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Notas iniciais
Acordei cedo, mas não levantei. Tinha os olhos vidrados no teto da barraca, mas minha mente estava em Elisabeth, ela era tão doce, tão frágil, tão perfeita. Teria mais seis dias aqui antes de ir para a Alemanha, e eu vou aproveitá-los com certeza. Mal posso esperar para contar para Mike, ele vai me zoar, mas faz parte. O único lado bom de ele estar internado é que eu tenho um motivo para ver Elisabeth discretamente, senão só poderíamos nos encontrar escondidos.
Finalmente levantei-me, fui até o banheiro mais próximo, fiz minhas higienes, arrumei meu cabelo, vesti minhas roupas, minha bota e fui para a enfermaria, mal posso esperar para ver meu amigo e minha garota.
Meu coração acelerava a cada passo que eu dava naquele chão ladrilhado e via a recepção se aproximando, eu parecia um adolescente apaixonado.
Passei pela secretária dando-lhe um bom dia, segui pelo corredor, finalmente entrei na ala dois. Andei até a cama de Mike e sentei na mesma cadeira do dia anterior, ainda não tinha visto Elisabeth.
– Bom dia, John — Ele me chamou — Viu um fantasma? Está fugindo de alguém? Não para de olhar para os lados.
– Bom dia, Mike, me desculpe — Ri — Está se sentindo melhor?
– Pronto pra guerra.
– Estamos de folga, re... — Parei de falar ao ver Elisabeth aparecendo no fundo do corredor, carregando uma bandeja com injeções e indo até a cama na frente da de Mike. Ela viu que eu estava ali e abriu um sorriso, eu já fazia isso desde a hora que tinha a visto, eu controlava todos os meus impulsos de ir até ela e beijá-la na frente de todo mundo ali mesmo, mas sabia que para o nosso bem eu não podia.
– John — Senti Mike me dando um forte tapa na nuca — Para de babar, cara — Ri — Como foi ontem à noite?
– Maravilhoso — Reparei que ela ouvia a conversa e tentou disfarçar um sorriso ao ouvir minha resposta. Levantei-me e sussurrei no ouvido de Mike — Eu acho que estou apaixonado — Sentei-me novamente e vi sua expressão de susto, felicidade e espanto ao mesmo tempo.
– Bom dia, Sr. Peterson, bom dia, John — Ela veio até onde estávamos.
– B-bom d-dia — Mike respondeu e me segurei para não rir.
– Bom dia, Elisabeth — Tentava parecer imparcial para os outros soldados ali, mas meus olhos me denunciavam.
– Está se sentindo melhor? — Ela perguntou para meu amigo.
– Sim.
– Tudo bem, então. Vou trocar seu curativo, ok? Pode doer um pouco, mas converse com seu colega para se distrair.
– Claro.
Mike e eu ficamos conversando sobre algum assunto aleatório, eu não tinha cem por cento de atenção na conversa, eu ainda olhava para Elisabeth e não me cansava daquilo.
– Pronto — Ela finalmente falou, jogando o curativo antigo no lixo ao lado da cama — Se precisarem de alguma coisa, é só chamar — Ela saiu e foi atender outro paciente que tinha um tiro no braço. Ele não estava ali no dia anterior, deveria ter chegado da batalha em Mâcon. Olhei bem para ele e vi que era Anthony Richards, o cara mais idiota do exército americano. Respirei fundo e prestei atenção na conversa dos dois, eles não estavam longe e a sala estava silenciosa.
– Está livre hoje à noite? — Senti meus punhos se apertando ao ouvir aquele cara.
– Não.
– Como não? Já tem outro encontro? — O tom de voz de Anthony se alterou.
– Não.
– Então por que não aceita sair comigo? — Ele segurou forte o pulso de Elisabeth e eu me controlava para não ir até lá e enchê-lo de socos, como ele se atrevia a tocar nela daquele jeito?
– Senhor, só estou tentando fazer meu trabalho.
– Seu trabalho é satisfazer a vontade dos soldados!
– Solta ela — Falei sério, ainda sentado.
– Ou o que, Phillips?
– Quer pagar pra ver? — Nesse momento, todos os soldados acordados e enfermeiras presentes estavam assistindo aquela situação. Richards me encarava raivoso, sabia que se ele não estivesse ferido já tinha se levantado e sairíamos na porrada.
– Pode ter certeza de uma coisa, Phillips, isso não vai ficar assim — Ele soltou Elisabeth e a vi passando a mão em seu pulso com a marca de dedos.
– Elisa, pode deixar que eu cuido dele — Uma loira disse se aproximando deles.
– Obrigada, Abgail — Ela disse com uma voz de choro e saiu apressada. Me levantei e fui atrás dela, precisava saber se ela estava bem, ela não podia e não merecia ser tratada de tal modo.
– Elisa — A chamei alcançando-a no corredor vazio. Ela parou, se encostou na parede e deixou-se deslizar até sentar no chão, ela escondia o rosto entre os joelhos. Naquele momento não me importei se alguém nos veria, cheguei até ela e me sentei abraçando-a, eu podia ouví-la chorando baixinho — Olha pra mim, querida — Ela levantou o rosto enxugando algumas lágrimas que caíam — Você está bem? Ele te machucou?
– E-estou bem — Ela sorriu parando de chorar — Mas estou com medo daquele homem, John.
– Não precisa ter medo, ele não vai fazer nada com você.
– Mas e com você? Ele disse que não ia ficar assim.
– Fique tranquila — Eu fazia um cafuné em sua cabeça — Não vai acontecer nada.
– Estou com um mau pressentimento — Senti ela se encolher em meu peito — Não quero que algo de ruim aconteça com você.
– Não vai acontecer nada, nem comigo nem com você — Dei-lhe um beijo na testa e olhei para os lados procurando algum expectador — Ele fala mais do que faz.
– Só tome cuidado, ok? — Concordei com a cabeça e nos beijamos ali mesmo, não tinha ninguém para nos ver.
– Elisa — Chamei retomando o fôlego — Eu sei que esse não é o melhor momento, mas...
– O que?
– Posso te ver hoje à noite? — Ela sorriu.
– Me espere na porta dos fundos do dormitório à meia noite, todas as meninas já estarão dormindo.
– Tudo bem — Dei-lhe um último selinho e nos levantamos, ela precisava voltar ao trabalho e eu tinha que encontrar o comandante para saber como tudo estava indo e as previsões do que teríamos pela frente — Tchau, meu anjo — Disse vendo-a entrar na ala dois novamente.
Saí da enfermaria e fui até o prédio ao lado, onde ficava o comando daquela região. Mesmo não estando em campo nos próximos dias, precisávamos saber o que estava acontecendo lá fora.
– Bom dia, Sr. Hamilton — Cumprimentei o comandante geral.
– Bom dia, Phillips.
– Como está o progresso da guerra, senhor? — Ele sinalizou para que eu me aproximasse de uma das mesas, e em pé, observamos um grande mapa da França.
– Imagine uma linha vertical em Dijon, cortando o mapa. Dessa linha, para a esquerda já conseguimos retomar dos nazistas, assim como a região sudeste, beirando a Suíça e a Itália. Em Nancy, Metz e Belfort estamos em batalha desde ontem, mas estamos ganhando. Há dois dias atrás, nosso informante viu algumas tropas da SS aqui em Strasbourg e em Mulhouse, com três tanques e cerca de cinquenta homens em cada cidade.
– Tem alguma previsão do que vamos encontrar assim que entrarmos na Alemanha?
– As noticias diárias ainda não chegaram, mas pelo andamento atual, eu diria que muitos homens e anti-tanques escondidos, para nos enfraquecer assim que entrarmos lá, com a estratégia certa conseguimos passar.
– E no ar?
– A Royal Air Force estava sendo massacrada pela Luftwaffe. Nos últimos dias chegaram mais reforços dos Estados Unidos, nossos melhores homens estão lá.
– Senhor! — Um soldado chegava correndo ofegante, ele segurava um envelope em suas mãos — Desculpe interrompê-los, mas chegou a carta do informante.
– Obrigado, soldado, está liberado — Enquanto ele se retirava, Hamilton abriu a carta habilidosamente e ficamos em silêncio por alguns segundos — Phillips... — Falou franzindo o cenho — Quer ouvir a boa ou a má notícia primeiro?
– Boa.
– A parte boa é que chegaremos à Alemanha mais rapidamente, as tropas da SS saíram de Strasbourg e Mulhouse.
– E a má notícia?
– É que pegaremos chumbo grosso na fronteira.
– Maior do que o previsto?
– Com certeza... — Ele suspirou e sentou-se em sua cadeira — Phillips, está tudo muito estranho nessa região, não acha?
– Como assim, senhor?
– Está tudo muito quieto, há semanas não aparecem homens, aviões ou qualquer outra forma de avanço nazista.
– Talvez eles tenham entendido que a guerra está chegando ao fim.
– Eu acho que não, você pode pegar quantos soldados da SS quiser, que eles vão lutar até o fim. Estou com um mau pressentimento em relação à isso, temos que ficar em alerta.
– Sim, senhor.
– Está liberado.
xxx
Faltavam dez minutos para meia noite, quando cheguei à porta dos fundos do dormitório feminino. A neve, que anunciava o inverno próximo, tinha começado a cair desde o fim da tarde e já tinha se acumulado pelas ruas.
Assim que deu exatamente meia noite, ouvi a porta se abrindo e vi Elisabeth saindo com seu pesado sobretudo preto, logo em seguida me abraçando.
– Estou com frio — Ela disse baixinho.
– Já passa — Passei minha mão com luva em seus cabelos, onde alguns flocos de neve paravam — Como foi o resto do seu dia? — Ainda estávamos abraçados, ela estava encolhida, deitando sua cabeça em meu peito.
– Tranquilo, e o seu?
– Nada além do normal, mas estava com saudades de você.
– Eu também. Se eu pudesse eu ficaria assim com você para sempre — Ela levantou sua cabeça e olhou para mim — Como isso foi acontecer? Quem diria que eu me apaixonaria à primeira vista, no meio de uma guerra?
– Eu só sei de uma coisa.
– O que?
– Mais tarde eu falo, vamos dar uma volta.
– Não acredito que vai me deixar curiosa! — Ri.
Saímos daquele prédio e passamos por trás de outras construções, se passássemos pelo acampamento provavelmente seríamos pegos. Dez minutos se passaram e chegamos numa pequena praça, onde tinha uma fonte inativa em seu centro, alguns bancos ao redor da fonte e muita neve acumulada sobre a grama.
Elisabeth soltou de minha mão, andou até onde estaria a grama, deitou na neve e ficou olhando para o céu.
– Vem, John! — Obedeci e deitei ao seu lado. O toque gelado dos flocos de neve em meu rosto era suave e bom, olhei para o lado, vi que ela tinha seus olhos fechados e um sorriso nos lábios, ela parecia estar em uma outra dimensão dentro dela, as vezes era ria levemente, mas sem nenhum motivo aparente. Resolvi dar-lhe um beijo, ela abriu os olhos e um grande sorriso.
– Estava rindo sozinha.
– Eu sei — Arqueei uma sobrancelha, eu queria saber o por quê — Eu estava imaginando a gente fora da guerra, sem ter que nos esconder de ninguém, sem ver pessoas feridas todos os dias... — Sorri ao saber que o "universo paralelo" em que ela estava, me incluía.
– Eu fiquei de te falar uma coisa quando saímos, lembra?
– Claro, o que é?
– Se sairmos vivos dessa guerra, eu quero me casar com você — Pude ver um misto de surpresa e felicidade em seu rosto — Você se casaria comigo? — Ela me deu um beijo — Devo considerar isso como um sim?
– Sim — Rimos e a puxei para cima de mim, seus cabelos escuros caiam sobre meu rosto, fazendo-me sentir aquele cheiro delicioso de camomila e mais algumas flores. Ela colocou as mechas que caíam, atrás da orelha e selou nossos lábios — Eu não quero que você vá... — Vi seu rosto com o semblante triste — Não posso imaginá-lo do mesmo jeito que os soldados que chegam das batalhas...
– Vai dar tudo certo, mas mesmo se acontecer uma coisa, eu vou ficar bem.
– Promete? — Aquilo não era algo que eu podia prometer, eu queria ter poder sobre isso, mas não estava em minhas mãos.
– Você sabe que isso é algo que eu não posso prometer.
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