- Legado -
2 - Pequenas garotas más tem irmãos bonitinhos.
— Hey! — Fez Michelle ao atravessar a rua de calçada tão límpida quanto um cristal de Swarovski — Vocês estão vendendo limonada ou algo do tipo?
Michelle não era tímida, na verdade, ela e as amigas costumavam rir de garotas facilmente envergonhadas. Mas naquele instante, ela torceu para que a menina na barraca não entendesse “algo do tipo” como uma espécie de tráfico de drogas, algo como uma feira da cocaína à céu aberto, em redcups. Por tanto ela meio que corou
— É — Piou a garota — Limonada rosa.
O garoto bonitinho estava de costas para Michelle, mexendo em uma das caixas térmicas. Murmurou alguma coisa para a irmã e com passos largos foi para dentro de casa.
— Mas e aí, vai querer alguma coisa ou vai ficar só olhando? — A garota perguntou sem rodeios.
Por um instante Michelle tentou se lembrar se à dois anos atrás — quando também tinha 15 anos — ela também era assim.
É, ela era.
Ela apalpou o bolso traseiro de sua calça jeans Banana Republic e por sorte encontrou uma nota de dois reais perdida entre algumas antigas notas fiscais. A última vez em que ela vestira aquele jeans fora na semana passada, quando teve seu último encontro com Miguel Ferreira, o veterano bonitinho do time de futebol da sua antiga escola.
— Toma — Michelle largou a nota azul em cima da mesinha dobrável — espero que dê para comprar alguma coisa com isso.
A garota olhou da nota de dois reais aos olhos verdes de Michelle.
— É dois e cinquenta — Rebateu a menina, só então Michelle reparou nas pequenas sardas que polvilhavam suas bochechas — mas eu gostei de você e te vi saindo da casa dos Albuquerques.
Michelle arqueou ambas as sobrancelhas bem feitas e assentiu lentamente. Meio que não entendendo nada.
Meio, não.
Ela não estava entendendo nada mesmo!
— Sua avó e eu eramos meio que amigas — Disse a pequena negociante com um tom de confissão. Com todo aquele seu jeito, não era difícil imaginar que a menina só tivesse amigas da terceira idade — Ela sempre me comprava Bagels na Dean & Deluca...
Minha vó nunca me deu nada, pensou Michelle.
Charlote Albuquerque era o nome da avó de Michelle. No final dos anos 50 ela estourou como cantora de Ópera, lotando o teatro de São Paulo de apreciadores e curiosos. Depois, em 65, ficou grávida de Sasha, mãe de Michelle. Ela sempre fora uma mulher à frente de seu tempo, dormira com alguns lordes e teve até um namorico com um príncipe romeno.
Mas ela raramente visitava a neta, tudo isso porque ela e o pai haviam discutido por alguma besteira.
Era meio injusto que Michelle só visitasse a casa da avó depois de sua morte.
E ainda descobrisse que ela pagava deliciosos Bagels para uma pirralha metida a adulta.
— Pois é, vovó vai fazer falta — Murmurou Michelle e a garota assentiu, em silêncio. Enquanto enchia um dos redcups com a limonada rosa.
— Estou sem açúcar — Comentou a menina, passando os dedos molhados da limonada na sua blusa Marc by Marc Jacobs de alcinhas — Mas o meu irmão, Igor, foi lá dentro buscar.
Ela assentiu.
Então o garoto bonitinho se chamava Igor?
Como se atendesse por telepatia o chamado da irmã, Igor apareceu na porta com um pote de vidro cheio de açúcar refinado.
É claro que ela não pode deixar de reparar no garoto. Ele era alto, tinha ombros largos, um cabelo ruivo que aparentava ser macio e — assim como a irmã — tinha algumas sardas ao redor dos olhos azuis claros.
Por um instante ela se perguntou se todos os garotos em nova Hatzel eram como Igor.
Bom, a maioria tentava.
— Aqui está — Disse ele entregando o recipiente à irmã.
Michelle achou aquilo totalmente bonitinho.
O irmão dela nunca a ajudara nem a fazer as tarefas escolares. Estava sempre ocupado com o time de futebol — ou com o seu Xbox.
Mas ela não podia reclamar, ano passado saíra com uns quatro garotos do time.
— Essa é...qual é o seu nome mesmo? — Perguntou a menina sardenta enquanto entregava a limonada em sua mão.
— Michelle.
— Essa é Michelle Albuquerque — A garota completou, por algum motivo essa gente gostava de sobrenomes. Ou talvez fosse só o dela — Era ela quem estava se mudando para cá, ontem.
Michelle corou por estar sendo meio exposta. Igor apenas assentia, o que logo demonstrava que sua curiosidade sobre Michelle não passava de curiosidade de vizinhos.
Ela deu mais uma olhada em Igor, ele estava de braços cruzados, os braços fortes e a pele um pouco rosada fazendo contraste em sua camiseta polo Ralph Lauren de cor azul claro. Ela estava a mais ou menos um metro e meio de distancia do garoto, mas podia sentir seu cheiro de fragrância 212 Men.
O irmão usara este perfume um ano inteiro.
Mas ela não se incomodava se Igor estivesse o usando.
Ela tomou um gole da limonada da irmã de Igor. Estava boa, e bem adoçada também. Qualquer coisa seria melhor que tomar aquele bendito suco de grapefruit que a mãe religiosamente tomava todas as manhãs.
— Você vai para a Escola Padre Hatzel? — Quis saber a irmã caçula, servia agora um pouco de limonada para si mesma.
— Acho que si...
— Provavelmente. Só tem uma escola em toda Nova Hatzel — A menina cortou Michelle — Talvez vocês dois sejam colegas. Igor está no último ano — Explicava a menina. Ela não parecia uma irmã mais nova, e sim uma mãe que apresenta o filho em uma daquelas reuniões cheia de diretores de escolas renomadas.
Por azar, Michelle sabia bem como era isso.
— Bom, eu também estou no último ano — Comentou Michelle, deixou o copo vazio em cima da mesinha dobrável.
— Interessante — Fez Igor.
Mas o quê era interessante?
— Qual é o seu nome? — Decidiu perguntar Michelle, antes que cometesse uma gafe e chamasse a garota por outro nome.
— Daniele Vogelman — Ela estendeu a mão para um aperto de mãos. E Michelle, é claro, apertou.
— Sobrenome bonito — Comentou Michelle, apenas para o assunto não acabar ali no aperto de mãos — É alemão?
— Sim — Disse Igor, se intrometendo — Aos poucos você vai aprender que sobrenomes abrem portas aqui em Hatzel.
Daniele terminou de servir mais uma limonada no copo vermelho.
— Ou as fecham — A menina agora tinha um sorriso malicioso em seus lábios de garotinha mafiosa — Mas e aí, quer mais limonada? É por conta da casa.
Sim, e embrulhe o seu irmão para a viagem também.
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