeu, horrorizado, que seus olhos baixaram até seus lábios rosados, úmidos, e tentadores

— Tronco... — ela sussurrou, e seu nome nunca soara tão doce.

Ele deveria se afastar. Em vez disso, seus dedos traíram-no, enrolando um cacho de cabelo rosa em volta do indicador. O silêncio entre eles era vivo, pulsando como o coração acelerado que sabia que ela sentia contra seu peito.

O silêncio entre eles não era ausência de som, mas um véu espesso, carregado de tudo o que nunca disseram.

Tronco não respirava. Seu corpo como uma corda esticada demais, preso no espaço mínimo entre o desejo e o medo. A perna dele queimava onde o joelho de Poppy encostava, um fogo lento que ameaçava consumi-lo.

Ela engoliu em seco — o som pareceu alto demais no quarto apertado. Seus olhos baixaram, involuntários, traindo-a: o contorno dos músculos dele sob o colete de folhas, a tensão nos braços que a prendiam, o pulso acelerado que ela sentia contra seu próprio pulso.

O hálito dele pairou entre eles, fresco e doce como um convite. Poppy quase inclinou o queixo para cima, um movimento ínfimo, imperceptível, se não fosse pelo modo como os olhos dele escureceram ao perceber.

Então, como se tocado por um fio elétrico, Tronco arrancou-se dela. O colchão de folhas rangeu quando ele se sentou à beira da cama, as costas viradas como um escudo.

Poppy não precisava ver seu rosto para saber: as orelhas dele estavam vermelhas como frutas maduras, as mãos apertando o joelho como se precisasse se ancorar à realidade.

— "Tronco…?" Ela o chamou em um sussurro, mais corajosa do que se sentia.

Ele não respondeu. Mas quando ergueu a cabeça para olhar pela janela, o reflexo no vidro traiu-o: seus lábios estavam entreabertos, como se ainda sentissem o calor dela.

— Melhor irmos.

As palavras saíram ásperas, cortantes, como se ele tivesse engolido vidro. Tronco virou-se tão rápido que o casaco de folhas assobiou no ar, cruzando a porta antes que Poppy pudesse piscar.

O vácuo que ele deixou para trás doía.

Sozinha, Poppy enterrou o rosto no travesseiro ainda quente dele. O cheiro de terra molhada e como medo disfarçado. Um gritinho abafado escapou-lhe, misturando frustração, vergonha e aquela coisinha quente no peito que ela se recusava a nomear.

O travesseiro não julgava. Não via como:

Seus dedos enterravam-se no tecido como garras.

Seus pés chutaram o lençol sem ritmo.

Seu coração batia um compasso de "ele-quase-ele-quase-ele-quase".

Lá fora, o som de passos apressados ecoou no túnel do bunker — tão rápido quanto uma fuga.

***

5 anos antes

No reino, o conselho estava reunido em uma grande mesa, acima de uma escadaria. Observavam o treinamento de soldados.

O campo de treinamento fervilhava com o som metálico de espadas colidindo. Trolls guerreiros se moviam em sincronia brutal — alguns brandindo escudos de casca de árvore reforçada, outros usando seus cabelos como chicotes mortais. A lei era clara: apenas machos podiam portar armas em Whistlemen.

— Mantenham a postura de combate! — rugiu o General Rain, sua voz ecoando como trovão. Seu cabelo verde-musgo balançava enquanto inspecionava as fileiras, olhos azuis cortantes varrendo cada soldado.

Dois recrutas trocaram olhares nervosos antes de engajar:

O troll violeta atacou com uma estocada desajeitada, seu oponente, mais rápido, rodopiou e o cabelo amarelo chicoteou como um laço, derrubando o violeta no chão.

A banda real marcava cada movimento.

Um clarim de concha soou quando...

— INTRUSO! — Um sentinela irrompeu na arena, escorrendo sangue de um braço. — Ele voltou! Na entrada leste!

O Conselho Real quatro anciãos de barbas entrelaçadas com cristais, ergueu-se em uníssono. Rain agarrou o mensageiro: Quem ous...

A música parou. Todos congelaram.

—Preguiçosos como sempre, vejo. A voz melíflua cortou o ar como faca. — Deveriam reforçar a segurança.

Entre as sombras , uma figura branca como osso emergiu. Orchid dedilhou sua guitarra, produzindo um acorde dissonante que fez os trolls encolherem.

O príncipe renegado, banido há muito tempo, havia retornado.

— O que você faz aqui, Orchid? — sua voz ecoou como um tiro, fazendo os soldados mais jovens estremecerem.

O intruso sorriu, revelando dentes brancos demais, afiados demais. Seu cabelo branco como osso caía em ondas perfeitas, as pontas vermelhas pingando como sangue fresco. Quando seus olhos escarlates pousaram sobre Rain, o velho guerreiro sentiu um calafrio percorrer sua espinha.

— Tão hostil, Rain? Orchid afagou as cordas de sua guitarra, extraindo um lamento eletrizante que fez os cristais do teto vibrar. Depois de vinte e cinco longos anos, eu esperava... flores? Um tapete vermelho, talvez?

Rain avançou, sua espada desenhando um arco prateado no ar. Você foi banido. Sua presença aqui é sentença de morte.

Orchid riu, um som doce e venenoso como mel envenenado.

— Ah, mas veja... — Seus dedos dançaram sobre o braço da guitarra, produzindo uma nota que durou eternamente. — Eu só vim buscar o que é meu por direito.

— Seu trono? — Rain cuspiu no chão entre eles. Seus pais o amaldiçoaram no dia do exílio. Eu apenas completei o trabalho.

O príncipe renegado inclinou a cabeça as pontas vermelhas de seu cabelo branco brilhando como brasas. — Então vamos dançar, velho amigo. — Seu polegar roçou a pedra celeste em seu colar, que pulsou com luz esverdeada. — Você toca espada... eu toco o destino.

O sorriso de Orchid alargou-se, tornando-se algo próximo ao êxtase, quando seus dedos ossudos fecharam-se em torno da pedra azul-celeste.

— Tempo de lembrar por que me temiam.

A jóia pulsou como um coração, lançando raios de luz azulada que projetaram sombras dançantes nas paredes. Então...

O colar despedaçou-se no ar, e do núcleo da pedra, a escuridão jorrou como tinta em água. Formou-se um vórtice negro, sugando o som ao redor, até que a Criatura emergiu.

Era altura de dois trolls, sua forma indefinida esfumaçando-se nas bordas, como fumaça presa em vidro. Seus olhos não eram vermelhos, eram crateras incandescentes, queimando com a intensidade de forjas malditas. Nenhuma boca, mas um sussurro rasgado ecoava de dentro dela, como vozes distantes gritando em agonia.

Rain recuou um passo, apenas um, antes de endurecer a postura. Sua espada tremeluziu ao refletir aquela luz profana.

— Um espectro da Pedra Celeste... — murmurou, o horror disfarçado sob a raiva.

Orchid ergueu a mão, os dedos contorcidos como um maestro prestes a reger sua sinfonia de ruína

A Criatura avançou sem mover-se, deslizando sobre o chão como sombra projetada, deixando para trás um rastro de geada que crepitava contra o calor da sala.

Rain preparou-se para o golpe.

A música morreu.

O ar gelou.

E então...

Impacto.

Notas finais
Chegamos no fim desse capítulo, vou dar algumas explicações. Orchid era o príncipe da cidade de Whistlemen ( Literalmente quer dizer homem assobio, decidi colocar esse nome, porque a maioria dos instrumentos usados é de sopro), mas diferente dos outros trolls ele detesta música, por isso quando descobriu o poder da pedra celeste tornou-se mau, seus pais o baniram. A maioria dos nomes que irei colocar nos trolls tem significados, como o da Troll que atacou Tronco ( Storm- Tempestade), o líder do Conselho ( Rain- Chuva), (Orchid- Orquídea), tive essa ideia, porque percebi no filme que a maioria deles tem nomes da natureza.