- Legado -
3 - Uma garota má precisa de uma amiga má!
Michelle ficou na calçada dos Vogelmans até o meio-dia — Horário em que a Sra.Vogelman apareceu na porta e anunciou o almoço. Daniele até fora bem gentil a convidando para ficar. Mas Michelle não se sentiria à vontade em meio de gente tão impecável, muito menos dividindo a mesma mesa com Igor.
E além do mais, a sua mãe parecia estar tostando alguma coisa em casa. O cheiro ocre de queimado se espalhou rápido pela vizinhança.
— Estas panelas estão deploráveis! — Reclamava a mãe quando Michelle chegou em casa — não se pode nem mesmo fazer um molho bechamel decente...
Michelle pensou em dizer que a mãe nunca fizera um molho bechamel em toda a sua vida. Em Novo Hamburgo, quem fazia o almoço era a empregada. Á noite os Albuquerques saíam para comer sushi ou então o pediam por telentrega. Sempre era assim.
— Fez amizade com os vizinhos da frente? — Quis saber a mãe.
Ela não saberia responder. Ela fez?
— Nós ficamos conversando — Michelle enrolava uma mecha de seu cabelo castanho com luzes em seu dedo indicador — a garota mais nova conhecia a vovó.
De repente Michelle foi pega de surpresa pelo chiado da panela quente sendo colocado em baixo da torneira. Depois uma fumaceira fedorenta tomou a cozinha.
— Todos aqui conhecem a sua avó — Disse Sasha, sem parecer se importar com o estrago que havia feito em uma das panelas de inox.
— Mas elas até compravam bagels juntas na Dean & DeLuca — Michelle dera de ombros.
Sasha lançou um olhar repreensivo à filha.
— Se eu não te conhecesse, poderia jurar que estava com ciúmes — Sasha arrumou um fio solto de seu cabelo castanho avermelhado — Podemos ir juntas à Dean & DeLuca, mais tarde.
Michelle dera de ombros novamente.
Ela meio que sentia ciúmes, sim. A avó era sem dúvida a mulher mais magnífica que ela já conhecera. Nas poucas vezes em que a avó lhe visitara em Novo Hamburgo, ela dera muitos conselhos à Michelle sobre os garotos —Na época ela ainda estava apaixonada pelo garoto loirinho que trabalhava na Mormaii do shopping.
— Uma velha amiga minha pretende nos dar uma festa de boas vindas à vizinhança — Sasha dizia enquanto pegava uma nova panela. Para queimar mais alguma coisa.
Tudo o que Michelle fez foi dar um longo bocejo. A limonada rosa na barriga começara a dar voltas.
Uma festa de boas vindas seria algo cafona de mais. Ela já podia até imaginar o discurso que seria lido pela tal amiga da mãe.
“Estes são os Albuquerques, nossos novos vizinhos. O Sr.Albuquerque, um advogado desempregado. A Srta. Albuquerque, uma socialite que está tentando se transformar em uma dona de casa. Temos também Vinícius, o futuro novo Messi. E por último, Michelle, a salvação da família”
Então ela entraria com o seu vestido Oscar De La Renta novinho em folha e seguraria um buquê de gerânios azuis entregados por Igor. Ele sussurraria algo bem sacana no ouvido dela, algo sobre o que ele faria com o vestido depois que a festa acabasse.
Daniele morreria de inveja de sua entrada triunfal.
Mas ela podia ficar com os bagels dela.
— Ai!
O grito da mãe queimando o dedo na panela quente fez a doce imagem de um Igor de smoking desaparecer.
— acho melhor pedirmos algo pelo telefone — Sasha bufou.
# # #
Quando a mãe disse que seria melhor pedir comida pelo telefone, Michelle não imaginava que essa comida seria China in box.
— Sou alérgica a frutos do mar — Lembrou Michelle enquanto olhava para o pedaço nojento de lula na caixinha de papelão de Vinícius.
Ela mal tocara seu Yakissoba, queria comer alguma comida de verdade. Até pensou em bater na porta dos Vogelmans e mendigar por um pedaço de sua comida orgânica — Michelle ouvira Daniele comentar sobre o almoço.
“Olá, sra. Vogelman, será que a senhora poderia me dar um pedaço de carne de soja? Aceito um pedaço do seu filho, também”
— Eu e Vinícius vamos dar uma arrumada nos canos da pia do banheiro — Disse o pai, enfiara uma porção da massa na boca.
Mais uma vez Michelle se perguntou se o pai sabia manejar um martelo.
Ela meio que já estava se esgotando com toda essa história de mudança. Parecia que todos ali estavam mudando suas personalidades; a mãe estava tentando ser a dona de casa do ano, o pai estava arrumando encanações quando na cidade, ele ligaria para um encanador. Os únicos que ainda se mantinham originais eram ela e Vinícius — E ela não se surpreenderia se de última hora ele largasse o futebol para virar jardineiro.
— Aproveitei que estávamos no shopping e...— Vinícius começou, cutucava o pedaço de lula — comprei um par de chuteiras novas — Vinícius finalizou e Michelle ficou feliz por ele não ter comprado uma tesoura de jardineiro.
— Michelle fez amigos novos — Sasha disse, apoiando a mão encima da do marido — Não é, filha?
— É, é sim.
Vinícius deu um pigarro, olhou para a irmã.
— Avise para aquele branquelo do outro lado da rua, que se ele der em cima da minha irmã, eu vou deixar a cara dele roxa — Disse Vinícius, se referindo a Igor.
Michelle apenas revirou os olhos.
— Oh! — Fez Sasha — Você já tem um paquera?
O pai olhou para ela com um olhar falsamente severo.
— Não! — Piou Michelle — Ele é só o meu vizinho...
Por um instante, ela sentiu total firmeza no que acabara de dizer. Igor era só o vizinho bonitinho dela.
— Seu pai e eu também eramos apenas vizinhos — A mãe disse toda cheia de um entusiasmo que Michelle fingiu não ver — Não é, querido?
— Sim — Fez o pai — Sua mãe morava aqui, na alameda doze. Eu morava na rua vinte e dois. Nos víamos na escola todos os dias.
Michelle revirou os olhos enquanto Vinícius fingia estar roncando de sono.
O delicado som da campainha ecoou por toda a casa.
— Eu atendo! — Disse Michelle enquanto Vinícius se levantava do sofá. Qualquer coisa que a fizesse fugir do assunto romance estava válido.
Quando Michelle abriu a porta, viu uma mulher de aparentemente 46 anos, olhos castanhos, cabelos loiros. Ao lado dela estava uma menina da idade de Michelle. E ela não pode deixar de reparar no quanto a menina era bonita.
Tinha aquela expressão meiga, cabelos negros como breu e afiados olhos cor de jade. Vestia uma camisa pucci idêntica à que Michelle comprara em Novo Hamburgo. Ela meio que a lembrava de Daniele.
Reparou na cesta nas mãos da mulher.
— Olá. Sou amiga da sua mãe — Se apresentou a mulher — Cátia Fiorentino. Sua mãe está?
— Claro — Michelle disse — Mãe, Cátia Fiorentino está aqui! — Gritou da soleira da porta. Cátia pareceu tomar um pequeno susto.
A mãe se levantou da mesa e, quase correndo, foi até o pequeno hall, onde a mulher e a garota estavam.
— Cátia! — Exclamou a sra. Albuquerque ao ver a amiga — Você está tão...magra! — a mãe abraçou a amiga e então olhou para a adolescente de cabelos negros — E esta deve ser a Patsy!
Patsy retribuiu o sorriso enquanto a Michelle encarava as unhas que precisavam urgentemente de uma manicure.
# # #
Michelle estava sentada no chão acarpetado do seu quarto, onde o silêncio reinava. Exceto pela televisão ligada em uma reprise de America's next top model. Ela decidiu pegar alguns esmaltes MAC que ela havia pego emprestado —e nunca mais devolvera— de Natasha, sua melhor-amiga-para-a-vida-toda que deixara para trás, em Novo Hamburgo.
Ela até tentara entrar em contato com ela, mas não havia conseguido por problemas de sinal.
Michelle ouviu algumas batidinhas na porta — já aberta — do quarto. Era Patsy parada na soleira, com um sorriso meio envergonhado.
—Sua mãe disse que eu podia...— Ela começou.
— Claro — Disse Michelle. Ela estava mesmo precisando de uma amiga.
Patsy sorriu e deu um olhar rápido em todo o quarto de Michelle. Olhou para a televisão de tela plana no canto esquerdo.
— Eu queria que a Nastasia Scott tivesse ganhado — Patsy dizia enquanto apontava com o queixo para a televisão.
Michelle deu de ombros, só assistira a primeira temporada de America's next top model porque Natasha havia insistido muito. E porque chovia no dia e elas estavam em um tédio sem fim.
— Gostando da cidade? — Quis saber Patsy, seu ânimo meio que causava certa inveja em Michelle.
— Sim — Respondeu de imediato. Se elas fossem amigas íntimas, talvez ela até pudesse contar sobre o vizinho bonitinho — Mas minha aulas começam amanhã. Estou só um pouco nervosa.
Patsy soltou uma risada divertida.
— O pessoal é bacana — Ela sorriu — e por incrível que pareça, os garotos também — ela acrescentou em tom de malícia.
As duas riram.
Michelle escolheu o esmalte azul escuro.
— Se eu fosse você, escolheria o verde — Patsy arqueou as sobrancelhas perfeitamente delineadas. Ela tinha cheiro de sabonete L'occitane de rosas.
Patsy sugeriu que ela pintasse as unhas de Michelle. Disse que estava no terceiro ano, assim como ela. Que morava com a mãe e o pai em um casarão estilo eduardiano perto da rua de Michelle. Ela fazia parte do jornal da escola e o namorado dela do clube de pintura.
E coincidência ou não — assim como Michelle — odiava quando os sapatos Yves Saint Laurent lhe faziam bolhas nos pés!
Era como se elas já se conhecessem à semanas.
É melhor Igor se cuidar, ou vai perder Michelle para Patsy.
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