Notas iniciais
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Muitos podiam pensar que meu relacionamento com a minha irmã era difícil ou conturbado, principalmente pelo constante síndrome de “proteção” dela ou porque em muitas ocasiões trocávamos farpas ou discutíamos, a verdade era que minha irmã era minha companheira, não diria minha melhor amiga, esse papel era com certeza de Silvie, mas... Simplesmente minha irmã, isso já traz um bom significado, se discutimos ou brigávamos, era porque simplesmente irmãs fazem isso.

Minha cabeça foi puxada repentinamente para traz e senti uma dor pulsante no couro cabeludo.

— Meu Deus Lilla, você quer me deixar careca?

— Ora, me desculpe, mas é porque seu cabelo está uma bagunça. – Torci para ela ser mais sutil ao pentear meu cabelo, na realidade, se fosse eu penteando com certeza seria pior, não tenho paciência para ser cuidadosa, mas pelo menos eu conseguia medir minha própria dor no couro. – Você não costumava a reclamar tanto quando era criança. – Comentou baixinho como se estivesse divagando entre lembranças.

— Não reclamava pelo prazer de ser mimada. – Brinquei e senti sua risada leve em minhas costas.

— Amanhã quer sair para nadar no rio? – Perguntou.

A ideia inicial era chegar e me jogar no rio, mas a ideia pareceu sumir assim que cheguei.

— Quero, se prometer não usar aquele maiô horroroso.

— Ah! Só se você não usar aquele projeto de biquíni inexistente, francamente, não sei como você não fica com vergonha de usar aquilo, acho tão vulgar.

— Não é vulgar. Eu vou usar ele. – Falei decididamente.

— Então eu vou com meu maiô “horroroso”. – Falou vitoriosa.

— Você se acha menos do que realmente é, francamente — Comentei.

Ela ficou calada como se refletisse sobre aquilo, parei pensando se havia ultrapassado algum limite, quando uma pessoa tem muitas barreiras é difícil se manter numa linha segura sem escorregar de vez em quando.

Meu avô se tornara um homem solitário desde q minha avó faleceu, isso era evidente, por mais que não tenha perdido o pique da vida, enquanto arrumava os pratos na mesa, me vi imaginando ele cozinhando sozinho, assistindo tv sozinho ou dormindo sozinho com um vasto espaço vago em sua cama. De fato, naquela imensidão de terra ali era apenas meu avó, Cassian, vacas, cavalos e algumas galinhas.

Então de um dia para outro sua casa é invadida por três pessoas com menos da metade da sua idade e com energia e problemas fúteis redobrados. Uma pura dor de cabeça para qualquer dona de casa.

Motivos de pura felicidade para ele.

— Minha comida não é ruim – Resmungou ele.

— Eu não disse que era ruim, eu disse que dessa vez eu vou cozinhar, só isso. – Lilla estava determinada

Seu cabelo, como de costume, se mantinha bem amarrado num rabo de cavalo perfeito, sem nenhum fio desalinhado, usando uma das minhas camisetas emprestadas que em seu corpo ganhava mais formas por suas curvas mais acentuadas. A estampa a frase “Status: Gostosa Demais para Sua Altura” com um short velho que usava apenas para ficar em casa. Eu me vestia bem parecida apesar de não fazer a mínima questão de dominar meus cabelos rebeldes.

— E porque eu não posso cozinhar? Eu gosto. – Insistiu vovô.

Puxei meu avô e o obriguei a sentar na mesa de jantar enquanto massageava seus ombros velhos e tensos.

— Vô, pense nisso como um período de folga, relaxa. – Falei com meu melhor tom de persuasão. – Faz tempo que não passamos um tempo aqui, deixe Lilla mostrar seus incríveis investimentos de 3 horas por dia assistindo MasterChef.

Ele bufou.

— Tá. Mas tá faltando pratos na mesa. – Apontou com a cabeça para a mesa de madeira de seis lugares. Eu havia colocado pratos apenas para mim, Lilla e vovô e esquecido completamente que não éramos somente nós ali, e de repente me senti pensativa sobre trocar de roupa, mas se vamos viver assim durante um mês era bom que todos se acostumassem com meu estilo relaxado. Olhei para minha irmã notando claramente que também havia esquecido.

Do que eu a conheço, com toda certeza estava tentada em voltar para o quarto e mudar para uma roupa mais decente, principalmente para agradar certa pessoa talvez...

Mudou de ideia quando apenas se encaminhou na direção da cozinha para preparar uma lasanha.

Dois pratos foram adicionados à mesa e em poucos minutos Cassian e Ian apareceram de dentro do corredor que levava aos quartos, todos bem mais arrumados que nós, o que fez eu e minha irmã ficarmos mais incomodadas, ela chegou a cochichar que mudaria de roupa, mas a convenci a manter aquela.

— Espero que gostem da lasanha, não sou tão boa assim em outras receitas, mas minha lasanha definitivamente é boa. – Garantiu.

Dito e feito. Estava maravilhosa, comi dois pratos. Vovô três e Cassian, Ian e Lilla um (talvez porque eu e meu avô visivelmente somos geneticamente famintos.). Vovô estava na cadeira de patriarca na ponta da mesa, Lilla estava ao meu lado enquanto Ian sentou na cadeira a frente dela e Cassian na minha direção. Em alguns momentos involuntários, eu me pegava levantando o rosto para olhar Ian, rapidamente me obrigando a desviar, mas de novo sem perceber eu voltava a olhar. Mesmo arrumado, os cabelos ainda mantinham a bagunça, usava uma camisa quase justa preta e uma bermuda jeans, num certo instante, descaradamente fiquei apenas encarando suas mãos, — menos constrangedor do que ser pega olhando pro seu rosto -, e me peguei pensando que ele tinha “mãos de homem”.

— Quando eu tiver minha casa com certeza você vai ser a cozinheira – Comentei lambendo a colher para em seguida apontar na sua direção – E isso foi um elogio.

Ela fez uma careta de nojo desaprovando aquele meu comportamento que ela chamava de imundice.

— Claro, continue sonhando, você que devia aprender a cozinhar e deixar de ser tão preguiçosa. – Levantou e retirando os pratos e tirando a colher de mim, no entanto, assim que chegou na vez de Ian, este rapidamente se pôs de pé e disse que a ajudaria a lavar a louça.

Apenas eu percebi o clima já que meu avô e Cassian se entretinham numa longa conversa sobre a ideia de comprar gado.

Inclinei um pouco a cabeça para trás espirando ambos entrarem na cozinha sentindo algo que eu não sabia definir o que seria.

Todos ainda permaneciam na sala quando resolvi voltar ao meu quarto. O sinal era horrível o que me fazia perder totalmente minha conexão com o mundo exterior. Marcos já devia ter mandado um milhão de mensagens assim como Silvie, mas isso não foi um problema para minha mente cheia de pensamentos estranhos.

Eu não tinha convicção dos meus sentimentos naquelas circunstancias.

Excluída e solitária faziam parte da minha lista de palavras para definição.

Sim, eu me sentia de certa forma excluída de alguma coisa, mas não era exatamente somente isso. Levantei minhas mãos para frente do meu rosto. Eram finas e delicadas. Mãos de uma menina de apartamento, claro. Me lembrei das mãos de Marcos em mim no dia anterior, eram mãos de garoto com poucos sinais de “maturidade”, as mãos do meu avô eram velhas e enrugadas assim como as de Cassian... As mãos de Ian eram de “homem”.

Mãos firmes, podia ver algumas veias quando as fechava, assim como algumas pelos. Seu braço tinha bastante pelos.

Soltei um gemido frustrada comigo mesma e virei de lado na cama.

O colchão era duro do jeito que eu preferia, Lilla como convinha já havia reclamado que preferia um mais macio.

Peguei meu celular, talvez fosse por reflexo mesmo sabendo que não teria nada ali além das horas e meu plano de fundo de gatinhos fofos.

22h.

Suspirei tentando apenas parar de pensar me virando e ficando de barriga pra cima jogando os braços sobre meus olhos.

Levantei subitamente não conseguindo relaxar e parei na enorme janela veneziana do meu quarto. Não era uma casa de dois andares, se fosse para descrevê-la em duas palavras, seriam: Modesta e velha.

Mas não tendo minha mãe me vigiando, retirando minha privacidade e Lilla começando a viver um pouco no seu mundinho para esquecer que o meu existe, tudo isso parecia uma maravilha.

Por isso qualquer escape noturno não seria um problema. Talvez uma mergulhada no rio noturna. Apoiei os braços na batente e fiquei olhando o mato enquanto ouvia os grilos cantando.

Vovô havia dito mais cedo que indo por trás da casa teria uma trilha que levaria diretamente para lá, tinha feito justamente porque sempre esquecia o caminho.

Ao menos não precisava temer pelos riscos de me perder no meio dessa mata.

Olhei para cima, a lua brilhava de forma tão absurda que parecia um segundo sol.

Comecei a ouvir um leve som de uma conversa poucos segundos depois, como sussurros, mas que provavelmente não eram. Eram vozes em altura normal. Me inclinei sobre a batente jogando mais da metade do corpo para fora da janela por pouco não perdendo o equilíbrio.

Dali era possível ver uma parte do quintal onde ficavam as macieiras, havia apenas pouca iluminação das luzes vindo da casa, embora mesmo assim tenha reconhecido o contorno das duas pessoas. Lilla e Ian. Um andando ao lado do outro visivelmente conversando.

Subitamente me senti chateada por algo que nem eu mesma entendia. Desci a janela indo na direção que eles iam, logo mudando para direção oposta ao que os dois seguiram.

Notas finais
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