Ódio no passado. Amor no futuro?
15 Capítulo 15
Notas iniciais
Anna
O clima estava propício para um bom almoço. Apesar de ser outono, o céu está cheio de nuvens e com um belo sol. Amanhecia um belo sábado na grande selva de Pedra, Nova York tinha sua beleza natural, ninguém podia negar. John dormia pesadamente. Levantei coloquei uma camisola e um robe e desci. Lá em baixo estava tudo silencioso, as crianças ainda dormiam e Donna não havia chegado ainda. Apesar de eu gostar de cozinhar com o braço engessado estava um pouco complicado então Donna estava me substituído, apenas por enquanto. Peguei o telefone e liguei para Will, marcamos de nos encontrar em um restaurante conhecido da cidade.
Reencontrar Will tinha sido maravilhoso, eu tenho muitos conhecidos, mas poucas pessoas que eu realmente possa contar, apesar de tanto tempo longe, eu sei que nele eu posso confiar. Já me provou sua lealdade inúmeras vezes.
Subi e encontrei John dormindo, ele mal parecia ter se movido desde quando eu acordei. Me deitei em seu peito e fiquei ali, até a hora de tomar café.
Pude ouvir Donna chegar e as crianças conversando na cozinha. Me levantei e notei que John estava do mesmo jeito que quando me deitei, aquilo era estranho. Acariciei seu cabelo e ele se moveu, mas não acordou. Menos mal, deve ter sido a bebida de ontem.
Na cozinha estava tudo muito bagunçado todos falavam alto e riam do mesmo modo. Começamos a comer e não posso negar o quão bem Donna cozinha, toda sua comida tem gosto de casa, me lembra minha infância quando eu passava as férias na casa da minha vó.
O tempo foi passando e eu tinha coisas a fazer, eu precisava ir ao Hospital tirar o gesso e tinha que encontrar Will para almoçar. Subi e troquei de roupa, coloquei uma saia de poá branca com pequenas bolinhas pretas e uma blusa vermelha com um detalhe no pescoço. Arrumei meu cabelo em um coque com franja solta, passei uma maquiagem leve apenas rímel e um batom claro, um pouco de perfume e um meia-pata preto. Me olhei no espelho e gostei do que vi. Peguei minha bolsa e fui me despedir de John. Ele estava me deixando preocupada com esse seu sono pesado, dei um leve beijo em seus lábios e ele se moveu para o outro lado da cama.
— Tchau Anna, meu amor. Tomara que seu braço esteja bom. Obrigada John, muito gentil da sua parte. – Reviro os olhos e falo com ironia.
Deixo um bilhete na criado-mudo e saio.
...
Sai do hospital revigorada, o médico disse que meu braço cicatrizou perfeitamente o que significa: chega de gesso! Ao encarar um pouco meu braço percebo que eu preciso de um pouco de sol nele.
Chego no restaurante e uma jovem me leva a mesa onde se encontra Will. Ele estava sentado com as pernas cruzadas e falando ao telefone. Assim que me aproximo, ele desliga o telefone e me cumprimenta.
— Oi, tudo bem? – Ele me dá um beijo suave na bochecha.
— Tudo bem Wil, e você? – Ele puxa a cadeira para mim.
— Vejo que o tempo só lhe fez bem – Will sempre foi muito gentil. – Eu não acreditaria se me dissessem que você teve dois filhos.
— Ahhh Will, assim você me deixa sem jeito. Mas eu concordo que sem o gesso, eu volto a minha elegância natural.
Ele solta uma risada divertida.
Conversamos durante o almoço todo sobre assuntos variados, inclusive eu conto a ele tudo sobre o meu “acidente” com uma crise alérgica. Enquanto esperamos nossa sobremesa, o seu celular começa a tocar.
— Com licença. – Aceno a cabeça em aprovação.
Tomo um pouco de agua e não posso deixar de ouvir a conversa, a princípio eles conversam sobre negócios, mas depois noto um pouco de intimidade na conversa. Eu o encaro com um olhar malicioso e ele ri.
— Acho que alguém finalmente fisgou esse coraçãozinho. – Ele desliga e me encara com um olhar de reprovação e depois ri.
— Concordo que ela me atrai bastante, mas não sei se ela é a pessoa ideal.
— Isso significa que eu estou certa. E quem é ela?
— Ela é uma ótima arquiteta que conheci em uma conferência em Paris, ela é linda. Loira e com um corpo maravilhoso. Mas eu não sei, eu as vezes sinto algo estranho vindo dela.
— Algo estranho? Tipo, o que?
— Não sei, as vezes Rebecca age de maneira estranha.
Aquele nome é o estopim, tudo aquilo que estava bloqueado em minha mente de repente se abre, começo a lembrar de tudo, tudo o que houve naquele apartamento. Tudo que ela me confessou, que ela me fez ou tentou fazer a mim. Sinto meu estomago embrulhar e meus olhos encherem de lagrimas.
— Anna, você está bem? – Will se levanta e vem até mim, se ajoelha em minha frente. – O que houve?
— Foi ela. – Minha voz quase não sai, eu queria tanto lembrar, mas não imaginava a dor que isso me proporcionaria. – Rebecca. Foi ela. Ela tentou me matar.
Will me abraça e eu desabo em seu ombro, eu não sei porque estou tão emotiva sobre esse assunto, mas eu não consigo entender o porquê dela me odiar tanto, por John apenas? Como ela pode se rebaixar tanto por um homem que não a ama, e como se eu tivesse culpa pelo amor que eu sinto por ele ou pelo fato dele me amar.
— Eu vou te levar para casa – Eu apenas concordo com a cabeça.
No caminho para casa eu conto tudo o que lembrei. Até mesmo do estupro. Will simplesmente não acredita que Rebecca pode ser tão fria. Ele me deixa em frente ao prédio onde moro com John, ele me pergunta se eu quero que ele suba comigo, mas eu digo que já estou melhor. A conversa que tive com Will sobre tudo que aconteceu me ajudou muito acho que apesar de ter acabado de me lembrar eu já não estou tão abalada com tudo. Acho até que estou feliz por ter lembrado apesar de não ser algo bom, me alegra não ter aquela sensação de vazio quando eu tento pensar em algo do passado.
Subindo o elevador eu me olho no espelho e noto que eu estou mais forte saber o que Rebecca fez me deixou mais forte posso notar isso em minha essência.
Enquanto procuro as chaves na bolsa noto um barulho estranho na escada de emergência. A porta se abre e quem sai de lá é Hannah, ela está acompanhada de um garoto e noto que ambos ficam corados ao me encontrar.
— Mãe? Chegou cedo né? – Ela tem um pouco de nervosismo na voz. Eu não posso sentir nada mais do que graça da cena. Com certeza é seu novo namorado. – ahh esse é meu amigo Josh.
— Olá, senhora Nolan. Muito prazer. – Ele aparenta ser um garoto legal.
— A gente já está indo, eu só vim buscar a blusa que eu esqueci no sofá, eu e Josh vamos ao cinema.
Entramos no apartamento e ela agarra seu casaco, eu sussurro em seu ouvido.
— Eu também ficava na escada com meu amigo, também conhecido como seu pai. Ela me olha com uma cara de nojo. – Você não me engana mocinha.
Eu dou uma leve risada e ela me encara enquanto vai saindo.
— Falando nisso, Jaime está na casa do amigo no apartamento do andar de cima. E o papai está trabalhando no escritório. Tchau.
— Tchau. – Respondo pouco antes dela bater à porta.
A casa está terrivelmente silenciosa, subo as escadas e entro no escritório e não tem ninguém lá.
— John? – Chamo-o, mas não recebo nenhuma resposta.
Pelo corredor encontro um sutiã caído perto da porta de Hannah.
— Nossa, isso é o cumulo da desorganização hein Hannah.
Noto que a porta do meu quarto esta semifechada, acho que encontrei John. Antes de abrir a porta encontro uma calcinha da mesma cor do sutiã, mas definitivamente isso não é da Hannah e muito menos meu. Sinto uma pontada no peito, tenho medo do que isso significa. Abro a porta com um certo receio. E o que encontro é apenas a confirmação do meu medo.
Lagrimas se juntam em meus olhos, eu não posso acreditar. Ele está nu e Rebecca também, não consigo imaginar as coisas que eles devem ter feito na minha cama, a cama que simbolizava o amor que existia entre nós dois. Ela se mexe e ambos acabam acordando. As lagrimas caem sem que eu possa controlar, a dor em meu peito é causticante. John levanta o rosto e me encara, ele olha ao lado e vê Rebecca se remexendo como um gato se aninhando.
— Você é nojento. – É as únicas palavras que consigo dizer.
— Anna, isso não é o que está pensando! Eu posso explicar. –
Eu não dou muito tempo para que ele termine de falar saio dali o mais rápido que posso. Aquela cena, aquele cheiro. Tudo me dá ânsia. Eu sinto raiva, nojo, decepção, um mix de sentimentos. Eu não consigo acreditar que John possa ter feito isso comigo e pior com a mulher que matou o filho dele. Ele é asqueroso.
Saio do apartamento o mais rápido que posso, assim que entro no elevador eu me olho e vejo que a mulher forte que ali estava sumiu ela deu margens a uma mulher quebrada, destruída por dentro. Assim que entro no primeiro taxi que avistei eu tento ligar para Mary, mas ela não atende logo lembro que ela foi viajar por duas semanas em Londres com Dave. Eu não tenho ninguém que possa me dar colo, alguém que simplesmente me deixe chorar. Lembro de Will e é para lá que eu vou.
...
Olho meu rosto em frente ao espelho e não consigo deixar de negar o quanto destruída estou. Já chorei tanto que meus olhos mais parecem imensas bolas inchadas. Ainda não foi digerido aquela imagem dos dois na cama, e pensar que eu lhe entreguei tudo, o meu tudo, eu o escolhi para ser o meu companheiro, o pai de meus filhos, aquele que me daria apoio sempre que precisasse e ele me trocou pela mulher mais fria e perigosa que eu já conheci.
— Anna, eu te trouxe um chá. – Will volta da cozinha e eu me sento no sofá de frente para ele. – Está melhor?
— Eu não sei se tem como isso melhorar. Além de traída, ele preferiu ter na cama a mulher que matou o filho dele, consegue imaginar isso?
— Eu sei que está com raiva, mas vocês dois tem que conversar Anna.
— Não há conversa Will. Acabou. Isso é tudo.
— Não pode acabar com um casamento tão lindo e cheio de amor sem uma conversa franca.
— Não tem nada lindo, Will. Muito menos amor, amor não se troca. O que John sentiu por mim um dia foi paixão, mas paixão é um sentimento tão passageiro. Ele não conseguiu alimentar a paixão para que se transformasse em amor, e aí ele confundiu tudo, porque eu garanto. Quando se ama, não se trai como ele fez.
— Anna, desculpe, mas eu não posso acreditar que John não te ame. Eu notei apenas pela noite passada como ele te olha, como ele te ama apenas pelo olhar.
— ELE NÃO ME AMA! – Eu começo a falar mais alto. – SE ME AMASSE TERIA UM PINGO DE CONSIDERAÇÃO POR TUDO QUE NOS PASSAMOS JUNTOS.
Eu caio de joelhos, não tenho forças para aguentar o que está acontecendo. Eu já não entendo o que estou sentindo. Ódio, raiva decepção. Tudo.
As horas vão passando e eu já sei o que farei, para mim isso já deu. Não tenho condições de me manter em um lugar que eu não tenho a certeza de onde ele pode ou não estar. Pego meu celular, e percebo que existe centenas de ligações de John.
— Vá para o inferno, John. E leve aquela cobra com você.
Disco o número de Hannah e marco um local em que eu, ela e Jaime possamos nos encontrar. Preciso voltar a ser a mulher que sempre fui, aquela que eu possa olhar no espelho e sentir força e não algo decadente. John me destruiu pois agora ele verá que sou uma fênix eu renasço das cinzas.
...
Eu explico cada coisa que pretendo fazer, mas nenhum dos dois quer aceitar o que vou fazer.
— Eu não vou embora. Vocês poderão me visitar todos os meses e nós iremos nos falar todos os dias por telefone vídeo conferencia. Como quiserem.
— Mas eu não quero que você vá! – Jaime chora. Eu o abraço e o olho nos olhos.
— Sabe o quanto eu te amo, não sabe? – Ele acena com a cabeça. – Eu nunca, está me entendendo? Nunca mais vou embora, eu só estarei longe, okay? Você pode ir me visitar quando quiser. Eu te amo. – Eu beijo sua testa com os olhos cheios de lagrimas.
— A culpa é do meu pai, não é? — Hannah está com uma cara de emburrada.
— Não, não é. Você tem que entender que as vezes simplesmente não dá certo. Eu e seu pai percebemos que nossa relação não está satisfatória para nenhum lado. – Não posso contar a Hannah o real motivo de minha ida, Hannah não perdoaria John jamais.
— Agora me escutem, eu não quero ninguém triste, eu ainda sou a ame de vocês e estarei longe, mas nós vamos sempre nos ver, certo? – Ambos concordam e eu abraço-os, eu não queria nada disso, mas é o necessário. – Agora quero que me prometam que não contaram a ninguém para onde estou indo, eu quero paz. Okay?
Nós ficamos ali abraçados por um tempo, sentindo a força daquele momento.
...
Já é segunda de manhã, John tenta falar comigo incessantemente, mas eu não pretendo falar com ele. Hoje vou ao apartamento para buscar minhas coisas pois parto para o Canada em três dias. Meu pai, quando se separou de minha mãe foi morar em Vancouver. E é disso que eu preciso no momento, meu pai com certeza é a pessoa que mais me ajudou, ele sempre me apoiou e eu preciso de um pouco de paz e vou encontrar isso com meu pai.
Assim que chego ao apartamento que costumava ser meu, percebo que isso já não me pertence. Não consigo sentir o aconchego que vinha dessa cara, acho que já não posso chama-la de meu.
Vou direto ao meu antigo quarto, a sensação que tenho é um mix de tudo que já ocorreu na minha vida, coisas boas e ruins. Nesse mesmo local eu pude sentir que Jaime estava nascendo e ao mesmo tempo foi aqui que eu fui apunhalada pela pessoa que eu mais amava.
Deixo meus pensamentos de lado e começo a pegar as minhas coisas. Entro no closet e lá tudo tem seu cheiro, tudo me lembra John. Apesar do ódio que sinto, eu ainda o amo mas garanto que vou lutar com todas as minhas forças para arrancar esse amor do meu peito.
Coloco todas as roupas em duas malas e pego uma terceira para colocar os sapatos. Ao tentar pegar a mala em uma prateleira ela acaba caindo. Fazendo um barulho estrondoso. Não o havia notado, mas ele me observa. Ele está parado na porta com a camisa aberta mostrando todo o seu peito nu.
— Não o vi chegar, mas eu já estou de saída.
— Eu tive que voltar, eu acabei derrubando café na minha camisa. – Lanço um olhar de puro desprezo, que é o máximo que posso sentir no momento. – Anna, nós temos que conversar.
— Não temos nada a conversar. Você tomou sua decisão e eu a minha.
— Eu não tomei decisão alguma. Aquilo tudo não foi nada que eu quis. – Como ele pode ser tão cínico.
— É claro, John. Obviamente ela te forçou a tudo, ela tirou sua roupa e obrigou você a enfiar o seu pau de ouro nela. – Posso sentir o espanto pelas palavras que acabei de dizer.
— Anna, não foi nada disso. Eu... eu não sei o que houve, como fomos parar ali. – Ele tem coragem de mentir assim na cara dura, nem assumir os seus próprios erros ele consegue.
— Eu sei muito bem como foi, os dois começaram a se agarrar e você não pode se controlar e acabaram na cama, e com certeza rindo da idiota aqui. – Lagrimas começam a inundar meus olhos.
— Eu não posso lhe dizer como ela veio parar aqui, porque eu não lembro. Mas você precisa acreditar em mim.
— Acreditar em que? EM QUE? – Eu já perdi a minha paciência, eu já estou chorando e gritando. – Em suas desculpas esfarrapadas porque até agora nada do que disse me fez um pingo de sentido.
— Não são desculpas esfarrapadas. Eu te amo. Isso não é uma desculpa.
Eu mal posso dizer como ocorreu e porque, eu apenas sei que minha mão deixou a marca de meus dedos em sua bochecha.
— NUNCA MAIS REPITA ISSO. – As lagrimas tomam conta de meu rosto inteiro. – Você não sabe o que essas palavras representam, então não as diga para quem sabe, porque eu sim te amei, amei com todas as forças que me foram dadas. Você não me amou tendo em vista que as caricias de Rebecca são tão melhores. Eu te amei John.
— Então continue me amando e me perdoe.
— Eu te amei John, agora eu só sinto nojo e desprezo por você.
As lagrimas de John começaram a escorrer na mesma velocidade que as minhas cessaram, eu não ia derramar mais nenhuma lagrima por ele.
— Will irá passar aqui para buscar as minhas malas.
— Will? Vocês estão juntos agora? – Pude sentir a tristeza em sua voz.
— Não, não estamos. Porque eu não sou tão baixa como você. Eu não troco uma vida por uma aventura. E mesmo que eu estivesse com ele, como eu já disse você fez a sua escolha e eu a minha.
Saio daquele apartamento para nunca mais voltar a dor que carrego em meu peito é maior que o amor que sinto por John, eu não posso perdoa-lo. Meu orgulho e meu amor próprio não me permitem isso.
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