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Notas iniciais
Naquela manhã haviam chegado muitos soldados feridos, e nesse dia em especial os ferimentos eram mais graves. Alguns estavam sem as duas pernas, outro segurava o braço que lhe tinha sido arrancado, estava pálido, não sei como ainda não havia morrido de hemorragia. Os médicos, junto com o resto das enfermeiras, corriam para lá e para cá, eram muitos casos de vida ou morte ali, o cheiro de sangue e o desespero dominavam o ar.
John ainda não havia aparecido, era muito cedo, provavelmente ainda estava dormindo, mas não pude deixar de pensar nele quando vi aqueles homens, não queria imaginá-lo naquela situação, segurando um de seus membros, sangrando até a morte. Talvez seja por isso que os namoros são proibidos, só de imaginar na hipótese eu não estava mais em mim, e o médico que precisava de minha ajuda urgentemente precisou pedir a injeção de morfina duas vezes.
– MAIS! — O soldado gritava desesperado, mas já havíamos aplicado muitas injeções, o excesso o mataria.
– Ele não vai sobreviver — O médico falou frio, mas a decepção em seu rosto estava clara — Perdeu muito sangue.
– MAIS MORFINA! — O soldado gritava e chorava. O sangue tinha começado a escorrer por sua boca, ele sabia que não resistiria — POR FAVOR! EU IMPLORO — Vi que as outras enfermeiras que estavam ao redor dele, assim como eu, seguravam as lágrimas, não o conhecíamos, mas era desesperador vê-lo naquela situação, era agoniante. Já tínhamos visto soldados morrerem antes, mas nenhum daquele jeito, tão sofrido.
Olhei para o lado e vi o doutor com uma grande injeção de morfina.
– Moça — Ele me chamou engasgando-se em seu sangue — Tem uma carta no meu bolso — Ele colocou sua mão ensanguentada sobre um bolso e seu peito — Peça para enviarem para Scarlet Thompson — Ele finalizou com a voz já fraca e a morfina foi aplicada. Em poucos segundos ele se foi, deixando aquele pequeno grupo de enfermeiras em choque. Pisquei os olhos rapidamente voltando para a realidade, lembrei do que tinha dito, peguei a carta em seu bolso e guardei em meu jaleco.
– Vamos, senhoritas — O médico chamou — Temos muitos outros para atender ainda.
Ele andou para outra cama e o seguimos, ainda haviam muitos homens para serem atendidos.
– Elisabeth — Ouvi Peterson me chamando — Está tudo bem?
– S-sim — Respondi ainda trêmula com tudo o que estava acontecendo.
xxx
Era hora do almoço, mas eu não estava com fome. Saí da enfermaria e me sentei no pequeno degrau em frente ao acampamento, minhas mãos e meu jaleco estavam cobertos com sangue. Tinha sido uma manhã muito chocante, minha cabeça se embaralhava em tantos pensamentos, que eu nem conseguia raciocinar direito. Ver aquele soldado, como tantos outros lá, naquela situação, vendo a morte e sua frente, era... Não há palavras para isso, ainda mais quando penso que John poderia ficar naquela situação ou ainda pior, meu coração se apertava.
Scarlet Thompson, quem deveria ser? Sua mulher? Sua mãe? Sua irmã? Como seria a reação dela e de sua família, ao saber que ele estava morto?
– Elisa? — John se aproximou, mas eu não olhei para ele, ainda pensava naquele soldado: "POR FAVOR! EU IMPLORO" — Seus gritos ecoavam em minha cabeça — Elisa, está tudo bem? — Fiz um leve sinal negativo com a cabeça e ele se sentou ao meu lado — O que aconteceu? — Sua voz mostrava preocupação.
– Conhece alguma Scarlet Thompson? — Perguntei finalmente olhando para aqueles olhos azuis.
– Thompson? — Ele pensou — Tem um soldado com esse sobrenome, se não me engano era James seu nome, mas Scarlet... — Ele pensou por alguns segundos, até que se lembrou — Scarlet! Isso, lembro-me quando estávamos vindo para a guerra, ele disse que mal podia esperar para ver sua menina. Sua mulher, Scarlet, estava grávida de uma menina... — Parei de ouvir. Ele nunca teria a oportunidade de conhecer sua filha, e ela nunca conheceria seu pai, Scarlet agora seria mãe solteira — Elisabeth? — Olhei para ele novamente — O que aconteceu?
– Ele está morto — John me olhou chocado.
– Como?
– Com um tiro no peito e um pé arrancado.
– Como sabe sobre Scarlet? — Tirei a carta do bolso, tentando sujá-la o mínimo possível.
– Foi seu último pedido — Entreguei-lhe o papel dobrado — Pode pedir para enviarem à ela?
– Claro, mas você está bem?
– Foi horrível, John, horrível! Nunca tinha chegado homens tão feridos assim, a maioria deles não sobreviveu, mas aquele homem... A agonia dele, se engasgando em sangue e a dor terrível que sentia... Eu não conseguia parar de imaginar você na mesma situação que ele — Ele me olhou surpreso — Eu não...
– Por que não tira o resto do dia para você? — Ele apertou levemente meu ombro.
– Não posso descansar enquanto pessoas morrem... Como essa família vai ficar? E não só a dele, mas todas as outras que perderam seus maridos, filhos, irmãos aqui, qual é o ponto dessa guerra?
– Calma... — Ele se levantou e me ajudou a ficar em pé — Vem, vamos tirar esse sangue de você e depois vamos almoçar.
– Não estou com fome.
– Não seja teimosa.
Fomos até um dos banheiros da enfermaria, ele esperou enquanto eu lavava as mãos e tirava meu jaleco sujo.
– Vamos? — Apareci na porta e fomos até uma lavanderia, aquele jaleco precisava ser bem lavado.
xxx
O dia finalmente tinha acabado e eu estava com John. Estávamos num beco entre os prédios ali da concentração, era noite, estava tudo escuro, para nos encontrarem era um pouco difícil, a não ser que estivessem nos procurando.
– Eu amo o seu beijo — John disse carinhoso e me deu outro beijo — Eu nunca estive tão apaixonado.
– Eu também — Sorri — Eu quero você só para mim — Dei-lhe um beijo — Você é meu?
– Sim.
– Resposta completa, por favor — Rimos.
– Eu sou só seu.
Continuamos namorando, até que ouvimos palmas pausadas vindas da entrada do beco.
– Vou vomitar com tanta melação — Não podíamos ver direito, mas era a voz de Richards, aquele soldado que tinha nos ameaçado — Esperto você, Phillips, foi só defender a garota que ela já abriu as pernas para você?
– Não ouse falar assim dela!
– Interessante! Vejo que isso não é apenas uma ficada... Tenho certeza que o comandante vai adorar saber disso.
– Qual é a necessidade de tudo isso? — Perguntei.
– Mulheres foram feitas para duas coisas, cuidar dos filhos e fazer o que os homens querem. No caso, você não fez o que eu queria. Mas, como eu sou um cara muito gente boa, eu posso não contar para o comandante.
– Se? — John perguntou dessa vez.
– Se ela fizer o que eu mandar.
– Nunca — Respondi.
– A escolha foi de vocês.
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