Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
7 Capítulo 7 - Como o Vento
She's like the wind through my tree
She rides the night next to me
She leads me through moonlight
Only to burn me with the sun
She's taken my heart
But she doesn't know what she's done
Feel her breath on my face
Her body close to me
Can't look in her eyes
She's out of my league
Just a fool to believe
I have anything she needs
She's like the wind
(She’s Like The Wind – Patrick Swayze)
Den
Tenho sonhado com ela todas as noites. Sonhos comuns e sonhos de amor. Sonhos vívidos que me fazem confundir fantasias com realidade.
Esta noite não foi diferente, nem poderia. Eu estava com ela em meus braços, sentindo seu calor e seu cheiro, sentindo como meu algo que jamais poderia ser.
Nessa fantasia, eu acordava com Mia me olhando como se fosse a primeira vez. Devagar, ela segurava minha mão e a colocava por baixo da blusa. Eu sentia a curva de sua cintura, a firmeza de seu ventre, a maciez de seu seio. Meus dedos se fechavam ali, beliscando levemente o bico e depois subindo até seu ombro para poder puxá-la para mim. Ela também me tocava. Acariciava meu rosto e percorria meu pescoço até a nuca, as unhas arranhando de leve e segurando meus cabelos enquanto nos beijávamos.
Então eu acordei. A sensação dela ainda em mim. Mas já não parecia mais um sonho bom.
Em lugar daquela ternura imaginada, estão olhos assustados e um corpo quente que se afasta correndo de mim, me resfriando.
Estamos de pé com a cama entre nós e Mia me olha como se todos os limites tivessem sido ultrapassados.
Tento entender o que aconteceu, preciso saber se ela está bem ou se há outra crise a caminho. É quando eu vejo.
A blusa de Mia está aberta, os seios que eu tocava em meus sonhos estão quase à mostra e, no mesmo segundo em que me perco na visão, fico pensando no que fiz.
Será que...? Não, eu não teria tentado algo. É impossível.
Mas Mia está tremendo, desesperada para fechar os botões e se proteger do meu olhar invasivo.
Sinto-me imediatamente envergonhado. Mortificado, aliás. Por isso não consigo enfrentar a situação sobriamente e conversar. O mínimo de dignidade que me resta me obriga a desviar os olhos para o chão e mantê-los ali. É só o que consigo fazer.
Estou devidamente desperto agora, então não estou mais confuso a ponto de achar que fiz algo inapropriado enquanto dormíamos. Mesmo assim também é óbvio que minhas ações a ofenderam, porque minha excitação era tão imprópria quanto evidente.
Por isso eu jamais deveria ter me permitido esse luxo. Não devia ter passado a noite com Mia.
— Você estava agitada ontem à noite — justifico, talvez mais para mim mesmo.
— Sim. Precisei e você veio. Obrigada.
Meu coração bate mais rápido quando ela diz isso. Porque é verdade, mas eu não esperava pelas palavras gentis. No entanto, continuo sentindo como se eu tivesse me aproveitado da fragilidade de Mia enquanto ela não estava em posse de forças para me pôr em meu lugar.
— Eu não... Eu não queria... Não quero! Foi uma má ideia. Desculpe.
— Está tudo bem — ela murmura, mas a voz está estrangulada como a de quem segura o choro.
— Você está bem? — pergunto.
— Estou. Vamos esquecer isso. — Penso em como seria impossível para mim, mas não posso fazer mais do que aceitar o voto de confiança que ela me dá, por isso concordo com a cabeça. — Não vai se repetir — ela completa.
Finalmente, crio coragem para encará-la outra vez. Preciso garantir com toda minha honra que nunca mais vou fazê-la se sentir desconfortável ou temerosa.
— Você está segura, Mia.
— Eu sei.
Começo a retomar o ritmo de minha respiração. Estou firmando um compromisso aqui. O de vencer meu corpo e meu coração que me empurram para ela. Assim, posso garantir que jamais se afaste.
— Você pode usar o banheiro primeiro. Acho que vou dormir mais um pouco, se você não se importa — ela diz, e entendo que precisamos ficar um pouco longe um do outro agora.
É a coisa certa a fazer, por isso a deixo sozinha.
Com a porta fechada, apoio as mãos na pia e encaro meu reflexo no espelho. O rosto humano para o qual Mia olha com carinho e identificação. O rosto que ela diria que não é meu.
Observo o halo fino e prateado visível no fundo dos olhos castanhos. Talvez eu não possa mesmo chamá-los de meus, mas é inteiramente minha a dor por trás deles.
Num impulso, vou até o chuveiro e não espero que se aqueça, apenas deixo a água fria apaziguar minha febre e apagar a noite de meu corpo. O calor e o cheiro de Mia são apenas lembranças depois disso. Mas é assim que deve ser.
Quando volto para o quarto, ela está deitada de lado, do mesmo jeito que estava ontem, durante a crise.
— Tem cereal, se você quiser — aviso. — Acabei dormindo demais e vou sair agora para tratar dos animais. Volto logo para fazer café para você. A gente precisa conversar.
Ela não responde. Nem se mexe. Parece tão triste e sozinha quanto eu.
Tudo o que quero fazer é voltar a abraçá-la. Contudo, o que faço é apenas pousar minha mão sobre seu ombro, como se para dizer que estou aqui.
Depois de um tempo curto demais para mim, finalmente tomo a decisão de me afastar e deixar Mia em paz com seus pensamentos.
********
Eu não pretendia voltar antes da hora. Não! Tomei a decisão de dar espaço a Mia e a mim mesmo até que pudéssemos ter uma conversa equilibrada, mas Sammy vem ao meu encontro e começa a latir e correr como fez da primeira vez, quando a mostrou para mim naquele bendito fim de tarde. Por isso sei que devo ir. Tão certo quanto o nascer e o pôr do sol, Sammy está me dizendo alguma coisa.
Entro em pânico com a possibilidade de uma nova crise e deixo tudo para trás, inclusive meus escrúpulos de discrição. Mia precisa de mim, tenho certeza, então eu corro.
E chego ao pé da pequena escada do chalé no exato instante em que ela atravessa a porta de entrada. Com a mochila de trekking nas mãos.
Quero perguntar o que aconteceu, mas eu sei. Ela está deixando nossa casa. Está me abandonando.
— Por quê? — pergunto.
— Sammy, que droga! — ela reclama, culpando o cachorro pela resposta que lhe exijo.
— Por quê, Mia?
— Ele estava arranhando a porta. Achei que precisava sair.
Subo as escadas dois degraus de cada vez e tomo a mochila das mãos dela, irritado com a resposta. Ela desvia o olhar para o chão, como fiz mais cedo, mas sou bem menos gentil do que ela foi comigo. Jogo a bolsa contra o madeiramento da varanda e seguro o rosto dela em minhas mãos, obrigando-a a me encarar.
— Você disse que íamos achar um jeito! — digo. — Nós concordamos.
Meus olhos estão marejados. Sinto raiva, frustração e mais alguma coisa com a possibilidade de nunca mais voltar a vê-la.
— E você disse que jamais me obrigaria a ficar.
Isso me atinge como um soco. Eu nunca, nunca, vou obrigar Mia a coisa alguma. Por isso me sinto como se tivesse levado um empurrão e me afasto.
— Eu só quero saber por quê. O que foi que eu fiz para você achar que tinha que fugir?
Aquela sensação estranha de que limites foram quebrados volta a me assombrar, mas não quero pensar que minha proximidade a ofendeu tanto assim. Posso não esperar por seu amor, mas não mereço essa repulsa.
— Não, você não fez nada. Pelo amor de Deus! — ela diz com voz chorosa. — Eu só estou com vergonha. Não quero mais causar tantos problemas.
— Problemas?
— O Corta Dor. Eu tenho um vício, Den. Você sabe disso agora, não sabe? E não posso permitir que você se sacrifique cuidando de alguém que não merece... Não quero ser um fardo!
Coloco as mãos na cabeça, agarrando meus próprios cabelos. Eu quase tinha me esquecido disso. Quase.
Esfrego os olhos, tentando acordar deste pesadelo.
— Eu sei que alguma coisa está errada — confesso. — Mas preciso que você me explique o que é. Acho que tenho esse direito. Por favor. — Indico a entrada da casa para ela. — Estou pedindo que volte, que se sente comigo por um minuto. Só preciso de um minuto. Depois você pode ir, se quiser. Apenas não me deixe assim no escuro.
Mia se abaixa para pegar a mochila a meus pés e eu respiro fundo, em suspenso por um instante, imaginando se ela vai descer as escadas ou não.
Quando volta para dentro, não a sigo imediatamente. Fico ali, sentindo alívio e dor ao mesmo tempo, tentando imaginar como vai ser esta conversa que eu mesmo fiz tanta questão de que tivéssemos.
Finalmente, reúno a coragem necessária e me sento com Mia à mesa da cozinha, na cadeira do lado oposto onde ela já está.
— Eu sou dependente química — declara, sem rodeios. — Você sabe o que são drogas, não sabe?
Não sei o que sinto ao ouvir isso, mas tudo acaba culminando em mais irritação por ela me achar ainda mais ingênuo do que de fato sou.
— Sei o que são drogas. Não reconheci os sinais da dependência, mas sei que é uma doença. Você não tem culpa.
— Então se você sabe que é uma doença, também entende que enfrentá-la é uma luta para a vida inteira. Garanto que não contava com isso quando me abrigou em sua casa e prometeu me ajudar enquanto pudesse. À luz desse novo conhecimento, quanto tempo seria isso?
— Não muda nada. Você ainda tem a minha palavra, Mia. Só me diga o que posso fazer.
Uma risada sem humor preenche o ar com amargura, e as palavras que se seguem cavam mais alguns centímetros no buraco em meu peito.
— Você vai conseguir drogas pra mim, Den? Porque eu valho tão pouco que achei que podia ficar se continuasse conseguindo seus remédios. Você entende? Eu quis usar você! Quando estou na fissura só penso em mim mesma!
Mia está quase gritando agora, o rosto contorcido numa expressão de ódio, mas não é por mim.
— Foi só por isso que você ficou? — pergunto.
Quando digo isso, ela levanta o rosto depressa, como se a questão fosse tão inesperada que a assustasse. Não sei o que espero querendo saber mais. Não sei o que pode haver além dessa confissão que me faz tão mal.
— Não — ela diz baixinho, e um soluço escapa de seus lábios. — Me perdoa. Eu fiquei porque gosto de você. Não só porque preciso.
Isso. Exatamente isso. Era o que, sem saber, eu esperava escutar. Imediatamente, é como se uma brisa alentasse minha pele que arde.
O que tem essa mulher?
Às vezes sinto que ela pode me derrubar. No momento seguinte, ela é o sopro de ar que preciso para respirar. Só sei que nada fica igual por onde ela passa. Mia é como o vento.
— Se gosta de mim, fique. Eu imploro de novo. O que vai ser de você lá fora?
— Não pensei nisso. Talvez eu... Não sei. Se eles me pegassem, se eu fosse hospedeira, dariam um jeito no meu vício. Fizeram isso com as pessoas que eu conhecia. Tenho certeza agora, pensando um pouco.
Ela queria se entregar. Mia queria se tornar uma hospedeira.
Não.
Não posso. Não consigo pensar nisso.
— Se existe algo na nossa medicina, posso conseguir para você.
— Você não é médico nem terapeuta, Den. Como vai fazer isso? Não deve ser fácil assim.
— Não sou médico, mas tenho acesso livre aos de minha espécie. Tenho uma amiga Confortadora. É como... como o que você chamou de terapeuta. Posso pedir ajuda a ela, implorar discrição. Posso fingir que o problema é comigo.
— Quem acreditaria nisso? — ela questiona, quase rindo. — Você é perfeito, Den.
Perfeito. Ela diz que sou perfeito.
Mia é como o vento.
— Ela não teria motivos para duvidar. Almas não mentem umas para as outras.
— Não mentem? — ela sussurra.
— Nunca.
— E ainda assim você pretende mentir por mim — ela constata com um sorriso triste.
— Bem, acho que isso quer dizer que não sou perfeito — brinco, tentando trazer um pouco de leveza a esta situação impossível, mas embora o sorriso de Mia se amplie, ainda não chega aos olhos. — Precisamos tentar alguma coisa.
— Você não precisaria estar lidando com coisas assim...
— E como exatamente você acha que eu me sentiria se não lidasse, se você fosse embora e eu não soubesse o que está acontecendo?
Sua testa se franze, os olhos negros são pura angústia, do jeito mesmo que me sinto.
— Ainda não sei por que você faz essas coisas — ela diz.
Eu também não sabia. No começo. Mas sentia um senso forte de obrigação. Meu tempo na Terra, especialmente com Sammy, me ensinou a reconhecer a natureza dos seres. E eu não saberia viver comigo mesmo se negasse a humanidade dolorida e machucada que vi nos olhos de Mia. Como eu poderia fingir que toda aquela intensidade não significava nada?
Isso já me parecia razão suficiente, contudo... A questão agora é que, se antes eu não poderia viver comigo mesmo se ela fosse embora desamparada, agora simplesmente não conseguiria viver sem ela.
— No começo, eu queria ajudar, porque percebi que você precisava de mim — resumo. — Mas agora é porque não quero perder você. Eu gosto demais que esteja aqui.
Ela ri. Um sorriso amplo e bonito entremeado por outro soluço.
— É, não tem mesmo muita companhia por aqui. Embora você não seja muito de conversar, de qualquer jeito.
Dou uma espécie de sorriso também, embora não parta de meu coração. Se espero que ela fique, não é por mero desejo de companhia, mas não posso lhe contar que é por amor, portanto devo me contentar que ela pense assim.
— Somos amigos — digo. — Eu ajudo você a se curar e a se manter segura, você me ajuda com minha solidão. É isso que amigos fazem, cuidam um do outro, não é?
Ela dá de ombros, mas sei que concorda. Faz cafuné em Sammy, depois olha para mim.
— Eu não fui sempre assim, um caso perdido.
— Você não é um caso perdido — censuro. — Nenhuma pessoa é um caso perdido.
Mia não responde, apenas me olha como se eu não entendesse nada deste mundo e estivesse apenas tentando dizer algo agradável.
— Não faça isso consigo mesma. Não vai ajudar em nada.
— Sim, eu sei. E também sei que te deixa ansioso para me convencer do contrário. Desculpe. Você não precisa fazer isso, sabe? Às vezes, a gente fala coisas apenas como desabafo.
— Se você quer desabafar, por que não me conta um pouco sobre você?
— E isso vai ajudar? — ela ironiza, mas depois seu semblante se suaviza um pouco.
Posso sentir que ela está numa daquelas espirais de amargor que geralmente levam às crises, mas não consigo pensar em outra forma de seguir em frente que não seja parando um pouco e dando um passo atrás.
— Não sei se vai ajudar. Talvez não. Mas eu já te contei várias coisas sobre mim quando você perguntou. É justo aprender um pouco sobre o que te trouxe até aqui também.
Ela arqueia as sobrancelhas, provavelmente vendo alguma lógica no que eu disse, depois suspira e se levanta para fazer um café.
— Vamos comer alguma coisa enquanto conversamos — diz, e é minha vez de suspirar.
De alívio.
******
Estamos sentados juntos novamente, cada um com uma xícara fumegante entre as mãos. Eu não tinha percebido o quanto estava com fome, porque meu estômago esteve embrulhado pela tensão, mas quando ela pega o bolo que fizemos ontem e o coloca em minha frente, ouço um barulho constrangedor vindo da minha barriga.
Mia ri. E ilumina tudo. Ao menos por alguns segundos, antes de começar.
— Nossa vida era boa. Não perfeita, mas muito boa. Meu pai tinha um bom emprego, eu estava pronta para começar a universidade e minha mãe estava chateada porque eu ia me mudar para o alojamento, mas tentava disfarçar dizendo que ia aproveitar o tempo para voltar a estudar e aprender algumas coisas também.
O sorriso melancólico que ela dá me faz sentir a nostalgia, como se ela estivesse pintando um quadro à minha frente, mas a paisagem por trás da tela estivesse se deteriorando a cada pincelada, passando sua essência para a lembrança que a representa para logo depois morrer.
— Eu ia estudar Ciências Sociais, queria mudar o mundo. Não combina com minha postura entreguista de agora, não é? — Não respondo. Não sei como responder. Mas acho que ela não espera que eu o faça, porque logo em seguida continua falando sem me dar tempo de articular alguma coisa. — Meu pai trabalhava como braço direito de um empresário do ramo imobiliário. Daquele tipo que é amigo de todos, ajuda as comunidades...
— Uma boa pessoa — concluo.
— Sim, muito boa. Do tipo que surpreende todo mundo quando é acusado de sonegação de impostos e outros tipos de sacanagens. Meu pai fazia a contabilidade dele. Foram os dois presos. Junto com outros funcionários que participavam de esquemas que envolviam até prostituição.
— Mas o seu pai...
— Eu não sei o nível do envolvimento dele com as outras coisas, mas ficou provada a culpa em relação aos impostos. Então ele ia pegar uma pena considerável. Morte e impostos, é o que diziam, essas duas coisas sempre te pegam. Aí ele fugiu da prisão logo no primeiro mês e sumiu. Simplesmente, se escafedeu. Puff!
Ela faz um gesto teatral, como o de algo se evaporando no ar. É a primeira vez que a vejo falar assim, como se estivesse rindo de uma história de filme, mas o tom em sua voz carrega a ironia desalentada de sempre, por isso sua tentativa de humor soa descolada de todo resto.
— Ele ficou com medo. Não é certo fugir das responsabilidades, mas medo é um sentimento compreensível.
— Minha mãe dizia algo parecido. Antes de morrer de desgosto por culpa do filho da puta.
De novo, fico sem ter o que responder. Não seria respeitoso com a dor dela tentar defender quem a causou. Embora nada tenha causas simples.
— O que aconteceu com sua mãe? — pergunto.
Ela dá um suspiro.
— A gente nunca pensou que um bom marido e um bom pai pudesse ser má pessoa. Mas ele simplesmente nos deixou pra trás. Acabou com o mundo perfeito em que ela acreditava. Isso a destruiu. A gente ficou cheia de dívidas, mas minha mãe não me deixou sair da faculdade para ajudar. Ela se mudou para um apartamentinho simples e precário e passou de dona de casa a alguém que trabalhava em dois empregos. Ainda sinto que a abandonei quando penso que eu estava estudando e me divertindo no alojamento enquanto minha mãe estava se acabando.
— Você não teve culpa. Tudo o que sua mãe fez foi justamente para que você pudesse viver isso. Era o que ela queria para você, não era?
— Sim, mas as pessoas nem sempre escolhem o que é melhor. Se nós duas tivéssemos pensado um pouco mais nela, eu ainda teria mãe.
— Tentar prever como teria sido só vai te fazer mal. Sua mãe queria manter um pouco de normalidade na sua vida. Queria que você tivesse oportunidades e — por que não? — um pouco de alegria. Você só fez a vontade dela. Não acho que sua mãe teria gostado que fosse diferente. Lutar só faz sentido se for por alguém que a gente ama.
— Ela se viciou primeiro, Den. — Mia diz chorando. — Minha mãe estava exausta, doente e deprimida, mas não tinha tempo nem dinheiro pra se cuidar, então ela comprava remédios sem receita de um traficante desgraçado que conheceu no bairro novo. Quando eu percebi, já era tarde demais.
Sei que não devia tocá-la, mas não resisto. Quando ela tampa o rosto com as mãos e seu choro fica mais intenso eu me levanto e vou até ela. Coloco minhas duas mãos em seus ombros e massageio seus braços até que ela se acalme.
Mia busca a minha mão e a segura firme. Quando me olha, sua tristeza toma conta de mim como se fosse minha. Finalmente, ela volta a falar e eu me ajoelho ao seu lado para ouvir, sem soltarmos as mãos.
As lágrimas cessaram, mas de algum jeito isso parece pior. A voz que ouço em seguida é estranha. Quebrada e desconhecida.
— Ela teve um aneurisma em pleno trabalho, enquanto faxinava um escritório de advocacia depois do expediente dos advogados. Estava sozinha lá e só a encontraram de manhã. Me disseram que os remédios que ela tomava pioraram um problema que ela já tinha. Se estivesse se tratando adequadamente, talvez... acho que... ela teria...
Sua respiração se acelera junto com meu coração. Não posso deixá-la afundar. Não posso.
— Não foi sua culpa, Mia. Não foi culpa de ninguém.
Ergo o corpo e a abraço, e então ela se agarra a mim como se estivéssemos de volta ao rio. Quando percebo, estamos sentados no chão da cozinha e Mia está chorando em meus braços.
Seguro-a no colo, como fiz no dia em que a conheci, e terminamos no mesmo lugar onde o dia começou. Deitados na cama. Abraçados como náufragos desesperados.
— Não foi sua culpa — repito em seu ouvido. — Nem da sua mãe. Ela não te deixou. Só estava tentando fazer o melhor que podia.
Quando digo isso, o choro de Mia se transforma em soluços que me partem o coração, mas ela assente e me olha nos olhos. De alguma forma, consegue sorrir.
— Você... promete? — pergunta com dificuldade.
Não sei bem o que ela quer que eu prometa, talvez nem ela mesma saiba. Mas eu prometo. Prometo qualquer coisa a esta mulher.
— Eu juro que vou ficar ao seu lado. Prometo que vai ficar tudo bem.
Ela me abraça mais forte e afunda a cabeça em meu peito. A crise que eu achei que se avizinhava acaba não chegando. Felizmente. E ficamos os dois ali. Até o tempo parecer não mais existir.
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