Kagome observava Inuyasha do canto da cabana de Kaede, segurando um cesto de ervas que já deveria ter guardado há dez minutos. Ele estava parado no meio da trilha principal da vila, com os braços cruzados dentro das mangas do quimono vermelho e com uma expressão de concentração tão profunda, que parecia estar prestes a enfrentar um novo exército de Naraku.

Mas, não havia exército. Havia apenas o velho ferreiro da vila, entregando um pequeno embrulho de pano para a esposa, que sorria de um jeito que fazia os olhos quase sumirem.

Inuyasha inclinou a cabeça para o lado, as orelhas de Akita movendo-se em direções opostas, provavelmente tentando captar algum som ou cheiro que explicasse o fenômeno. Pelo visto, para ele aquilo não fazia sentido. Porque não havia perigo, não havia comida, não havia poder envolvido. Era apenas... Um gesto.

— Ele vai acabar tendo um curto-circuito... — Kagome murmurou para si mesma, sentindo uma mistura de dó e divertimento.

Era fascinante e, ao mesmo tempo, um pouco triste. Inuyasha tinha sobrevivido a séculos de rejeição confiando apenas no que podia tocar, cheirar ou lutar. Ele não fazia a mínima ideia do que eram códigos sociais, afinal não teve a chance de aprendê-los! Agora, ele tentava decifrar o código invisível da convivência humana — um idioma que ninguém nunca se deu ao trabalho de ensiná-lo. Kagome não podia deixar de achar isso lindo, de certa forma, pois tornava os sentimentos dele por ela ainda mais puros. Alguém que só sabia o que via e o que sentia não podia ser alguém emocionalmente falso.

Ela viu quando ele deu um passo à frente, quase como se fosse perguntar algo ao ferreiro, mas parou no meio do caminho, bufou, chutou uma pedra e virou as costas, certamente resmungando algo sobre "humanos e suas manias barulhentas".

Kagome sorriu, ajeitando o cesto. Ele era verdadeiro demais para aquele mundo de etiquetas, e era exatamente por isso que ela o amava. Mas, se ele queria "fazer direito", ela teria que ter a paciência de uma sacerdotisa — ou de uma professora do jardim de infância — e permitir que ele cometesse erros até que ele conseguisse finalmente encontrar o caminho certo...


Em uma determinada tarde, ela ainda estava rindo baixinho da confusão mental de Inuyasha, quando um estrondo vindo da entrada da vila fez o chão tremer. As aves levantaram voo em massa e o som de galhos sendo esmagados ecoou como trovões.

— Mas, o que agora?! — Kaede-obaa-san saiu da cabana, já com o arco em mãos.

Kagome correu para a clareira central, esperando ver uma invasão ou um ataque surpresa. Em vez disso, ela estancou no lugar, boquiaberta.

Inuyasha vinha caminhando pela trilha principal com uma expressão de triunfo absoluto que quase não cabia no rosto. Mas o que chamava a atenção não era ele, e sim o que ele arrastava atrás de si: uma carcaça imensa de um youkai javali-montanhês, com presas do tamanho de lanças e uma couraça que brilhava como obsidiana. Ele empurrou a criatura para o meio da vila, fazendo-o virar o corpanzil de lado, o que levantou uma nuvem de poeira, fazendo os aldeões pularem para trás, aterrorizados.

— Aí está! — Inuyasha anunciou, limpando o suor da testa com o dorso da mão e estufando o peito. — O maior que eu encontrei nas Colinas do Leste! Deu um trabalho infernal, mas, aqui está o tal... Como é que chamam mesmo? Rá, o “dote”!!

Kagome piscou, olhando do monstro morto para o noivo orgulhoso, que agora cruzava os braços esperando os aplausos.

— Inu...Yasha... — ela começou, a voz oscilando entre o choque e a vontade de rir. — Por que você trouxe um cadáver de um demônio para o meio da vila???

— Como, "por quê"?! — ele rosnou, as orelhas de Akita em pé, ofendidas. — Eu vi o ferreiro dando aquele pedaço de madeira idiota pra mulher dele e ela ficou toda feliz! Keh! Aquilo não serve nem pra palito de dentes! Esse bicho aqui tem carne pra um mês, couro pra fazer umas dez armaduras e as presas valer um bom dinheiro!!

Ele deu um chute na lateral do javali, para enfatizar a qualidade do produto.

— É o dote mais difícil que qualquer humano daqui já viu!!! Agora, a gente pode casar, não pode?!

Kagome levou a mão à testa, enquanto Kaede, ao seu lado, suspirava profundamente, guardando a flecha na aljava...

— Inuyasha, seu... Idiota... — Kagome murmurou, embora o coração estivesse dando piruetas de ternura. — As pessoas costumam dar flores, ou quem sabe um quimono...!! Ninguém espera que a noiva tenha que esquartejar um monstro gigante para o jantar de casamento!!!

— Flores?! — Inuyasha rugiu, ficando vermelho. — Flores morrem em dois dias! Você prefere mato seco a um troféu desses?! Keh! Humanos não fazem o menor sentido mesmo!!!

O cheiro de sangue do youkai e o som das reclamações de Inuyasha ainda preenchiam a praça quando, subitamente, o mundo pareceu ficar mudo.

Kagome sentiu primeiro. Não era apenas uma mudança no vento; era uma pressão no ar, uma nota gélida que cortava o calor do verão como uma lâmina de gelo. O burburinho dos aldeões, que antes discutiam como esquartejar o javali imenso, morreu em suas gargantas.

Inuyasha travou. As orelhas de Akita baixaram rente ao cabelo, e sua mão foi instintivamente para o punho da Tessaiga.

— Ele...? — rosnou Inuyasha, os olhos dourados fixos no céu.

Uma nuvem de luz pálida desceu suavemente, revelando a figura alta e imponente de Sesshoumaru. Ele aterrissou com uma leveza que fazia a brutalidade do javali de Inuyasha parecer ainda mais grosseira. Seus olhos âmbares varreram a vila com um desdém que era quase palpável, detendo-se por um milésimo de segundo na carcaça sangrenta no meio da praça.

Se Sesshoumaru sentia vergonha do "dote" do irmão, ele era orgulhoso demais para demonstrar, mas o leve erguer de uma sobrancelha disse tudo o que Kagome precisava saber.

— Sesshoumaru... — Kagome deu um passo à frente, tentando suavizar a tensão. — O que traz você aqui, hã, de forma tão repentina?

Ele não olhou para ela. Seus olhos buscaram a figura de Kaede, que se aproximava com o apoio de um cajado, mantendo a dignidade que apenas uma vida inteira de provações poderia conferir.

— Sacerdotisa — a voz de Sesshoumaru era um trovão baixo e controlado. — Vim comunicar uma mudança.

Um murmúrio de temor percorreu os homens da vila. Inuyasha deu um passo à frente, ficando entre Sesshoumaru e Kagome.

— Comunicação? Desde quando você dá satisfação pra gente, Sesshoumaru?? Não estava sumido há quase 2 anos?!

O Senhor do Oeste, tal como Sesshoumaru agora mais do que nunca era conhecido, ignorou o meio-irmão como se ele fosse apenas um ruído de fundo.

— A partir desta lua... — continuou Sesshoumaru, olhando fixamente para Kaede —, este vilarejo e as terras que o circundam estão formalmente anexados ao território do Oeste. Qualquer youkai que cruzar estas fronteiras sem a minha permissão, estará em guerra direta comigo, o legítimo Senhor das Terras do Oeste.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Kagome sentiu o estômago dar um nó. Ela entendia o que aquilo significava: proteção. Um escudo invisível e absoluto. Mas, para os humanos ali presentes, a ideia de serem "propriedade" de um daiyoukai trazia sombras de tempos mais sombrios.

— “Anexados”? — Kaede perguntou, a voz firme apesar da surpresa. — Somos uma vila de humanos, Sesshoumaru.

— Agora, são uma vila de humanos sob a minha jurisdição — ele respondeu, curto e definitivo. — Não haverá tributos, nem exigências. Apenas soberania.

Kagome olhou para o lado e viu Rin saindo de trás de uma das casas. A menina, agora uma jovem mulher, estava estática, com as mãos perdidas, observando o antigo mestre com olhos que brilhavam entre o alívio e uma curiosidade silenciosa. Sesshoumaru não se aproximou dela, nem lhe ofereceu um único olhar, mas o fato de ele ter transformado toda a região em seu domínio pessoal falava mais alto do que qualquer promessa.

— Você está marcando território... Por causa da Rin? — perguntou Inuyasha, quase irritado.

Sesshoumaru finalmente desviou o olhar para o irmão. O desprezo ainda muito presente em suas feições era cortante.

— Estou garantindo que o que é meu permaneça intacto e meu. Inclusive este vilarejo medíocre que você polui com carcaças de animais.

E sem esperar resposta, ele se virou, a grande cauda de pelagem espessa flutuando como uma nuvem ao redor de seus ombros. Em um movimento fluido, ele partiu, deixando para trás um vilarejo que, tecnicamente, agora pertencia a youkai.

Kagome soltou o ar que nem percebera que estava segurando. Olhou para Rin, que ainda observava o céu onde o rastro de Sesshoumaru desaparecia, e depois para Inuyasha, que ainda bufava de raiva ao lado de seu javali.

O futuro da vila tinha acabado de mudar. E, de alguma forma, Kagome sabia que as perguntas que Rin vinha fazendo sobre casamentos e destinos estavam prestes a ficar muito mais complicadas.