Última Chance, Judd.
8 Capítulo VII
Capítulo VII: Molestadores e casamentos.
Desde a minha adolescência, nunca consegui expressar exatamente o que sentia ou dizer exatamente aquilo que se passava dentro da minha mente (devido àquele velho problema da falta de comunicação entre o cérebro e a boca). Não é, obviamente, algo que me agrade, sendo que até hoje esse problema me complica em algumas ocasiões, porque eu simplesmente tive que aprender a conviver com isso, de uma maneira ou de outra. Esse deve ser então – muito provavelmente – o motivo de estarmos eu e Dougie, os dois em pé, no mais completo silêncio, praticamente esmagados dentro daquilo que deveria ser um dos vagões do metrô.
A caminhada da Hughes & Mavor até a estação mais próxima de metrô fora feita em quase dez impressionantes minutos. Dez minutos sem trocarmos uma única palavra, porque bem provavelmente Dougie estava com uma vontade insana de me chutar ou coisa parecida. Como não tinha – e ainda não tenho – a mínima pretensão em ser agredido, tanto verbal como fisicamente, eu somente acompanhei seu passo (apressado, tenho que dizer) até a estação, enquanto ele de tempos em tempos fungava por alguma coisa.
A estação estava lotada de pessoas aleatórias, executivos metidos em seus ternos que custam mais que os meus dois rins juntos e outros trabalhadores comuns no momento em que eu e Dougie chegamos. Surpreendentemente, nós até conseguimos arranjar um bom local para esperar pelo metrô, enquanto a maioria das pessoas se empurrava impaciente mais à frente, aflita para conseguir apanhar um lugar no vagão para se sentar.
Dougie havia fungado ao meu lado mais uma vez em um palavrão obsceno.
Nós estamos agora os dois em pé, eu com as costas apoiadas contra as portas automáticas do metrô (e compressando a minha mochila ali sem a intenção, de fato, de amassá-la) enquanto ele está parado no meio de muita gente, a poucos metros de distância, agarrado com força à barra de aço sobre a sua cabeça. De tempos em tempos eu o olho discretamente apenas para me certificar de que ele continua ali, mesmo tendo uma ligeira sensação de que Dougie está apenas em pé porque as pessoas à sua volta o obrigam a isso. Ele está claramente esgotado – fora mais um dia longo de trabalho –, o que infelizmente não o faz notar no cara enorme que o chega por trás.
Eu não consigo não franzir as sobrancelhas em descrença, agora observando atentamente a cena somente para ajudá-lo, se for necessário.
Com um gemido surpreso, Dougie olha por cima dos ombros apenas para notar que há de fato alguém lhe apalpando descaradamente. O seu rosto logo está tingido em mais de dez tons diferentes de vermelho e, por algum motivo realmente desconhecido, eu me pego mastigando meu próprio lábio inferior em agitação. Ele se remexe um pouco, provavelmente tentando aliviar a sensação de algo sendo pressionado contra as suas costas, enquanto tenta achar uma posição melhor. O homem, no entanto, parece estar muito satisfeito com a situação e é quando uma das suas mãos enormes repousa sobre a lateral do quadril de Dougie que algo dentro da minha cabeça grita um "basta!", me fazendo ficar com uma ligeira dor de cabeça.
Eu honestamente não sei como consigo abrir passagem entre as pessoas, mas em um momento eu estou lançando ao homem um olhar ameaçador enquanto, no outro, estou puxando Dougie para longe por um de seus cotovelos. Depois de voltar ao meu lugar de origem, o largo ao lado da porta automática, o obrigando a se postar da mesma maneira que eu estava há pouco tempo.
A minha boca está entreaberta para começar a ralhá-lo com as piores palavras que eu conheço em meu vocabulário – e eu de fato o ralharia se um solavanco do metrô não me fizesse perder o equilíbrio momentaneamente. A voz aguda e metálica dos alto-falantes pede desculpa a seus passageiros de uma maneira ensaiada e tudo parece voltar ao normal.
Infelizmente, não para nós dois.
De alguma forma, eu estou com os punhos e antebraços apoiados firmemente contra as portas do metrô, cada um de um lado da cabeça de Dougie. Eu posso sentir, estranhamente, o seu corpo sob o meu todas as malditas vezes quando o vagão dá uma ou outra sacudidela. Os meus olhos não conseguem deixar de observá-lo tão perto com alguma surpresa, porque eu nunca imaginaria que perder o equilíbrio me faria parar em uma posição como aquela.
O rosto de Dougie, incrivelmente, ainda está completamente vermelho. Ele parece abrir e fechar a boca várias vezes seguidas, sem produzir som nenhum, feito um peixe dourado, esperando por alguma atitude minha. Coisa que eu estranhamente não faço, já que estou definitivamente entretido com todos os pontos cinzas e brilhantes perdidos aqui e ali entre a cor azul de seus olhos. Eu pisco. E pisco. Então limpo a garganta com um pigarro e pisco devagar mais uma vez.
"Harry...", ele me chama, mas eu só consigo ver os seus lábios se moverem lentamente. Ele tenta mais uma vez, a argola de prata reluzindo contra seu lábio inferior. "Harry..."
"Hmm?", eu estou tão entretido com os seus olhos de cor estranha e a movimentação da sua boca que mal respondo devidamente.
"Me desculpe, mas você está mesmo fedendo a cigarro. Toda essa aproximação é realmente necessária?"
E então eu praticamente posso ouvir um "clique" vindo de dentro da minha grande cabeça oca. Oh céus, que merda eu penso que estou fazendo?
Os meus braços, juntamente com todo o meu corpo, se afastam dele em uma rapidez impressionante. Eu acho que me choco com alguém no processo de me afastar o máximo possível, mas somente peço desculpa sem realmente sentir culpa antes de me ajeitar em pé, impaciente, e esperar. E esperar essa tortura finalmente acabar para que eu possa sair dali o mais depressa possível.
Obviamente, eu não consigo olhar para Dougie durante nem um segundo sequer – talvez pela vergonha ou culpa de ter feito algo esquisito e errado, eu não sei ao certo – enquanto nós continuamos o nosso caminho, novamente, em silêncio.
xxx
A caminhada até meu apartamento demora menos do que eu imagino. Por birra, há um filete de cigarro preso entre a minha boca enquanto eu de tempos em tempos solto uma baforada de fumaça para cima. Dougie, ironicamente, se mantém o caminho todo ao meu lado.
Nós subimos quietamente até o quinto andar. O corredor está vazio, como sempre, e, quando eu paro em frente à porta do 5B, Dougie quase tromba atrás de mim. Eu o olho divertido, solto mais uma baforada de fumaça e procuro pelos bolsos da calça meu molho de chaves.
"Olha só, foi mal por antes", eu começo finalmente, dessa vez menos constrangido para falar sobre o assunto, apesar de não estar mantendo nenhum tipo de contato visual por motivos óbvios (eu me ponho a procurar pelas malditas chaves dentro dos bolsos, o que me faz ficar olhando para baixo feito um babaca durante bastante tempo). "Quero dizer", um repuxão nos bolsos, "o cara estava", repuxão nos bolsos, "te comendo com os olhos e", novo repuxão nos bolsos, "eu só quis ajudar de alguma maneira. Merda! Onde eu enfiei essas malditas chaves?"
Ouço ao meu lado Dougie tentar abafar, sem muito sucesso, uma risada.
"Oh, Deus, onde elas podem estar enfiadas?"
Finalmente ergo os olhos para ele, somente para constar que Dougie de fato está se segurando muito para não começar a gargalhar histericamente. Uma das minhas sobrancelhas se arqueia e eu não deixo de sorrir com os cantos da boca, porque, bem, eu simplesmente não consigo não sorrir. Com algum milagre divino ou qualquer coisa do tipo, no entanto, apanho finalmente o molho de chaves esmagado no fundo de um dos bolsos dianteiros da minha calça jeans e, depois de retirar a mochila dos ombros por uma de suas alças, empurro a porta de casa para trás, escutando atentamente a Dougie atrás de mim.
"Mas não foi nada. Digo, havia um cara querendo me molestar dentro do metrô, mas, hey, isso deve dizer alguma coisa. Talvez eu seja tão sexy que ele não tenha conseguido se controlar."
"Porque essa é, claro, uma ótima suposição!", respondo divertido enquanto entramos em casa.
Como em uma epifânia no mínimo estranha, eu percebo surpreendentemente que nós estamos de fato conversando como duas pessoas civilizadas e ele, em momento algum, tentou me dar um chute no saco, o que já é um grande avanço na nossa relação. Eu quero dizer, não que nós tenhamos lá uma relação, mas de qualquer modo, para passar um pouco mais de um mês trabalhando juntos, nós definitivamente vamos ter que construir algum tipo de relação, de um jeito ou de outro.
"Harry, é você?", a voz de Andi soa abafada pela distância e, aos poucos, a sua entonação parece estar cada vez mais nítida enquanto ela reclama pela casa. "O meu trabalho foi uma merda, nossa, uma garota chegou à loja e pediu uma saia do tamanho 40, aí eu disse que o tamanho dela era na verdade 44, porque a saia não estava passando pela sua bunda gorda e a garota ficou louca comigo! Comigo! Como se a culpada de ela ter uma bunda gigantesca fosse minha cul–"
Andi pára instantaneamente de reclamar no exato momento em que vê Dougie imóvel ao meu lado, pelo seu rosto crescendo um rubor envergonhado antes de ela levar as mãos até as bochechas e esfregá-las timidamente.
"Puxa", ela comenta meio desorientada pela vergonha antes de apontar o polegar para a direção da cozinha, olhando fixamente para mim. Eu apenas concordo com a cabeça, divertido, a observando sem nem ao menos dizer uma só palavra. "Eu acho que vou terminar o jantar."
Dougie ri abafado e eu concordo mais uma vez enquanto Andi faz o caminho para a cozinha o mais rápido possível para se enfurnar ali dentro. Logo eu estou atirado sobre a poltrona de couro vermelho após atirar minha mochila em qualquer canto e retirar o par de tênis velho com os próprios pés. Dougie gira os olhos em torno de si mesmo, aparentemente pensando no que fazer.
"Você não precisa ficar aí em pé feito uma estátua, sabe?"
"Ah. Hmmm. Legal o sofá."
"Escolha de Andi."
"Vocês são casados?", Dougie me pergunta simplesmente, com alguma curiosidade, enquanto se ajeita no sofá adjacente à minha poltrona.
Os meus olhos instantaneamente se arregalam e logo eu estou me engasgando com a fumaça do cigarro ainda preso entre os meus lábios.
"Acho que isso é um 'não, pelo amor de Deus, eu tenho amor à minha vida' ou algo assim", ele comenta com um sorriso no rosto. "Engraçado, você sempre teve muito medo de relacionamentos. Algo que te faz pensar que com ela será diferente?"
"Não fale assim como se soubesse tudo a meu respeito", rebato, começando a ficar realmente mal humorado. Termino de tragar meu cigarro em paz para coçar o nariz e puxar minha mochila para perto, apanhando o manuscrito de Jakob-não-sei-o-quê e o deixando sobre meu colo (o manuscrito, não o Jakob). "E pelo o que eu me lembro, você nunca gostou de relacionamentos também."
"Oras, eu tinha 15 anos!", ele parece ligeiramente insultado. "Não é como se eu fosse sair por aí agarrando a primeira pessoa que me aparece pela frente..."
"Estranho que no nosso caso, foi exatamente assim", murmuro irritado, mais para mim mesmo do que para qualquer outra pessoa. Dougie aparentemente não parece ter escutado, no entanto, porque ele continua a falar e falar, apontando para uma das mãos erguidas no ar.
"E, mesmo isso não sendo nem um pouco do seu governo, eu nunca evitei relacionamento nenhum. Está vendo isso aqui?", pergunta ele todo cheio de si e eu tenho que apertar um pouco meus olhos para poder ver reluzente o anel de prata enterrado em seu dedo anelar. Como eu não vira aquele maldito pedaço de aço ali antes, eu não faço a mínima ideia.
O meu estômago parece querer embrulhar. Ele fica se revirando em nós e as minhas entranhas parecem estarem pegando fogo por algum motivo esquisito. Há uma queimação infernal pelo meu esôfago e eu posso jurar que a qualquer momento toda a bile do meu fígado vai subir até minha boca. Surpreendentemente, a única coisa que faço é tossir copiosamente.
"Nós vamos nos casar no final do ano", Dougie murmura, parecendo estranhamente envergonhado. "Em Dezembro", ele não é capaz de me olhar nos olhos, no entanto, porque algo aparentemente está o impedindo de fazer tal ato.
"Bem, parabéns. E por mais que eu queira mesmo ficar conversando sobre o seu casamento e todos os seus preparativos, eu realmente acho que nós deveríamos começar logo o nosso trabalho."
Pelos cantos dos olhos, eu o observo concordar quietamente com a cabeça e puxar de dentro da sua mochila um manuscrito idêntico ao meu. Passam-se um pouco mais de três minutos e lá estamos nós no mais puro silêncio novamente.
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