Ouvi o telefone tocar. Uma. Duas. Três vezes. Nem cogitei a hipótese de levantar da cama. Ficar olhando aquele minúsculo ponto no teto estava bem mais interessante para mim naquele momento. Meu corpo todo estava adormecido, mas minha mente continuava ativa, como um motor que nunca pára.

- Eu sei que está aí Liam. – ouvi a voz de Noel sair pela secretária eletrônica, e isso fez minha cabeça latejar ainda mais – Você tem dez minutos para aparecer aqui. Sim, isso é uma ordem.

Ah querido irmão, como se você não soubesse que há tempos não sigo suas ordens. Por que hoje seria diferente? Movimentei-me lentamente até que conseguisse sentar, encostando minhas costas na cabeceira da cama. Passei a mão sobre meu rosto, acreditando que aquilo faria a dor sumir. Como sou idiota, às vezes. Somente às vezes. A dor não cessou.

Fechei os olhos e coloquei minha cabeça para trás, inspirando e expirando alto. Uma imagem veio a minha cabeça e aquilo não ajudava nem um pouco.

Abri os olhos, procurando algo que me fizesse esquecer. No chão do quarto não havia nada, exceto várias roupas que, provavelmente, estavam sujas, algumas latas de cerveja e garrafas de vodka. A última parte que olhei foi o criado mudo, ao lado da cama. Do lado do telefone havia uma garrafa de wisky pela metade. Com um movimento rápido, peguei a garrafa e bebi alguns goles daquele líquido quente e forte. Quando o líquido desceu pela minha garganta, meu rosto – em um ato involuntário – se contorceu em uma careta.

Levantei, com um pouco de dificuldade, cambaleando. Precisava de um cigarro. Ainda com a garrafa na mão, caminhei – ou cambaleei – até a sala, onde peguei uma das carteiras de cigarro que estava sobre a pequena mesa de centro. Entre uma tragada e outra, bebia um gole daquela bebida que fazia minha garganta queimar e, ainda assim, pedir por mais.

Alguns cigarros e muitos goles depois já me sentia melhor. Mas aquilo não era a solução para meu problema. Esse problema não tinha solução. Meu orgulho não permitiria que esse problema fosse resolvido. Deitei ali mesmo, no sofá, e dormi desejando que aquilo não passasse de um sonho ruim.

Estava tudo escuro e somente se ouvia um barulho baixo, como um assovio, que ia aumentando conforme os segundos passavam. Aquele som parava por alguns instantes e recomeçava. Mas que merda é essa? Foi a pergunta que fiz enquanto acordava, levantando raivosamente do sofá em que havia dormido.

Era a campainha.

Abri a porta com certa força desnecessária, mas aquele barulho estava me irritando e piorando com minha dor de cabeça. Ela piorou ainda mais quando vi quem é que estava atrás da porta. Abigail.

Abigail é a atual não sei o que do meu irmão. Um ser irritante por natureza, que se tornou ainda mais irritante quando se juntou ao Noel e ainda mais quando descobriu que poderia se amiga da Sadie. A mulher à minha frente não esperou convites, ela certamente não é desse tipo.

- Boa tarde Liam. – ela falou, com um sorriso nos lábios. Agora me pergunto: o dia estava chuvoso, era terça-feira e eu estava de ressaca. Como ela tem a ousadia de me dar boa tarde? Nem fiz questão de responder, apenas fechei a porta e caminhei na direção da cozinha onde procurei algo que não tivesse álcool para colocar no meu estômago.

- Noel está furioso. – olhei de relance para a mulher que estava encostada no batente da porta com os braços cruzados sobre o peito. Ignorei-a mais uma vez, procurando algo na geladeira. Talvez se eu a ignorasse ela desistiria e iria embora.

- Você sabe que a gravação é algo muito importante para ele. – a tentativa dela de puxar assunto comigo era, de certa forma, cômica. Sim, eu sabia que a gravação era algo importante. Todos sabem. Isso não era novidade.

Peguei um sanduíche, que deveria estar na geladeira há uns dois dias, retirei o plástico que o envolvia e dei algumas mordidas antes de me sentar à mesa. Ouvi o barulho da cadeira em frente ao lugar que estava ser puxada. Nossa! Ela ainda não havia ido?

- Liam, olha pra mim. – ela esqueceu com que estava falando? Só pode ser. – Ok Liam, eu queria ter uma conversa civilizada com você, mas isso não está progredindo. – Finalmente ela havia entendido!

- Certo. Se ao menos você fingir que está me escutando eu volto até a gravadora e falo que você está doente, com dor de cabeça ou qualquer coisa. – Como se eu precisasse dar satisfações da minha vida para qualquer pessoa. – Eu também posso dizer onde está a Sadie...

Sadie. Como Abigail teve a coragem de falar dela? Minha reação foi o que todo homem em minha situação faria. Levantei da cadeira que estava e fui à direção da porta, abrindo-a.

- Abigail, vá embora. – minha voz saiu autoritária e ríspida.

Ela não saiu. Ficou apenas me encarando, com os braços cruzados sobre o peito enquanto se escorava novamente no batente da porta. Um sorriso cínico surgiu nos lábios daquela mulher. A raiva que sentia dela aumentou.

- Então é assim que Liam Gallagher resolve seus problemas. Mandando-os embora pela porta. Muito interessante. Sinceramente esperava mais de você Liam, já que se diz tão bom. Não consegue nem encarar seus problemas.

A cena em que eu corria, pegava Abigail pelo pescoço e o apertava até que ela morresse de asfixia passou pela minha cabeça. Limitei-me a bater a porta com toda a força que tinha para ver se aquele instinto assassino fosse embora. Não foi, mas diminui um pouco.

- Tudo bem. – falei baixo, mas em um tom audível – O que você quer? – Eu iria resolver isso agora, antes que os tablóides britânicos descobrissem que eu havia assassinado minha cunhada. Além disso, não queria que Noel saísse da banda, afinal. E eu seria preso. Sem o Noel e, principalmente, sem mim, não existe Oasis.

- O Noel estava te jurando de morte. Vim ver se você estava vivo.

A olhei como se esperasse que ela dissesse mais alguma coisa. Ela me olhou e caminhou em minha direção, tocando meu ombro direito com uma das mãos. Ela, por algum motivo, tentava ser piedosa?

- Escuta Liam, — ela começou a falar baixo, como minha mãe fazia quando era mais jovem – você sabe bem que eu não vim aqui por causa do Noel, muito menos por sua causa. Eu quero saber o que você fez pra Sadie.

- Pergunte a ela. – foi o que respondi, enquanto me afastava de Abigail. Será que ela não conseguia entender que eu não queria assunto? Pelo menos não com ela.

- Você sabe de quem estamos falando, Liam? Sadie, aquela mulher que adora Beatles, caminhar em dias frios e é muito tímida. Lembrou agora? – o cinismo em sua voz era absurdamente irritante. Antes que cometesse assassinato (ou, na pior das hipóteses, suicídio) abri a porta novamente, esperando que dessa vez ela fosse embora.

- Seja o que você tenha feito a ela, foi muito grave Liam. Ela me ligou ontem de madrugada chorando, pedindo pra passar alguns dias lá em casa.

Eu estava escutando aquilo calado, mantendo minha pose. Eu não poderia fazer nada, afinal. Pela primeira vez em muito tempo, senti remorso. Senti também meu orgulho ser ferido, quando me imaginei correndo até Sadie, pedindo desculpas. Aquilo não iria acontecer. Não comigo, Liam Gallagher.

- Você é o ser mais desprezível desse mundo, Sir Gallagher. – a voz de Abigail era alta, firme. Ela estava me xingando! – A Sadie fez tudo por você, teve que mudar de cidade, abandonar o emprego e ainda ser perseguida por vários paparazzi! E o que você faz por ela? Fica com os amiguinhos no bar, na rua, enquanto ela fica aqui, praticamente trancada. Você, ao menos, deveria fingir que tem um pouco de caráter e pedir desculpas pra ela, em vez de ficar bebendo e passar o dia todo de boxer e camiseta!

Mantive minha postura, sem manifestar nenhum sinal de arrependimento ou qualquer outro sentimento em relação a isso. Sadie veio pra Londres porque quis. Eu não a obriguei a nada.

- Acho que vou embora. – a mulher a minha frente disse enquanto passava pela porta. A voz dela voltara ao tom normal – Direi ao Noel que você estava com dor de garganta.

Abigail não disse mais nada e eu apenas fechei a porta. Por mais difícil que fosse admitir, as palavras de Abigail mexeram comigo. Desde algumas horas atrás, tudo que fosse relacionada à Sadie mexia comigo mais que qualquer coisa. Isso era irritante, sensível e humano. Isso não era Liam Gallagher.

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Pela janela do táxi via a rua em que morava, estava iluminada por causa das luzes dos postes... Não deveria se mais que oito horas da noite. Via também minha casa se aproximar e sabia quem estaria me esperando. Sadie. Sabia que estaria esperando com uma roupa sexy, bebidas e alguma balada dos Beatles. Sempre fora assim. Pelo menos fora nos seis meses que Sadie morava na minha casa. Era como um ritual de volta. Sexo, álcool e Beatles. Uma combinação quase perfeita. Oasis é melhor, mas não sei se conseguiria transar ouvindo a voz do Noel e seus acordes de guitarra.

Eu acabara de voltar de alguns shows que havia feito com o Oasis por algumas cidades da França. Estava cansado, mas estar em casa me fazia sentir melhor. Estar com alguém que realmente me compreendia me fazia melhorar. Sadie fazia de tudo por mim. Me escutava, me ajudava, me entendia, me criticava. Ela me amava. Ou fingia muito bem.

Eu saí do táxi rapidamente e peguei a única mala que levei comigo. Era um costume meu levar pouca coisa, afinal, pra que existe cartão de crédito mesmo? Abri a porta da frente da casa de tijolos à vista. Era minha casa, meu recinto.

Tudo aquilo que eu normalmente encontrava quando chegava de viagem não estava lá. Não havia as velas com essências perfumadas que Sadie adorava. Nem o vinho e as taças, muito menos as baladas dos Beatles tocando baixo. Nem o que realmente importava. Sadie não estava na sala me esperando.

Larguei a mala que ainda segurava em um canto qualquer da sala. Onde estava Sadie? Caminhei pela casa procurando a mulher que tomava conta dos meus pensamentos. A porta do meu quarto estava entreaberta e eu a abri lentamente. Deparei-me com uma figura triste colocando roupas na mala. Aquela não era a minha Sadie. Minha Sadie não tinha aquela expressão triste, nem lágrimas nos olhos. Muito menos andava cabisbaixa e me ignorava.

- O que aconteceu? – foi a única coisa que consegui falar enquanto chegava perto dela. Sadie me afastou com uma das mãos enquanto colocava uma coisa qualquer na mala. Eu a ouvir soluçar, e isso não era o que queria ouvir.

Tentei me acalmar e o que consegui fazer foi segurar Sadie por um de seus pulsos e fazê-la me encarar. Seus olhos estavam inchados, provavelmente ela estava chorando a um bom tempo.

- O que aconteceu? – repeti a minha pergunta para ver se obteria alguma resposta.

- Liam... me solta. – foi o que ela disse, com uma voz fraca e falha. Isso fez com que eu apertasse um pouco mais o pulso dela. Talvez não por raiva, mas por decepção de não ter ouvido uma resposta concreta.

- Por que você está fazendo isso? – perguntei me referindo as malas.

- Me deixe ir embora, por favor. – ela disse, com a cabeça baixa.

Afinal, o que ela queria? Ela estava indo embora? Por quê? O que aconteceu? Apertei ainda mais o pulso dela, vi no seu rosto uma leve cara de dor.

- Me diz agora o que aconteceu. – isso não foi uma pergunta, muito menos um pedido. Eu havia dado uma ordem a Sadie e por mais tímida e quieta que fosse, ela não suportava receber ordens. Senti-a puxar com toda força seu braço, para tirar seu pulso da minha mão. Soltei seu braço lentamente e a vi puxar o ar pra começar a falar. Agora haveria uma explicação.

- Você realmente não sabe o que aconteceu, Liam? – ela estava sendo irônica comigo, e isso Sadie sabia ser muito bem. Sua voz, apesar de falha por causa do choro, era alta. Ela queria gritar. – Isso aconteceu Liam! – Ela gritou ao mesmo tempo em que atirou um jornal em minha direção.

Era um daqueles tablóides sensacionalistas que eu tanto odiava. Na foto da capa, eu, completamente bêbado, abraçado, ou escorado, em uma loira oxigenada que parecia ter saído de um bordel. A manchete dizia: Liam Gallagher em Paris: vocalista da banda Oasis flagrado em boate com uma atriz pornô. Não sabia o que fazer primeiro, rir ou explicar aquilo para Sadie.

- Sadie não é nada disso que você está pensando. – falei tentando não rir – Eu estava bêbado.

- Liam chega! – ela gritou o mais forte que pode – Não importa se você estava bêbado, sóbrio ou apenas se divertindo. Eu não quero, eu não posso perdoar uma traição. – Ela gritava enquanto jogava as coisas de qualquer maneira na mala.

- Escuta Sadie... – tentei falar, mas fui bruscamente interropido por um grito vindo de Sadie.

- Chega! Eu não quero ouvir. Liam, eu aguentei suas bebedeiras, seus surtos egoístas e o quanto você odeia seu irmão. Agora chega. Deixa de ser infantil Liam, acabou! – ela gritou a última parte como se quisesse entender e me fazer entender ao mesmo tempo – Você acha que só por que é um rock star pode fazer o que quiser, mas não pode Liam! Noel tem razão, você é o ser mais idiota desse mundo!

Durante aqueles poucos segundos que perdi os sentidos fiz uma coisa que estava fora do meu alcance. Quando abri os olhos novamente, vi minha mão sobre a face de Sadie e uma expressão de dor em seu rosto. Mais lágrimas saíram de seus olhos e, com brusquidão, Sadie afastou a minha mão, que a pouco havia dado um tapa em seu rosto. Um silêncio ensurdecedor se estabeleceu naquele quarto.

Vi quando Sadie saiu da minha frente e fechou a mala. Também ouvi seus passos no assoalho de madeira, ela estava indo embora.

- Isso comprova cada palavra do Noel. – ela falou antes de abrir a porta – Liam, nunca mais fale comigo. – ouvi o barulho da porta se fechar e não fiz questão de olhar. Tudo que precisava agora era um pouco de qualquer coisa que me fizesse esquecer isso e eu sabia muito bem o que era. E vinha engarrafado.

Sexy Sadie is the greatest of them all.

CONTINUA...


Notas finais
N/A: Essa fic, novamente, é dedicada a Roxy. Ela me deu a ideia. Agradeço a Duda, por aturar minhas crises de Liam maníaca e ler a fic quando eu mandava pra ela. P.S.: Não me responsabilizo pelos discos dos Beatles queimados no decorrer da fic.