10 Dias Com Ela
3 Terceiro Dia
Notas iniciais

Terceiro Dia.
Um breu repentino se apoderou de minha mente e pude sentir uma mão segurando-me firmemente. Olhei para os lados a procura de alguém, entretanto, me vi sozinho mais uma vez. O toque era gélido, arrepiante e pareceu guiar-me de encontro ao inesperado. A escuridão tornara-se luz, trazendo a tona uma lembrança familiar.
Mesmo sem enxergar a presença que me segurava pelas mãos, sabia que era o Inconsciente ali. Um pedaço da minha mente, me guiando por um mundo paralelo ao meu real. Permanecer ao seu lado era algo reconfortante e estranho. Estar e não estar ao lado de si mesmo.
Flocos de neve caiam de maneira sútil, aumentando de forma estrondosa o frio que se alastrava por todo meu corpo. Todavia, tais acontecimentos não me afetaram em nada. Eu era insensível ao inverno. Tornei-me pior que ele.
Vi um garotinho logo a frente, rindo de modo divertido para o menino mais velho. Este segurava o velho balanço, empurrando-o com força. Surpreendi-me ao reconhecê-los. Um deles era eu, aparentava estar com aproximadamente cinco anos. Meu precioso nii-san estava ao lado, certificando-se de que tudo ocorria bem. Uma bela família.
Droga.
Senti uma vontade enorme de chorar, porém, minha armadura de orgulho tratou de impedir tal situação. Ela era como uma cicatriz, incomodava e aprisionava. Existem antídotos para feridas tão profundas?
Eles detectam a estranha presença e então acenam em minha direção. Devolvi o gesto em seguida, crendo que o meneio tenha sido resultado de um instante impulsivo. Corri em desespero, tentando alcançar uma felicidade que não me pertence. Ou talvez, que nunca pertencera. Minha pacata vida fora construída em tornos de mentiras e sacríficos alheios. Crianças não são capazes de entender o mundo, mas são responsáveis por mudá-lo. Contraditório.
Os alcancei segundos depois, todavia, eles somem no mesmo instante. Doce ilusão. O cenário ficou escuro novamente, servindo somente para aumentar minha frustração e raiva. Sempre sonhava com panoramas semelhantes, mas nunca me pareceu tão real.
De repente uma frágil menina apareceu, ela escondia-se entre as cerejeiras. Possuía cabelos rosados e uma franja desnecessária que cobria toda a testa. Sakura. Aproximou-se com certa timidez, parando após concluir o curto trajeto. Trazia uma delicada manta em seus finos dedos. A pequena Sakura olhou-me curiosa e se pôs ao lado.
— Venha, Sasuke-kun. – Puxou-me de maneira autoritária, assim como a atual costuma fazer. Tentava entender a situação, entretanto, a criança tomava toda a minha atenção. Tão distantes, mas ao mesmo tempo tão próximas. As fases de uma mesma Sakura. Sentamos em um espaçoso banco e então ela protegeu-me com a mirrada coberta.
— Porque está fazendo isso? – Perguntei com calma.
— Pra você entender que nem todos os dias do inverno são frios. – Choque. O que ela queria dizer com isso?
Não pude perguntar sobre a resposta do enigma, pois Sakura sumira repentinamente. Me vi sozinho pela segunda vez.
Trevas.
O Inconsciente me guiava novamente de volta a realidade.
(…)
Abrindo os olhos me deparei com a lâmpada fluorescente, apagada no momento, me dizendo que estou no hospital novamente. Não sinto mais a presença fria do Inconsciente, nem toda aquela neve. Apesar de que após ter sido coberto pela pequena Sakura, foi impossível não notar que uma quantia razoável de calor tenha me abraçado.
Remexendo-me naquela cama desconfortável, tentando achar uma posição menos dolorida, que acabei notando uma manta escorregar por meu torso. Tinha quase certeza de que havia adormecido sem ela. Então como poderia estar coberto? Lembrando-me subitamente do sonho, fiquei fitando a manta, quase furando-a com meu olhar, exigindo uma resposta do objeto.
Estava ficando louco.
— Bom dia, Sasuke-kun. – Uma Sakura, agora crescida, entrou no quarto com um semblante alegre. – Espero que tenha tido uma boa noite de sono, é essencial para sua recuperação.
Assenti em uma confirmação muda. Ela deve ter notado meu olhar um tanto confuso, e deduziu que fosse para os aparelhos que trazia em mãos.
— Vou medir sua pressão. – Explicou-a.
Sakura aproximou-se e começou com seu trabalho. Distraidamente fiquei observando-a, e acabei por perceber uma certa diferença em seu rosto. Ela estava usando maquiagem! Forçando meu cérebro tentei lembrar se algum dia a tinha visto arrumada desse jeito. A resposta foi não. Ou talvez nunca tenha realmente notado esse detalhe.
Queria parar de olhá-la, mas meus olhos aparentemente não queriam me obedecer. E foi assim que percebi a respiração dela ir ficando mais rápida, quase como se estivesse com dificuldade em respirar. Seus olhos piscavam no mesmo ritmo. Suas bochechas estavam mais vermelhas.
— Algum problema?
Sakura assustou-se com o som de minha voz. Disfarçando o constrangimento, ela abanou com uma mão de frente ao rosto.
— Ótima! – Desconversou.
Ergui uma sobrancelha em resposta.
— Pois não parece. – Retruquei. – Seria por causa dessa massa corrida que passou na cara?
Ela emburrou a cara na hora, porém não por muito tempo. Praguejando baixo, Sakura parou de medir minha pressão e se dirigiu ao pequeno sofá. Ela definitivamente estava vermelha agora, a coloração atingiu seu pescoço também. Essa reação não me era desconhecida, afinal eu ficava de modo não muito digno ao entrar em contato com poeira. Renite é um saco.
— Você é alérgica a maquiagem! – Zombei.
Bufando, e não me contradizendo, ela se dirigiu a porta.
— Vou fazer a alegria da Karin pela segunda vez essa semana.
Olhei-a de modo confuso.
— Ela vai vir medir sua pressão, – Esclareceu-a. – já que preciso urgentemente de um antialérgico. Não saia daí! – Completou me brindando com um olhar bravo.
Fazendo cara de inocente, indiquei com as mãos minha perna, em sinal de que não me moveria da cama.
(…)
Karin entrou minutos depois, ela trajava um jaleco branco e como de costume, rebolava mais do que o necessário. Provavelmente nunca perderia esse costume. A Uzumaki possuía uma autoestima elevada, sempre achando-se a mais desejável entre as demais. Chegava a ser engraçado.
— Como vai, Sasuke? – Perguntou com o faceiro sorriso no rosto.
— Já estive melhor.
Agradeci mentalmente por ela não prolongar uma conversa. Eu sentia apreço por Karin, afinal, fora minha colega de time. Mas se a encontrasse em algum lugar, jamais começaria um diálogo. Seria educado? Obviamente. Entretanto, isso já o suficiente.
Naruto comentara uma vez, que ela e Sakura ficaram amigas. Senti-me surpreso ao ouvir tal afirmação, porém, tudo encaixara-se perfeitamente. Karin não é muito diferente de Ino, ambas sempre foram espevitadas. Então porque não criar um laço de amizade? Já se familiarizara com o temperamento forte da Yamanaka, com Karin seria até mais fácil.
Olhando a ruiva, belamente arrumada por sinal, lembrei que minha mãe sempre falara que as mulheres embelezavam-se para conseguir um bom marido. E quando se é alérgica a maquiagens? Ri pela primeira vez no dia. Havia duas opções, Sakura não estava em seu perfeito juízo ou, queria impressionar alguém. Escolhi a primeira, é claro.
Karin aproximou-se, e logo regulou o aparelho em meu braço.
— Onde Sakura está? – Disfarcei a preocupação.
— Preocupado? – Riu maliciosamente, como se soubesse de algo que fosse óbvio.
— Não seja inconveniente, Karin. – Estava vermelho, minhas bochechas queimavam. – Claro que não estou preocupado, só perguntei porque Sakura saiu daqui apressada.
— Quando vai admitir? – Parecia se divertir com o meu constrangimento.
— Admitir o que? – Perguntei irritado. Karin mexia com fogo.
— Que gosta dela.
Não era de ficar calado, porém, ela pegou-me desprevenido. Só podia estar louca para insinuar algo tão absurdo. Sakura era só uma ex-companheira de time que me tirava dos eixos. Nada mais. Não tínhamos nenhum envolvimento amoroso. Definitivamente não havia!
Apesar de a achar linda com os cabelos presos em um rabo de cavalo, deixando alguns fios soltos. Mas isso era só um detalhe. Eu não era o cara ideal, e nunca seria. As marcas do meu passado teimavam em não me deixar, dificultando qualquer aproximação afetiva. Ela não merecia um Uchiha ao seu lado e sim alguém muito melhor. Não poderia deixar de admitir que Sakura é muito preciosa, daria uma ótima mãe e esposa.
— Quem cala consente. – Tirou o instrumento com um pouco de pressa e encostou-se na porta. – Aliás, vê se não demora, conheço muitos homens que dariam tudo para tê-la. – Virando-se e colocando a mão na maçaneta, ela parecia decidida a ir embora, porém parou seu ato e virou-se para mim. – A propósito, respondendo a sua pergunta, ela está bem. – Parecendo satisfeita com suas palavras, finalmente saiu.
Suas palavras martelavam em minha cabeça, e por incrível que pareça, me senti desconfortável ao pensar em Sakura com outra pessoa. A rosada sempre fora muito devota a quem eu costumava ser, e imaginar um passado sem aquela menina irritante, é sem dúvidas, estranho. Me afastaria dela se fosse preciso, não queria assombrar seu futuro. Eu era um maldito Uchiha, minha carga era pesada demais para dividir com outro alguém.
(…)
Não tive muito tempo para ficar pensando durante o dia, e agradeço por isso. Tive mais uma maratona de exercícios para recuperar meus movimentos, e alguns exames que averiguariam como estavam meus pontos de chakra.
Sakura apareceu em algum momento após o meio dia, e tentou começar diálogos comigo. Eu não queria ser grosso ou magoá-la com minha mudança de atitude, mas era preferível cortar o mal pela raiz, como diz o ditado.
Em meio aos exames, Naruto apareceu em uma visita acompanhado de Lee. O moreno parecia bem, e livre dos machucados que recebera na missão. Senti uma pontada de inveja dele, pois o mesmo sairia em outra busca em menos de 24 horas. Eu realmente quero sair deste lugar o mais cedo possível.
Os dois me atualizaram a cerca das movimentações de Konoha, e trouxeram mensagens dos nossos outros companheiros, Chouji, Shikamaru, e Kiba. Todos eles desejavam minha alta do hospital para irmos comer e beber juntos, como fazíamos nos velhos tempos. Podia não admitir em voz alta, mas sentia falta disso.
Quando tornei a ficar sozinho com Sakura no quarto, um silêncio estranho se instalou. Ela estava claramente incomodada com minhas atitudes, porém eu jamais lhe diria os motivos. Para evitar ficar olhando-a, comecei a ler um dos livros postos para meu entretenimento.
— Encontrei a Karin antes, ela parecia… diferente. – Comentou-a casualmente, querendo me instigar a falar alguma coisa.
Olhei-a por cima da borda do livro, tendo cuidado em manter meu olhar indiferente. Sakura parecia concentrada nos meus movimentos, buscando por alguma justificativa. Voltei meu olhar para as linhas daquele objeto usado como escudo, deixando-a sozinha com suas especulações.
Ouvi um suspiro pesado, e resisti fortemente a tentação de lhe olhar. O som de passos martelando contra o piso me avisou que ela vinha em minha direção. Sakura parou ao meu lado e mexeu no soro que havia secado, e retirou-o da minha veia. Sua postura era reta e rígida, de quem estava irritada.
— Dá pra ver que tem algo lhe incomodando, Sasuke-kun. Mas não vou lhe pressionar a falar nada, fique tranquilo. Não irei lhe incomodar mais com minhas atitudes, serei estritamente profissional a partir de agora. – Falou-a com um tom calmo que chegou a me surpreender.
Quando baixei o livro, sem saber o que falaria, me deixando levar pelo momento, deparei-me com as costas de Sakura. Ela estava indo em direção ao sofá, para pegar a pilha de papéis ali jogados. Sem me dirigir mais nenhum olhar sequer, saiu do quarto.
Fiquei fitando a porta com um olhar indefinido. O que eu queria? Que ela voltasse, e ficasse ali velando meu sono? Joguei o livro contra a parede oposta a mim, descontando minha súbita frustração.
De certa forma aquele quarto se tornou frio quando ela saiu, e deu espaço para a solidão aproximar-se de fininho e me abraçar. A tristeza enraizada no meu coração começou a subir, trazendo pensamentos e sensações bem conhecidos por mim.
Olhei para os lados tentando encontrar algum conforto, e para minha surpresa a manta estava elegantemente dobrada na mesinha à minha esquerda. Pegando o objeto com certa reverência, o trouxe para perto e afundei meu rosto em sua maciez. Me deixei levar pelas lembranças do antigo sonho, e me agarrei naquele calor imaginário.
Dessa vez ninguém viria me cobrir. Porém não entendi o por que disso me magoar.
Fale com o autor