Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
15 Capítulo 15 - Decisões
Capítulo 15
Decisões
Den
Minha cabeça dói. Uma espécie de gemido me escapa dos lábios quando me movo e cubro os olhos com o antebraço para me proteger da luz. Sinto uma movimentação ao meu lado e percebo que a lâmpada mais próxima é apagada, dando lugar ao lusco-fusco do entardecer que entra pela janela.
— Shh... Está tudo bem — Mia diz enquanto acaricia meus cabelos.
— O que foi que...? — Por alguns segundos fico confuso, imaginando por que estou deitado a esta hora, mas em seguida me lembro. A imagem do buscador invade minha mente e meu corpo reage à adrenalina de forma impulsiva. De repente, estou de pé, tonto, numa imitação canhestra de uma posição de defesa. — Você está bem?
Tento me lembrar dos últimos acontecimentos. O buscador ferindo Sammy e eu perdendo a cabeça por causa disso. Lembro de aspirar alguma coisa e apagar.
Estúpido! Irresponsável! Eu a deixei desprotegida, à mercê do buscador. E agora Mia pode não ser mais ela mesma!
Mas não. Olho para ela com atenção.
Castanhos. Os olhos de Mia continuam apenas castanhos. Só consigo respirar de novo quando constato isso. E não há ferimentos visíveis em seu corpo, o que significa que ela não precisou lutar com ele. Ou se lutou, venceu facilmente. Está intacta como se tudo não passasse de um sonho ruim.
Acho que estou ficando louco, mas quem se importa? Minha Mia continua humana. Ela está bem. Estamos bem. Podemos lidar com o que quer que tenha acontecido. Eu acho.
— Mia, você feriu o buscador?
— Den — ela chama, aproximando-se de mim com as mãos erguidas em um pedido de calma. — Notas Invisíveis está do nosso lado.
Encaro seu rosto sem entender e ela faz um sinal com a cabeça para a cena que se desenrola em minha casa. Pisco aturdido quando vejo o buscador sentado à mesa da cozinha com um prato de bolo diante de si e Sammy comendo um naco generoso diretamente de suas mãos.
— O que está acontecendo? — A roupa do buscador está suja de sangue. Muito sangue. Mas o kit de primeiros socorros sobre uma das cadeiras indica que, qualquer que tenha sido o dano, já foi resolvido. — O que eu perdi? Mia, você está bem? O que houve?
Mia se aproxima de mim e segura minhas mãos. Ela não responde a nenhuma das minhas perguntas, mas olha fundo em meus olhos e isso é garantia o bastante de que está tudo bem, sim. Sinto meus olhos arderem com lágrimas de alívio por tê-la aqui comigo. E também pela confusão em que está minha cabeça.
Fecho minhas mãos em torno de seus braços, apertando tão forte que, em certo ponto, preciso me conter para não lhe causar dor. Respiro fundo para tentar trazer algum sentido para aquela situação surreal, tentar absorver algo daquela “normalidade” da qual só eu pareço não fazer parte.
Mia se aproxima mais e encosta o rosto no meu. Sinto a umidade nas bochechas, mas acho que são lágrimas minhas. A pele de Mia me dá algum alento e eu a abraço como se nunca mais pudesse soltar.
— Fique calmo, está bem? — ela sussurra. — Acho que podemos confiar nele. Não há outra alternativa, de qualquer maneira.
Permito-me tocar em Mia, examinando seu corpo em busca de qualquer arranhão, certificando-me de que ela é real, de que não estou sonhando. Então a abraço de novo e beijo sua boca sem me importar com a presença do buscador, que eu espero que tenha tido a decência de desviar o olhar.
— Desculpe — peço a ela. — Eu perdi a cabeça e deixei você sozinha. Ainda não sei como está segura, mas certamente não foi pela minha proteção. Por isso me perdoe.
— Na verdade, foi sim. — O buscador pigarreia e, finalmente, olhamos para ele. — Quer dizer, de certa forma.
Lentamente, afrouxo meu aperto em Mia até estar apenas segurando sua mão. Penso em pedir que fique longe, que saia da casa, mas é só uma reação instintiva e inútil. No mesmo momento, percebo que é tolice. Se o buscador tivesse que agir contra ela, já o teria feito. Não consigo imaginar qualquer tipo de plano onde ele fingisse amizade e permitisse que eu e Sammy estivéssemos acordados, enquanto levaria Mia de boa vontade. Não faz sentido. E almas não são assim, mesmo os buscadores. Eu acho.
Vou até a mesa e me sento. Mia faz o mesmo. Sammy me cumprimenta animado, como se me dissesse que o homem merece uma chance. Na verdade, isso diz muito. Se ganhou a confiança do cachorro — e a de Mia — talvez possamos fazer isso funcionar.
— Não entendo o que está havendo aqui — confesso a ele.
— Também estou confuso. — O buscador dá um sorriso sem graça, mas ainda é cedo para que eu corresponda, então só faço um movimento com a cabeça, assentindo. Ele continua: — Tenho procurado por Mia Lopez há muito tempo. Mas admito que, em certo ponto, já não tinha mais certeza do que faria quando encontrasse.
— E por quê? — Mia questiona.
Notas Invisíveis olha para ela e fica em silêncio por um longo instante, absorto nas próprias cogitações.
— Eu me lembrava de você. Digo, eu me lembrava de todos, mas com você era diferente. Marcus sentia algo como uma espécie de afeto, e mesmo assim não hesitava em fazê-la sofrer. Essa dualidade o assombrava e... quando tomei posse do hospedeiro, algo disso ficou para trás. Remorso, principalmente. Eu queria encontrar você, porque era minha missão e eu estava determinado. Mas quando descobri onde estava, fiquei sobretudo curioso. E agora que encontrei, há em mim uma necessidade estranha de compensar o que Marcus fez. É como se eu lhe devesse alguma coisa. E considerando nosso embate lá fora, estou devendo mesmo, depois da decisão que tomou.
— Não! Você... Quer dizer, eu sou grata, mas não estava tentando...
— Eu sei — ele a interrompe. — Foi por Corrente Ascendente. E isso é razão o suficiente.
Não entendo sobre o que estão falando, mas não consigo perguntar. Parece mais importante dar atenção ao que vem a seguir.
— Não que eu esteja rejeitando sua ideia de compensação — Mia começa a argumentar. — Na verdade, me sinto estúpida por dizer isso. Mas... pensei que, do ponto de vista de vocês, a inserção de uma alma fosse o melhor a fazer. Você sabe, para que eu pudesse existir em sua sociedade.
Quando ela diz isso, acho que é a primeira vez que tenho consciência de algo que só pode ser descrito como raiva. Raiva de tudo. Da arrogância das almas. Do buscador e do que ele representa. Da hipocrisia de estar me sentindo assim. Sobretudo, raiva de Mia por trazer isso à tona. É um sentimento assustador e inesperado. E eu não gosto nada dele.
— Não temos mais certeza se funcionaria assim. Há relatos... — Notas Invisíveis se interrompe, como se precisasse pensar bem no que dizer. Então limpa a garganta, claramente desconfortável. — Quando o hospedeiro entende o que está acontecendo, pode ser bem difícil para a alma inserida suplantar a consciência.
A informação nos pega de surpresa e não posso deixar de imaginar o que seria de mim caso Owen tivesse resistido. Sinceramente, a cogitação não progride em minha mente, porque parece inconcebível e aterrorizante. A mistura de emoções é enlouquecedora e não consigo mais raciocinar. Estou — assim como sempre estive — tomado pelo terror ao pensar na possibilidade de Mia enfrentando uma inserção conscientemente. Nunca nem consegui pensar a respeito sem me desesperar. Mas agora também acho que deveria estar aterrorizado pelas almas que precisaram passar por algo assim.
— Você está dizendo que minha mente sobreviveria? — ela pergunta, e isso me tira do torpor, mas me joga direto de volta ao mar de incertezas e sensações confusas.
O que Mia está pensando!? Ela não pode... Se ela... Não!
As palavras “tiro no escuro” ecoam em minha cabeça e não gosto nada do som que elas fazem.
Notas Invisíveis pensa um pouco a respeito e a encara com franqueza no olhar.
— Não sei. É possível que você sobreviva. A esta altura, seria um risco que assumiríamos.
— Um risco... — Mia murmura.
— Me desculpe pela insensibilidade. Quando eu disse que é um risco...
— Talvez devêssemos tentar!
— O quê!? — Eu me sobressalto ainda mais. — Você está louca?
— Mia, se você sobreviver, dividirá sua mente com a alma. Assim que ela relatar isso, será removida e você...
Notas Invisíveis não completa a frase, mas posso imaginar como ela termina. A palavra é como um soco em meu estômago.
— Descartada — explico. — Você será descartada. Só posso supor isso como destino para hospedeiros inviáveis.
— Descartada? — ela pergunta confusa, mas não é preciso mais do que alguns segundos para que a compreensão apareça em seus olhos. — Ah.
— Não vamos assumir risco nenhum — afirmo.
— Você não pode decidir por mim.
Seu tom é de reprimenda, mas não me sinto culpado. Posso lidar com qualquer conflito, desde que ela entenda que isso é uma loucura.
— Sei que não posso decidir em seu lugar, mas é difícil ficar quieto quando vejo você cogitando essa insanidade sem medir as consequências.
— Você ficaria seguro, Den.
— O quê?
— Se outro buscador vier, se formos descobertos... Eu achei que você estava morto, entende?
— Mia... — Notas Invisíveis tenta interferir, mas ela ergue a mão em riste na direção dele, como se pedisse para não ser interrompida.
— Eu achei que você estava morto, Den! Por minha culpa! Nunca na minha vida senti um pavor tão grande. E não quero sentir nunca mais. O que seria da nossa vida aqui, de qualquer maneira? Quanto tempo você acha que nós temos? Você não entende! — ela afunda a cabeça entre as mãos e suspira. Quando volta a falar, a voz está embargada. — Não podemos ter a ilusão de uma vida juntos, sempre soubemos que nosso tempo acabaria. Pra sempre não existe para mim, de qualquer jeito. E se você estiver com uma alma, e houver a mínima possibilidade de uma parte minha sobreviver, então eu posso continuar te amando sem te colocar em perigo. E depois, você e ela podem continuar. Aqui ou em outro lugar.
— Você não ouviu? A outra alma vai sofrer também! Ela não vai aceitar passivamente!
— Ela vai se apaixonar por você, eu sei que sim!
— E como você acha que eu fico nisso? Não quero uma parte de você. Não quero uma imitação da nossa vida. Você está falando em trazer outra pessoa para a situação. Está decidindo minha vida e a dela... e a sua! Como se... Como se...
Não consigo terminar a frase, meu peito sobe e desce com a força de minha respiração descontrolada. É egoísmo e ela sabe disso. Seus olhos se arregalam e sei que está fazendo um esforço imenso para não chorar.
Sammy está inquieto, choramingando, enquanto Mia e eu nos encaramos em silêncio carregado. Parece impossível, mas é quase como se tivéssemos nos esquecido do buscador ao nosso lado, do grande elefante no meio da sala — ou da cozinha.
Ciente disso, Notas Invisíveis limpa a garganta de novo para atrair nossa atenção.
— Do jeito como as coisas estão, nenhum de nós pode tomar qualquer decisão sozinho — ele diz, o que não é bem verdade, ao menos no caso dele. Mas aprecio a tentativa de ser gentil. Condescendência não me parece nada ruim neste momento. Especialmente vinda de um buscador em cujas mãos pode estar nosso fim. — Acho que Corrente Ascendente tem razão em frisar que a alma que chegar precisa ser levada em consideração. E eu seria responsável por ela. Se levasse você daqui, Mia, teria que explicar as circunstâncias em que te encontrei. Automaticamente, assumiríamos um risco calculado com uma inserção. A alma teria que ser vigiada por um bom tempo para garantir a segurança dela. E se percebessem que sua consciência estava resistindo, eu não teria como evitar que ela fosse mudada de hospedeiro. E nem teria como resgatar você sem que percebessem o que eu fiz. Não posso trazer uma alma para uma situação de potencial sofrimento e ao mesmo tempo proteger você. É tarde demais para eu tomar essa decisão. Ou ajudo você a permanecer humana ou me arrisco a causar sua morte. Essa, sim, é a verdadeira decisão que tenho à minha frente.
Nós dois o encaramos com perplexidade e, ao menos no meu caso, um pouco de vergonha. Sequer tinha parado para pensar nas consequências de tudo isso para Notas Invisíveis. Não tinha cogitado que era tudo muito difícil e definitivo para ele também.
— Era relativamente fácil lidar com minha hesitação quando eu só podia imaginar quem você era, quando acreditava que, sendo humana, constituía ameaça aos de minha espécie. Conter você, nesse caso, parecia perfeitamente justificável. Mas Corrente Ascendente não estava coagido de forma alguma. Tornou-se claro para mim que ele a protegia porque queria, então eu entendi, quando você tentou protegê-lo também, que estava disposta a se sacrificar por ele. Por fim, você escolheu poupar minha vida lá fora. Então já não consigo mais fingir que você é uma simples ameaça a erradicar. É mais complexo do que isso. Ainda não sei o que me fez parar, mas sei que não consegui simplesmente ser um buscador. Eu estou... envolvido por esse dilema.
— A Terra é um lugar complicado — ofereço. — Também nunca entendi de fato o porquê das decisões que tomei.
— Os outros planetas são... — ele pensa um pouco, depois completa: — ... fáceis em comparação. Minhas vidas foram simples e tranquilas. Mas nada é simples na Terra. Todas as microdecisões... Em um único dia a vida aqui pode ser mais complexa do que qualquer mistério do universo conhecido por nós. Ficou mais fácil compreender as escolhas estranhas, equivocadas e até cruéis que vocês, humanos, faziam.
— Talvez não as cruéis — Mia responde, porque continua inflexível em suas opiniões negativas sobre a humanidade. O que tento compreender, porque, claro, ela tem seus motivos.
— Tem razão — ele consente. — É preciso um limite para as relativizações.
Ficamos em silêncio depois disso, mas no meu caso é apenas porque tento respeitar o tempo de Notas Invisíveis. Penso que o próprio fato de estar à nossa mesa, imerso em um diálogo sobre como a humanidade de Mia é algo complexo que deve ser posto em consideração, já demonstra muita coisa para mim. Não há modo possível de alguém assim simplesmente conseguir se levantar e levá-la embora daqui. No entanto, a percepção de que ele já tomou sua decisão deve se assentar sozinha.
Ele só precisa digerir tudo isso.
— Eu vou fazer o jantar para nós — digo, me levantando. — E também vou pegar uma camisa limpa para você, Notas Invisíveis. Enquanto comemos, você pode nos contar como nos descobriu aqui.
Ele assente. Mia me olha estranho. Sammy fareja o ar, como se percebesse uma mudança na atmosfera.
Quanto a mim, por enquanto, decido que vou apenas tratar do jantar.
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