犬の花嫁 Inu no Hanayome [Re-up]
21 二十一 りん Rin
O som das asas já não era mais uma ameaça distante ecoando entre as copas das árvores.
Rin percebeu isso tarde demais, quando a lufada de vento frio e cortante a atingiu pelas costas, trazendo o cheiro de ozônio e terra batida.
Durante todo aquele tempo, Shigure não estivera apenas seguindo seus passos na névoa. Ele estivera esperando. Observando. Medindo. Como uma ave de rapina que circula acima da presa, sem pressa, sabendo que em algum momento a carne inevitavelmente cederia à exaustão.
E Rin estava exausta.
A fuga desesperada pelo terreno irregular e lamacento havia cobrado um preço cruel. A respiração queimava em seus pulmões como brasa, os músculos das pernas tremiam a cada passada e, pela primeira vez desde que a perseguição começara, ela cometeu o erro de olhar para trás.
O sorriso cruel dos lábios azuis de Shigure, os olhos amarelos que brilhavam com o triunfo iminente, foram as primeiras coisas que cruzaram sua visão.
— Achou que a deixaríamos ir embora?
A voz dele veio baixa, arrastada, densa de uma satisfação sádica.
Rin recuou e um de seus calcanhares bateu contra uma raiz exposta. Depois o outro. E então o chão irregular sob seus pés cedeu sob o peso de seu corpo esgotado.
Ela perdeu o equilíbrio.
Por um breve e suspenso instante, o mundo pareceu inclinar-se de lado. O céu cinzento da Era Sengoku, as copas retorcidas das árvores e a sombra monumental das asas negras de Shigure se projetando sobre ela, obscurecendo a pouca luz que restava.
Rin não teve tempo de pensar em uma rota de fuga, de correr ou de tentar lutar. Apenas recolheu os braços contra o peito, fechou os olhos e esperou pelo impacto.
Mas o golpe nunca veio.
O som que atravessou o ar não foi o de garras rasgando carne humana, mas de um sibilar agudo, o chiado de algo sendo cortado com uma velocidade que desafiava a própria natureza.
Um único movimento. Preciso. Cirúrgico. Definitivo.
Quando Rin abriu os olhos, o corpo de Shigure já desabava pesadamente contra o solo, a névoa ao redor dissipando-se com o deslocamento de ar.
E, bem diante dela... Sesshoumaru.
Ele estava abaixado, apoiado sobre um dos joelhos, com uma das mãos apoiada suavemente no solo para amortecer o pouso, posicionando-se como um escudo absoluto entre ela e o inimigo abatido. O tecido fino de seu quimono e a estola de pelos sobre o seu ombro mal haviam se movido com a transição.
Sua expressão permanecia a mesma de sempre: os olhos dourados e frios, as marcas lunares na face impecável, e uma distância aristocrática impossível de decifrar.
Mas ele estava ali. Perto demais.
A floresta mergulhou em um silêncio sepulcral.
A primeira coisa que Rin registrou foi o som de sua própria respiração, rápida, descompassada, ecoando em seus ouvidos.
Logo em seguida, foi atingida por uma percepção que a deixou estranhamente confusa, com o estômago contraindo-se em um nó desconhecido: Sesshoumaru sempre fora grande, sempre fora uma presença imponente e monumental, uma força da natureza que dominava qualquer ambiente, mas fazia anos que Rin não se encontrava tão fisicamente próxima dele. Não daquela forma. Não agora que ela não era mais a criança que corria descalça atrás de seus passos.
Agora ela estava tão próxima que conseguia notar detalhes que antes não existiam em sua mente infantil: o calor sutil que emanava da armadura dele, quebrando o gélido inverno da floresta; o cheiro familiar de pelagem limpa, orvalho e o toque sutil de energia pura; a segurança absurda, quase magnética, que aquela proximidade trazia.
Ela estava protegida.
Não porque ele havia verbalizado uma promessa, mas porque a realidade de sua presença tornava qualquer perigo irrelevante.
Rin permaneceu imóvel, o corpo tenso, mas não por medo.
“Por que meu coração está batendo desse jeito?”
Sentiu uma pontada de pânico genuíno surgindo no peito.
“É apenas Sesshoumaru-sama. É o meu senhor. Sempre foi ele.”
Por que tudo parecia tão drasticamente diferente? Por que ela estava tão dolorosamente consciente dos poucos centímetros que separavam o ombro dele do seu? Uma quentura desconhecida subiu por seu pescoço, tingindo suas bochechas.
Sesshoumaru virou ligeiramente o rosto de perfil, os olhos dourados cortando a penumbra para focar nela.
— Rin.
A pronúncia de seu nome, dita com aquela cadência baixa e imperial, a trouxe de volta à realidade como um estalo. Ela piscou, tentando dissipar a névoa de seus próprios pensamentos.
— Sesshoumaru-sama...
Ele a examinou por alguns segundos. O olhar dele desceu por seus braços, avaliou a postura de suas pernas e a ausência de sangue em suas vestes, certamente verificando se estava ferida. Era o mesmo escrutínio silencioso de sempre. O mesmo cuidado distante que ele sempre demonstrara.
E, ainda assim, o peso daquele olhar fez Rin baixar os olhos rapidamente, incapaz de sustentar o confronto visual.
Havia algo novo crescendo dentro de seu peito, uma borboleta incômoda e quente. Não era medo — nunca fora medo. Não era apenas a velha gratidão da garotinha salva no vilarejo. Ela sabia disso agora, com uma clareza que a assustava, porque a gratidão não fazia seu rosto arder. A gratidão não fazia seu coração errar a batida daquela forma. A gratidão não a fazia desejar que ele não se afastasse dali.
Mas, então... O que era?
Rin tentou encontrar uma resposta e descobriu, com uma frustração quase infantil, que nenhuma das palavras que conhecia parecia suficiente.
Ela... Amava Sesshoumaru-sama.
Isso ela sempre soubera, mas aquele amor antigo... Aquele sentimento que carregava por ele quando menina... Era simples. Como a luz do sol atravessando as árvores do bosque onde costumava caminhar ao seu lado. Como a certeza de que, não importasse onde estivesse, haveria alguém que retornaria para buscá-la. Era uma devoção tranquila. Uma confiança absoluta.
Agora, porém, havia algo se sobrepondo a tudo aquilo. Algo que fazia sua respiração prender quando ele se aproximava. Algo que fazia seu corpo reagir antes que seus pensamentos pudessem acompanhá-lo. Algo assustador.
Porque Sesshoumaru-sama sempre fora a pessoa que ela mais desejava alcançar.
Agora ela percebia que também desejava ser alcançada por ele.
A constatação fez seus dedos se moverem antes que pudesse pensar.
Devagar.
Quase com medo.
A mão de Rin se ergueu alguns centímetros, como se estivesse agindo por vontade própria.
Ela queria ter certeza de que ele era real. Queria sentir que aquele momento não era apenas mais uma lembrança impossível guardada em sua mente.
Durante tantos anos ela havia segurado a perna da calça dele, o mokomoko ou uma das mangas de seu quimono quando era pequena para seguir seus passos.
Agora, ela hesitava diante de um simples toque.
Seus dedos aproximaram-se do tecido branco estampado de seu quimono.
Tão perto.
Ela quase podia sentir a aura dele antes mesmo de encostar.
— Rin.
A voz dele a fez congelar e erguer os olhos.
Sesshoumaru observava sua mão suspensa entre os dois, como sempre com uma expressão que não revelava nada. Nenhuma surpresa. Nenhuma censura. Apenas aquela calma absoluta que sempre a desarmava.
Rin sentiu o rosto aquecer ainda mais e recolheu a mão rapidamente, como se tivesse sido descoberta cometendo algum erro.
— Eu...
Ela não encontrou uma palavra para completar a frase.
Sesshoumaru inclinou levemente a cabeça.
— Está ferida?
Uma pergunta simples. Prática. Exatamente o tipo de coisa que ele sempre perguntava. Mas naquele momento Rin percebeu que a resposta que queria dar não era sobre cortes ou machucados.
Ela queria dizer que sim. Que havia algo errado. Que havia algo dentro dela que ela não entendia.
Mas apenas balançou a cabeça.
— Não...
Uma pausa. Então, mais baixo:
— Graças ao senhor.
E ela engoliu em seco, forçando-se a desviar a atenção da presença dele.
Seus olhos focaram no corpo inerte de Shigure, caído a poucos metros, então a expressão de Rin mudou instantaneamente, a confusão interna dando lugar à urgência.
— Sesshoumaru-sama!
Ela começou, a voz ganhando firmeza, embora as pernas ainda fraquejassem.
— Ele morreu?
— Sim.
— Traga-o de volta, por favor!
O silêncio caiu entre eles como uma cortina de gelo. Sesshoumaru não se moveu, mas seus olhos voltaram-se para ela, frios e implacáveis.
— Não.
A recusa foi monocórdica, destituída de qualquer dúvida.
— Mas, a Tenseiga... Ela pode salvá-lo.
— Ele tentou matá-la.
Rebateu Sesshoumaru, e o simples fato de ele justificar sua ação era um testamento do peso que Rin tinha em suas decisões.
— Talvez...
Então Rin aproximou-se, passando os braços por debaixo dos dele com uma hesitação quase dolorosa. Seu coração agora parecia na garganta, ao que o dele permanecia sereno, e ela insistiu:
— Ele não é apenas alguém que poderia ter tentado me matar. Sesshoumaru-sama, ele é o líder do povo dele. Se ele morrer aqui, o que acontecerá com aqueles que dependem dele? A guerra não vai terminar. Ela só vai se espalhar.
A firmeza em sua voz pareceu tê-lo afetado, pois Rin o sentiu mudar ligeiramente a postura. Então ela apertou as mãos contra o tecido de suas costas.
Sesshoumaru permaneceu estático, a silhueta recortada contra a névoa. Rin não podia ver o olhar dele agora, mas ela sabia perfeitamente que agora era uma parede intransponível de indiferença para com o destino dos subordinados de Shigure.
Mas Rin também conhecia o seu silêncio e as nuances daquela imobilidade. Depois de tantos anos convivendo com ele, ela sabia ler o que estava por trás da máscara de gelo: ele estava ouvindo. Cada palavra.
— Eu não quero que ele morra.
Reforçou, a voz suavizando.
— Mesmo depois de tudo o que ele fez.
Então Sesshoumaru finalmente se moveu. Ele a afastou de si, com uma delicadeza que parecia impossível, e a observou por longos instantes.
Talvez fosse exatamente por isso que ela continuava sendo Rin. Mesmo tendo crescido, mesmo tendo aprendido a sobreviver e a entender a crueldade do mundo, ela ainda guardava intacta a essência daquela garotinha que falava futilidades para ele sempre que estava feliz. A menina que via valor e estendia a mão para uma vida que todos os outros youkai e humanos descartariam como lixo.
O silêncio dele cedeu.
Sesshoumaru finalmente moveu a mão esquerda, tocando o punho da espada da vida, fazendo a Tenseiga pulsar na bainha emitindo um brilho azulado e etéreo que iluminou o rosto dos dois.
E, pela primeira vez naquele dia longo e terrível, Rin sorriu.
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