Já naquela época eu pensava se alí era realmente o meu lugar, me perguntava o que havia de errado comigo para não ser aceito por meus semelhantes...
Tive a criação rigorosa de uma familia tradicional chinesa e estudei desde pequeno em uma tradicional escola de Xangai, minha cidade natal. Porém minha alma era grande demais para ser presa aos costumes do país e regras da escola, era frequêntemente repreendido pelos mestres e ignorado,humilhado, motivo de chacota para os outros alunos. Não tinha amigos, vivia sozinho e com medo, sem saber me defender. Até que num dia qualquer de meus recentes 8 anos, fui abordado no caminho pra casa por outras crianças que costumavam me perseguir. Pensaram que eu iria fazer como sempre, obedecer para não ''sofrer'' muito — era assim que eles diziam antes de me perturbar — mas neste dia, eu estava revoltado, cansado de todas as maldades que faziam comigo; crianças sendo cruéis com outras crianças... Então revidei a provocação, pensei que poderia me defender desta vez, mas eu estava enganado! Apanhei como nunca na vida, eles levaram meus sapatos e minha mochila, me deixando ali na rua como um semi-morto, fiquei sem saber o que fazer. Eu acabara de ser espancado mas estava feliz não ter simplesmente ficado quieto, pela primeira vez eu mostrei que sangue corre em minhas veias. Quando finalmente consegui chegar em casa, levei outra surra de meu pai, Lee Yeng, por não saber me defender e o envergonhar perante a vizinhança — meu pai era um dos melhores mestres perfumistas de Xangai e Nanquin e costumava ser muito duro comigo — suas palavras estão em minha mente até hoje: ''Não coloquei filho no mundo para ser fraco e trazer desonra para nossa familia'' . Depois disso não fui capaz de olhar em seus olhos ou chamá-lo de pai até uma certa idade. Na escola as coisas ficaram cada vez piores, mas meu sofrimento durou mais cinco meses, cinco longos e dolorosos meses. os negocios do honorável Lee Yeng estavam em decadência em Xangai e Nanquin, mas a filial brasileira prosperava cada dia mais. Por este motivo deixamos a China em Julho, rumo ao Brasil. Eu estava nervoso, afinal não estava mudando de uma província para outra e sim de um continente para outro. Meu português não era bom nesta época, muqin — ou ma,que quer dizer mãe em chinêsme colocou na academia de linguas aos três anos e desde os seis anos, decidi me dedicar à lingua portuguesa, pois ma havia nascido no Brasil e, sabendo dos negocios do honorável Lee Yeng, era meu dever aprender português. Em dois anos havia evoluido muito, mas não o suficiente para agradar o honorável mestre. Contudo uma enorme sensação de alívio e liberdade tomava meu coração naquele momento, me via livre das perseguições... Não conseguia pensar em nada no caminho até o aeroporto nem dentro do avião, apenas lembro das unicas palavras que murmurei ao decolar o avião até chegar ao Brasil, ''adeus, China ...''