10 Dias Com Ela
4 Quarto Dia
Notas iniciais

Quarto Dia.
Complicado.
Eu o definiria facilmente com essa palavra. Por um momento achei que o velho Sasuke voltara, estávamos nos dando bem, entretanto, todas as minhas perspectivas foram quebradas. Tratou-me como uma completa estranha, com frieza, soberania, repulsa. Talvez fosse somente um pensamento meu, afinal, sempre fui um pouco paranoica. Mas eu conhecia o Uchiha e aqueles olhos queimavam feito fogo enquanto analisavam-me.
Meu corpo vestiria uma armadura de ferro, todavia, meu coração estaria quebrado em cacos. Não forçaria uma nova aproximação, agiria como anteriormente, uma verdadeira médica. Profissional e fria. Apesar da rabugice e insolência, Sasuke fizera-me uma pessoa um pouco feliz nesses últimos dias. Uma luz parecia brilhar no fim do túnel. Distante, mas real.
Eu teria feito algo de errado? Absolutamente não. Era somente aquele bastardo tendo mais uma de suas crises existenciais. E não me meteria! Não mais.
O sol cintilava intensamente e os pássaros iam de encontro aos ninhos. A paisagem fazia-me sentir saudades de casa, passava mais tempo no hospital do que com minha família. Desejei tanto crescer, quando isso finalmente aconteceu me arrependi de cobiçar algo tão complicado.
Essa maldita palavra estava em todos os lugares.
— Yo, Testuda! – Ino abriu a porta como se o escritório lhe pertencesse. Porca ousada.
— Porca. – Inclinei minha cabeça de maneira sútil, não estava a fim de ter uma conversa prolongada. Eu merecia ficar um pouco sozinha, sem preocupações e tensões.
— Credo, Sakura. Até parece que alguém morreu. O que aconteceu? Aquele Uchiha de novo?
— Também. – Suspirei pesadamente. – Coisas do hospital, como sempre.
— Testuda, Testuda. – Pronunciara novamente enquanto se sentava de frente a mim, no outro lado da mesa. – Sabe do que você precisa? De um namorado. – Olhei-a assustada. – Vários homens dariam tudo para ter um encontro com uma das melhores médicas do hospital de Konoha, mas você parece não saber, ou finge. – Seu sorriso era malicioso. – Lembra do Hideki? Andam dizendo por ai que ele está interessado em você.
— É verdade? – Deveria estar vermelha feito uma pimenta. – São só boatos. – Tentei desconversar.
— Pense bem, – piscou. – Hideki é inteligente, simpático e o mais importante, gostoso.
— Porquinha! – Segurava o riso. – Pensarei, prometo. – Sorrir era inevitável, pois Ino sempre conseguia me animar.
— Vou indo, tenho pacientes me esperando. E não se esqueça, reflita com carinho. – Dizendo isso ela saiu porta afora.
Não era um conselho tão absurdo, eu realmente estava precisando sair com alguém. Há tempos vivia sozinha, saindo apenas algumas vezes e com os mesmos amigos. Novidades são bem-vindas, ainda mais se tiverem uma forma tão bonita. Já encontrei com Hideki algumas vezes, inclusive trabalhamos juntos em uma operação e mostrou-se muito prestativo. Um homem de qualidades.
Terminei de fazer alguns relatórios que estavam atrasados e verifiquei um de meus pacientes, o hospital estava mais lotado do que o normal, consequência das várias missões que eram incumbidas aos shinobis. Crianças também eram alvo de várias intoxicações, elas sempre teimam em comer algo não adequado.
Um dos benefícios de trabalhar em um lugar que envolve tantas pessoas é conhecer a história que se esconde por trás delas. A surpresa vira clichê quando trata-se da população de Konoha, a maioria passara por diversas dificuldades, todavia, sempre as enfrentaram com garra e alegria.
Andei mais um pouco pelos corredores, tentava adiar a todo custo minha próxima tarefa. Respirei fundo algumas vezes, tendo a certeza de que aquilo seria muito cansativo. Sugaria minhas energias, forças e determinação. Maldição.
O Uchiha esperava-me na porta ao lado.
(…)
Dei algumas batidas na porta antes de entrar, entretanto, não ouvi ruído algum em oposição. Sasuke possivelmente dormia, mas presumi que não quisesse me responder. Típico. Adentrei sem consentimento e acabei encontrando-o em sua cama, lendo algo que eu não consegui discernir.
Pareceu não me notar, pois continuava com o rosto na direção do pequeno livro de capa vermelha. Sua mão direita segurava-o com precisão, o Uchiha era habilidoso mesmo com os movimentos mais simples. Os modos poderiam ser facilmente equiparados a de um Senhor feudal. Seu sobrenome não deixava dúvidas.
— Vai ficar me olhando até quando? – É claro, ele é Sasuke Uchiha, sentia até mesmo a presença do mais miserável dos seres.
— E quem disse que eu estava olhando pra você? – Ele finalmente olhou-me, mas parecia duvidar da minha resposta. – Tentava ver o nome do seu livro, somente isso. – Me surpreendi com a resposta repentina, estava ficando boa nisso. – Parece melhor, Sasuke. Sente algum incômodo?
Nosso contato visual fora quebrado, pois outra voz masculina se sobressaiu no quarto. Um homem alto abria a porta de maneira tímida, pude perceber uma certa insegurança ao segurar a maçaneta da porta. Trazia uma pasta em suas grandes mãos.
— Sakura. – Sua voz soou pelo cômodo. Isso sim era uma agradável surpresa.
— Hideki? – Não esperava vê-lo tão cedo, provavelmente Ino estava tramando algo. Vaca.
Vi-me paralisada por alguns instantes. O enfermeiro possuía uma beleza angelical, seus olhos eram azuis, mas continham um fundo esverdeado e ainda cabelos da cor mel, que ganhavam um aspecto ruivo quando eram expostos a luminosidade solar.
— Ino pediu para que eu lhe entregasse esses relatórios. – Então sorriu, dando-me a certeza de que ele era um dos homens mais bonitos que eu vira em toda a minha vida. Como alguém assim poderia estar interessado por mim? Céus!
— Ah! Entendi.– Alguém observava-me, podia sentir os olhos cravados em minha direção como se estivessem me queimando viva. Tinha a certeza de que ele me seguiu com os olhos quando fui em direção ao belo homem ali presente.
Sasuke, porra.
— Obrigada. – Sorri nervosamente. – Ino é mesmo uma preguiçosa, não aguenta nem mesmo vir até aqui me entregar esses papéis. – Cocei minha nunca em desespero, assim como Naruto costuma fazer. – Nos vemos por ai, tenho de voltar ao trabalho.
Dei alguns passos para então sentir uma mão segurando firmemente. Hideki me levara ao seu encontro, me direcionando um pouco para fora do quarto, e disse coisas que eu não esperava ouvir. Sua voz era reconfortante, trazia paz e proteção, todavia, continha uma sensualidade envolvida que me deixava sem nexos. Não pude deixar de corar, ele convidara-me pra sair e enfatizou o fato de eu estar mais bonita do que o normal.
Continuei olhando-o enquanto ele seguia pelo corredor, me deixando flutuante na porta com um bilhete contendo seu número. Entrando no quarto levei um choque com a mudança de clima, tensão dançava por todo canto.
— Últimos Dias. – Falou-o com uma voz seca.
Olhei para ele confusa. Sua resposta foi somente erguer o livro em suas mãos, mostrando-me a capa. Só então entendi sua fala. Últimos Dias era o nome do livro que ele lia, e pela ilustração não me parecia algo alegre.
— Hm. – Copiei sua resposta usual, e fui retirar o soro de seu braço.
Mexia-me de modo automático, enquanto meus pensamentos estavam sobre o que responder para Hideki. Deveria ou não aceitar sua proposta para sair? As palavras de Ino batiam na minha cabeça como se incentivassem a dizer sim.
Em meio ao meu trabalho reparei quase sem querer que Sasuke me lançava um olhar acusatório, mesclado de alguma coisa que não consegui identificar. Ele estaria com ciúmes? Quase ri dessa ideia, era tão absurda.
— Parece uma criança quando recebe um doce. – Zombou-o, com um olhar malicioso. Quase podia ver aquele Sasuke do primeiro dia, brincando com o meu ego. – Feliz com o seu pirulito?
Essa cutucada acionou minha raiva.
— A única pessoa que está agindo como criança aqui é você. – Falei de modo calmo, tentando disfarçar a vontade de apertar aquele pescoço delgado e branco.
— Pela sua reação estou supondo que finalmente vá ter seu primeiro encontro! Só não estranhe se o cara quiser mais que um beijo. – Atacou-o sem dó.
Apertei o algodão mais forte do que necessário em cima do furo na veia.
— Agradeço suas dicas, Sasuke. Mas sobre matérias de encontro já sei tudo de cor e salteado.
Me dirigi ao banheiro levando o lixo hospitalar como desculpa de fugir da sua presença. Maldito! Fazendo insinuações assim tão abertamente de que sou uma menininha inocente. Eu podia ler claramente naqueles olhos negros dissimulados que ele acreditava na possibilidade de eu ter me guardado para ele. Oh, como ele estava enganado.
Se bem que ele não estaria tão enganado assim há algum tempo. Mesmo após ele ter deixado Konoha anos atrás para ir em busca do seu sonho de vingança, uma parte minha tinha esperança de que ele voltasse mais cedo. Aquela Sakura tinha se guardado para ele, e continuaria assim se a desesperança e um belo médico não tivessem entrado em minha vida.
Sorrindo para meu reflexo no pequeno espelho, lembrei-me de como senti um mundo de preocupações pesarem em minhas costas, e de como as coisas foram bem diferentes do imaginado. Se eu me arrependia de ter dado aquele passo? De maneira alguma. Aquele caso esporádico me ajudou a crescer na matéria de relacionamentos, não só fisicamente, emocionalmente também.
Voltei para o quarto determinada a não deixar os comentários de Sasuke me incomodarem. Puxei a Sakura profissional e a posicionei bem a minha frente, ela era minha armadura. Ignorando seu olhar sobre mim fui para um canto do local e peguei as muletas, ele deveria ter mais uma sessão de treinamento. Não lhe dirigi um olhar sequer enquanto o ajudava a se posicionar em pé.
— Sakura. – Sua voz cessou minha ida até a porta para abri-la e o ajudar a sair do quarto. Quando virei acabei por encontrá-lo me olhando de modo indagador. Eu sabia qual era sua pergunta sem ele nem ao menos pronunciar.
Bufei pela sua insistência no assunto.
— Você realmente quer saber? Pois bem. Eu não sou mais...
— Já entendi. – Ele me cortou. Dava para perceber que ele queria parecer indiferente, mas o pequeno vinco entre suas sobrancelhas o denunciava.
— Mas isso e aquele alguém já são passado. – Retruquei sem saber o por que de eu querer dar alguma satisfação a ele. – Vamos para sua sessão logo, ou a Shizune vai vir lhe buscar e ela não costuma ser tolerante com atrasos.
Desta vez Sasuke me seguiu sem dizer mais nada.
(…)
Sasuke evoluiu de maneira significativa. Esse já conseguia manusear as muletas de maneira precisa, entretanto, pecava em alguns aspectos. Na verdade, em somente um deles, a teimosia. Shizune ficara impressionada com o desenvolvimento do moreno, nunca pensara que ele fosse assim, tão excepcional.
Vê-lo tão focado nessa tarefa fez-me sentir falta da nossa pré-adolescência. Sasuke sempre tivera uma perseverança fora do normal, contudo, éramos muito próximos na época. Ele nunca admitiu, mas eu era sua melhor e única confidente. Sempre estive preparada para ouvir seus desabafos, por mais que não os chamasse assim. Talvez pensasse que era somente um diálogo insignificante, no entanto, possuía um valor muito maior.
Havia descoberto o verdadeiro significado do amor.
Suspirava diante de suas habilidades e deliciava-me com seus pequenos sorrisos. Porém, aprendi que isso não era o principal. Nunca foi. Comecei a admirar seus defeitos, perdoar seus erros e vê-lo com transparência. O verdadeiro Sasuke e não um Uchiha.
Apesar das tempestades, os dias bonitos prevaleceram sem sobra de dúvidas. O time sete era abençoado, logo sentia-me da mesma forma. A vida de um shinobi parecia sedutora demais, contudo, a sedução deixara cicatrizes permanentes. Nos ensinou que o trabalho de equipe é o melhor caminho e que devemos honrar nossos companheiros, pois esses são parte da família. Parceiros de alma.
Me dirigi ao escritório e deparei-me com algumas fotos antigas. Sentei na poltrona e observei-as por longos minutos, entretanto, o cansaço tomou-me tempos depois. Não parara durante um segundo, as mãos doíam e minha cabeça latejava, todavia, nada disso me importara. Antes mesmo de adormecer um sorriso de dever cumprido surgiu em meus lábios, tornando tudo aquilo ainda mais prazeroso.
Não tinha muitas certezas, queria apenas acordar pela manhã e ter a dádiva de ser uma simples médica, encontraria os meus pacientes pelos cantos do hospital e os daria um abraço bem aperto, dizendo que tudo se resolveria e que faria o possível.
No entanto, ainda tinha o mais importante, a missão que me fora designada: Sasuke Uchiha. Esse sim era um verdadeiro desafio e eu definitivamente adorava vencê-los.
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