Índigo - Uma História do Universo de A Hospedeira
1 Capítulo 1 - Anjo Negro
Angel, oh oh oh
Knew you were special from the moment I saw you
I saw you, yeah
I said angel, oh oh oh
I feel you're closer every time I call you, I call you
Cause all I see are wings, I can see your wings
But I know what I am and the life I live, yeah, the life I live
And even though I sin, maybe we are born to life
But I know time will tell if we're meant for this
yeah, if we're meant for this
(Angel – The Weeknd)
Corrente Ascendente
Levanto os olhos para a linha das árvores e sinto uma gota de suor escorrer por minha têmpora.
Embora não esteja calor, o trabalho de rachar a lenha para a lareira cobra seu preço. Contudo, apesar do esforço, gosto disso. A calma concentração do movimento repetido, os músculos e sentidos mobilizados no mesmo esforço... Traz uma harmonia inesperada. Faz com que eu me sinta pacificado.
Enxugo o rosto com a manga da camisa antes de retomar o trabalho e, durante o gesto automático de procurar, percebo que Sammy não está em nenhum lugar à vista. Deve ter se embrenhado na floresta de novo. Às vezes meu velho sabujo passa horas lá, aventurando-se nas margens do rio, um hábito herdado de seus anos com o humano, bem antes de mim.
Normalmente, eu não me preocuparia, mas as coisas estão mudando. As juntas de meu amigo não são mais as mesmas, e penso se a água fria pode piorar a situação. Então, meio sem pensar, dou aquele assovio alto, de ferir os ouvidos, e espero atento. Segundos depois, em resposta, ouço seu latido ao longe, como se dissesse que já volta para casa.
— Bom garoto — murmuro.
Tranquilizado, sorrio para o nada e volto a trabalhar, ainda apreciando a estranheza de que meu primeiro e mais intenso laço na Terra seja com ele. Sammy. O grande, desajeitado e pacífico Bloodhound que me ajuda a ver este planeta do jeito que deve ser.
Na primeira vez em que o vi, ele soube imediatamente que eu não era seu amigo Owen. Embora seus sentidos reconhecessem o corpo, de alguma maneira inexplicável, ele sabia que era eu e não o humano quem estava aqui. Como consequência, manteve-se tristonho e distante pelas penosas semanas de adaptação que se seguiram, embora jamais tivesse uma única atitude que me causasse receio.
Puro demais para ser hostil. Essa foi minha primeira lição sobre ele. Ainda assim, ele manteve a dignidade de seu luto e eu respeitei, o que foi minha segunda lição sobre Sammy e a primeira sobre o mundo em que agora vivia.
Esperar. A vida na Terra é feita de espera.
Quando finalmente Sammy decidiu que a espera tinha acabado, isso me fez sentir que eu merecia aquele laço. Que era de verdade.
E era diferente também. Conquistado, não espontâneo. De qualquer forma, me pareceu suficiente.
Agora, Sammy e os outros animais são minhas únicas companhias na maior parte dos dias. O que é um tanto quanto inédito para alguém que já compartilhou as percepções e pensamentos de toda uma espécie. No mundo das Algas Visionárias não existe algo como o conceito humano de solidão. Talvez seja por isso que aprecio tanto isso aqui.
Meu rancho simples à beira de um bosque, meus cavalos, meu trabalho e Sammy. Exceto por ocasionais idas a Troutdale para compras e trabalho voluntário de limpeza e organização da cidade, isso é tudo o que preciso.
Quando os primeiros sinais do crepúsculo começam a aparecer, decido encerrar o dia. Assim que o sol se puser, em seu lugar provavelmente virá uma noite escura e fria. Então, depois de partir a última tora, me preparo para carregar um pouco de lenha para a base da lareira na sala de estar do chalé.
De repente, enquanto estou agachado recolhendo a madeira, sinto o baque das patas de Sammy em meus ombros, mas mal tenho tempo de me reequilibrar quando ouço seu trote pesado correndo de volta para o lugar de onde veio.
— Ei! — começo a protestar, mas quando me viro ele já desapareceu. — Sammy!
Assim como antes, ele late de volta, mas desta vez está mais perto, me convidando a segui-lo. Quer dizer que achou alguma coisa. O que explica por que ele tem andado inquieto há dias.
Para alguém que mora em uma área rural e isolada como eu, há sempre o medo do ataque de animais, por isso sempre carrego um frasco de Dormir comigo. Esta tarde, dentre todas as tardes, eu o esqueci no bolso da jaqueta que ficou dentro de casa, por isso hesito alguns segundos, pensando se não seria melhor entrar e pegar. No entanto, já ouço o chamado de Sammy de novo e sigo ao encontro dele, disposto a arriscar, confiando no fato de que meu cachorro jamais me guiaria ao perigo. Menos ainda com tamanha insistência.
Por isso me embrenho pelo mesmo caminho que Sammy parece ter tomado e logo ouço passos claudicantes sobre as folhas secas. Não são de um animal. Isso já dá pra saber.
— Olá? — pergunto, mas não recebo resposta, apenas o que parece ser o baque surdo de alguém caindo sobre os próprios joelhos.
Sammy late outra vez e me indica a direção, aperto o passo e o encontro ao lado de uma figura vestida de preto, tentando se equilibrar sobre quatro apoios.
Quando ela levanta o olhar para mim posso ver que é uma mulher com a pele tão negra quanto o capuz que cobre seus cabelos. A maneira como ela me olha me paralisa sem que eu saiba por quê. É tão impressionante que mal posso evitar a comparação que me vem à cabeça: ela é um anjo negro, caída diretamente do céu noturno.
Cansada de tentar se levantar e falhar, o anjo se senta no chão. Sua respiração é difícil e sua cabeça começa a tombar para trás. Sammy dá pulos inquietos que me despertam da letargia e corro até ela, chegando a tempo de apoiar suas costas em meu peito antes que ela desmaie.
— O que aconteceu com você? — pergunto, mas não obtenho qualquer resposta por longos segundos.
Vou deitando o corpo dela em minhas pernas, muito lentamente, porque não consigo ver onde está ferida. Há arranhões nas mãos e no rosto e o moletom que veste está rasgado em alguns pontos, como se ela tivesse andado fora da trilha e atravessado arbustos, mas fora isso não dá para avaliar a situação. Não aqui, não assim, de qualquer jeito.
— Eu vou levantar você, tudo bem? Por favor, não se assuste.
— Estou cansada — ela responde, e o tom de sua voz traz um efeito estranho ao meu coração. Um desalento que me comove. — Estou com fome.
— Tudo bem, eu vou carregar você. Vamos ver o que aconteceu e dar um jeito de consertar. Fique calma. Vai ficar tudo bem.
— Você é um deles...
— Um deles? — pergunto, mas ela solta um gemido dolorido quando começo a acomodá-la em meus braços e me assusto. — Posso segurar você? Está machucada?
O anjo balança a cabeça devagar e, de repente, começa a chorar. Alguma coisa dói em mim também. Uma coisa que faz parecer cada vez mais urgente tirar a dor dela.
— Não posso cuidar de você aqui — tento explicar. — Mas tenho um kit de primeiros socorros em casa, não é longe...
— Eu só estou cansada. Só quero que isso acabe. Você pode resolver, não pode? Pode fazer passar? — A mão ferida se fecha em minha camisa, transmitindo urgência, e o choro fica mais desesperado à medida que as palavras parecem mais desconexas. — Você pode acabar com tudo. Pode fazer parar. Eu não vou mais lutar.
Um impulso imperioso me faz abraçar aquela estranha, apertando o corpo dela contra o meu. Decido que não posso mais esperar. Não posso lidar com essa situação aqui, no meio do mato.
— Vou colocar seus braços em torno do meu pescoço — explico acompanhando os gestos cuidadosos conforme os executo. — Se conseguir, segure firme para te dar mais segurança. Agora vou apoiar suas costas e suas pernas, ok? — Como ela não emite nenhum protesto ou concordância, assumo que mesmo que meu toque traga alguma dor, ela consegue aguentar, então continuo. — Vamos nos levantar agora.
Nós dois ofegamos quando dou o impulso para ficar de pé com ela em meus braços, mas a verdade é que o anjo pesa muito pouco. Mesmo assim, é um esforço considerável, já que tento andar o mais rápido que posso e já estou um pouco dolorido do trabalho que fazia minutos atrás. Por isso, com medo de me desequilibrar, mantenho o corpo dela bem próximo do meu, o que me permite perceber o quanto está tremendo. Acho que continua chorando também, bem baixinho, mas não consigo ter certeza com o rosto dela apoiado em meu ombro.
— Se você precisar parar, se quiser que te coloque no chão, é só dizer...
Então ela soluça e os tremores se intensificam. Não consigo entender o que há de errado e isso faz com que a frustração tome conta de mim de um jeito agoniante.
Tento deslocar minha mente da pressão em meu peito, colocando meu cérebro para pensar.
Talvez ela tenha sofrido uma queda.
Pode ter batido a cabeça e desmaiado. Quando acordou atordoada, saiu sem rumo em busca de ajuda e se perdeu. Apesar de terrível, essa hipótese me tranquiliza e ajuda a espantar a outra possibilidade, aquela que irrompe em meus pensamentos toda vez que percebo o quanto ela parece apavorada...
Nunca tive medo deles, dos humanos. Se é comida o que querem, eu ficaria mais do que feliz em lhes dar tudo o que tenho. Por isso nunca levei a sério os avisos de que eu deveria me mudar deste local isolado. Pelo menos enquanto há fugitivos e resistência.
“Logo”, os Buscadores disseram. “Você pode voltar se quiser, quando for absolutamente seguro.”
“É seguro agora”, respondi. “Nunca aconteceu nada.”
Nunca mesmo. Se eu acreditasse em fantasmas, diria que nem eles vêm aqui.
Mas humanos são imprevisíveis. E violentos. Eu sei disso. Jamais tive medo por mim, porque não acredito que eles sejam intrinsecamente maus. Contudo, há um limite para essa ingenuidade confortável. Consigo me lembrar das notícias grotescas de antes. Do que alguns homens humanos faziam às mulheres.
Não!
Balanço a cabeça de um lado para o outro. Ela não parece tão ferida. A pobre alma deve estar apenas assustada e exausta. É isso.
Empurro com o pé a porta que deixei entreaberta e adentro o chalé. Com cuidado, coloco a moça sobre minha cama, a única que tenho em casa. Rapidamente, ela se encolhe em uma bola, sem olhar para mim.
— Vou buscar água pra você — digo. — E o kit.
Pego uma garrafa na geladeira e despejo o conteúdo em um copo grande. Vou fazer um chá também, para poder aquecê-la. Talvez os tremores sejam por causa disso. Quem sabe há quanto tempo ela está ao relento? Mas só depois de curar os ferimentos visíveis e descobrir se há algo mais, algo que necessite do trabalho mais apurado de um Curandeiro.
— Você disse que está com fome — falo sobre o ombro enquanto remexo a geladeira. — Posso providenciar algo enquanto você descansa um pouco também. O que gostaria...?
Quando me volto para ela, sentada encolhida sobre o colchão, percebo que um último raio de sol entra sorrateiro pela janela e incide sobre a cama. Um reflexo de prisma dança no chão a partir de meus olhos. E ela olha direto para ele.
— Um deles — ela murmura com um sorriso estranho. — Pois muito bem, não pode ser tão ruim assim, então nem vou desperdiçar nosso tempo fingindo que conseguiria fugir. Só que antes eu quero saber: o que, exatamente, acontece quando vocês pegam um de nós?
Estou congelado no lugar, no meio do quarto, ao pé da cama.
Eles. Nós.
Eu sou “um deles”. Ela é “um de nós”.
— Como acontece? Como começa? Não pode ser pior do que já é — ela diz.
E eu finalmente entendo.
“Estou cansada. Estou com fome. Você pode fazer parar, não pode?”
O belo anjo negro não é uma alma perdida.
A mulher diante de mim simplesmente não é uma alma.
Notas finais
Esse é também o dilema da Mia, mas ela, sim, vai conseguir chegar a uma resposta até o final desta história. Você vai conhecê-la melhor no capítulo seguinte. Mas, por hoje, não deixem de me dizer o que acharam do Den.
Espero que gostem dos meus personagens e da jornada deles.
PS: Talvez esteja fora de moda deixar comentários. Não sei, faz tempo que não frequento este site. Mas eu continuo amando saber sua opinião.
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