Notas iniciais
Se gostarem por favor comentem que isso ajuda a impulsionar a escrita, adoraria ouvir a opinião de vocês

As festas que Silvie fazia sempre eram quentes.

Quentes no sentido de exploração maciça de adolescentes querendo aproveitar dos hormônios enlouquecidos, com direito a garrafas de vodca e tequila misturadas em sucos ou refrigerantes.

— Como seus pais podem deixar você fazer esse tipo de festa todo final de semana? – A questionei incrédula.

Em minha mão segurava um copo vermelho de plástico contendo vodca e coca, claro que não podia voltar bêbada para casa, mas bebericar não me causaria grandes danos motores.

Seus passos de dança podiam ser definidos como: naturais e modernos, onde ela permanecia no mesmo lugar e só remexia constantemente os ombros e peitos.

— Bem, precisei de uma pitada de amor, uma pitada de sal e uma pitada de chantagem.

A encarei sem entender.

— Peguei meu pai com a garçonete dentro do banheiro feminino depois da escola. – Suspirou como se estivesse derrotada pela sua grande sagacidade. –Isso me rende festas agitadas e um passeio no shopping com direito a umas 20 sacolas.

Isso explicava tudo.

De repente ela me cutucou com o ombro e apontou para o outro lado da sala.

Eu vi que ele estava me olhando fixamente, não pude conter o sorriso, mas evitei ao máximo devolver o olhar.

Fazia uns 10 minutos que ele me encarava descaradamente.

— E ai? Vai rolar? – Perguntou Silvie com naturalidade equivalente a pergunta se eu gostaria de uma xicara de chá.

Antes que eu conseguisse responder senti o toque da sua mão no meu pulso enquanto sua boca tocou suavemente atrás da minha orelha.

Silvie deu sua deixa.

Virei finalmente para encara-lo e dei meu sorriso mais inocente.

Conseguimos encontrar privacidade perto de uma coluna distante no quintal, onde havia uma pequena caixa acinzentada. Provavelmente referente a energia ou algo parecido.

Senti seus dedos escorregando pela pele da coxa como se eu fosse algo delicado demais e precisasse ser tocada com delicadeza enquanto eu sentia seu suspiro nos meus lábios. Eu conseguia sentir a fome na sua boca que se movimentava com a minha enquanto nossas línguas se entrelaçavam. Senti minha boca salivar de desejo tanto quando a sua.

Coloquei as mãos por baixo da sua camisa sentindo o calor da sua barriga ao mesmo tempo em que um gemido atravessava seus lábios levemente afastados dos meus.

Suas mãos subiram de forma desesperadora até minha bunda e a apertou com força fazendo meu quadril pressionar o seu. Senti o volume sob sua calça de imediato.

Sorri entre o beijo então o afastei.

— Eu preciso ir... – Sussurrei enquanto ele voltava a se aproximar mais. Mas pousei a mão em seu peito o impedindo. – Amanhã eu tenho que acordar cedo, e se eu não chegar em casa em dez minutos pode apostar que tô ferrada.

Percebi seu olhar de decepção.

Claro que eu sabia o que ele esperava, mas não era algo que eu estava disposta a ceder.

— Mas você chega em cinco, então significa que ainda temos cinco minutos, e dá pra fazer tanta coisa em cinco minutos, Ali...

— Não. – Falei com mais intensidade. – Eu realmente preciso ir.

Ele se afastou e virou de costa pra mim. Claro que estava chateado.

— Eu volto em um mês, gatinho. – Falei encostando o queixo em seu ombro enquanto eu o abraçava por trás.

— Acho bom que volte mesmo. – Disse sorrindo claramente dissipando o aborrecimento.

— Claro, sou garota da cidade, imagina se eu tenho cara de pastora.

— Bem... Uma pastora bem gostosa.

Seu braço contornou minha cintura e seguimos andando de volta a movimentação de corpos dentro da casa.

— Você ta com um chupão no pescoço. – Informou Lilla indiferentemente.

— Ah. – Olhei no espelho vendo um grande hematoma um pouco acima da clavícula. – Vou passar maquiagem e em um minuto sai.

— Claro. – Respondeu descrente ou apenas acostumada. – Cubra antes que a mamãe veja. Você ao menos lembra do nome do cara?

Me virei para encara-la.

—Claro que lembro, que tipo de pessoa você acha que sou?

Ela deu de ombros rindo.

Não teria como esquecer já que já estou ficando com Marcos a um bom tempo, mas para todos os efeitos estou sozinha para minha mãe, curtindo minha vida de outro jeito, como por exemplo: sendo aluna exemplar. Como por exemplo: minha irmã...

Por mais que a diferença de foco seja diferente no momento. Já que ela é universitária e eu uma estudando do ensino médio.

— Só toma cuidado, já pensou ele é um maníaco?

“Depende de que contexto.” – Pensei automaticamente.

— Só descubro vivendo, e você devia fazer o mesmo.

— Dispenso. – Falou saindo do quarto me dispensando com a mão.

— É Marcos, tá? – Gritei.

Sabendo que ela com certeza tinha ouvido.

O sol poderia demorar pelo menos uns dez minutos para nascer, mesmo que eu já esteja acordada a pelo menos uns vinte.

— Querida! Levante! O vovô já ta chegando! – Chamou minha mãe da porta do quarto.

4 segundos depois:

— Vamos, Alice! – Pelo tom duro e áspero, reconheci que foi à vez da minha irmã. – Eu sei que você ta acordada, dá pra levantar, por favor?

Gemi.

— O vovô com certeza ainda vai comer alguma coisa... – Saiu como se fosse um resmungo. – Tenho no mínimo uns 10 minutos de credito.

Vovô sempre fazia isso. Parando pra pensar, acho que a primeira coisa que ele fazia quando vinha nos visitar era abrir a geladeira e depois lembrar que foi lá para nos visitar.

— Então trate de usar esses 10 minutos para levantar antes que não sobre nada pra você, vamos! – Disse por fim.

Como prometido e feito, fiquei pronta em no mínimo 15 minutos, chequei minha aparência no espelho passado os dedos entre meus cabelos volumosos que iam até os ombros, cuidei da minha franja rebelde e escolhi uma camiseta com a frase “Don’t Fuck It Up” – Minha mãe ODIAVA as estampas da minhas blusas — e um short jeans.

Sou uma garota simplista, então meu guarda roupa era composto de camisetas apesar de estar levando na mala alguns vestidos.

Andei a passos largos e saltitantes até a cozinha onde encontrei vovô submerso em um pedaço de bolo de chocolate feito ontem. Pequenos farelos de massa enfeitavam sua barba branca.

— Você podia ta comendo isso, vovô? – Perguntou Lilla com autoridade.

— Não. – Respondeu minha mãe por ele. – Mas ele não ouve ninguém, imagina o que não deve comer lá no sitio. Vamos, se não vocês vão chegar muito tarde.

— Não se preocupe – Garantiu meu avô — Nós vamos chegar no horário que temos que chegar, e só pra vocês saberem eu tenho mais boa saúde que vocês três juntas.

Abocanhou outra fatia sem culpa.

— Sem essa. – Respondi. – Sou carro novo e platinado.

Me joguei na cadeira ao seu lado e passei os braços em volta do seu pescoço.

Vovô tinha cheiro de sabonete de lavanda. Adorava esse cheiro por trazer lembranças da vovó, lavandas eram as favoritas dela. Me peguei pensando se ainda poderia encontrar algumas em seu jardim.

— Espera daqui a dois anos quando começar a apodrecer algo – Soltou minha irmã. – Você come muita besteira, Alice.

A ignorei e peguei uma maçã dando uma mordiscada – Só para descargo de consciência.

Minha mãe me abraçou bem mais forte que o necessário apertando meu rosto contra seus óculos enfiados entre o decote.

— Querida, por favor, tome cuidado e obedeça a sua irmã, tudo bem?

— Mãe... Lilla é só três anos mais velha que eu, não é como se ela tivesse uma maturidade tão diferente da minha.

— Eu tenho. – Respondeu confiante ao meu lado recebendo o abraço da mamãe. – Enquanto você se comportar como criança, eu tenho.

— Cuide de sua irmã, tá? Vejo vocês em um mês. – A mão de minha mãe escorregou pelo rosto liso e perfeito de Lilla.

— Ah, faça-me o favor... – Dei as costas desistindo e indo em direção à picape.

Vovô se acomodou no banco do motorista logo ligando o radio enquanto Lilla entrou primeiro ficando entre mim e ele.

Fiquei com a janela porque o vento fazia o cabelo dela ficar muito bagunçado. Preso em um rabo de cavalo com uma fita rosa, minha irmã era perfeccionista e delicada com a própria aparência, usava um vestido com pequenos babados no decote que ia ate os joelhos de cor creme sem estampas.

Podia muito bem ser um vestido sem graça se ele não modelasse muito bem o seu corpo.

Não demorou muito pra paisagem de prédios e casas se transformarem rapidamente em casa mais afastadas e depois para campos mais abertos.

Fazia muito tempo que não passávamos as férias com ele. A vaga lembrança que tenho foi de quando tinha 7 anos, minha avó tinha feito peixe para o almoço. Foi uma visita rápida de apenas um dia e nunca passou pela minha cabeça que seria a ultima vez que a veria.

Com o canto do olho notei o quanto estava feliz, mesmo com Lilla buzinando em seu ouvido sem parar para ir mais devagar na estrada.

— É a velocidade normal, mulher! Não estou nem a 60 km! – Explicou exasperado.

— Vovó você esta ultrapassando carros que nem um louco! Não me chame de mulher! – Reclamou.

De repente a musica de Jake Bugg invadiu o carro enquanto cantava “Two Fingers” e me inclinei para aumentar o som com expectativa de abafar aquela agitação maluca de ambos.

Comecei a cantarolar incentivando minha irmã a parar de ser chata e aproveitar um pouco. Sabia que ela gostava de Jake Bugg tanto quanto eu. Me senti vitoriosa quando seus lábios começaram a entoar a letra da musica.

Assim que a musica acabou abaixei o som por ter começado outras pouco interessantes.

— Vovô, a Moo ainda está lá? – Perguntei quebrando um silencio de 30 minutos depois.

— Claro que tá! – Falou resoluto – Ta grande! Dando leite, vocês vão amar, sai quentinho.

— AH! – Me arrepiei com a ideia. – Isso é estranho...

— O que?

— Não sei... Acho nojento ter saído de uma teta.

Entortou a boca, pensativo.

— Bem... Quando era o peito da sua mãe você nunca reclamou.

A risada de Lilla preencheu o ambiente enquanto eu ria sem achar tanta graça, mostrei língua para ele.

— Isso porque sou eu a “chata” da casa. – Observou Lilla.

— Você ainda não perdeu seu posto. – Contra-ataquei.

Passaram-se poucos minutos até que o vovô voltasse a falar.

— Meninas... Esqueci de comentar com vocês, acho que vocês vão adorar. O neto de Cassian também ta indo passar as férias lá no sitio.

— Ele tem neto? – Perguntei em tom de surpresa.

— Claro que ele tem! Ele basicamente cresceu naquele sitio antes de sair mundo a fora.

— Então por que eu não me lembro dele? – Olhei para Lilla percebendo a mesma confusão que eu. Era novidade para ela também.

— Ué! Vocês foram apenas uma vez lá, duas pestinhas que até pareciam que tinham engolido pilha. O garoto era tímido.

Minha irmã de repente mordeu os lábios.

— Vovô... – Começou cautelosa. – Você acha uma boa ideia? Afinal... Sou eu e Alice numa casa enorme com um desconhecido.

Vovô riu como se aquela ideia fosse absurda.

— Ele é um bom rapaz, tem uma idade próxima de vocês, quero dizer, acho que mais da Lilla. Lá pelos seus 20 e tantos, não lembro, melhor perguntar pra ele quando chegarmos. – Sugeriu confuso. — É um garoto legal, gentil o bastante para esta me ajudando em muita coisa no sitio sem eu pedir, coitado... Gastando as férias desse jeito, mas com vocês lá, talvez vocês possam entreter um ao outro.

Dei de ombros, mas senti minha irmã se remexer desconfortável do meu lado, provavelmente incomodada pela falta de privacidade que passaríamos a ter. Tchau andar só de toalha pela casa. – Me despedi da ideia reconfortante.

A casa tinha um portão principal, onde jazia pendurado em uma placa de madeira clara e gasta o nome do local “Sitio Três Lagoas”. Já era possível ver a casa de telhado vermelho ao longe, mas antes deveríamos primeiramente percorrer uma pequena estrada de terra com marcas de pneu passando entre campos esverdeados pelo pasto.

Não me lembrava da imensidão até ver onde as arvores para mata começavam.

Virei quase não conseguindo conter meu entusiasmo em direção ao vovô que não deixou de estampar o sorriso escondido entre a barba.

Do meu lado, exatamente no meio do pasto vi três cavalos, tendo dois ocupantes.

— Você comprou cavalos?! – Meu tom de incredulidade vazando pelas minhas cordas vocais.

— Um presente, era pra ser surpresa. Um pra mim, um pra você e outro pra sua irmã. Agora podemos explorar essa terra direito.

— Vai ser um presente assim que a gente cair dele. – Minha irmã ironizou e a cutuquei com o cotovelo. – Ai!

Os dois montadores começaram a correr para nos acompanhar e logo pude reconhecer o rosto de Cassian, envelhecido desde a ultima vez que o vira fazendo uso de cabelos brancos agora.

Meti metade do corpo para fora da janela e balancei a mão para ele que devolveu o comprimento alegremente.

Ao meu lado pude ouvir Lilla esbravejar e segurar minha camiseta.

— ALICE! O que ta fazendo?! – Conseguindo finalmente me puxar de volta para a segurança do assento.

Ao lado de Cassian estava um garoto que eu nunca tinha visto: seu neto, ao que tudo indicava. Ele acenou também. Os cavalos aumentaram a velocidade até estarem completamente ao nosso lado. Cassian do lado do vovô e o garoto desconhecido ao meu lado da janela.

Peguei a ponta de minha camiseta e o entreguei para Lilla que me olhou sem entender.

= Segura ai.

E metade do meu corpo novamente foi para fora sem medo. Podia ouvir Lilla gritar em plenos pulmões, mas eu não estava ligando.

Estiquei o braço para tocar no cavalo esbelto a minha frente, branco com grandes manchas marrons. Ele se aproximou e senti sua pelagem. Levantei os olhos e encontrei uma expressão de espanto misturada com surpresa.

— Você é louca? – Perguntou, apesar de não ter parecido uma pergunta e sim uma afirmação.

Voltei para dentro sentindo Lilla me puxar com mais força.

— Você ta louca?? – Com o tom de voz mais elevado que o necessário já que o a forte brisa não tinha afetado meus timpanos. — E se você caísse?!

Pro lado, conseguia escutar vovô rindo despreocupadamente.

— Eu não ia cair. – Falei simplesmente não me alterando pela sua confusão.

— Como você sabe? Não pode ser tão inconsequente, Alice! Se não preza pela sua vida pelo menos preza pela minha saúde mental.

— Você tava me segurando, não tava? Então ta tudo bem. – Dei de ombros.

Ela permaneceu emburrada.

Quando descemos do carro a primeira coisa que fiz foi correr até o cavalo mesmo com os protestos da minha irmã soando as minhas costas, hesitando apenas por lembrar que eles tinham dentes grandes capazes de fazer sei lá que estrago.

O montador desceu num pulo ágil.

Com a proximidade, notei que seus olhos eram verdes tão claros que me lembraram a cristais, sendo sustentados por pequenas sardas no nariz e nas bochechas, os cabelos da cor da areia de uma praia, eram bagunçados nem curtos nem longos como se ele não ligasse para o que achariam disso. Sua pele levemente bronzeada fazia tanto seus olhos quanto seus cabelos se destacarem.

Ele abriu um sorriso para mim e automaticamente fez meu cresceu.

— Oi. Vocês devem ser as netas. – Supôs o obvio – Eu sou o Ian!

— Eu s... – Comecei a dizer quando seus olhos se desviaram na direção da minha irmã.

— Ah, você deve ser o neto de Cassian. – Minha irmã comentou carismática como se agora a pouco não estivesse quase arrancando os cabelos. – Sou Lilla.

Ian a olhava embasbacado.

— Sou Ian... – Ele repetiu com uma cara boba.

Olhei para baixo me sentindo levemente constrangida. Fingi uma tosse para sua atenção voltar para mim.

— Desculpa. – Balançou levemente a cabeça para afastar qualquer pensamento que tenha dito. — Qual seu nome?

— Alice. – Falei séria.

— Ali, então.

— Não, Alice. – O corrigi.

— Bem, pra mim você vai ser simplesmente Ali. – Falou pegando na minha cabeça bagunçando meus cabelos já bagunçados como se eu fosse uma pirralha.

Contive o impulso de empurrar sua mão para longe, mas apenas ignorei e me dirigi ao cavalo que naquele momento parecia o mais racional dali.

— Qual o nome dele? – Perguntei.

— É ela. É uma égua. – Informou batendo gentilmente em seu pescoço longo que respondeu com um leve relincho. – Ela não tem, provavelmente porque as donas chegaram agora.

Disse falando diretamente com Lilla que parecia de repente timida.

— Jesse. – Falei o ignorando.

— Jesse... É um bom nome. – Comentou minha irmã se aproximando mais de mim.

— Eu posso tocar nela? – Perguntei.

Ian respondeu dando de ombros.

— Claro, é sua. Vá em frente. – Disse me dando passagem.

Me aproximei com a mão hesitante.

— Ela não vai me morder né?

Ele riu como se eu tivesse contado uma piada.

— Não. Vem. – Então ele segurou minha mão e a colocou em cima do longo pescoço da égua, mantendo sua mão em cima da minha. – Vê? Vai ser uma boa amiga.

Sorri.

Sua mão era quente em cima da minha, e como se de repente me lembrasse, a retirei de imediato como se tivesse levado um choque.

Ele virou para minha irmã.

— Quer ver a sua?

Lilla balançou a cabeça concordando e ambos seguiram lado a lado ate onde Cassian e vovô conversavam.

Voltei a atenção para Jesse e acariciei seu focinho nem lembrando mais do receio que tive em toca-la.

— Pelo visto o medo dela passou num segundo... – Sussurrei para mim mesma.

Notas finais
Não esqueçam os comentários independente se forem bons ou ruins