犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
5 五 りん Rin
Rin percebeu primeiro pelo jeito que Kohaku passava a andar ao lado dela.
Não era algo brusco, nem repentino. Kohaku sempre estivera ali. Desde que ela se lembrava, na verdade. Ele era presença constante como a terra sob os pés, como o som distante do rio perto da vila. Cresceram juntos, dividiram tarefas, silêncios, cicatrizes. Por muito tempo, isso fora suficiente.
Mas agora havia uma diferença quase imperceptível — e exatamente por isso, difícil de ignorar.
Ele não caminhava mais um passo atrás, como quem acompanha. Caminhava ao lado. Às vezes um pouco à frente, abrindo caminho entre as pessoas. Às vezes diminuía o passo para que ela não ficasse para trás. Gestos pequenos. Atentos. Cuidados que não eram novos… Apenas mais conscientes.
Rin sentia isso como quem sente uma mudança no vento: não sabe explicar, mas sabe que algo mudou.
Kohaku falava mais com ela também. Perguntava coisas que antes nunca perguntara. Se ela estava cansada. Se preferia ficar na vila naquele dia. Se gostava daquele chá ou daquele tecido. Perguntas simples, mas que carregavam uma intenção estranha, uma busca silenciosa por algo que Rin não sabia como oferecer.
Ela gostava dele. Gostava de verdade. Kohaku lhe trazia uma sensação de segurança que poucos conseguiam. Era estável, calmo, firme — como alguém que já vira demais e aprendera a permanecer. Quando ele sorria, não havia pressa, nem expectativa. Só presença.
E talvez fosse exatamente isso que a confundia.
Porque Rin não sentia nada além disso.
Nenhum aperto no peito. Nenhuma aceleração do coração. Nenhuma vontade de tocar sua mão por mais tempo do que o necessário. Nenhum pensamento que insistisse em voltar a ele quando estava sozinha. Apenas… Calma. Uma calma confortável, quase fraterna.
Ela se perguntava se isso era o que deveria sentir.
Afinal, todos pareciam esperar que fosse.
As mulheres mais velhas da vila olhavam para eles com aquele sorriso discreto, cúmplice, que Rin aprendera a reconhecer como “Já está na hora”. Algumas comentavam baixinho. Outras nem se davam ao trabalho de disfarçar. Kohaku era um bom rapaz em seus plenos 17 anos de idade. Era um taijiya muito competente. Honesto. Forte. Um jovem que sobrevivera ao pior e ainda assim permanecia gentil.
Era o tipo de pessoa que se escolhia para ficar.
Mas Rin não queria escolher. Não ainda. Talvez nunca.
Ela tentava encontrar dentro de si qualquer traço de recusa, de desconforto verdadeiro — e não encontrava. Não havia repulsa. Nem medo. Nem vontade de fugir. Apenas uma ausência estranha de algo que todos pareciam considerar essencial.
O que havia de errado com ela?
Em algumas noites, sentada sozinha, Rin percebia que seus pensamentos iam sempre para o mesmo lugar. Para a mesma figura distante, quase etérea, de um youkai que aparecia cada vez menos. Um nome que ela raramente pronunciava em voz alta, mas que existia nela como um eco constante.
Sesshoumaru.
Ela não sabia quando exatamente aquilo começara a doer.
Talvez sempre tivesse doído — só não tinha nome.
Sesshoumaru-sama vinha à vila com menos frequência agora. Quando vinha, ficava menos tempo. Às vezes apenas observava de longe, silencioso como sempre, e partia antes que ela tivesse coragem de se aproximar. Outras vezes, nem isso. Apenas um rastro de presença, uma sensação vaga de que ele estivera ali… E fora embora.
Rin sentia falta dele de um jeito que não sabia explicar.
Não como quem sente falta de um pai. Não como quem sente falta de um irmão. Também não como quem sente falta de um amigo. Era uma ausência que não cabia em nenhuma dessas palavras, e talvez por isso a incomodasse tanto.
Ela não pensava nisso como amor. Não se permitia. Amor era coisa clara, nomeável, concreta. Amor era o que as pessoas da vila falavam, planejavam, esperavam. O que Kohaku talvez estivesse começando a oferecer.
O que ela sentia por Sesshoumaru era… Outra coisa. Uma tensão silenciosa. Um fio invisível que permanecia esticado mesmo quando ele estava longe. Uma saudade que não pedia presença constante, só existência.
Ela se perguntava se aquilo era errado.
E, se fosse, por quê.
Kohaku tentou se aproximar de forma mais evidente numa tarde de verão. Estavam ajudando a organizar suprimentos quando ele, depois de um longo silêncio, comentou que talvez fosse bom ela pensar no futuro. Disse isso com cuidado, como quem pisa em terreno frágil.
Rin assentiu, educada. Disse que pensava, sim.
Ele perguntou se ela se via ficando ali, construindo algo com alguém.
Ela demorou a responder. Não porque não tivesse palavras — mas porque nenhuma parecia verdadeira o bastante.
— Eu não sei — disse, por fim.
E aquela honestidade simples pareceu feri-lo mais do que uma recusa direta.
Kohaku sorriu, mas foi um sorriso tenso, curto demais. Ele não insistiu. Nunca insistia. Talvez por isso fosse tão difícil.
Rin sentiu culpa, mas não arrependimento.
Naquele mesmo período, ela começou a notar algo curioso acontecendo ao redor da vila — algo que, curiosamente, servia como um contraponto quase cômico às próprias inquietações.
Inuyasha-sama estava estranho.
Mais estranho do que o habitual, o que por si só já era dizer muito.
Rin observava de longe, sem ser notada, enquanto ele tentava — de forma desajeitada e visivelmente dolorosa — entender costumes humanos que nunca haviam feito sentido para ele. Perguntava coisas absurdas aos aldeões. Errava palavras. Irritava-se com detalhes mínimos. Às vezes, parecia prestes a desistir de tudo e sair xingando o mundo.
Tudo por causa de Kagome-sama.
Rin gostava de Kagome. Gostava muito. Ela era diferente de qualquer outra pessoa que já conhecera. Forte e frágil ao mesmo tempo. Moderna, mas curiosamente respeitosa com aquele mundo antigo. Kagome-sama ria alto, chorava sem vergonha e amava Inuyasha-sama de um jeito que não deixava dúvidas.
E Inuyasha… Bem, Inuyasha-sama estava tentando se tornar alguém digno desse amor à maneira humana.
Rin achava isso fascinante.
Ele ensaiava frases, descartava todas. Reclamava de tradições, mas as seguia mesmo assim. Queria fazer tudo “do jeito certo”, embora não soubesse exatamente o que isso significava. Havia algo de profundamente sincero — e involuntariamente engraçado — naquele esforço.
Rin observava tudo com um misto de ternura e melancolia.
Kagome e Inuyasha tinham algo claro. Desajeitado, caótico, cheio de falhas… Mas, claro. Eles se escolhiam todos os dias. Mesmo quando brigavam. Mesmo quando erravam. Mesmo quando o mundo parecia não caber neles.
Rin se perguntava se aquilo algum dia seria possível para ela.
Se um dia ela sentiria algo que não fosse dúvida.
Numa noite tranquila, sentada à beira da vila, Rin encarou o céu estrelado e percebeu que sua apatia em relação a Kohaku não era frieza. Era fidelidade — ainda que ela não soubesse a quem, ou a quê.
Ela não estava vazia. Estava ocupada demais sentindo algo que ainda não tinha nome.
E talvez esse fosse o verdadeiro problema.
Porque, enquanto Inuyasha-sama se preparava para pedir oficialmente a mão de Kagome-sama, tentando se encaixar em um futuro que ele desejava, Rin permanecia parada entre dois mundos: o que todos esperavam que ela escolhesse… E aquele que insistia em chamá-la pelo silêncio.
E, pela primeira vez, ela começou a se perguntar se esperar era, por si só, uma escolha.
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