犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
4 四 かごめ Kagome
O fim da tarde havia chegado com aquela tranquilidade quase enganosa que só existia depois de dias sem ataques de youkai. O vento era suave, a luz dourada tocava as árvores ao redor da vila, e Kagome aproveitava o raro momento de silêncio. Inuyasha estava deitado com a cabeça em seu colo, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. E era mesmo.
— Para com isso... — ele resmungou, sem abrir os olhos.
Kagome sorriu.
— Com o quê?
— Você sabe.
Os dedos dela continuavam a deslizar pelas orelhas de Akita, apertando de leve, massageando, traçando círculos distraídos enquanto ela observava o céu.
— Se você não gosta, pode levantar — respondeu, inocente.
Ele bufou, mas não levantou. As orelhas caninas se moviam involuntariamente sob o toque dela, e Kagome reprimiu uma risada.
— Você fica todo pensativa quando mexe nas minhas orelhas — ele murmurou.
— E você fica todo relaxado.
— Eu não fico.
Ela inclinou-se um pouco, encarando-o com uma expressão divertida.
— Fica sim!
Inuyasha abriu um dos olhos âmbares apenas o suficiente para encará-la de volta, mas não disse nada. Havia algo confortável demais naquele silêncio compartilhado para que ele o quebrasse com orgulho inútil. Kagome então suspirou, deixando o olhar se perder no horizonte.
Três anos.
Três anos desde que atravessara o poço novamente. Desde que escolhera ficar. Desde que decidira que aquele era o lugar onde seu coração estava inteiro. A vida havia se acomodado. Ela e Inuyasha viviam sob o mesmo teto. Dividiam refeições. Dividiam noites. Dividiam missões. E dividiam silêncios. Não precisavam provar nada a ninguém. Nunca precisaram.
Ela desceu os dedos até a base da orelha dele, sentindo-a estremecer levemente.
— Kagome...
— O quê?
— Você tá pensando demais.
Ela sorriu.
— Talvez.
Ele fechou o olho de novo.
— Não precisa.
Talvez não precisasse mesmo.
A vila aceitara a sua presença. Os moradores já estavam acostumados. Ela ajudava Kaede quando necessário, auxiliava em exorcismos menores, acompanhava Inuyasha e Miroku em serviços envolvendo youkai mais problemáticos. Era quase uma vida comum. Quase.
— Inuyasha!
A voz de Miroku ecoou da trilha.
Inuyasha abriu os olhos imediatamente.
— O que foi agora?
Miroku surgiu entre as árvores com aquele sorriso calmo demais para quem sempre trazia problemas.
— Recebemos um pedido. Uma pequena infestação de youkai nas colinas ao norte.
— “Pequena”, ele diz... — Inuyasha resmungou, erguendo-se e afastando-se do colo dela.
Kagome sentiu a falta imediata do peso.
— Voltamos antes do anoitecer, Kagome-sama — Miroku garantiu, já se afastando.
Inuyasha se virou para Kagome.
— Não vai ficar pensando besteira enquanto eu estiver fora.
— Não prometo — ela respondeu.
Ele hesitou por meio segundo, então inclinou-se e roçou os lábios nos dela, rápido, quase distraído, mas íntimo. Depois, desapareceu entre as árvores. Kagome ficou ali por alguns instantes, tocando os próprios lábios. Era isso. Era assim. Simples.
Ela levantou-se para voltar à vila quando percebeu passos se aproximando.
— Kagome-sama?
Rin.
Mas não a Rin pequena que corria atrás de borboletas. A Rin de agora — mais alta, traços mais delicados, postura mais serena.
— Rin — Kagome sorriu. — Soube que você estava ocupada hoje.
— Eu… Sim. Um pouco.
Houve um pequeno silêncio. Rin parecia querer dizer algo.
— Aconteceu alguma coisa? — Kagome perguntou.
Rin inclinou levemente a cabeça, pensativa.
— Posso perguntar uma coisa?
— Claro.
— Quando a senhora e Inuyasha-sama vão se casar?
Silêncio.
O mundo pareceu pausar.
Kagome piscou.
— O quê...?
— Casar — Rin repetiu, naturalmente. — Vocês vivem juntos. Dormem juntos. Ele sempre a protege. A senhora sempre o espera. Pensei que já estivesse decidido...
O calor subiu pelo pescoço de Kagome.
— Nós… Quer dizer…
Rin inclinou a cabeça, curiosa, não acusatória.
— Ainda não houve o pedido formal, então?
— Rin!
— É errado perguntar?
— Não... Não é isso!
Kagome cruzou os braços, tentando organizar os próprios pensamentos.
Casar.
Ela nunca tinha… Parado para pensar nisso. Quer dizer, claro que pensara. Em algum momento distante ou em alguma versão futura, mas eles já viviam como casal. Já eram um casal... Não eram?
— Nós não precisamos provar nada para ninguém, Rin... — ela murmurou com algum carinho, mais para si mesma do que para Rin.
Rin franziu levemente o cenho.
— Mas, não é para provar. É para anunciar. É o certo, não?
A simplicidade da frase a atingiu.
Anunciar.
Como se o mundo precisasse saber, como se aquilo tivesse peso além dos dois.
— Eu só achei estranho — Rin completou com delicadeza. — Todos estão formando pares. Pensei que talvez estivesse esperando algo.
Kagome não respondeu imediatamente. Esperando? Ela estava esperando? Ou, simplesmente, nunca tinha parado para nomear o que já existia?
— Eu vou falar com ele — acabou dizendo.
Rin assentiu, satisfeita.
— Eu imaginei que sim.
E saiu com a serenidade de quem havia apenas feito uma pergunta inocente. Kagome ficou ali, sozinha.
Casar.
Ela sentiu o rosto esquentar. Eles já dividiam o mesmo futon... Já dividiam o corpo... Já haviam cruzado limites que, no mundo moderno, não exigiam mais tanta cerimônia. Mas, ali… Ali era diferente.
— Kagome.
Ela se virou.
Kaede estava parada à porta da cabana.
— Venha cá um instante.
O tom era neutro demais. Elas entraram. Kaede sentou-se lentamente.
— Preciso lhe perguntar algo, como sacerdotisa.
Kagome sentiu o estômago revirar.
— S-sim..?
Kaede a observou com atenção.
— Você já partilha o leito de Inuyasha?
O ar desapareceu dos pulmões dela.
— Kaede-obaa-san...!
— Responda, apenas.
Kagome abriu e fechou a boca duas vezes.
— Nós, hãa… — respirou fundo — Sim.
Silêncio.
Mas Kaede apenas assentiu.
— Entendo...
— A senhora vai me dar um sermão?
— Não.
A resposta foi tão simples que Kagome piscou.
— Não...?
— Não é estranho que dois jovens unidos pelo afeto ajam assim.
O rosto de Kagome ardeu ainda mais.
— Mas, então…
— Mas — Kaede continuou — Se já vivem como um casal, devem se assumir como um casal.
A frase caiu como uma pedra calma. Sem julgamento. Sem condenação. Apenas lógica.
— Eu… Eu nunca pensei nisso dessa forma.
— Você veio de outro tempo — Kaede disse. — Mas vive neste agora.
Kagome desviou o olhar.
— Eu não me arrependo...
— Não estou sugerindo que deva.
Outro silêncio.
— Apenas pergunto — Kaede completou — Se vocês têm sido cuidadosos.
Kagome quase caiu para trás.
— K-Kaede-obaa-san...!
— Responda.
Ela levou as mãos ao rosto.
— S-sim...! Eu sei como funciona!
Kaede a encarou por um segundo, então assentiu.
— Bom.
Só isso.
— “Bom”?!
— Não desejo que uma criança nasça sem nome.
Aquela frase, mais do que qualquer sermão, fez Kagome engolir em seco. Sem nome, sem formalidade e sem reconhecimento. Ela nunca pensara dessa maneira. Kaede levantou-se.
— Fale com ele, Kagome.
E saiu, deixando Kagome sozinha com pensamentos demais.
Quando Inuyasha voltou, estava sujo, irritado e levemente arranhado.
— “Era pequeno”, ele disse...! — resmungou. — Pequeno nada!
Kagome estava sentada à porta, esperando.
— Inuyasha...
— O quê?
— Quando você pretende pedir a minha mão?
Silêncio absoluto.
Ele parou no meio do passo.
— Hãaa...?
— Você ouviu.
As orelhas dele se ergueram completamente.
— Do que você tá falando?!
— É uma pergunta simples.
— A gente já tá junto!
— Isso não é um pedido.
— Pra quê pedir?!
— Porque é assim que funciona!
— Quem disse?!
— A vila!
— A vila não manda em mim!
— Rin perguntou.
O mundo caiu.
— A RIN?!
— Sim.
— Por que ela—
— Porque é óbvio!
Ele começou a andar de um lado para o outro.
— Eu.. Eu não sabia que tinha prazo pra isso!
— Não tem prazo, Inuyasha.
— Então por que—
— Porque nós moramos juntos! Dormimos juntos! Vivemos juntos!
Ele ficou vermelho até as pontas das orelhas.
— Eu sei disso!
— Então?!
— É que... Eu nunca pensei que precisava anunciar!
— Pois precisa!
— Eu não achei que precisava provar pra todo mundo!
Kagome cruzou os braços.
— Então você vai pedir?
— Eu—
Ele travou, as orelhas abaixaram e o olhar dourado encontrou o dela.
— Você quer?
A pergunta veio mais baixa e mais séria. Kagome sentiu o coração desacelerar.
— Eu já estou aqui, não estou...?
Silêncio.
Ele a encarou por alguns segundos que pareceram mais longos do que qualquer batalha. Então, virou o rosto.
— Tsc...
— Isso não é resposta.
— Aah, Kagome! Eu... Eu nunca pensei num mundo onde você... Não estivesse comigo.
A frase saiu quase irritada, como se estivesse sendo acusado injustamente, mas o rosto dele corou. E ele ali estava. Inteiro. Kagome piscou e ele apontou para ela, defensivo:
— Só… Me dá um tempo!
— Tempo pra quê?
— Pra fazer direito!
Ela quase sorriu.
— Direito como?
— Como tem que ser!
— E como tem que ser?
— Eu... Eu vou descobrir!
Ela riu. Afinal ele estava vermelho, furioso e confuso, mas não hesitante.
— Então eu espero — ela disse.
Ele bufou.
— Não vai esperar demais.
— Eu já esperei três anos.
Ele abriu a boca para responder... E viu Kaede parada à distância, observando-os. As orelhas de Akita tremularam.
— Ela ouviu?
— Talvez.
Ele empalideceu e Kagome riu. Pela primeira vez desde que a pergunta fora feita, percebeu que não havia dúvida. Não havia incerteza. Só havia apenas um passo que precisava ser dado. E Inuyasha, por mais despreparado que estivesse, nunca fugira do passo necessário.
Mesmo que gritasse antes. Mesmo que só percebesse depois. Mesmo que precisasse aprender… Como tudo o mais.
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