Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
16 Capítulo 16 - Deus Ex Machina
Capítulo 16
Deus ex machina
Mia
No fim das contas, eu sempre estive certa. O dia em que Chico nos flagrou no estacionamento de um supermercado qualquer, em uma cidade qualquer, marcou o começo de nossa derrocada.
Bem, talvez “derrocada” seja uma palavra forte demais. E injusta também. Imprecisa, certamente. Mas, sem dúvida alguma, algo foi desencadeado naquele momento. Algo que eu ainda não sei se é bom ou ruim, mas que era, de certa forma, inevitável.
Quando chegou à Terra, o buscador Notas Invisíveis recebeu uma tarefa. Ele se tornaria responsável pela “busca e apreensão” de toda a rede de hospedeiros envolvidos nas atividades de Marcus no tráfico. Fornecedores, consumidores e toda sorte de comparsas, desde os “aviõezinhos” até os sócios. Era muita gente, mas eram alvos fáceis também.
Até hoje não sei bem como escapei sem ser notada, mas o fato é que, embora eu orbitasse aquele núcleo específico de pessoas, era também meio nômade, tinha o hábito de sumir por dias, por isso demorou um pouco até que minha ausência fosse percebida.
Notas Invisíveis dava como certo que o vício me faria procurá-lo, ou melhor, que eu iria atrás de Marcus em busca de mais drogas, mas isso não aconteceu. Então ele procurou pela cidade, depois pelas redondezas. Os buscadores suspeitaram que eu pudesse ter me embrenhado pela floresta, mas lhes parecia impossível que eu tivesse sobrevivido.
Imaginaram que se a sede, a fome ou o frio não tivessem me matado, os efeitos da abstinência teriam, no mínimo, me fragilizado muito. Eu poderia ter me perdido, sido vítima de animais selvagens, ou até mesmo me afogado.
Quando não acharam meu corpo, nem vestígios dele, cogitaram também que eu tivesse me juntado a outros sobreviventes, de cuja presença na época havia evidências. Mas sendo realista, alguém nas minhas condições teria atrasado ou até impossibilitado que esses humanos se movessem rápido e encontrassem esconderijos viáveis.
Mesmo assim, seguindo esse raciocínio, a ausência de um corpo indicava que eu, no mínimo, não tinha morrido sozinha. Pensaram que outras pessoas poderiam ter me encontrado morta e me enterrado. Talvez até mesmo me assassinado em uma briga. Essa foi uma teoria bastante aceita, inclusive. Os buscadores não tinham exatamente um bom conceito sobre os humanos. E eu não podia culpá-los.
— Quando foi que você se convenceu de que eu estava viva? — perguntei a Notas Invisíveis.
— Eu não sabia, na verdade. Nunca me conformei que não tivéssemos encontrado um corpo, mas não havia pista alguma. Foi uma surpresa quando Corais de Gelo me ligou. Quer dizer, eu tinha pedido a todos que ficassem de olho no começo, mas isso foi bem antes de concluirmos que você devia estar morta.
— Corais de Gelo?
— Bem, sim, o homem que você conhecia como Chico se chama assim agora.
A menção ao nome me faz tremer. Independentemente da disposição de Notas Invisíveis de nos defender, tem mais alguém que sabe que estou viva.
— Corais de Gelo vai ser um problema — afirmo, e o buscador se surpreende com isso. Não quero soar ameaçadora. Mesmo que quisesse, não tenho condições de fazer nada contra essa alma, mas precisamos estar cientes da dimensão real dos riscos que enfrentamos. — Quero dizer, ele sabe sobre mim.
— Que você ainda é Mia Lopez? De forma alguma.
— Mas...
— Ele não viu você de perto. Só me ligou porque fiz esse pedido a todos daquele círculo de pessoas que te reconheceriam. Mas não é como se ele estivesse à sua procura. Estava a caminho do restaurante onde trabalha e apenas topou com alguém que achou parecida com você.
— Eu disse isso muitas vezes — é Den quem explica agora —, não há motivos para desconfiarem. Se Notas Invisíveis jamais o deixou em alerta sobre a possibilidade de você permanecer humana, ele não pensaria nisso por si só. Avaliação de riscos não é trabalho dos que não são buscadores.
— Então como você soube? Como me encontrou aqui?
— Nós mantemos registros das inserções que fazemos, mas confesso que erros acontecem. Se por acaso algum outro buscador tivesse sido meio descuidado, mesmo assim, no seu caso, a alma teria que procurar Confortadores e Curandeiros para lidar com a dependência química. Quando Corais de Gelo me contatou, consultei a lista de pacientes com essas características na região e não encontrei ninguém fora dos registros. Então, por algum motivo, tive um palpite e comecei a procurar por um homem com as características físicas daquele que tinha sido visto em sua companhia. Por fim, cheguei à Confortadora Lírio do Sol. Ela tinha um paciente cuja descrição batia e soube me informar que ele morava sozinho, mas que recebia uma amiga com frequência.
— Foi aí que vocês somaram dois mais dois — concluo mal-humorada. A visita daquela mulher ainda está entalada em minha garganta.
— Vocês, não. Lírio do Sol não sabe de nada.
— Como é?
— Acredite se quiser, mas a visita dela foi mera coincidência. Eu não estaria tão tranquilo se qualquer outra pessoa tivesse chegado junto comigo à conclusão de que você estava aqui.
— Você está dizendo que...
— Que ele e eu somos os únicos que sabemos a seu respeito — conclui Den sem sequer olhar para nós, parecendo concentrado apenas em preparar o jantar.
Gostaria de entender qual é a dessa calmaria que se apossou dele nos últimos minutos. Mas entendendo ou não, agradeço aos céus. Seja qual for o rumo desta conversa, é melhor que pelo menos um de nós esteja lúcido. E esse alguém, obviamente, não sou eu, pois meu cérebro está fervendo.
Paro de entender qualquer coisa quando, muito calmamente, Den abandona os legumes picados sobre a tábua e deposita a faca sobre a pia. Em seguida, ele enxagua as mãos e usa uma toalha pendurada em seu ombro para secá-las. Tranquilo como o céu de uma manhã de verão. Volta a se sentar de frente para Notas Invisíveis e os dois trocam olhares significativos.
— Eu já dei esta garantia assim que você chegou — diz. — Mas depois de tudo o que aconteceu, acho que ela faz mais sentido agora, parece mais crível. Até porque, não vem mais apenas só de mim. Eu disse que prometia manter Mia longe de outras almas, para que ela não oferecesse perigo a ninguém, mas você agora sabe tão bem quanto eu o quanto ela é piedosa e confiável.
— Den...? — eu chamo, tentando me firmar na conversa. Ele está barganhando com um nível espantoso de segurança, mas não viu como foi quando eu fatiei a pele do braço de Notas Invisíveis e ameacei arrancá-lo de seu hospedeiro.
Den não sabe do que eu sou capaz de verdade, mas o buscador sabe.
— Eu não ia... Me perdoe, Notas Invisíveis. Eu só queria salvar o Den... — tento me explicar.
O buscador fecha os olhos e respira fundo, abrindo-os logo em seguida. Em poucos segundos, sua expressão parece decidida.
— Vocês não podem se arriscar mais. Não tenho como fazer nada se vocês forem pegos por outros buscadores.
— O erro foi meu, não vou cometê-lo de novo — Den volta a garantir.
— Juro que nunca vou sair daqui, eu prometo! — Um soluço alto me escapa e revela o quanto estou descontrolada.
O medo me tornou calculista lá fora, mas aqui, diante da chance real que nunca achei que pudesse ter, não sei o que fazer com meras palavras e promessas.
— Eu não consigo me forçar a cumprir meu dever com você, não quando isso significaria a sua morte — Notas Invisíveis me explica. — Considerando seus conhecimentos e seu apego por Corrente Ascendente, nenhum Confortador seria capaz de torná-la uma hospedeira viável. E eu não posso fazer isso a vocês dois.
As lágrimas começam a escorrer copiosamente por meu rosto, mas Den está numa negociação. Ele se mantém firme e estável, como se tivesse certeza do resultado final.
— Eu cubro você e você me cobre, Notas Invisíveis. Deixe-nos em paz e eu garanto que ninguém nunca saberá que você a encontrou. Ninguém nunca saberá que Mia Lopez está viva.
— Vou dar a vocês os endereços e locais de trabalho de todas as almas com hospedeiros que eu sei que a conheceram.
— E Chico vai ser convencido de que se enganou... — Den acrescenta.
— É mais fácil ele acreditar que eu encontrei vocês pouco antes de se mudarem para, digamos, o Brasil ou algum país ao sul. A alma Índigo prefere climas quentes.
— Perfeito.
— Nunca mais voltem à cidade onde ele vive, nem sequer passem pelas redondezas.
— Eu nunca mais vou sair desta fazenda — prometo chorando.
— É muito difícil suportar algo assim — Notas Invisíveis me diz. — Você nunca esteve presa, mas Marcus, sim. E eu me lembro como é a sensação de ser privado da liberdade.
— Mas esta é minha casa — afirmo, segurando a mão de Den. — Não tem nada lá fora para mim, de qualquer jeito. Nada que me importe mais do que Corrente Ascendente e Sammy. Sou mais livre por fazer essa escolha do que jamais seria na vida que eu levava.
— Se ficar entediada...
— Não vou ficar! Tem muito trabalho aqui, muito o que fazer. Posso andar a cavalo e nadar. Posso aprender um ofício, estudar... Se vocês me arranjarem alguns livros, vou me entreter com eles por anos. É o sonho de todo leitor! — Rio meio histérica. Não quero parecer desesperada, mas vou agarrar a chance que Notas Invisíveis está me dando. Solto a mão de Den e seguro as dele. — O meu sonho desde que cheguei aqui é ficar em paz com meu companheiro. Não preciso sair, juro que nunca vou fazer mal para alma nenhuma, juro que...
— Eu sei, Mia — ele me interrompe gentilmente. — Você escolheu me poupar e se entregar, mesmo com medo. Então não preciso de promessas, já conheci as suas ações. E a força de sua motivação também — finaliza, referindo-se a Den.
— Meu Deus, obrigada! Obrigada, Notas Invisíveis.
Sinto que o estou constrangendo com tanto choro e agradecimentos, mas não existem palavras para explicar o que aconteceu aqui.
Do ódio que Marcus me dispensou em vida, surgiu a compaixão que Notas Invisíveis se permitiu demonstrar. Por causa disso, seus olhos estavam limpos para enxergar o quanto Den e eu nos amamos.
E esse amor, o amor e tudo o que ele nos motivou a fazer, o nosso amor... nos salvou.
Por causa dele, esse homem, esse ser à minha frente, demonstrou por nós uma piedade que eu não julgava capaz de existir. Mesmo depois de conhecer Den, não achei que fosse possível ter a mesma sorte duas vezes. Mas, aparentemente, o mundo que as almas construíram sobre os destroços de nossa miséria moral é um lugar onde bondade vale a pena.
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