O retorno à consciência não foi abrupto, mas um processo lento e doloroso, como se Rin estivesse sendo puxada para fora de um poço de águas escuras e densas.

O primeiro sentido a despertar foi a audição. Havia um som constante, um lamento agudo e cortante que ela demorou alguns segundos para reconhecer como o vento fustigando alguma estrutura elevada.

Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, a visão demorou a focar. O teto acima dela era alto demais, imerso em uma penumbra densa que a luz fraca do amanhecer mal conseguia dissipar. Não era o teto de palha de uma cabana, era uma intrincada e caótica teia de madeira envelhecida, galhos retorcidos e cordas grossas de cânhamo, que se cruzavam como as costelas de uma criatura monumental.

Rin piscou repetidas vezes, tentando afastar a névoa que nublava sua mente. Seu corpo parecia pesado, os membros dormentes pela inércia. Ela percebeu que estava deitada sobre um futon estendido diretamente no chão de pedra fria. Era uma acomodação rudimentar, o tecido áspero contra sua pele, desprovido de qualquer luxo ou conforto.

O cheiro do lugar foi o que disparou o primeiro alerta real em seu instinto de sobrevivência. Aquele aroma não pertencia a nenhuma vila que conhecia. Era uma mistura pungente de penas molhadas, madeira antiga apodrecendo lentamente pelas brenhas, e terra úmida.

Um calafrio percorreu a espinha dela. Rin ergueu-se imediatamente, sentando-se no futon com um sobressalto. O movimento brusco fez uma dor aguda e latejante atravessar seus ombros e descer pelas costas. Aquela queixa física foi o gatilho que trouxe as memórias da noite anterior de volta, como um balde de água gélida: os braços escuros, as garras afiadas que rasgaram o tecido de seu quimono, os gritos estridentes que abafaram sua própria voz enquanto ela era arrancada do solo. Os Shibugarasu. Os demônios-corvo a haviam capturado, e a sensação de impotência ao ser arrastada pelos céus ainda ecoava em seu peito, fazendo seu coração martelar contra as costelas.

Olhando ao redor com os olhos arregalados, Rin tentou mapear o ambiente em busca de perigos imediatos. O aposento em que se encontrava era pequeno, quase espartano, mas surpreendentemente limpo, livre da imundície que costumava caracterizar os covis de youkai menores. A mobília reduzia-se a uma mesa de madeira baixa e gasta pelo tempo, uma lamparina de óleo apagada e uma tigela de cerâmica contendo água límpida, cujo reflexo tremeluzia levemente com a brisa que entrava pela janela aberta.

Ela engoliu em seco, os olhos fixos na abertura. Não havia grades de ferro. Nenhuma corrente prendia seus tornozelos. Nenhuma corda amarrava seus pulsos. Aquela ausência de contenção, longe de acalmá-la, aprofundou sua confusão. Prisioneiros humanos capturados por youkai costumavam ser jogados em celas úmidas, acorrentados como gado até o momento de serem devorados ou usados como moeda de troca. Aquilo ali parecia... Um quarto de hóspedes, por mais rústico que fosse.

Rin levantou-se devagar, testando o equilíbrio e ignorando o protesto de seus músculos fatigados. Seus pés descalços tocaram a rocha nua e fria, arrancando-lhe um leve tremor. Passo a passo, mantendo a guarda alta e a respiração controlada, ela atravessou o cômodo e aproximou-se da janela aberta, apoiando as mãos trêmulas no parapeito de pedra.

A paisagem que se descortinou diante de si fez suas pupilas dilatarem e o ar fugir de seus pulmões.

Ela estava nas alturas do mundo. O aposento fora escavado diretamente na parede de um penhasco colossal que despencava em um abismo sem fim. Diante dela, o complexo dos Shibugarasu estendia-se como uma monstruosidade arquitetônica. As construções de madeira escura estavam espalhadas e incrustadas nas paredes da montanha, assemelhando-se a ninhos gigantescos de aves de rapina, presos à rocha viva por amarras impossíveis e suportes que desafiavam a gravidade. Pontes de madeira suspensas, longas e oscilantes, ligavam as diferentes plataformas e níveis daquela colmeia vertical.

No entanto, o que mais a aterrorizou foi o movimento. Figuras aladas de plumagem negra e lustrosa cruzavam o céu cinzento de forma constante, rasgando as correntes de ar com uma agilidade assustadora. Eram os Shibugarasu. Havia dezenas deles no campo de visão imediato, talvez centenas se contasse as silhuetas distantes que emergiam e submergiam entre as nuvens baixas. Rin nunca, em toda a sua vida, imaginara que pudessem existir tantos youkai daquela espécie reunidos em um único lugar. A escala do clã era opressiva.

Uma sombra repentina passou raspando diante de sua janela, o bater de asas gerando uma lufada de vento que jogou os cabelos de Rin contra o rosto. Logo em seguida, outra silhueta repetiu o gesto. Ela recuou instintivamente para o interior do quarto, as costas batendo contra a parede oposta. Do lado de fora, risadas agudas, estridentes e desprovidas de qualquer calor humano, ecoaram pelas frestas da rocha.

— Ela acordou.

— Finalmente.

— Humanos dormem demais.

Rin cerrou os dentes, recusando-se a demonstrar o medo que ameaçava paralisá-la. Ela passou anos viajando pelas terras feudais, enfrentando ameaças que fariam guerreiros treinados tremerem; não se deixaria intimidar por provocações de sentinelas.

Ignorando os comentários que continuavam do lado de fora, ela girou sobre os calcanhares e caminhou decidida até a porta de madeira do aposento. Empurrou-a com cuidado, esperando encontrar resistência, mas a folha de madeira cedeu sem rangidos. Ninguém estava postado ali para impedi-la.

O corredor que se abria diante dela era, na verdade, uma passarela esculpida na própria rocha, completamente aberta para o vazio do desfiladeiro à esquerda. O vento cortante da montanha soprou imediatamente contra seu rosto, esvoaçando suas vestes e trazendo o frio úmido das altitudes. Rin engoliu o medo, fixou o olhar no caminho de pedra e começou a andar. Virou uma esquina estreita, depois outra, seus olhos atentos a qualquer movimento nas sombras. Encontrou uma escadaria de degraus irregulares que descia em espiral pela lateral do penhasco e começou a descê-la, uma mão apoiada na parede rochosa para não perder o equilíbrio.

Depois de algum tempo, Rin encontrou uma passagem larga que desaguava diretamente em uma das grandes pontes externas, aquela que parecia estender-se em direção ao lado oposto do vale.

Seu coração acelerou, uma faísca de esperança acendendo-se em seu peito. Liberdade. A palavra ecoou em sua mente como um mantra. Rin quebrou a postura cautelosa e atravessou a ponte suspensa a passos rápidos, quase correndo. As tábuas de madeira rangiam sob seus pés, e a estrutura oscilava levemente com o vento forte. Então, ela parou abruptamente no meio da estrutura. A realidade do lugar desabou sobre suas expectativas com a força de uma avalanche. Não havia trilha. Não havia caminho. Ao alcançar uma posição mais central, percebeu que a ponte ligava o penhasco a uma agulha de rocha isolada, uma torre natural que não levava a lugar nenhum.

Abaixo dela, existia apenas um abismo insondável, completamente coberto por uma névoa espessa e acinzentada que ocultava o chão do mundo. Acima, erguiam-se paredões de pedra quase verticais, polidos pelo vento e desprovidos de qualquer vegetação onde um humano pudesse encontrar apoio. Ao longe, estendendo-se até onde a vista alcançava sob o céu nublado, havia apenas um mar de montanhas e mais montanhas, picos afiados cobertos de gelo e rocha nua. Ela estava isolada no topo do mundo, em uma fortaleza natural da qual nenhuma criatura sem asas jamais poderia escapar.

As mãos de Rin caíram ao lado do corpo. Ela estava presa.

— Entendeu agora?

A voz surgiu logo atrás dela. Era uma voz calma, profunda e marcadamente masculina, contrastando de forma absoluta com os grasnados estridentes das sentinelas que ouvira antes.

Rin virou-se rapidamente, o susto fazendo seu coração dar um solavanco.

O homem parecia ter surgido do nada, materializando-se a partir da própria névoa que subia do abismo. Ele era alto, consideravelmente mais alto do que a maioria dos homens humanos que ela já vira. Vestia um quimono de seda negra, cujo tecido parecia absorver a pouca luz do dia, perfeitamente ajustado nos braços e nas pernas por faixas de couro escuro, conferindo-lhe uma silhueta esguia e militar. Os cabelos negros e compridos desciam em camadas irregulares e desalinhadas que iam de encontro às costas. O aspecto mais incomum daquela cabeleira era a sua textura: algumas mechas pareciam fios de cabelo humano perfeitamente normais, enquanto outras lembravam penas longas, rígidas e de um brilho lustroso, misturando-se de tal forma que os olhos de Rin não conseguiam distinguir onde uma coisa terminava e a outra começava.

O rosto do indivíduo possuía traços finos e aristocráticos, mas uma bizarrice anatômica saltava à vista: ele não possuía sobrancelhas. No lugar delas, a pele era lisa, dando-lhe uma expressão não humana, uma tentativa malfeita de mimetizar a aparência de um homem. Os olhos, contudo, eram a maior evidência de sua natureza youkai: duas esferas douradas, da mesma cor dos olhos dos outros Shibugarasu que cruzavam os céus, mas estes eram mais estreitos, mais inteligentes e carregavam o peso de séculos de existência acumulada. Atrás dele, parcialmente escondidas sob o tecido do quimono que se movia com o vento, Rin conseguiu vislumbrar a ponta de asas recolhidas, uma densa plumagem negra que se agitava sutilmente.

Ele observou a expressão de desespero contido no rosto de Rin por alguns segundos, apreciando o silêncio que se instalara entre eles.

— Você pode caminhar para onde quiser dentro destas montanhas, desde que permaneça aqui. O espaço é vasto, embora eu tema que as opções de destino sejam um tanto limitadas para quem depende de pés humanos.

Rin sentiu a irritação começar a sobrepujar o medo.

— Então sou uma prisioneira. Não importa o tamanho do lugar, ainda é uma jaula.

— Tecnicamente?

O homem estranho inclinou levemente a cabeça para o lado, um movimento que lembrava muito o de um pássaro analisando um objeto curioso no chão.

— Sim. Você é nossa prisioneira.

A sinceridade cirúrgica e desprovida de qualquer sadismo ou deboche na resposta a pegou totalmente desprevenida. Rin piscou, esperando ameaças ou vanglórias, que eram o padrão dos youkai que costumavam cruzar seu caminho.

— Por quê?

— Porque eu decidi que seria assim.

Ele respondeu com simplicidade, apoiando os cotovelos no corrimão de madeira da ponte e cruzando os dedos.

— Isso não responde nada.

— Para nós, responde o suficiente.

Rin respirou fundo, tentando manter a mente fria para coletar informações.

— Quem é você?

— Chamam-me Shigure.

Ele respondeu, seus lábios azulados, de um tom arroxeado e frio que lembrava carne em mau estado, abrindo-se em um sorriso sutil.

— E isso significa o quê?

— Significa que alguém decidiu me chamar assim há muito tempo. Nomes importam pouco para quem vive no topo do mundo.

— Você é o rei daqui? — Rin insistiu, buscando entender a hierarquia do inimigo.

— "Rei" é uma palavra generosa.

— Então o que você é para os Shibugarasu? Se obedecem às suas ordens, então você deve ser o seu líder.

— Eu sou o pássaro que ainda está sentado no galho quando todos os outros já caíram.

Shigure virou o rosto levemente para o horizonte, onde dois Shibugarasu disputavam os restos de uma carcaça de animal no ar.

— O meu clã, garota, não vive da glória das conquistas territoriais. Nós somos gralhas. Os corvos que observam de longe.

Rin permaneceu em silêncio por alguns instantes, processando as palavras dele. Havia uma lógica cruel naquela confissão. Shigure não parecia motivado pelo ódio ou pela busca de poder absoluto.

— Você parece decepcionada.

— Bem, eu fui sequestrada.

— Sim, você foi. Mas, normalmente, os sequestrados de sua espécie recebem correntes de ferro fundido, mordaças e são trancados em fossos onde a luz do sol nunca toca.

— Isso deveria me fazer sentir melhor? Deveria me fazer agradecer pela sua... Hospitalidade?

— Não.

Ela suspirou, desviando o olhar para a névoa abaixo. A situação era bizarra demais.

— O que você quer de mim?

Shigure fixou os olhos dourados nela, as pupilas estreitando-se como as de um predador que foca no alvo.

— Você sabe quem você é?

Ela piscou, confusa pela pergunta aparentemente óbvia.

— O quê?

— Você. Você realmente compreende a sua situação neste mundo?

Rin franziu o cenho, a irritação crescendo.

— Claro que sei!

— Não creio que você saiba.

— Por que você diz isso com tanta certeza? Você não me conhece!

— Metade dos pequenos clãs de youkai das Terras do Oeste está falando sobre você neste exato momento. Em cavernas escuras, em florestas densas, e em pântanos esquecidos.

Rin permaneceu em silêncio por um instante. O vento atravessou a ponte suspensa entre eles com mais força, fazendo algumas penas pretas, que haviam sido amarradas às estruturas de madeira como amuletos ou marcações territoriais, balançarem suavemente, produzindo um farfalhar sinistro.

— E o que criaturas que eu nunca vi na vida teriam para falar de mim?

Shigure inclinou ligeiramente a cabeça para o outro lado, a plumagem de suas costas erguendo-se sutilmente com o movimento.

— Falam que você é um problema interessante.

— Eu não sou um problema para ninguém.

— Não para você, decerto. Para qualquer um que tente entender o que Sesshoumaru está fazendo.

Shigure pronunciou o nome com uma certa força na voz.

Rin piscou, e o nome dele pareceu ecoar na imensidão do desfiladeiro.

— Sesshoumaru-sama não está fazendo nada contra os clãs menores. Ele não está planejando nenhuma guerra.

— Exatamente. Exatamente isso que está deixando todos os senhores de clãs menores absolutamente nervosos.

Rin franziu o cenho, a mente trabalhando para encontrar lógica naquela afirmação.

— Isso não faz o menor sentido. Se ele não está atacando, se ele está em paz, por que teriam medo dele?

— Faz sentido para os youkai, Rin. Nós não operamos pela lógica da paz dos humanos.

Shigure virou-se novamente para as montanhas distantes, batendo os dedos longos contra a madeira gasta do corrimão.

— Os grandes youkai são criaturas de extremos. Eles são previsíveis em sua monumentalidade.

— Sesshoumaru-sama não é previsível. Ele faz o que bem entende, quando quer.

— Ele é extremamente previsível. Um lobo caça quando tem fome. Uma serpente espreita na grama alta até o momento de dar o bote. Um corvo observa do galho mais alto, esperando a morte acontecer. Um cão... Protege o que ele toma para si com uma fúria cega e, eventualmente, ele o consome.

Shigure girou o rosto lentamente para ela, os olhos dourados brilhando na penumbra do dia nublado.

— Durante séculos, o Senhor das Terras do Oeste fez exatamente o que se esperava dele. Ele seguiu o comportamento natural dos inu-daiyoukai.

— Não... Ele mudou.

Rin sussurrou, pensando na jornada que compartilharam.

— Sim, ele seguiu. Ele era forte. Orgulhoso. Distante. Hostil a qualquer forma de fraqueza. Perfeitamente adequado à posição de terror que ocupa no imaginário de todos os clãs que habitam sob a sua sombra. Nós sabíamos o que esperar dele: se entrássemos em seu caminho, seríamos pulverizados por suas presas lendárias. Era uma relação simples e direta.

— Fala como se o conhecesse intimamente.

Rin acusou, sentindo um aperto desconfortável no peito.

— Como se estivesse na mente dele.

— Eu o observo há muito tempo, garota. Meu clã o observa de seus ninhos nas nuvens.

O sorriso de Shigure desapareceu por completo, sua expressão tornando-se fria e severa.

— Todos os clãs menores o observam. Quando um gigante caminha pela floresta, os insetos no chão precisam monitorar cada passo para não serem esmagados por acidente.

Rin desviou o olhar para o horizonte cinzento, sentindo o estômago revirar. Aquela conversa não a agradava em nada. Havia algo profundamente profano e desconfortável em ouvir um estranho, um youkai oportunista, discutindo a natureza de Sesshoumaru como se ele fosse apenas um fenômeno climático, uma montanha que se move ou uma tempestade de raios que destrói tudo sem pensar.

— E então, no meio dessa previsibilidade secular, você apareceu. Uma menina humana. Uma criatura cuja vida dura o piscar de olhos de um youkai.

— Minha presença ao lado dele não deveria importar tanto para o resto do mundo

Rin disse com a voz baixa, quase para si mesma.

— Não, não deveria. Mas continuou importando. Cada ano que passava, a sua existência sob a sombra dele tornava-se um insulto à lógica dos clãs.

Rin permaneceu em silêncio, a menção ao passado trazendo memórias de estradas longas e noites estreladas.

— Você morreu. Todos nós soubemos. A notícia de que o Senhor das Terras do Oeste havia descido aos domínios da morte para salvá-la não somente uma, mas duas vezes, se espalhou como fogo em palha seca.

O vento que soprava do abismo pareceu subitamente mais frio, congelando o suor que brotava na testa da jovem.

— E ele trouxe você de volta. Ele desafiou a ordem do ciclo da vida, para resgatar uma alma humana. Depois disso, ele continuou andando ao seu lado, permitindo que os seus pés mortais ditassem o ritmo de sua marcha imortal.

Rin não respondeu. Seus lábios estavam cerrados, uma linha fina de pura obstinação.

— Depois, ele permitiu que você permanecesse. Passou anos permitindo que você ficasse sob a proteção de suas terras, vigiada por seus lacaios, mantida como uma relíquia preciosa.

Shigure apoiou o queixo na palma da mão, um gesto quase infantil se não fosse pela malícia em seu olhar.

— E ele nunca a tomou para si da forma que os youkai tomam os humanos. Nem sequer a devorou para absorver sua energia vital. Ele simplesmente... A manteve viva. Intocada.

— Eu não sou um objeto que se guarda em um baú! Nem comida para ser guardada para o inverno!

A voz de Rin explodiu, quebrando a frieza do diálogo. Ela encarou Shigure com os olhos faiscando de uma fúria que surpreendeu o próprio demônio-corvo.

— Você realmente não imagina que os sentimentos dele possam estar além do que o seu clã de gralhas consegue compreender?

— Eu sei muito bem o que acontece com fêmeas humanas quando são levadas por youkai, Rin.

Shigure rebateu, a voz caindo para um tom perigosamente baixo, desprovido de qualquer humor.

— Você realmente não imagina o destino daquelas que caem nas mãos dos clãs da montanha? Você acha que o mundo lá fora pode ser gentil?

Rin sustentou o olhar dourado dele, recusando-se a baixar a cabeça diante da tentativa de intimidação.

— Eu imagino perfeitamente! Eu vivi tempo suficiente para ver a crueldade deste mundo. Ouvi histórias de horror em cada vila por onde passei antes de Sesshoumaru-sama me acolher.

— Ah? Histórias?

Shigure ergueu uma sobrancelha invisível, o interesse renovado.

— Sim. Histórias de vilas inteiras devoradas, de mulheres escravizadas. Eu sei o que os monstros fazem.

— E, mesmo sabendo de tudo isso, mesmo consciente do que a sua espécie sofre nas mãos da minha, você continuou seguindo um daiyoukai? O mais terrível de todos eles?

Rin cruzou os braços com firmeza, o vento agitando seus cabelos pretos ao redor do rosto determinado.

— Sim. Porque Sesshoumaru-sama não é como qualquer outro daiyoukai. Ele está acima da mediocridade e da crueldade barata de clãs como o seu.

O silêncio que se seguiu na ponte suspensa foi quase cômico em sua gravidade. Shigure a encarou por longos segundos, as pupilas dilatando e contraindo enquanto processava a audácia daquela declaração. Ele piscou duas vezes, então soltou um longo e pesado suspiro, balançando a cabeça negativamente.

— É exatamente esse tipo de resposta, essa sua total falta de temor e essa devoção cega, que está causando problemas em todas as Terras do Oeste.

Declarou, passando a mão pelos cabelos emplumados.

— Você fala de Sesshoumaru como se fosse um homem. Alguém com quem se pode conversar sobre o clima ou partilhar uma refeição.

— Porque ele é uma pessoa! — Rin insistiu, dando um passo à frente. — Ele tem sentimentos, ele tem escolhas...

— Não.

A resposta de Shigure veio calma, fria e absoluta, cortando a argumentação de Rin como uma lâmina de gelo.

— Ele não é uma pessoa. Ele é Sesshoumaru. Uma força primordial bela e terrível, que existe para matar e dominar. Você cresceu sob a asa dele, acostumou-se à ideia de que ele é um homem porque ele escolheu não esmagar você. Mas os clãs menores, os monstros que rastejam na lama e que dependem da previsibilidade dos grandes senhores para sobreviver, eles não enxergam um indivíduo quando ouvem esse nome.

Ele estendeu a mão pálida de unhas negras afiadas, apontando para a imensidão das montanhas hostis ao redor.

— Eles enxergam uma força obscura da natureza que, de repente, parou de seguir as regras naturais.

— Isso é ridículo.

Rin desdenhou, embora uma ponta de dúvida começasse a formigar em sua mente ao perceber o tamanho do pânico que sua existência causava.

— É uma fantasia dos clãs que não têm o que fazer!

— É ridículo? Então imagine a cena sob a perspectiva de um ser da floresta: imagine que uma tempestade de raios e destruição, que sempre limpou tudo o que estava à sua frente, escolheu uma aldeã humana qualquer e decidiu carregá-la consigo durante anos, protegendo-a de cair no chão, sem nenhum motivo aparente. O que os outros animais da floresta deveriam pensar?

Rin suspirou profundamente, a irritação finalmente transbordando.

— O que você quer de mim, realmente, Shigure? Se veio até aqui apenas para me dar uma lição sobre a política dos youkai, está perdendo o seu tempo!

E ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, o vento uivando entre as cordas da ponte suspensa, fazendo as penas negras espalhadas pelas estruturas farfalharem em um coro sussurrante. Ele a observou com uma intensidade renovada, e abriu um sorriso de dentes negros.

— Eu ainda não decidi.

— Então por que não me liberta agora mesmo? Se eu não tenho utilidade para os seus planos, me deixe ir!

— Aah... Você é muito impaciente para alguém que não tem asas.

— Você me sequestrou, mobilizou o seu clã, me trouxe para o topo de uma montanha sem nem saber o porquê?

— Você foi trazida para cá porque eu queria ver. Eu precisava ver com os meus próprios olhos a fonte de toda essa discórdia. A humana escolhida pelo Senhor das Terras do Oeste. A humana que desceu duas vezes ao Submundo e retornou à vida por um capricho dele. A humana que sobreviveu nos territórios mais perigosos do mundo sem carregar nenhuma marca de violência ou propriedade em sua pele. A nova Noiva do Cão!

— Eu... Não sou noiva de ninguém!

— Eu não teria tanta certeza. Me diga, então, a interpretação correta.

Rin fez uma pausa, pensando no que iria dizer.

— Sesshoumaru-sama não faz as coisas por posse...

— E, ainda assim, nunca permitiu que outro as fizesse. Venha comigo, garota, e eu lhe mostrarei uma coisa interessante.