Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
4 Capítulo 4 - O Trato
I won't run away no more, I promise
Even when I get bored, I promise
Even when you lock me out, I promise
I say my prayers every night, I promise
I don't wish that I'm strict, I promise
The tantrums and the chilling chats, I promise
Even when the ship is wrecked, I promise
Tie me to the rotten deck, I promise
(I Promise – Radiohead)
Mia
Corrente Ascendente. Den. Owen.
Um deles é o inimigo. Outro, um possível amigo. E o terceiro, uma ausência.
Todos eles são a mesma pessoa.
Não sei o que pensar sobre isso. Sinto-me tão fragmentada quanto essa figura em torno da qual meu mundo talvez se resuma agora.
Porque eu odeio Corrente Ascendente. Preciso odiar. Pela humanidade. Por Owen. Por essa ausência que é tudo menos um espaço vazio.
Mas em algum ponto de nossas interações, o inimigo que não posso vencer sempre se transmuta no afável Den.
Por alguma razão, ele age como se eu fosse importante. Isso mexe comigo. Porque passei anos sendo invisível, desprezada, incômoda. O tipo de pessoa que as outras preferiam que não existisse.
Mulher. Negra. Drogada. Em situação de rua. Marginal.
Se Den é muitas pessoas ao mesmo tempo; para os outros, a somatória de minhas facetas visíveis costumava ser um rigoroso nada.
No entanto, ele age como se estivesse feliz por ajudar. E, por ingênuo que possa parecer, eu acredito em seu altruísmo. Porque existe uma única coisa que ele poderia querer em troca nas atuais circunstâncias. Não sou tola, já percebi como ele me olha.
Mas sei, por experiência própria, como se comporta um homem que quer alguma coisa de uma mulher sobre a qual tem algum poder. Poder sobre minha vida ou minha morte, no caso específico aqui. Então não é pouca coisa. Ele poderia facilmente usar isso contra mim, e depois se autojustificar, dizendo a si mesmo e me deixando sempre claro que minha mera existência depende agora do quanto ele é “bom”.
Mas não é como Den se porta, posso garantir.
Todos os seus elogios sutis e gentilezas espontâneas não são uma forma de me comprar. São verdadeiros, dá pra perceber. Por isso é tão difícil. Posso manter a guarda alta, mas não sei se consigo continuar atacando.
Hoje fui amistosa com ele. Não o tempo todo, mas, em certo momento, não consegui olhar em seus olhos sentidos e continuar tentando magoá-lo.
É diferente quando a gente consegue enxergar uma pessoa. Ali, contando histórias sobre si durante o café da manhã, por mais inimagináveis que elas sejam, o monstro se torna uma pessoa.
É o efeito do cotidiano, acho. Quem sabe quanto mal poderia ter sido evitado se inimigos simplesmente se sentassem à mesa uns com os outros.
O comum é capaz de comover, a rotina pacifica. Assim, a convivência vai acabar humanizando o estranho aos meus olhos, ao meu coração. Ele se tornará familiar, não alienígena. Se eu ficar aqui.
Então o que vai ser de mim se eu ficar? Ou se eu não ficar?
Terei que me esforçar pela guerra constante, para não me sentir traidora, até que ele se canse de mim? Ou manterei meu orgulho indo embora antes disso?
Orgulho, rio alto. Serve para quê? Parece um conceito decadente para mim agora, como tem sido há muito tempo.
Mas eu tenho essa opção. Ir embora e morrer de fome. De frio. De qualquer outra coisa que me espere lá fora. Ou ficar e sobreviver, oscilando entre um laço frágil com uma única criatura e o ódio que posso me obrigar a sentir por ela.
Afinal, que espécie de pessoa eu seria se não odiasse o que Corrente Ascendente representa? Se não tornasse isso claro para ele? Se não o fizesse se arrepender por estarmos ambos aqui?
Mas a questão — mais prática do que ética — é se eu quero que ele se arrependa. Se haveria lógica em cuspir na mão que se estende à minha frente. Se eu conseguiria. Depois de um tempo.
Estou sozinha na casa agora. Na verdade, já faz algum tempo. Den tentou me convencer a sair e explorar, andar a cavalo, essas coisas todas que ele tinha planejado para me fazer sentir bem. Mas o fato é que não pude. Meu corpo parecia prestes a parar de funcionar, a próxima crise estava batendo à porta e eu só queria que ele me deixasse sozinha.
Então disse que estava cansada demais, e eu não estava mentindo. Den estranhou que eu tivesse dormido por mais de doze horas e ainda quisesse mais, mas estou em frangalhos. A comida, o banho, o descanso, tudo isso me fez bem, mas estou sem a “meta” há dois dias e só quero me deitar e morrer.
Para meu alívio, ele disse que tinha coisas a resolver na cidade, que ia me deixar descansar, se era disso que eu precisava, e saiu levando Sammy consigo. Talvez não o quisesse deixar ao lado de uma estranha, não sei. Quem sabe Den não esteja tão confiante assim em minhas boas intenções. No que, aliás, ele faz bem.
Trair sua confiança foi a primeira coisa que fiz em meu desespero, revirando a casa em busca de alguma coisa que pudesse me ajudar a lidar com a abstinência.
Não havia um único remédio humano, uma gota de álcool para contar história, nada. Então parti para os remédios de Den. Remexi a bolsa, considerando a possibilidade de ingerir aquilo tudo, mas mesmo alucinada como estava, pude me lembrar de como aquelas substâncias alienígenas tinham parecido mágicas ontem. Rápidas, eficientes, como uma bala. Eu não fazia ideia do que poderia acontecer se eu engolisse algo que tinha fechado minha pele feito cola instantânea.
Só de pensar nisso, minha respiração já começou a ficar mais difícil, então abri uma pequena caixinha e encontrei retângulos estranhos lá dentro. Pareciam papel fino, mas tinham uma textura que eu não poderia explicar se tentasse. Corta Dor, a etiqueta dizia.
Instintivamente, coloquei um deles sobre a língua e me senti como se tivesse ingerido um pedaço do céu.
Estou deitada na cama desde então, meus pensamentos claros como água, ou pelo menos o mais próximo do que poderiam ficar. O mundo girando em cores musicais enquanto examino todas as ranhuras do teto de madeira.
— Mia, você está bem? — a voz de Den me desperta.
Ao mesmo tempo, Sammy vem correndo e pula na cama, se acomodando ao meu lado e me lambendo o rosto.
— Sammy! — exclamo em meio à gargalhada.
— Mia? — Den insiste.
Pisco forte e respiro fundo, com medo do efeito acabar se eu me levantar, mas me sento mesmo assim, para olhar para ele.
Como é bonito!
Por um instante, penso em como seria a sensação de desmanchar as ruguinhas de preocupação em sua testa com meus lábios. Me pergunto como deve ser o gosto daquela boca...
Opa! Rio sozinha.
O Corta Dor é coisa da boa mesmo. Talvez seja por isso que Den seja bonzinho o tempo todo. Há tempos eu não me sentia leve assim, pensando besteira.
— Só estava descansando — digo para me justificar.
— Você nem tocou nos sanduíches que deixei.
— Acho que o sono me tirou a fome — minto, porque a verdade é que nem me lembrei de que eles estavam ali. Só consegui pensar e viajar como se os incômodos do corpo nem existissem.
Den continua me olhando preocupado. Acho que eu devia tentar parecer mais rabugenta, como antes, para não dar tanto na cara que estou dopada. É óbvio que ele está estranhando.
— Tem certeza de que está tudo bem? Você parece meio aérea...
— Apenas cansaço mesmo.
— Bem, acho que é normal. Seu corpo passou por uma prova. Você veio mesmo andando desde Portland? — ele pergunta, puxando uma cadeira para sentar-se mais perto de mim.
— Eu não sabia pra onde estava indo, nem me preocupei muito também. Só vim seguindo o rio.
— É muito. Quanto tempo levou?
— Cinco dias. Mas isso porque a partir do segundo eu já não conseguia andar tanto. Tinha pouca comida e meus pés estavam me matando. Além disso, eu tentei não ficar muito à vista. E pelas árvores o caminho é mais difícil. O mato fica denso em algumas partes.
Den assente, depois fica me observando por alguns instantes. Parece querer dizer algo e hesitar. Por fim, desiste.
— Aposto que você quer saber por quê — tento adivinhar-lhe os pensamentos.
— Você já disse. Estava se escondendo.
— De vocês. E olha onde vim parar! — Rio alto de novo. Está difícil de disfarçar, mas isso seria engraçado demais até se eu não estivesse alta como uma pipa. Engraçado, trágico e irônico.
Den desvia os olhos, meio envergonhado, parece. Ele fica encantador quando está tímido e, mentalmente, tenho que me mandar à merda por continuar tendo esses pensamentos bonitinhos e meio lascivos sobre meu anfitrião alienígena que, por acaso, tem um corpo humano que bem que podia ser menos atraente.
Só pra me ajudar um pouquinho, Deus. Que tal? Mas não, né? Ele tinha que ser gostoso!
— Como foi que você notou que havia algo acontecendo? — ele pergunta, e acho que era essa dúvida que estava tomando coragem para externar. Porque a resposta provável meio que faz o resto da raça humana parecer estranhamente alheia à realidade, o que é exatamente verdade.
— As pessoas não prestavam atenção a gente como eu, mas eu prestava atenção nelas. — Den arqueia a sobrancelha, sem entender. Dou um suspiro e tento moderar meu tom complacente ao explicar. — Os seres humanos estão acostumados a ignorar quem não agrada, a fingir que os inconvenientes não existem. No fim, fica parecendo normal tratar a gente em situação de rua como invisíveis. Daí, se você não é nada além de parte do mobiliário urbano, elas não se preocupam em simular civilidade, simplesmente se mostram como são, o que não é uma visão bonita. Então foi fácil perceber quando a paisagem mudou.
O belo rosto de Den se contorce de um jeito estranho e posso perceber que ele não sabe o que dizer ou como reagir. Decido poupá-lo da complicação.
— Está tudo bem. Não é como se eu fosse sentir falta de alguém. Ou das coisas como eram antes. Provavelmente eu nunca vou chegar a gostar de como elas são agora, mas pra mim já deixou de ser pessoal há tempos.
— Eu... sinto muito. Não gosto de pensar que você se sente desse jeito.
— Não preciso que você sinta pena.
— Não é pena, nem eu sei bem definir o que é. Só não gosto de saber que você era tratada assim. Acho que é... indignação.
Por um instante, nós apenas nos olhamos e eu me permito sentir a solidariedade que emana dele. Talvez seja efeito do Corta Dor, não sei. Normalmente, não gosto ou acredito em sentimentos desse tipo. Mas com Den é diferente. Parece verdadeiro. Os olhos dele se entristecem como se estivessem vendo pelos meus.
— Eu não consigo aceitar. Não consigo entender. Se vocês viviam em sociedade, não me parece razoável que não compreendessem que ela só prosperaria se todas as partes estivessem funcionando.
— Acho que ninguém se importava muito com o quadro geral, contanto que estivesse de posse do seu quinhão.
— Mas não faz sentido! Se o seu quinhão é maior do que deve ser, é sinal de que está faltando em outra parte.
— Ah, Den, não é assim que o capitalismo funciona! — Gargalho. — Não é assim que a humanidade funciona! Ninguém se importa de verdade com os outros.
— Não entendo por que você ri, Mia. Não se vive bem sem uma comunidade, mas isso traz tanto benefícios quanto deveres.
É por isso que não é de se admirar que uma raça de aliens pacíficos tenha nos subjugado. Nada de armas nucleares ou guerras interplanetárias, como acontecia nos filmes. Apenas aponte para o fato de que estamos todos sozinhos neste mundo, sem exceção, e você encontrou nossa fraqueza.
— Acho que foi por isso que vocês nos escolheram, pensando bem — constato. — A gente não merece o planeta.
Den desvia o olhar, mas eu o persigo com o meu.
— Você pode admitir, sabe? Pode sentir raiva dos humanos. Não me sinto ofendida.
Essa última parte me surpreende também, mas no final das contas é óbvio. Apesar de ser parte dela, não posso negar que a humanidade procurou seu próprio fim de todas as formas possíveis. Do jeito como aconteceu, talvez tenha sido apenas a maneira mais indolor, por assim dizer. Considerando que a maioria das pessoas nem chegou a perceber.
— Foi aos poucos, não foi? — questiono de repente. — E ainda está acontecendo. Se não chegou em mim não deve ter chegado em outras pessoas também.
— Foi aos poucos — ele confirma. — Mas os números já atingiram um ponto de não retorno. Não dá mais pra vocês impedirem, caso seja isso que você queira saber. Acho que nunca foi possível, realmente. Nós somos muitos. E já os estudávamos há muito tempo.
É minha vez de desviar os olhos, depois de assentir. Não é a fonte de informação mais confiável possível, porque no lugar dele eu jamais diria ao inimigo que ainda há tempo de resistir, mas não consigo duvidar também, a negação é um luxo que eu não me permitiria neste ponto.
— Vou ficar aqui assistindo então — tento ironizar, mas não sinto nada ao dizer isso.
Nem mágoa, nem raiva. Nenhuma revolta. Sequer tédio antecipado pelo futuro limitado que me espera.
Talvez ter ouvido essa notícia sob o efeito do Corta Dor tenha aliviado o impacto. Ou, quem sabe, eu apenas tenha deixado de me importar há muito tempo e só esteja percebendo agora.
— Sinto muito por não poder fazer mais por você, Mia — Den diz suavemente. — Posso te oferecer refúgio, mas não há garantias, e nem meios de voltar atrás. Realmente, sinto muito.
— Você tem tanta culpa nisso quanto eu pelos pecados da humanidade — admito.
E essa é a pedra tumular sobre a Mia que eu costumava reconhecer. A mesma que, instantes atrás, achava que Corrente Ascendente era o inimigo a ser odiado em honra da humanidade. Mas a verdade é que eu consigo ver com clareza agora: nós não somos inocentes, nenhum de nós, mas também não somos culpados. Nem eu, nem Den. Não especificamente, pelo menos.
— O que você trouxe aí? — pergunto, apontando para as sacolas no chão, tentando mudar um pouco de assunto.
— Ah! — ele diz, trazendo tudo para perto de mim. — Bom, eu imaginei que você precisasse de roupas, qualquer que seja sua decisão. Trouxe uma mochila também, daquelas grandes de trilha, caso você queira mesmo partir...
É estranho, mas ele parece realmente não gostar dessa possibilidade. Embora esteja me proporcionando meios e liberdade para ir embora, sua expressão, seus olhos, o tom de sua voz, tudo parece indicar que minha partida não o deixaria feliz.
Mas talvez eu esteja apenas imaginando coisas. Querendo coisas. Por isso tento me concentrar na parte prática.
A primeira sacola tem produtos de higiene. Um sabonete cheiroso, escova e pasta de dente, pente, protetor solar e até mesmo absorventes íntimos. Imagino-o todo constrangido, procurando a versão ideal. E não consigo resistir ao novo sorriso que aparece em meus lábios. Fácil demais. Rápido demais. Den parece torná-los inevitáveis.
— Não sei se... — ele se interrompe, pigarreia — Esses são bons?
— São ótimos. Na verdade, não tenho muitas exigências. Não são itens fáceis de se conseguir quando se vive na rua. Então qualquer um estaria bom. Mas esses são de ótimas qualidade. Obrigada.
Ele assente, sem me olhar nos olhos, mas continua por perto. Há mais dois frascos na sacola, e a atenção que ele me dedicou me deixa estranhamente comovida quando percebo o que são: produtos para cabelo afro. É minha vez de pigarrear.
— É muito gentil da sua parte, Den.
— Quero que fique confortável aqui. — Nossos olhos se encontram, ele sorri. Acho que eu também. — Veja se as roupas estão do seu gosto. Se precisar de mais alguma coisa, ou trocar essas peças, posso voltar amanhã pra cidade.
Abro os pacotes. Um pijama de flanela quente e discreto, calça larga e camisa de botões, nada que um homem desse a uma mulher com quem desejasse dormir. Camisetas de algodão, uma calça jeans, uma bermuda, dois conjuntos de moletom e um bom casaco. Por fim, botas de caminhada, um novo par de tênis e uma sandália baixinha, delicada.
— Se você gostar de andar a cavalo, vou providenciar botas de montaria para você. Mas por enquanto acho que vai gostar dessas.
— Eu adorei...
— Seus tênis estavam muito desgastados. Achei melhor...
— Obrigada de novo — digo com sinceridade.
Hesitante, ele aponta para um pacote mais bonito que estava separado dos outros.
— Você não vai ter ocasião para usar esse, mas eu quis te dar algo bonito, para você guardar de lembrança, se um dia...
Se um dia você for mesmo embora. Acho que é o que diria, mas ele não chega a completar a frase.
Quando abro, encontro um vestido sem mangas, estilo envelope, a saia fluida até os joelhos, num tecido fresco e confortável. É azul índigo.
— É lindo — digo, quase completamente sem palavras, incapaz de evitar que meu coração se encha de um perigoso afeto por aquele estranho gentil.
Aqui, agora, não parece tão ruim que Den seja meu único e último laço na Terra.
Ele sorri de novo, constrangido, mas encantadoramente feliz. Este, sim, é o tipo de presente que um homem daria para uma mulher com quem pretende dormir, mas Den não faz parecer assim. E isso torna a sensação ainda mais perigosa.
O último pacote é o menor e Den abre o grande guarda-roupas e começa a remexer a gaveta maior quando o pego. São meias e... roupas íntimas!
Não é nada de mais, apenas conjuntos de peças simples e práticas, mas agora entendo por que ele está ruborizado. Os tamanhos estão corretos.
— Você pode guardar suas coisas aqui nesta gaveta, por enquanto. Mas vou fazer uma cômoda só para você. Acho que vai ter mais coisas para guardar, com o tempo.
— Você vai fazer uma cômoda para mim?
— E uma cama também. Para mim, quero dizer. Você pode ficar com essa, que é maior. Não temos muito espaço sobrando, então vou fazer uma cama de solteiro para colocar naquele canto da sala onde fica a mesa de escritório, que eu vou levar para a carpintaria lá nos fundos.
— Você é carpinteiro, Den?
— Sim. — Ele sorri, orgulhoso.
— Como Jesus.
— É, como Jesus. — Seu sorriso se amplia e ele inclina a cabeça de um jeito bonitinho, como se estivesse surpreso por nunca ter notado a relação.
— Você acredita nele?
— Crenças são fechadas, prefiro sentimentos. E eu me sinto muito acolhido quando penso em Jesus.
— Acolhido. Eu me sinto assim também. Nesta casa.
Com você, quero dizer, mas não digo.
— Então fique.
— Como vamos conseguir fazer isso? — pergunto. — Deve ser perigoso para você também.
Por tudo o que fez por mim, Den é um traidor de sua espécie, afinal. Eu ainda não tinha levado isso em conta. Mas agora que estou me permitindo pensar além de mim mesma, parece evidente.
No entanto, ele balança a cabeça, negando, uma expressão tranquilizadora e determinada no rosto.
— O máximo que aconteceria comigo é ser mandado para outro planeta. Estou preparado para arcar com isso, se acontecer. No momento em que decidi não te entregar, eu sabia que poderia terminar assim.
— Se eu for embora, você não vai correr mais riscos...
— Mas você vai. E eu não quero isso.
— Por quê? — pergunto.
Dentro de mim, há uma comoção nascendo em ondas, prestes a me derrubar. Se eu não estivesse drogada, estaria chorando de novo agora, na beira do precipício da dúvida.
— Você já me perguntou isso — ele diz, olhando para baixo, para as próprias mãos. — Já disse que não sei, mas eu realmente quero que você fique. Não ficaria tranquilo se você partisse.
Alguma coisa se apossa de mim e eu me levanto da cama onde ainda estou sentada, indo na direção dele. O Corta Dor me dá a impressão de pisar nas nuvens até que paro diante de Den, dos olhos assustados que ele levanta para mim. Então eu toco seu queixo com as pontas dos dedos.
É apenas um toque inocente, quase etéreo. Mas a sensação parece tomar conta de nós dois.
— Obrigada. Vai haver dias em que eu não parecerei grata, mas eu sou. Muito. Nenhum de nós pode se esquecer disso.
— Não quero que sinta que tem qualquer tipo de obrigação comigo, nem de me proteger indo embora, nem de ficar apenas porque eu te quero aqui.
A mão dele segura a minha. Segura, não. Acaricia. Não há nada de restritivo no toque que logo se desmancha no ar.
— Vem comigo — ele chama. Então coloca a mão na base das minhas costas e me conduz até a varanda, onde o céu estrelado começa a surgir. — Você se sente bem aqui, Mia?
— Sim.
— Então daremos um jeito.
Olho em volta, para a fazenda tranquila e para o bosque que parece infinito, como se nos protegesse do resto. No silêncio da noite, quase dá para escutar o rio entre as árvores. A ilusão de isolamento e segurança parece irresistível. Dá a impressão de que podemos mesmo fazer qualquer coisa.
Eu não tinha vindo aqui desde que entrei na casa nos braços de Den, sem foco para prestar atenção em nada. No entanto, acho que ele sabe o efeito dessas lembranças em mim, por isso me trouxe. Elas me fazem racionalizar essa paz.
Se eu cheguei, se me deparei com a casa de Den, que, afinal, não está exatamente escondida do resto do mundo, outras pessoas também podem.
— Mais cedo ou mais tarde, vamos ser descobertos — digo.
— Pois terá que ser mais tarde então — ele rebate.
— Você deve ter amigos que te visitam. E também não é como se estivéssemos no meio do nada. Há cidades a poucas milhas de carro. A rodovia...
— Está a 3 milhas a leste. Você precisa se lembrar disso para o plano B.
— Plano B?
— Eu tenho amigos, alguns poucos. São mais como conhecidos, na verdade. Geralmente os vejo quando vou a Troutdale fazer compras, porque costumo ir sempre nos mesmos lugares, então fiz amizade com os vendedores. Mas nós vamos mudar esse hábito. Não posso comprar coisas de mulher ou mantimentos para dois nas lojas de conhecidos. Quando você estiver comigo ou quando eu for comprar coisas para você, vamos a outra cidade, como eu fiz hoje. Uma maior e mais distante. Mas não Portland. Alguém poderia te reconhecer por lá. Então vamos a qualquer lugar onde ninguém conheça nenhum de nós dois.
— Eu não vou com você a lugar nenhum, Den! Isso seria loucura.
— Você vai se esconder em plena vista. Vai aprender a se comportar como alma e usará óculos escuros para evitar riscos maiores. Os olhos só são um perigo quando a luz incide diretamente sobre eles, mas ninguém terá motivos para desconfiar se estivermos juntos. Ninguém vai prestar atenção especial aos seus olhos.
— Você está maluco!
— Não. Não, estou. Que outra opção nós temos, Mia? Não estou dizendo para você se expor ao perigo, sair à toa e puxar conversa com estranhos. E você não precisa mesmo ir até a cidade se não quiser. Mas eu não posso te esconder o tempo todo, e você não aguentaria ficar presa aqui pra sempre. Então se algum dia você vir outra alma, vai ter que saber se comportar com naturalidade e depois... Você vai me prometer que vai fugir. Esse é o plano B.
— Fugir? Pra onde?
— Eu pensei nisso. Pensei em muita coisa hoje. Vou arranjar um esconderijo para você. Tem um lugar na floresta, uma espécie de gruta. Vou deixar a mochila lá com tudo o que você precisa. Você sabe dirigir uma moto?
— Sim, mas...
— Melhor. É o único veículo que conseguiríamos esconder naquele espaço.
— Você ficaria exposto. Se alguém desconfiasse de mim, pegariam você na hora.
— Eu não vou fugir, Mia. Caso isso aconteça, eu vou ficar para despistar quem vier. Quem sabe até possa te garantir algumas horas. Não estou acostumado a mentir, mas posso inventar alguma coisa que sirva para encobrir você.
— Den... — Fico sem saber o que dizer. Nessas poucas horas, ele pensou em tudo.
— Eu só quero que você me prometa que não vai confrontar ninguém, especialmente Buscadores. Você vai fugir antes de precisar fazer isso. Não perca seu tempo se preocupando comigo. Eu vou ficar bem. É a minha espécie. Mas eu não sei o que poderia acontecer com você.
O olhar de súplica no rosto dele me assusta.
— Eles seriam violentos? — pergunto.
— Não. Eles evitariam isso a todo custo. Simplesmente, usariam medicamentos para te colocar para dormir.
— Então... — De repente, eu entendo. Ou acho que entendo. Meu semblante se fecha, mas eu não sei o que estou sentindo. — Você tem medo de mim, Den? Tem medo do que eu possa fazer?
— Eu preciso ter medo de você?
Claro. Somos fundamentalmente diferentes, Den e eu. Ele não me conhece, mas conhece os humanos, sabe do que já fomos capazes. Mesmo assim, a pergunta me incomoda. Ainda que eu própria estivesse fazendo suposições sobre as intenções dele agora há pouco.
— Desculpe... — ele começa, mas eu faço um sinal para que pare.
— Eu não faria mal a você, mas não posso garantir o que eu faria a qualquer um, caso tivesse que me defender.
E aqui há um recado que eu sei que ele ouve nas entrelinhas: manterei a paz se ela partir dele. Nem mais, nem menos. Mas nestas alturas, já me parece evidente quem de nós estragaria tudo.
— É a única coisa que eu te peço, Mia. Não posso viver com o fardo de ser responsável por algo ruim acontecendo a outra alma. Ou com você. Preciso que me prometa que vai fazer todo o possível para fugir.
Não sei por que é tão importante para ele que eu fique bem, que continue humana. A vida seria muito mais fácil para Den se eu estivesse numa mesa cirúrgica agora.
Se formos pegos, ele disse que será mandado para outro planeta, e não posso imaginar que esteja tudo bem ser arrancado do corpo que considera seu e mandado, à revelia, para outro lugar. E é precisamente o que ele está tentando evitar que aconteça comigo, talvez à própria custa.
Por isso sou uma filha da puta egoísta por aceitar. Mas balanço a cabeça em concordância mesmo assim, prometendo. Jurando sobre algo que eu não sei se seria capaz de cumprir.
— Temos um trato então. Farei tudo o que estiver ao meu alcance para te proteger — ele diz, estendendo a mão para mim.
— Vou fazer por merecer — garanto, segurando a mão que ele me oferece, empenhando minha palavra como há muito tempo não fazia.
Insegura, olho de novo para as árvores. Sammy aconchega-se ao meu lado, encostado na minha perna e Den suspira aliviado.
Eu não sou uma boa pessoa. Não sou mais. Mas estou recebendo uma segunda chance que nem deveria existir neste mundo novo. Então empurro a insegurança para o fundo da minha mente e prometo a mim mesma que vou tentar de tudo. Que vou fazer o possível.
Uma sensação ruim toma conta de mim, se espalhando desde a boca do meu estômago até o gosto amargo na língua. O efeito do Corta Dor está passando, acho.
E quando penso em meus motivos ocultos, o número exato de quadradinhos que encontrei naquela pequena caixa, sinto vergonha do homem ao meu lado.
Sinto vergonha por ele achar que sou digna disso tudo.
No fim, o nome do inimigo não é Corrente Ascendente. É Mia Lopez.
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