Notas iniciais
Desculpa a demora. Feliz Natal (atrasado, mas de coração!) e boa leitura! :) Logo tô de volta.

Jane tinha um plano.

Mais ou menos.

Ela tinha refletido sobre o que Kendra dissera no encontro que tiveram mais cedo e somou mais ao seu conhecimento procurando no Google tudo relacionado à estresse pós-traumático. É claro, ela contribuia muito mais com a experiência pessoal que tivera meses antes, mas ela quis se certificar de não havia deixado nada de fora. Ela fez mentalmente uma lista de tudo o que sabia sobre a consequêcia de experimentar um evento traumático. Alguns sintomas se faziam presentes como reexperiência traumática (pesadelos e flashbacks), fuga e esquiva de lugares e pessoas que possam desencadear o mesmo medo, episódios de pânico, distânciamento emocional, sentimentos de impotência, perda de esperança em relação ao futuro e sensação de vazio. Jane conhecia cada uma delas, mas ela focou em duas que ela acreditava que se destavacam mais em Maura: distânciamento emocional e perda de esperança em relação ao futuro. Ela não sabia exatamente o que fazer ainda ou como sequer dar início ao plano que, para ser sincera, ela mal tinha um rascunho. Tudo o que ela conseguia pensar era que precisava fazer com que Maura confiasse nela, que Maura precisasse de sua presença ali, que elas criassem uma ligação emocional de via dupla.

O céu tinha mudado para um tom acizentado quando ela entrou mais uma vez na Target, mas Jane sabia que não iria nevar tão logo — de acordo com a previsão do tempo. Ela pegou ingredientes para uma sopa saudável, cerveja, e se dirigiu para o caixa. Mais uma vez Vivian, a moça do caixa, fez um comentário sobre o hábito novo e saudável de Jane, mas a morena tinha uma reputação para zelar e jurou, com um sorriso no canto dos lábios, que aquilo não era para ela. Refez o caminho para casa sem prestar muita atenção nas ruas que já conhecia de cor, e parou o carro em frente ao prédio.

Num dia gelado como aquele poucas pessoas eram vistas na rua. Tudo o que ela viu era nada mais do que uma caminhonete vermelha parada na esquina, um homem magro — seu vizinho, ela reconheceu logo — andando com o cachorro e um esquilo correndo de um lado para o outro na fiação elétrica da rua. Quando entrou em casa, encontrou Maura sentada na poltrona da sala lendo um livro. A loira olhou para ela com indiferença, virou uma página e murmurou um quase inaudível 'oi'.

'Ei', Jane respondeu, a mágoa por se sentir ignorada lhe mandando um lembrete de que ainda existia ali. Ela tinha decido não confrontar Maura diretamente por causa de sua atitude. Virou-se para trancar a porta, mas por mal cálculo acabou batendo o pé na porta e prendendo a mão entre ela e o batente. 'Merda!' Ela disse em alto tom, enquanto balançava a mão para cima e para baixo, e depois abrindo e fechando-a.

Ao se virar, notou Maura encarando-a com olhos arregalados e a respiração levemente alterada.

'Tá tudo bem, eu não quis te assustar.' Jane suspirou e andou até a cozinha, os ossos da mão ainda gritando em protesto. Ela cozinhou em completo silêncio, e depois de quase uma hora uma refeição decente espalhava o cheiro pela casa. Sopa não era sua comida favorita, mas ela tinha que admitir que em um dia gelado como aquele algo quente cairia bem. Ela fez o próprio prato e avisou Maura de que o almoço estava pronto. Sentou-se à mesa e esticou o braço para entregar o prato da loira.

Maura sentou-se de frente à ela como se acostumara nos outros dias, mas Jane desconfiava de que ela não queria estar ali. Ela comia porque era obrigada, e mesmo assim era um terço do que Jane comia. Bebia água ou suco porque a morea insistia. Maura parecia estar acostumada a receber ordens, e se por um lado Jane lhe deixava fazer o máximo de escolhas possíveis (ainda que significasse afastá-la de si), alimentação era algo que a morena levava a sério. Pelo menos a alimentação de Maura.

Com a frustração latente, ela não sabia sobre o que conversar. Ela lançava olhares para Maura, mas a outra parecia entertida demais com sua sopa, ocupada demais brincando com a colher, girando-a de um lado para o outro do prato. Colocar comida dentro de Maura era sempre um desafio. Cada colherada era uma vitória pessoal para Jane, e a quantidade de comida restante no prato, no final da refeição, ela equivalente à preocupação sobre a saúde da mulher.

Tentando manter os olhos longe da outra — afinal, quem é que gosta de ser assistido o tempo todo? — Jane alcançou pelo celular e ignorou com tamanho prazer as mensagens da mãe e as ligações perdidas. Enquanto lia algo aleatório na internet, tamborilava os dedos pela mesa distraidamente. E foi por acaso que notou que Maura lançava olhares para sua mão. Ela cotinuou encarando a tela do celular sem realmente ler nada, e se lembrou de que a loira perguntara à ela no hospital o que tinha lhe acontecido.

E Jane tinha dispensado sua pergunta como se não fosse importante. Ela tinha sido tão indiferente à isso.

E Maura tinha parecido tão chateada.

Droga, Jane pensou, talvez eu tenha estragado tudo desde então, talvez ela tenha levado para o lado pessoal.

Ela suspirou, colocou o celular na mesa e encarou as próprias mãos. Ela tinha que fazer aquilo certo, só havia um único jeito, ou ela tornaria as coisas ainda piores. Ela não queria que Maura se sentisse envergonhada por ter sido pega encarando, então ela fez de conta que a idéia tinha partido dela. Abriu e fechou as mãos sem tirar os olhos delas, depois massageou uma das cicatrizes.

'Um serial killer.' Ela murmurou, e no momento em que Maura segurou a colher à meio caminho da boca, colocou-a de novo no prato e voltou toda sua atenção para ela, ela soube que tinha conseguido a brecha que queria. Ainda assim, não era fácil falar daquilo que assombrava seus sonhos. Mas agora ela tinha que falar. 'Foi assim que consegui essas marcas; um serial killer. Ela sequestrava casais. Matava e estuprava a mulher enquanto fazia o homem assistir, depois cortava a garganta do homem.' Ela deu de ombros e respirou fundo. 'Foi um daqueles casos que todo mundo quer trabalhar, pegar o cara e, você sabe, ser o herói.'

'Hoyt.' Maura murmurou, e quando Jane lançou um olhar perplexo para ela, a loira encostou-se na cadeira, como se querendo ficar o mais longe possível por medo de ser castigada. 'Eu lia todas as manhãs os jornais.' Ela se justificou antes de Jane perguntar.

A morena balançou a cabeça em compreensão e continuou. 'Alguns dizem que eu estava procurando por problema. Ir sozinha para uma casa abandonada, isolada do mundo. Eu deveria ter chamado reforços, você sabe, mas para ser sincera eu só queria acabar logo com aquilo, pegar o cara e salvar Catherine. Foi então que ele me pegou de surpresa e me pregou no chão com dois bisturis.' Ela ergueu as mãos e mostrou a palma e o dorso. 'Um em cada. Se não tivesse sido Korsak, meu nome provavelmente estaria na parede da delegacia em baixo das grandes letras in memoriam. Depois disso... Terapia, fisioterapia, dias e dias num hospital.' Jane revirou os olhos para quebrar o clima pesado, e disse, 'sem cafeína, o pior de tudo.'

Maura abriu um leve sorriso e cutucou a sopa no prato. Depois de um instante ela parou, depositou as mãos nas pernas, e de repente pareceu não ter mais energia alguma. 'Eu não estava procurando por problema.' Ela disse então, os olhos marejados estudando as próprias mãos. 'Eu só estava andando de volta para casa.'

Ali. Aquela voz pequena e frágil. Aquilo era onde sua fraqueza começava. Aquele era o começo da história que tinha destruído quem ela era. Ela, diferente de Jane, jamais soubera do perigo que corria. Fora pega completamente de surpresa. Ela que provavelmente nunca tinha sequer carregado uma arma, uma pessoa indefesa caminhando de volta para o conforto da casa... algo que não encontrara até agora. Jane se sentiu terrivelmente mal por ela, e se Maura não tivesse começado a falar de novo, ela teria se levantado e passado os braços em torno da pequena figura em sua frente.

'Você sabe... Você sabe por que ele fez isso?' Ela perguntou, os olhos implorando por uma explicação, algo que fosse razoável.

Como se algo razoável pudesse ser aceitável. Jane balançou a cabeça lentamente em não. 'Sinto muito, Maura. Eu não sei. É algo que a gente pode descobrir quando ele for pego.' Se for pego, ela pensou a última parte consigo mesma.

'Eu tentei entender. Nos primeiros dias, eu tentei entender. Pensei que fosse dinheiro, mas depois ele...' Ela respirou fundo várias vezes, mordeu o lábio inferior enquanto travava bravamente uma luta contra as lágrimas. Demorou um tempo até que ela se recompôs e começou de novo. 'Depois de uns dias ele começou... a me bater.'

Tinha sido difícil para ela falar, Jane sabia, mas tinha sido difícil de ouvir também. Ela resistiu à tentação de fechar os olhos, apenas para tentar ignorar as palavras e o que elas descreviam, porque era quase insuportável imaginar alguém do dobro do tamanho daquela mulher agredindo-a fisicamente, mas Maura estava confiando nela agora, e se ela fora valente o suficiente para aturar tudo aquilo, Jane seria uma covarde se não conseguisse ao menos ouvir. Ela balançou a cabeça como um pequeno incentivo para que a mulher continuasse. Maura tinha cruzado os braços em frente do peito e Jane se perguntou do que ela queria se proteger. Das memórias? Da dor? Do julgamento de Jane?

'Maura, algumas pessoas apenas são más. Não há explicação para isso.' Ela balançou a cabeça em negativo e depois mostrou as mãos de novo. 'E nem para isso.'

'Mas talvez se eu tivesse entendido o que ele queria ou o que estava acontecendo com ele eu poderia ter evitado.' Ela rebateu, insistindo.

'Não.' Jane balançou a cabeça não acreditando no que tinha ouvido. 'Não. Nada disso foi sua culpa. E não importava você ter entendido ou não, porque no final não faria a menor diferença, Maura. É como eu disse, algumas pessoas fazem isso apenas porque são más. Você não tem parte de culpa alguma nisso no que te aconteceu.

Maura concordou com a cabeça e soltou um suspiro tremido, os olhos abaixados. 'Eu não sabia... Eu não sabia que estavam me procurando.' Ela murmurou depois de um minuto.

Jane franziu o cenho. Era de se esperar que ela acreditasse que pelo menos a polícia estivesse trabalhando em seu sumiço, mas a confissão tinha sido algo tão íntimo e dolorido que ela apenas se pôs a escutar.

'Quando ele descia as escadas eu sempre achava que era o resgate, mas depois de dois dias — talvez quatro, não sei dizer ao certo — eu achava que ninguém estava procurando por mim. Então eu planejei uma fuga, mas com o passar dos dias foi ficando mais difícil.'

Porque ela não comia, Jane se deu conta, imaginando o quão difícil era se manter atenta enquanto seu corpo sucumbia por fome, sede e abuso.

Em vez de ceder ao aperto que sentia no peito, Jane abriu um sorriso em cumplicidade e disse, 'mas você conseguiu se salvar'.

Maura balançou a cabeça em sim, compartilhando um sorriso de vitória também. 'Ele deve tá furioso agora.' Ela disse, riu levemente e depois franziu o cenho. 'Imagino que isso seja ainda mais perigoso para mim.'

Jane balançou a cabeça e dispensou o medo da outra. 'Não enquanto você estiver comigo.' Ela esticou a mão sobre a mesa sabendo que dessa vez Maura a apertaria.

Ela apertou.

A morena sorriu porque aquilo significava apenas uma coisa: ambas, finalmente, estavam lançadas no mesmo fluxo, percorrendo a mesma direção. A conexão entre elas ainda poderia ser fraca, mas pelo menos ela existia, e agora Jane sabia exatamente como fortalcê-la.

Ela agora tinha mesmo um plano, e sabia exatamente o que fazer.