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1 O primeiro contato


9h da manhã. O CSI de Nova York estava agitado. A investigação sobre o assassino em série que vinha aterrorizando a cidade tomava todos os esforços da equipe. O assassino, que deixava uma série de mensagens criptografadas e pistas enigmáticas, lembrava o infame Assassino do Zodíaco. Ele parecia ter uma obsessão por desafios e enigmas, e até então, ninguém havia conseguido decifrar suas intenções.

Flack entrou na sala de briefing, o peso do caso e uma sensação de cansaço visíveis em seus ombros. Ele viu Mac Taylor e Danny já conversando, mas havia algo diferente no ambiente — alguém novo. Uma mulher jovem, com um olhar decidido e focado, estava ao lado de Mac, anotando algo em seu caderno.

Flack parou na porta, uma sobrancelha levantada, os olhos fixos na desconhecida.

— Quem é essa? — perguntou. A desconfiança óbvia em sua voz.

Mac, sem desviar os olhos do relatório, respondeu com uma calma que irritou Flack.

— Agente especial Donovan. Ela é uma cortesia do FBI. Especialista em perfis. Vai nos ajudar a pegar esse maldito e transitar entre os dois departamentos.

Flack cruzou os braços, desconfiado.

— FBI, hein? O que eles têm a ver com o nosso trabalho? Não estamos conseguindo resolver o caso sozinhos?

Danny, tentando aliviar a tensão no ar, falou rapidamente.

— Relaxa, Flack. Ela é da Unidade de Análise Comportamental. Ela sabe como entender a mente de quem cria esses enigmas. E isso é algo que nós, bem... talvez não tenhamos tanto talento.

Flack deu uma olhada rápida para a agente. Ela estava com um visual sério e formal, típico do FBI. O distintivo preso ao cós da sua calça, ao lado da sua 9mm na cintura. Seu estilo parecia mais de alguém que trabalha no mundo acadêmico do que em campo. Mas a confiança dela, por mais que provocasse Flack, não passava despercebida.

Ele não conseguiu se controlar. A pergunta escapou antes que pudesse impedir.

— Ela parece bem nova pra ser "da Unidade de Análise Comportamental". Quantos anos você tem, uns 25? Você é o quê? Detetive? CSI?

A agente o encarou, sem se alterar, como se já tivesse se acostumado a esse tipo de pergunta. Um leve sorriso apareceu em seu rosto, mas sua voz foi firme e tranquila.

— É Agente Donovan ou Doutora Donovan, o que você preferir.

Flack sentiu a provocação, mas também, algo na confiança dela fez com que ele pausasse. Ele sabia que não poderia simplesmente ignorar o que ela trazia, mas também não estava pronto para engolir tão fácil a ideia de uma jovem agente do FBI se metendo em sua investigação.

Flack tentou manter o sarcasmo, mas não pôde evitar o sorriso irônico.

— Doutora, então. Vai resolver esse enigma com psicologia ou com teoria de laboratório?

Donovan não se alterou, seu olhar direto desafiando-o.

— Vou resolver com análise comportamental. Eu sou especialista em entender como mentes como a do nosso assassino funcionam. Se isso te incomoda, Detetive Flack, você pode continuar com seu jeito... mais direto.

Flack resistiu, mas não podia negar que a confiança dela era inegável. Ele se virou para os outros, ainda mantendo os braços cruzados.

— Tá, vamos ver onde isso vai dar. Mas vou deixar claro, não sou fã de trabalhar com teoria. Preciso de resultados.

Donovan ofereceu um sorriso quase imperceptível.

— Vamos ver se conseguimos ambos.

O ambiente na sala de briefing estava carregado de tensão. Flack se manteve em sua postura firme, claramente desconfortável com a presença dela. Donovan por outro lado, parecia completamente à vontade, anotando algo em seu caderno como se já estivesse se preparando para mergulhar no caso. Mac observava tudo em silêncio, enquanto Danny, tentando suavizar a atmosfera, tentou dar um passo adiante.

— Então, Doutora Donovan, o que acha de começar nos contando o que você acha desse nosso amigo, o assassino?

A agente levantou os olhos para ele, mas não desviou o olhar, mantendo a tranquilidade.

— A primeira coisa que percebi nas pistas foi a obsessão do assassino com os símbolos. Ele não está apenas matando, ele está tentando enviar uma mensagem. Talvez se sinta incompreendido, ou, mais provável, deseje ser reconhecido por algo que ele acha que é mais importante que tudo o resto. Não é só uma questão de morte, é de poder.

Flack se aproximou da mesa, ouvindo atentamente, mas não sem um toque de ceticismo.

— Tá, mas... e a nossa amiga aqui? — Ele apontou para uma das vítimas na tela do computador. — A cada pista que encontramos, ele deixa um cadáver, não uma pista. Como você encaixa isso na sua "análise comportamental"?

Donovan olhou para a imagem, sua expressão imperturbável. Como se já tivesse se acostumado com a frieza do crime.

— O assassino está se adaptando. Ele não está apenas matando, está mudando seu método. Ou seja, ele está observando como a polícia reage a cada crime e está se sentindo mais audacioso. Cada vítima que ele escolhe é uma mensagem para nós. Ele está testando nossa capacidade de pegar suas pistas. E, até agora, ele sabe que está ganhando.

Flack se aproximou ainda mais, sua expressão carregada de dúvida.

— Então você acha que ele tá brincando com a gente, é isso?

Ela não hesitou. Seu olhar se manteve firme, o tom de voz inabalável.

— Exatamente. Ele se vê como alguém superior. Alguém que controla a narrativa. Ele sabe que somos bons em caçar assassinos, mas está nos forçando a ir além do nosso limite. E ele gosta disso.

Flack soltou um suspiro impaciente, mas não tirou os olhos dela.

— Não é brincadeira quando alguém morre. Não tenho paciência pra esse tipo de jogo.

Ela se manteve calma, com um leve sorriso nos lábios.

— E eu também não, Detetive Flack. Mas você sabe que é isso que estamos enfrentando, mesmo que não gostemos de admitir.

Flack ficou em silêncio, absorvendo suas palavras. Ele sentia um desconforto crescente, não apenas pela frieza com que ela falava, mas pelo jeito que ela parecia entender o criminoso de uma forma que ele ainda não conseguira alcançar. Ele se virou para a tela do computador, tentando esconder sua apreensão.

Flack, ainda mantendo a compostura:

— Ok. Então, como você sugere que a gente pare de “brincar”? O que a gente faz agora?

Donovan olhou diretamente para ele, sua calma contrastando com a pressão do momento.

— A primeira coisa que precisamos fazer é parar de reagir e começar a antecipar. Ele está nos desafiando a jogar o jogo dele, e, se continuarmos a reagir do jeito que estamos, ele vai continuar no controle. A chave para pegá-lo está em entender seus padrões de comportamento. Quando ele comete um crime, ele já sabe o que vai acontecer em seguida. O que precisamos fazer agora é pensar como ele pensa.

Flack observou o jeito tranquilo e determinado de Donovan. Ele relutou em admitir, mas algo na confiança dela começava a fazer sentido, mesmo que ele não quisesse aceitar.

Flack, mais calmo, mas ainda com uma leve provocação:

— Então vamos ver se seu jeito de pensar é o que vai resolver. Eu prefiro quando as coisas são mais diretas.

Ela sorriu de forma quase imperceptível.

— Às vezes, Detetive Flack, o direto não é suficiente. Às vezes, é o que está entre as linhas que faz toda a diferença.

Ela voltou a olhar para a tela do computador, anotando algo rapidamente, enquanto os outros dois observavam em silêncio. Flack, ainda com sua postura firme, sentia a pressão crescente, mas também começava a perceber que, talvez, o jeito de Donovan fosse justamente o que ele precisava.

Ele sentiu algo estranho, uma sensação que não estava acostumado a reconhecer: talvez ele estivesse começando a confiar nela.

O relógio marcava 10h30 da manhã, e a rua estreita do bairro de SoHo estava envolta em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som das sirenes e o burburinho da investigação no local do crime. Flack e Donovan estavam a caminho de uma nova cena de crime, uma área deserta, onde o assassino havia deixado uma nova pista que os desafiava.

Flack estava à frente, com o passo firme, olhando atentamente os arredores como sempre fazia. Ele podia sentir que algo estava errado — a cena parecia mais limpa do que deveria, quase como se o criminoso estivesse esperando por algo. E claro, ele sabia que Donovan, com sua habilidade analítica, estava tão atenta quanto ele a cada detalhe. Mas o que mais o irritava era o fato de ela estar ali, ao seu lado, olhando tudo com a calma imperturbável de quem estava em uma conferência acadêmica, não em uma cena de crime.

Donovan vinha atrás dele, com uma calma desconcertante para alguém em um cenário como aquele. Flack parou ao lado do carro da perícia, examinando a área. Ele sabia que o assassino estava se divertindo com eles, deixando as pistas e fugindo sem deixar rastros óbvios. Ele não conseguia parar de pensar no quanto aquilo o irritava — tudo o que ele queria era pegar o maldito e acabar com aquilo.

A agente se aproximou dele, absorvendo cada detalhe da cena, anotando algo em seu caderno. Flack lançou um olhar rápido para ela antes de continuar.

— Nada de novo, não é? — Flack disse, sua voz carregada de impaciência. — O assassino está se divertindo conosco, deixando pistas pra gente se perder. O que ele quer, realmente?

Donovan olhou para ele, sem apressar a resposta, seus olhos focados no corpo da vítima — um jovem homem, aparentemente sem defesa, com uma série de símbolos esculpidos no braço. Ela se agachou com a mesma calma e eficiência, inspecionando a cena enquanto falava, sem olhar diretamente para Flack.

— Ele não está só deixando pistas, Flack. Ele está mandando uma mensagem. E a verdade é que ele sabe exatamente o que está fazendo. Ele está nos desafiando a entender, não apenas a encontrar. — Ela parou por um momento e levantou o olhar para ele, a confiança no tom claro. — Ele quer ser reconhecido por algo que ele acha que é mais importante do que a própria morte das vítimas. E, por mais que você tente resolver com uma abordagem direta, ele está jogando um jogo psicológico.

Flack franziu a testa, visivelmente irritado com a calma de Donovan. Ele sempre fora direto — decifrar pistas e correr atrás do criminoso. Não havia muito espaço para análise comportamental ou teórica. O que importava era capturar o criminoso, simples assim.

— Jogo psicológico? — Flack repetiu, tentando disfarçar o ceticismo na voz. — O que ele quer, exatamente? Porque eu estou vendo mais corpos do que enigmas. E a cada corpo que aparece, parece que estamos cada vez mais longe da solução.

Donovan não se apressou em responder, analisando o corpo com um olhar clínico. Ela se levantou e, com a mesma calma, pegou sua câmera, tirando fotos do cenário e das pistas visíveis.

— Ele está testando nossa habilidade de perceber os padrões. Cada vítima não é apenas um corpo, Flack. Ele está adaptando suas ações conforme vemos suas pistas. Está se tornando mais audacioso, e está esperando que a gente reaja. Ele não vai parar até que a gente entenda o que ele realmente está tentando comunicar.

Flack suspirou, desconfortável com a teoria dela. Ele não gostava de ser levado para esse tipo de jogo mental. Para ele, isso tudo parecia um grande desperdício de tempo. O que importava era prender o assassino, não filosofar sobre as intenções dele.

— Eu não sei... — Flack começou balançando a cabeça. — Não tenho tempo para pensar como ele pensa. Quero pegar esse cara antes que mais alguém morra. Se é só sobre "padrões" e "mensagens", então ele está sempre um passo à frente.

Donovan o observou com um olhar que quase poderia ser descrito como desafiador. Ela sabia que ele não estava vendo o que ela via. Mas a cada palavra, ela tentava, com calma, refazer sua linha de raciocínio.

— Não se trata apenas de capturá-lo. Se você só focar no corpo e na pista física, Flack, você vai perder o quadro geral. O assassino está jogando com a nossa resposta. Se a gente se concentrar só nas vítimas, vamos continuar dando os passos dele. A chave está em entender o que ele quer que a gente faça.

Flack sentiu a pressão de suas palavras, mas ainda se manteve firme, com o olhar fixo na cena. Ele não estava convencido, mas algo na calma e precisão de Donovan começava a mexer com ele de uma forma que ele não conseguia ignorar.

Ele deu um passo à frente, observando o corpo com mais atenção, como se tentasse visualizar o que ela estava vendo. Ainda assim, uma parte dele permaneceu cética. Não era sua forma de trabalhar, mas, por um momento, ele se questionou se ela estava certa.

— Você tem certeza de que está vendo algo que eu não vejo? — Flack perguntou, mais para si mesmo do que para ela.

Donovan, sem hesitar, se afastou da vítima e se aproximou de Flack, apontando para o símbolo esculpido no braço da vítima.

— A obsessão dele com esses símbolos... É uma necessidade de controle. Ele está deixando suas marcas, não só para nos confundir, mas para nos dizer que ele está no controle. Ele é quem define as regras do jogo.

Flack observou as marcas na pele da vítima. Algo na maneira como ela explicava começou a fazer mais sentido, embora ele ainda estivesse relutante em aceitá-lo.

Antes que pudesse responder, Mac se aproximou, quebrando o momento de reflexão entre os dois.

— O que temos? — Mac perguntou, com um olhar atento. Ele sentiu a tensão entre Flack e Donovan, mas sabia que ambos estavam apenas tentando resolver o caso à sua maneira.

Flack deu um suspiro, sem esconder o desconforto.

— Estamos lidando com alguém que está se divertindo com a gente. Ele sabe o que está fazendo, mas não temos ideia do que ele realmente quer.

Donovan olhou para Flack, depois para Mac, e falou, com a confiança de quem já sabia o que vinha pela frente.

— O que ele quer é que a gente perceba que o jogo dele já começou. E, se não começarmos a antecipar seus próximos movimentos, vamos ficar perdidos.

Flack olhou para ela, então para Mac, e, por um segundo, a tensão entre ele e a agente parecia diminuir. Ele não sabia se podia confiar nela ainda, mas uma parte de si mesma sabia que ele precisaria dela, mesmo que não quisesse admitir.

— Vamos ver onde isso vai dar — Flack disse, sua voz mais baixa, como uma concessão que ele não queria fazer, mas sabia que precisava

*

O sol começava a cair entre os prédios do Brooklyn quando a tensão entre Flack e Donovan atingiu o limite. A investigação levara a equipe a um armazém abandonado, onde o último rastro do assassino parecia terminar. Dentro do espaço escuro e empoeirado, as vozes ecoavam secas, assim como os nervos dos dois.

Flack estava nervoso, andando de um lado para o outro. Donovan, por sua vez, examinava o lugar com atenção, lendo os sinais deixados nas paredes — rabiscos, manchas, marcas quase invisíveis.

— Isso aqui não é só um esconderijo — ela disse, apontando para símbolos no chão com o bico da bota. — Ele estava se preparando pra algo. Tudo isso é encenação. Ele quer que a gente esteja aqui.

Flack bufou, já cansado da abordagem dela.

— Tá, tá, chega disso — interrompeu ele, irritado. — De novo com essa análise de comportamento, essas suposições de laboratório. Não temos tempo pra isso, Donovan!

Ela ergueu o olhar devagar, o rosto sério.

— E o que você sugere? Que a gente entre de peito aberto e tome um tiro?

— Isso aqui, — ele disse, sacando a arma com firmeza, o coldre balançando — isso aqui é o que resolve. Eu sou policial treinado, eu protejo pessoas. Não fico analisando rabisco em parede. Você fala como se entendesse de tudo, mas no fundo é só uma teórica! — Flack explodiu, a mandíbula tensa. — Um rato de laboratório com uma ficha bonita e diploma na parede! — ele hesitou, mas completou, seco — ...um rato de laboratório com um distintivo.

Donovan sentiu o golpe, mas não recuou. Seus olhos encontraram os dele, desafiadores, embora sua voz saísse contida.

— E você age como se fosse o único que realmente protege as pessoas! Como se seu distintivo fosse mais legítimo que o meu! — Não confunda método com fraqueza, Flack!

Ele deu um passo à frente, raiva pulsando.

— Quando tudo dá errado, é pra gente que ligam. E quando a coisa aperta, não tem teoria que salve ninguém.

Ela não respondeu, mas deu passo para trás, em sinal de respeito a ele. Ela apenas apertou os lábios, controlando a vontade de gritar de volta.

Flack levantou ligeiramente a arma, não apontando para ela, mas firme, como se a própria presença da pistola fosse o argumento final.

— Eu sou treinado pra isso! — rosnou. — Pra proteger. Pra correr pro tiro, não pra escrever relatório depois que tudo termina!

Antes que ela pudesse responder, disparos ecoaram a poucos quarteirões dali. Um estalo seco, depois outro. Dois, três tiros. Flack virou a cabeça instintivamente e já estava correndo. Donovan correu atrás.

Policiais do esquadrão local apareceram da lateral da rua, gritando ordens e avançando com armas em punho. Sirenes ao longe já rasgavam o silêncio.

— Flack, cobertura pela direita! — gritou um dos oficiais.

Donovan parou por um segundo, avaliando o ambiente. Apontou para dois dos agentes de Flack.

— Você, comigo! Avança pela lateral, mantenha linha de visão!

Eles hesitaram por um instante. Então, talvez pela força de sua voz ou pela urgência da situação, obedeceram.

Flack notou, os olhos faiscando com raiva, mas continuou avançando. Eles entraram num galpão escuro. Dentro, o cheiro de ferrugem e madeira velha misturava-se com a tensão de morte iminente.

Ali estava o atirador — um homem de cerca de trinta anos, suado, tremendo, segurando uma mulher pela cintura com uma pistola pressionada contra sua têmpora.

Flack parou, arma em punho. Donovan parou ao seu lado, também com a arma em punho. Ela olhou para Flack e ergueu a mão suavemente, sinalizando para ele não atirar ainda.

Ela deu um passo à frente, voz firme, porém baixa.

— Ei, essa mulher não é o problema. Você não precisa fazer isso. Não agora. A gente pode resolver isso de outra forma, juntos. Sem sangue.

— Cala a boca! — gritou o homem, os olhos arregalados, nervosos. — Eu avisei! Ninguém se aproxima!

Donovan manteve a calma, avançando meio passo.

— Ninguém vai se aproximar. Só eu estou falando. Só você e eu, ok?

O dedo do homem tremeu no gatilho. A refém chorava, paralisada.

— Eu sei que você está com medo. Mas você não precisa machucar mais ninguém pra provar algo. A gente pode resolver isso. Agora. Qual o seu nome?

O homem hesitou. Sua respiração estava ofegante, os olhos pulando de um lado para o outro, entre Flack, a agente do FBI e a refém.

Flack, tenso, murmurou:

— Ele não vai soltar.

Donovan manteve o foco, a voz baixa, constante, como se construísse uma ponte frágil entre ela e o atirador.

— Você não precisa machucar ninguém. Eu tô te ouvindo. Só solta a arma, e eu prometo que a gente...

Mas antes que pudesse terminar, o homem moveu a mão em direção à arma, como se fosse atirar. Foi um gesto rápido.

Bang!

Donovan atirou.

Flack abaixou a arma, ainda ofegante e olhou furioso para ela. O tiro acertou o ombro do atirador, que cambaleou e caiu, soltando a refém. Flack correu para desarmá-lo e algemá-lo, enquanto Donovan guardava sua arma e ajudava a mulher, que soluçava de alívio, agarrando-se a ela.

Flack levantou o criminoso algemado do chão com a ajuda de mais dois policiais, os quais levaram o homem para fora do galpão. Neste instante, um policial tirou a vítima dos braços de Donovan e a levou para fora do galpão. A agente então começou a seguir o policial com a vítima, mas Flack levantou o dedo indicador, fazendo um sinal para que ela parasse.

O silencio pairou no recinto. Assim que os outros oficiais saíram do galpão, Flack se aproximou dela e o silêncio durou pouco.

— Você deu ordens pros meus homens — Flack avançou, indignado. — Isso não era sua função.

Ela o encarou, confusa, mas firme.

— Eles estavam parados, esperando ordens! Eu tinha um plano, e funcionou!

— Isso não importa. Você não está no comando. Eu estou. Você foi convidada pra esse caso, lembra? Não é sua investigação.

Donovan estreitou os olhos, com algo entre mágoa e raiva.

— É isso, não é? Você precisa ser convidada. Precisa pedir licença pra respirar nesse território que você acha que é só seu. — Não é sobre ego, é sobre cadeia de comando! — retrucou ele, já quase gritando. — Eu não posso ter alguém quebrando isso no meio de uma operação.

Ela respirou fundo. O impulso era rebater de novo. Mas algo em seu olhar amoleceu.

— Eu entendo. Mas eu sou uma agente federal, você querendo ou não, eu posso fazer o que fiz. — antes que ele pudesse responder, ela completo — E só pra constar... você não é o único com treinamento tático aqui.

Ela virou-se, saindo do galpão com passos rápidos e firmes, deixando Flack sozinho, ainda com o eco do tiro e das palavras dela ressoando em sua mente.

O som das sirenes começava a diminuir. Os reforços já haviam cercado o local, e os paramédicos levavam a refém para atendimento. Os últimos flashes de adrenalina desapareciam, dando lugar ao silêncio pesado do que acabara de acontecer.

Donovan respirava fundo ao lado de uma viatura, afastada dos demais. As mãos, ainda trêmulas, repousavam nos joelhos. O olhar, perdido em algum ponto entre os estilhaços de vidro e o sangue seco no chão. Ela tinha acertado o tiro. Salvara a mulher. Mas os olhos de Flack ainda queimavam em sua mente.

"Você não é o único com treinamento tático." As palavras ecoavam no peito como um desafio — mas também como um escudo.

Do outro lado da rua, Flack falava com dois agentes, mas desviava o olhar em sua direção com frequência. Ainda furioso. Ainda orgulhoso. Mas algo o incomodava além do confronto. Algo mais profundo. Ele conhecia aquele olhar que ela tinha agora. Era o mesmo que via no espelho, às vezes, quando acordava no meio da noite coberto de suor.

*