É por isso que eu odeio o futuro!
19 Capítulo 19- Água e vinho.
Notas iniciais
Roberto se remexeu confortavelmente ao meu lado e em seguida mergulhou o rosto em meus cabelos, respirando fundo.
— Bom dia. – Ele sussurrou com a voz grave e sonolenta. – Dormiu bem?
Depois de tantos meses dormindo e acordando na cama de Roberto, eu poderia afirmar com certeza que já estava mais do que acostumado a tê-lo do meu lado, certo?
Errado. Completamente errado.
Não que a sensação de seu corpo pressionado ao meu fosse ruim ou algo do tipo. Longe disso.
O problema era que eu começava a me perguntar se eu não havia sido completamente precipitado em relação a ele. Se talvez o certo a ter sido feito não seria ter dito que “aquilo” não ia dar certo, antes de avançarmos ainda mais o sinal.
Bom, até poderia ser o certo, néh? Mas a anta precipitada aqui, nem sequer parou para pensar na hora.
E também, considerando que Roberto não forçava a barra, ele a atropelava com um trator, não teria como escapar de qualquer forma. Bom, isso se eu descartasse a opção de me mudar para o Tibete.
Conveniente, não é? Ele era uma espécie de “Se não pode com ele, junte-se a ele.”, que complicava ainda mais o ninho de rato no qual eu me encontrava. Era como dançar balé na beira de um precipício.
Tudo bem, eu fiz uma coisa errada. Ou duas... Ou cem. Mas o que isso faz de mim? Eu gostava dele. Porém deixe-me contar: Atração não é amor. É algo bem diferente. Completamente diferente. E eu tive a burrice de confundir os dois.
Virei-me para ele, serrando os olhos ao ter contato com a claridade.
— Bom dia. – Digo, sem nem metade de entusiasmo. Acordar sorrindo para as paredes realmente não era do meu feitio. – “Dormir bem” é meio que um apelido para o estado de pré-coma no qual eu entrei...
Ele se apoiou no cotovelo e deitou a cabeça na palma da mão.
— Hum... Isso é devido ao colchão ou... A mim? – Seu tom continha um bom humor irritantemente feliz de mais para alguém que estava acordado tão cedo.
— Bom, vejamos... – Comecei. – Considerando o fato de que fomos dormir mais de três da manhã, e que o culpado disso foi você...
Um pequeno sorriso se formou em seus lábios. Sinal de que ele provavelmente estava se lembrando.
— Ah... Mas hoje é sábado. E acho que foram horas muito bem aproveitadas.
— Acho que seria ainda mais se tivéssemos dormido uma hora mais cedo... – Resmunguei, tentando não voltar a pegar no sono.
— Você não estava disposto a parar.
—Você não estava disposto a parar, pelo que eu lembro. Quantas vezes você disse “Só mais uma vez”? – Voltei a abrir meus olhos e me deparei com Roberto se levantando completamente nu.
—Engraçado. Em momento algum você pareceu estar achando ruim. – Ele se virou para mim sorrindo cinicamente. – Quer que eu repita as coisas que disse?
— Não. – Murmurei com a voz abafada pelo travesseiro. – Quero que cale a boca.
Ouvi uma risada em resposta.
—Hei... – Chamei e esperei ele se virar novamente. – Posso tomar banho com você?
Acabei ganhando um enorme sorriso em resposta.
Certo, eu ainda estava aprendendo a me acostumar com aquele clima de “recém-casado” que sempre pairava entre nós.
Eu não vou dizer que ele havia mudado da água para o vinho, porque não foi exatamente isso que aconteceu. Mas posso dizer que ele já era quase um suco de uva. Digamos que, ele simplesmente não era mais o cara arrogante e cruel que eu estava acostumado a conviver. Inclusive, eu perdi as contas de quantas vezes eu ouvi a frase “você realmente tem muita sorte de ter um homem desses só para você!”. Embora eu não estivesse tão certo de toda aquela sorte. Até porque sorte era uma palavra desconhecida no meu dicionário.
É claro que se eu estava tão inserto daquele jeito, eu deveria ter dito um gentil “byebye” a ele. E não ter continuado brincando de casinha. E acredite, eu bem que tentei fazer isso. Só que eu não consegui. Até eu finalmente descobrir o que a minha hesitação significava:
Culpa. Nada mais e nada menos.
Sabe aquele sentimento de compartilhar um momento complicado, e provavelmente romântico, com alguém? E mesmo assim saber que aquela não é a escolha certa? Então...
Eu estava certo que havia algo que não se encaixava. Eu pressentia que havia outra pessoa para ele. Alguém que não fosse... Bem, eu.
Não que Roberto também pensasse assim.
E é por isso que eu me sentia um elefante na loja de porcelanas quando o assunto era ele.
— Ah... Onde eu fui amarrar meu jegue?! – Suspirei.
— O que disse? – Roberto se virou para mim com um olhar confuso.
— Eu preciso parar de dormir na sua casa. Isso não está dando certo. – Desconversei. – Daqui a pouco eu vou ter que me mudar pra cá...
Eu juro que só falei na brincadeira. Mas acha mesmo que Roberto sabe a diferença entre brincadeira e literal?
— Engraçado você ter tocado neste assunto... – Ele falou com todo ar misterioso.
Eu, particularmente, nunca sabia o que se passava naquela cabeça dourada dele. Na verdade, até física quântica era mais fácil de compreender. Por isso, eu tinha uma enorme dificuldade de seguir as ideias que lhe davam na telha, mas... Sabe? Eu não sou realmente tão burro. Eu senti, no meu âmago, o que Roberto estava tramando naquele momento.
Por isso, quando estacionamos do lado de fora de um prédio de classe alta, fiquei repetindo como um mantra que eu estava completamente errado.
Claro que ele estava todo alegre a saltitante. Ok, não saltitante, mas quase. Quer dizer, ele parou na minha frente e eu jurei que ele ia abrir os braços e cantarolar “tcharaan” para mim. Mas ele não fez. Apenas me deu um meio sorriso e disse:
— Então... O que você acha?
Roberto estava com a expressão de uma criança, quando quer o brinquedo mais legal da loja. Eu, por outro lado, estava com a cara da mãe da criança quando vê o preço.
— Do que, exatamente? – Arqueei a sobrancelha.
Roberto enfiou a mão no bolço e balançou o molho de chaves na minha frente.
— Belas chaves. – Engoli em seco.
— Alex...
— Eu sei. – Interrompi. – Eu já entendi.
— Então diga o que achou. – Ele insistiu.
— Acho... Que está metendo os pés pelas mãos. – Confessei.
Roberto agiu como sequer tivesse me escutado.
— Eu gostei daqui. – Concluiu. – Podemos morar juntos.
— Não!– Respondi pouco antes de ele terminar a sentença. – Não vou morar com você. – Ok, eu senti na hora que tinha sido bem rude, por isso amenizei o meu tom. – Olha... Isso só está dando certo porque nós temos nosso próprio espaço. Quer dizer, e quando a gente discutir? – E acredite, era bastante frequente.
— Alex, a gente briga. Você vai para sua casa, me ignora por mais ou menos doze horas, então cansa e a gente conversa, e depois dormimos juntos. No final, apenas perdemos um dia de nossas vidas com algo que poderíamos ter resolvido em meia hora.
— Beto, esquece isso... Vamos apenas continuar como estamos, certo? Está ótimo, como está.
Ele não rebateu, não resmungou e sequer inventou alguma justificativa cabível e insistente, como eu previa que ele fosse fazer.
— Eu já assinei os papeis. – Ele contou casualmente.
— Você o que? – Bradei. – Ficou louco? Não passou pela sua cabeça que eu poderia recusar?
— Passou. – Ele foi franco.
—E...?
— A sua mãe acha que estaremos nos mudando no próximo mês. E... Acho que ela vai alugar o seu apartamento. – Roberto falava tão tranquilamente, mais tão tranquilamente, que eu sequer sentia o baque do que ele realmente estava dizendo.
Então ele apertou os lábios e conteve um sorriso. Enquanto eu permanecia mudo, tentando entender a piada. Até notar que a piada... Era eu.
— Eu não fiz isso pra te deixar irritado, Alex. Fiz porque te amo. – Ele se apressou em dizer quando viu a minha expressão.
— O que... Exatamente você disse a ela? – Questionei.
— Que íamos morar juntos. – Ele respondeu como se fosse obvio. – Mas digamos que, eu imaginava que por ora você ficaria confuso e rejeitaria. Então eu precisava de algo para te persuadir. Por isso, disse a ela que a decisão já havia sido tomada. E que... Foi unanime.
— Parafraseando... Você mentiu para ela?
— Não! Eu só adiantei uma verdade que aconteceria no futuro.
— Certo. Então, eu adiantarei uma verdade para você: Fuja. Sério. Ou eu vou te matar.
Ele respirou fundo.
— Você me odeia agora?
— Não, Roberto. Eu odeio aspargos. Você, eu quero jogar nos trilhos de um trem.
Porem o que eu realmente fiz, foi retirar o celular do bolço.
— O que vai fazer? – Ele me perguntou calmamente.
— Vou tentar reverter a merda que você fez. – Respondi seco, digitando o número da minha mãe.
— Alex? – Ela atendeu segundo depois.
— Oi, mamãe. – Tentei controlar minha voz. – Aconteceu um gigantesco mal-entendido. Graças ao egoísmo do tamanho do sol, de alguém. Roberto... Disse a você que iriamos morar juntos. Mas não é bem assim que...
— Alex – Mamãe falou calmamente. – Eu sei.
— Sabe? – Indaguei e olhei para Roberto que estava me observando, como se assistisse a um filme bastante divertido.
— Claro! Sei que está incerto. Mas... Você está fazendo a coisa certa!
Levei alguns segundos para entender do que exatamente ela falava. Por isso resmunguei com uma voz esganiçada:
— Hein?
— Você sabe Alex! E é maravilhoso ter alguém ao nosso lado. E já estava na hora de vocês se acertarem de vez. E... Ah... Querido, eu não consigo imaginar alguém melhor para cuidar de você, se não Roberto. Por isso, não tenha medo. Dividir a vida com alguém, não é algo ruim. Muito pelo contrário.
— Não, você não entendeu, mamãe. Não estou confuso. Estou falando da bagunça que Roberto arrumou!
— Vamos querido... Vocês já são felizes em teto separados, imagine sobre o mesmo? – Um barulho alto se fez do outro lado. – Ah, perdão meu bem, acho que terei que ir. David está tentando montar um estante, mas... Não está dando tão certo. Mesmo assim, pense no que eu disse, certo? Dê uma chance! Ele realmente é um homem maravilhoso.
E aí, o telefone foi deligado na minha cara, e isso me fez ficar olhando esbabacado por um tempo. Depois olhei para Roberto.
— Que tipo... De conto de fadas você inventou para minha mãe? Ela acha que estamos nos casando ou algo do tipo?
— Eu não inventei nada. – Ele murmurou. – Porque as coisas com você sempre precisam ser tão complicadas? Eu só queria que...
— Esse é o problema! Você quer... Mas eu não. –Rebati, antes que ele terminasse. – E eu não vou ficar aqui discutindo com você. – Dei às costas, mas ele veio atrás de mim.
— Aonde você acha que está indo? –Ele perguntou, me agarrando pelo braço.
— Embora. E pra longe de você. – Tentei me soltar, mas ele continuou segurando firme. – Solta. Agora.
Torci o braço até ele lagar.
— Me desculpa. –Ele suspirou. – Eu só quero ficar com você...
—Isso não quer dizer que você não poder sair por aí decidindo tudo sozinho!
— Alguém precisava fazer. – Ele respondeu no mesmo tom. – E se depender de você, ficaremos para sempre no chove e não molha.
— Também não quer dizer que precisamos ir direto para a enchente!
Quase que não consegui terminar de falar, pois suas mãos acolheram meu rosto e ele me beijou devagar. Eu odiava quando ele fazia isso. Porque tudo fugia da minha mente, e eu só conseguia pensar no quanto era bom ter os lábios dele sobre os meus. Tática cruel que ele adquiriu para me fazer calar a boca, por falar nisso.
Quando abri meus olhos novamente, ele deitou a cabeça na curva do meu pescoço.
—Desculpe. – Sua voz saiu abafada.
— Você já disse isso.
— Eu só queria uma chance... De cuidar de você.
— Eu não sou uma criança e não preciso disso. – Respondi.
—Eu sei. Mas eu gosto de ter você ao meu lado.
— Interessante. Qual o próximo texto? “Minha vida só tem sentido com você”?– Falei com sarcasmo.
Mas quando voltei a olhar para seu rosto, ela estava fazendo a mesma cara que um cachorrinho faz para uma churrascaria.
Fechei meus olhos e joguei minha cabeça para trás. Eu teria cabelos brancos antes dos trinta por culpa dele, com certeza. Eu devo ter, no mínimo, algum fetiche em quebrar a cara.
— Essa... Provavelmente será a segunda coisa mais estupida que eu farei na minha vida. – Balbuciei.
Roberto me fitou, sem sequer disfarçar o olhar esperançoso.
— Isso quer dizer...
— Que eu sou um idiota. – Droga. Nem mesmo eu sei o porquê de ceder a ele, e quebrar um dos meus maiores tabus.
Roberto beijou minha testa demoradamente, depois voltou aos meus lábios.
— Se essa é a segunda coisa... Qual é a primeira?
—Beber tequila com energético, de cabeça para baixo. – Aconselho a NÃO tentar fazer isso!
Mas enfim... Aquela guerra quem ganhou foi ele. E acabamos nos mudando.
Eu sequer sabia o que esperar de “uma vida a dois”, principalmente porque isso parecia ridículo de mais para ser colocado em prática. Embora eu já estivesse muito ciente de que a vida não é um comercial de margarina.
Mas também não esperava que a minha maré da má sorte continuasse de vento em popa!
Digo isso, pois em uma tediosa manhã de domingo, quando eu estava tentando matar tempo e não fazer nada, eu tive um encontro desastroso.
— Ora, ora, ora – Escutei de uma voz masculina ao meu lado. – Quem diria que o grande Alexander daria o ar da graça novamente!
Sabe, não é sempre que uma voz tão autoconfiante chega assim até mim, então eu me virei subitamente para o lado, apenas para ter certeza que o dono da voz, não era alguém que eu queria muito rever.
Vitor. Depois de meses, anos, séculos, milênios... Sei lá, ele retornava dos confins do inferno. Tudo bem que ele sempre pareceu alguma força sobrenatural que me aparecia quando eu menos precisava. Mas aquele era o pior momento em que ele poderia ter voltado a dar as caras. Certo, qualquer momento era péssimo para Vitor voltar a aparecer. Quer dizer, quando você joga uma coisa fora, você não espera que o carteiro devolva no dia seguinte, não é?
Agora, eu nunca pensei muito no que fazer, caso voltasse a ver Vitor na minha frente novamente. E eu confesso que não imaginava que após tanto tempo, a presença dele ainda seria capaz de mexer comigo.
Eu queria ignorá-lo. Mas fazer isso era dar bandeira e confessar que ele era capaz de me deixar na fossa por um simples encontro. Por outro lado, eu não consegui dizer nada, porque minha garganta estava travada. Não igual a quando você quer chorar, mas igual a quando você come algo muito amargo.
Então Vitor me mostrou um de seus sorrisos, brancos e ofuscantes, cheio de malicia.
— Porque tenho a sensação de que você não estar muito feliz em me ver?
Pensei em milhões de resposta para dar a ele, mas fechei minha boca antes de dizer qualquer coisa da qual fosse me arrepender. Só que Vitor, provavelmente, entendeu a minha atitude como indiferença.
—Tudo bem. As coisas realmente saíram bem mal da ultima vez que nos vimos. Mas isso é passado. E você não é do tipo que fica preso ao passado. É? – ele falava como se fossemos grades amigos e estivéssemos superando um problema juntos.
Ele está certo. Não tenho porque martirizar algo que aconteceu há tempos. Não depois de tudo que aconteceu. Mas isso não significa que eu precisasse ceder às provocações dele.
— Certo... Você por um acaso... Estava esperando que eu soltasse purpurina pelo nariz, ou algo assim, pelo simples fato de te rever? Depois do belo par de chifres que você me deu de presente, por falar nisso?
— Alex – Disse ele com um tom de voz zombateiro. – Aquilo foi um acaso. Não era intenção de te deixar com tanto receio assim. Podemos começar de novo se quiser.
Ri na cara dele. Não, eu gargalhei.
— Vitor, não tem uma ponte na qual você queira se atirar, não? – Falei, tentando manter o humor na minha voz. Embora eu sentisse que meu coração estivesse atravessando minha garganta.
Ele pareceu ter achado aquilo divertido.
— Eu também senti falta dessa sua cara amarrada. – Vitor sorria como um politico em época de eleição. – Está tentando me lembrar dos velhos tempos?
— Você esqueceu? Eu não fico preso ao passado. – Respondi no mesmo tom.
— Mesmo? Que pena. Há certas coisas que valem a pena ser lembradas. – Ele se aproximou com todo aquele ar de “modelo de cueca”. Esse era um dos problemas. Roberto era lindo e com um charme permanente, mas Vitor esbanjava uma sensualidade irritante por onde passava.
— Para de flertar comigo. – Ralhei. Não que ele tenha se incomodado.
— Eu não estou flertando com você! – Ele respondeu com mais um dos seus sorrisos zombateiros. – Se eu estivesse... Essa sua boquinha nervosa não estaria tão longe assim.
Levei minha mão à testa e fechei os olhos, me perguntando o que eu tinha feito pra merecer escutar uma coisa daquelas.
—Tá. Tchau, Vitor. – Murmurei enquanto passava por ele. Eu só queria sair dali. Rápido.
Mas infelizmente, ele veio logo atrás.
— Ah, qual é? Onde está o seu senso de humor? Olha, não precisa ficar assim. Dois anos se passaram. Não podemos começar de novo?
— Não.
— Certo. Esqueci o quanto você pode ser rancoroso. – Não precisava olhar para ele para saber ele revirava os olhos.
— Apenas me deixa em paz. – Pedi mais calmo do que eu realmente me sentia.
— Por favor, Alex. Eu te conheço há anos. Sei que você não me odeia como faz transparecer.
— Não tenho tanta certeza nisso. – Minha voz oscilou. Não de irritação, mas de nervoso.
Vitor acabou me puxando, fazendo com que eu ficasse de frente para ele, enquanto vasculhava algo no meu rosto com os olhos.
— Certo. Então diga, olhando pra mim, que me odeia. Diga.
E... Eu ia dizer. Juro que ia. Mas... Sei lá.
— Tá. Eu não te odeio. – Disse a ele. – Mas no atual momento, também não gosto nenhum pouco de você.
Vitor deslumbrou outro sorriso para mim.
—Bom! Muito bom! Viu como não é ruim ser sincero? Você costumava ser mais direto. – Foi minha vez de revirar os olhos. – Então, porque não esquecer as peripécias do passado, e voltarmos ao que era antes? O que me diz?
— Pode sair da minha frente? – Falei, colocando as mãos sobre os ombros dele e o empurrando levemente, até que parasse de bloquear a passagem.
— Alex! Espera!
Sequer me virei novamente. E quando vi, já estava longe. Longe o suficiente para soltar o ar que não sabia que estava preso.
Agora... A minha burrice só se concretizou, no fato de eu ter ido direto para casa. Mostrando aquela cara de quem viu o padre levantar batina no meio da missa.
Mas é claro que eu não disse uma única palavra sobre Vitor para Roberto.
Porque eu sabia o que iria acontecer. Conhecendo as duas mulas que me cercava, era capaz de Roberto ir querer questionar o cara pessoalmente, e os resultados seriam algo incalculável de mais para serem descritos. E segundo, Vitor não sabia de Roberto. O que por ora, achei digno de deixar assim.
Por isso, joguei a minha melhor cara de blefe quando passei por ele, e fiz segredo sobre o tal episódio.
— Onde estava? – Roberto perguntou casualmente.
— Ah... Espairecendo a mente. – Me calei em seguida. Era provável que se eu continuasse falando, eu entrasse em um blábláblá frenético e acabasse falando o que não devia.
Ok, dadas a circunstancias, eu sabia que Roberto ia querer mais detalhes do meu dia, então meio que tentei gesticular da melhor forma possível uma forma de explicar, que não fosse “Hei, lembra o meu ex? Acredita que o encontrei hoje e o malandro ainda flertou comigo no meio de um parque?”... Certo. Isso não ia rolar nem ferrando.
Mas para minha surpresa, e salvação, Roberto apenas se levantou abruptamente do sofá, apertou os lábios para mim como se fosse dizer algo, mas pensou melhor e só jogou a sentença:
— Vamos almoçar?
“Vamos almoçar” pode parecer algo bastante inócuo de se escutar. Mas algo na forma que foi dita me soou como se ele houvesse me dito “comprei um crocodilo”. Mesmo assim, calei a boca e assenti, acreditando que aquilo era um sinal do destino.
Claro, porque eu falando assim, até faz parecer que aquilo foi o grande “the end.” da história. E era exatamente o oposto.
Principalmente depois que meu celular tocou às duas da manhã. Cara, ninguém tem ideia de como é difícil explicar, para qualquer pessoa, uma ligação às duas da manhã. Mas para Roberto foi ainda pior.
Principalmente porque a tal ligação começou assim:
—“Oh, Vitor, a verdadeira razão de eu ter te dado um balde de gelo é porque atualmente estou transando com meu chefe.” Acho que você esqueceu-se de mencionar essa parte, não foi mesmo?
Sono? Evaporou na hora. Meu choque de escutar aquilo foi tão grande, que eu saltei da cama exclamando um palavrão tão cabeludo, que Roberto acordou na hora e me olhou com cara de quem havia matando dez e guardado vinte pra matar mais tarde.
—... Diga-me que isso é história e que você não fez essa merda. – Vitor continuava. – Pelo amor de Deus, você odiava o cara!
— Como você descobriu o meu número? – Perguntei completamente confuso. – Aliás, que ideia é essa de me ligar a essa hora?
— Não muda de assunto! – Ele fez uma pausa. – Estava dormindo com ele?
— Isso não é da sua conta!– Bradei.
— O que não é da conta de quem, Alexander? – Roberto perguntou, me fuzilando com olhar.
Movi os lábios em um “volta a dormir” mudo para ele.
—Peguei seu número na lista telefônica. Agora, explique-se.
— Eu não tenho que explicar nada pra você! Eu não te devo nada.
— Ah, claro. E eu devo simplesmente acreditar que o cupido em pessoa desceu do céu, flechou o seu lindo coraçãozinho e você caiu de amores pelo cara, que você odiava mais do que a peste?
— Tá. E se tiver sido? Onde é que você entra nisso?
— Na parte que te dá noção! Não... Sério. Esse cara fez alguma coisa com você? Macumba? Ele visitou a velhinha do ziringuidu? Alguma coisa aconteceu!
— Vai dormir, Vitor!
Desliguei na cara dele. Depois fiquei com raiva e desliguei o celular. E então me dei conta da gafe que acabara de acontecer ali.
Era oficial. Eu era um homem morto.
Juntei toda a pouca cara de pau que me restava e me virei para Roberto.
— Não é o que... Deixa pra lá. – Desisti no meio da frase.
E se visse a cara de assassino da meia noite que Roberto fazia, qualquer pessoa teria desistido. E eu não estou exagerando. Ele realmente parecia querer matar alguém! Só não sabia quem estava encabeçando a lista. Eu ou Vitor.
— Alexander... – Ele usou um tom de voz que há muito, muito tempo eu não ouvia me chamando. Quer dizer, desde que o nosso decreto de paz estava ativo pelo menos. – Poderia explicar, exatamente, o que acabou de acontecer?
— Olha só... Não achei que fosse algo realmente importante...
— O que não seria importante? – A veia em sua testa pulsava freneticamente. Sinal de que ele estava com muita, muita raiva. E isso eu já havia notado só pela voz.
Respirei fundo.
— Vitor voltou. Nós encontramos. E... Foi só.
— Sei! E devo interpretar esse telefonema, no meio da noite, como...? – Ele disfarçou a raiva com sarcasmo.
— Viu? É por isso que eu não falei. Porque você perde a cabeça. – Balancei a cabeça. – Por que fica tão nervoso, afinal? Ele nunca fez nada pra você, que eu me lembre...
—Isso não me importa! – Sua voz estava cheia de desprezo. – Aliás, para ele te ligar tão repentinamente, parece que vocês precisam muito conversar, não é?
— Não! Vitor é que sempre foi tão inconveniente quanto uma vaca na sala. Mas você está exagerando...
— O que ele quer com você?
Aí, Roberto me pegou. Por que... Eu lá ia saber o que diabo Vitor queria de mim depois de tanto tempo? Claro que a resposta obvia de qualquer um, seria por motivos lascivos com a minha pessoa. Mas convenhamos, ele não precisava disso... Não quando a pessoa de quem estamos falando era Vitor.
— Sei lá!
— Talvez ele só queira ser seu amigo. – Ele falou falsamente pensativo. – Sabe? Querer correr em direção ao por do sol, de mãos dadas, enquanto catam a musica da amizade?
Arqueei a sobrancelha.
— Isso... Era pra rir? – Perguntei cautelosamente.
— Não, Alexander! Não é pra rir.
— Não acho que Vitor esteja arquitetando nada. Ele nunca faz isso. Foi apenas um acaso.
Roberto riu, mas sem achar nada engraçado.
Eu sabia que poderia dizer qualquer coisa àquela altura, que para ele pouco faria diferença. Para Roberto, Vitor podia até mergulhava para salvar baleias, que ele ainda continuaria a ser um canalha.
— O que ele disse a você? – Ele perguntou em um tom mais ameno.
— Hãm... Ele estava reclamando. Pelo fato que... Eu fui meio indiferente. – Porque é claro que eu não ia contar que Vitor me ligou para acusar Roberto de fazer macumba pra ficar comigo.
— Como ele descobriu seu telefone?
Céus! Eu já estava me sentindo em um daqueles questionários de diretorias, aonde qualquer resposta errada eles te mandam com um passe só de ida para o inferno.
— Pela lista telefônica.
Roberto assentiu.
— Dê ele para mim. – Disse, acenando com a cabeça para o celular em minhas mãos.
— Pra que? – Perguntei cautelosamente, escondendo o aparelho atrás de mim.
Mas Roberto continuou com a mão estendida, me encarando friamente.
Acabei suspirando e colocando o telefone na mão dele.
— Bom... – Ele murmurou olhando para o celular.
Pelo menos antes dele repentinamente surtar e jogá-lo pela janela...
Eu? Eu não disse nada. E como poderia? Não dá pra falar quando seu queixo está lá no chão.
— Amanhã compramos outro. – Disse ele casualmente.
— Meu... Meu... AH... – Fiquei olhando da janela para Roberto, que voltava para a cama, normalmente. – Você... O que deu em você?
Consegui desengasgar por fim.
— Vamos dormir.
Bufei.
— Maravilha. Agora você passa a agir como uma esposa ciumenta?
Honestamente, ele não tinha o direito de simplesmente jogar meu celular pela janela! Nem se Vitor tivesse ligado pra dizer “quero te pegar na primeira esquina que aparecer”, ele podia ter feito isso!
E acredito que nem preciso dizer que no dia seguinte, estávamos disputando para ver quem tinha a cara mais fechada e o mau humor mais forte.
Ele ganhou. Só pra constar.
Roberto havia acordado totalmente de ovo virado, e se irritava até com a água que não estava transparente o suficiente... Pois é.
Certo, imagine que a sua casa está cheia de peste. E aí você compra um inseticida super forte, com intenção de matar as pestes. Mas... Vocês descobre que a peste é imune ao inseticida. E agora, você está sendo sufocado com o inseticida, e incomodado pela peste. O que fazer?
Roberto era o inseticida
Vitor era a peste.
E eu era o sujeito que se ferrou, pelo fato de insistir no erro.
Ah... Qual é? Alguém realmente acreditou que Vitor não voltaria? O meu celular foi jogado pela janela completamente à toa! Até mesmo porque se ele não tivesse mais o meu número... Ele ainda tinha meu e-mail. Não que eu tenha deixado Roberto ter acesso a essa informação. Vai que dava a louca no cara de novo, e dessa vez o meu computador que sofresse as consequências...
Minha vó sempre dizia “Alex, para se conhecer uma pessoa realmente, viaje com ela”. Bom, eu morava com ele, e acho que isso era mais que o suficiente. Porém... Roberto não veio com nenhum manual de instrução, onde eu poderia saber com que tipo de humor e temperamento ele estaria.
Mas ele estava começando a jogar todo o meu esforço pela janela – É. Igual ao celular. – Principalmente porque ele queria uma guerra, que eu particularmente, não estava nenhum pouco a fim de batalhar.
— Vamos deixar claro uma coisa... – Comecei a argumentar com ele. – Eu não estou tentando começar uma briga com você, Roberto. Mas por que será que eu sinto que isso não é reciproco?
— Talvez eu devesse ligar para minha ex-namorada no meio da noite. O que você acha?
Certo, alguém pelo amor de Deus, ao menos concorda comigo no fato de que aquilo era infantil?
— Dá um tempo no lance de namorado paranoico, Beto. Você não precisa disso.
Os olhos dele brilharam de ira, mas eu sentia necessidade de contra-atacar.
— Tem certeza? Não é como se você me desse toda essa certeza, não é mesmo?
Eu parei. Pisquei por um bom tempo e abri e fechei a boca várias vezes.
Cara, eu mesmo já havia pensado isso do Vitor várias vezes. Mas caramba, o cara me dava mais motivos para isso, que estrelas na galáxia. Eu, por outro lado, acho que nem se me mudasse para um mosteiro, seria mais imaculado do que estava sendo nos últimos anos. E o fulano vem me dizer que “eu não dava certeza”? Estava pedindo para que eu o mandasse ir passear.
Bom, é claro que eu fiquei puto. Porque até então, eu realmente estava tentando conversar numa boa.
Então dei as costas para Roberto, e não voltei a falar. Acredite, em infantilidade eu ganhava de lavada.
Claro que no dia seguinte ele até tentou aquele típico “vamos fingir que não aconteceu”, mas... Resolvi permanecer com o gelo.
— Bom dia. – Ele falou passando por mim e pegando algo na geladeira. E eu me mantive calado. – Sabe, você poderia ao menos responder como uma pessoa civilizada.
Continuei fingindo que o babado não era comigo.
— Agora você vai começar a me ignorar?
Suspirei.
— Eu não vou “começar”. Eu já estou ignorando. – Respondi a ele.
Roberto se virou e caminhou para longe mim, enquanto resmungava:
— Que ridículo!
— Ridículo? Eu? Você jogou meu celular pela janela! – Fiz questão de lembra-lo.
— E acredita que eu ainda não me arrependi? – Ele me olhou com cara de deboche. – Aproposito, Alex, como anda o seu notebook?
Arregalei os olhos.
— Você não se atreveria!
— Isso é um desafio? – Ele levantou a sobrancelha esquerda.
— Ah. Ótimo! Agora você joga as minhas coisas pela janela. Muito bem. Realmente adoro essa sua maneira de lidar com as coisas. Tacando elas pela janela. Vou lembrar-me de tomar cuidado com isso, já que você é muito rebelde.
Não voltei a responder mais nada. Até porque eu não estava a fim de trocar as ferraduras para um segundo round.
Eu sempre soube que Roberto gostava que as coisas fluíssem pelos padrões dele. E eu também não me importava com isso. Que dizer, acha mesmo que eu tinha cabeça para desenvolver lindamente um relacionamento longo e duradouro? Mas é nunca! Eu não tinha cabeça nem pra cuidar de um peixinho dourado.
Só que, quando as coisas fugiam dos padrões, ele... Surtava. Perdia a cabeça. E... Eu perdia junto. Por isso brigávamos.
Mesmo assim, ele conseguia ser a pessoa mais insegura do mundo.
É. Inseguro! Simples assim.
As pessoas possuem defeitos, manias, medos, neuroses e todos esses milhões de atributos que nos tonam humanos. Então, por que Roberto seria diferente, não é?
Claro, confesso que parte da culpa é toda minha, que praticamente, invadiu a fortaleza do cara sem fazer questão alguma de marca território.
Ou seja... Ele sentia a minha incerteza, e transformava isso em insegurança.
Aí, quando Vitor chegou, com toda sutileza de uma capivara pendurada no lustre... É claro que foi como se uma bomba explodisse na nossa cara! Vitor foi o nosso estopim.
Mas como eu poderia saber que daria de cara com seu lado mais... Nocivo?
E mais, era terrível ficar com aquele clima de “tô pisando em ovos” que ele me deixava. Qualquer deslize e pronto. Armávamos o circo ali mesmo. E eu, com toda a minha paciência de mula velha... Estava para chutar o balde.
Então ele virava outra pessoa uma ou duas horas depois. Dizia que estava tudo bem e que gente não precisava daquilo. E de fato, não precisávamos! Mas no dia seguinte, lá estava ele soltando os cachorros novamente...
Foi aí que as discursões ficaram mais frequentes. E eu, que não tinha mais saco pra bate-boca, me afastava cada vez mais e mais.
E não sei como, mas Vitor continuava se aproximando, sem que eu fizesse alguma coisa para detê-lo.
Por quê? Bom... Porque ele era a única pessoa da face da terra que não achava que eu era um mal agradecido que só reclamava do “príncipe encantado” Roberto. Já que a minha família era completamente paga pau do cara. Eu não podia falar nada que qualquer coisa eu virava o vilão da saga.
E Vitor, antes de ser um péssimo namorado, já havia sido um ótimo amigo.
Só que é claro que ele não ficava menos chato por conta disso. Na verdade, acho que era mais fácil levar um panda para saltar de paraquedas, do que ficar sentando tendo uma conversa sobre Roberto, com Vitor.
Ele foi o primeiro a me confrontar:
— Não sei do que você tem tanto medo. Todo romance só possui dois finais. Ou vocês terminam, ou ficam juntos pelo resto da vida. Ou será que você tem medo das duas opções? Está precisando aprender que finais felizes serão sempre coisa de contos de fadas. A vida real é bem mais complexa...
— Dá pra você calar a droga dessa sua boca? – Sibilei. Vitor realmente estava me irritando. E eu estava quase dando uma voadora na cara dele.
— A verdade dói, Alexander. – Ele deu de ombros.
— O soco que eu vou te dar também vai doer muito se você não parar com essa baboseira.
Por alguns segundos, eu realmente achei que ele havia calado. Mas bom, aí não seria Vitor. Então ele resolveu me fazer a pergunta da qual eu estava fugindo a um bom tempo:
— Você o ama?
Bem... Eu hesitei. Mas não sabia o que aquilo poderia significar. Por isso, a minha resposta ridícula foi:
— Talvez.
— Ah, para de mentir. Ninguém responde “talvez” quando se ama alguém.
— Claro. Você é especialista no assunto. – Revirei os olhos.
— Bom, também não sou um amador que começa a namorar alguém só porque é divertido.
— Não foi por diversão! – Me defendi. – Eu realmente achava que me apaixonar por ele seria a coisa mais fácil do universo. – Fiz uma pequena pausa. – Por que namorou comigo então?
Ele levantou a cabeça e me fintou atentamente.
— Acha que eu não te amava? – Ele sorriu largamente.
— Nós sabemos que não.
— Não aposte nisso, Alex. – Ele piscou.
Então Vitor se levantou e parou ao meu lado. Com os mesmos olhos predatórios que ele costumava olhar pra mim.
—Quer tentar de novo? Só... Por experiência?
Peguei-me olhando descaradamente para seus lábios. E não podia deixar de lembrar a sensação dele nos meus.
Ele estava me tentando.
Eu tinha a opção de ceder e bancar o desentupidor de pia, colando nossas bocas... OU... Poderia deixar de ser estupido e me lembrar de onde aquilo me levou da ultima vez.
E... Não acabei fazendo nenhuma das duas. Mesmo assim, não deixei que ele me beijasse. Por que... Bom, porque eu não podia sair por aí beijando outra pessoa que não fosse Roberto. Isso é meio obvio.
Por isso, quando Vitor avançou contra mim, o refreei segurando seu queixo, a uns dois centímetros dos meus lábios.
— Não faça mais esse tipo de brincadeira, Vitor. Eu realmente não consigo ser como você.
Aquilo pareceu pegá-lo de surpresa. Uma mistura de expressões passou pelo seu rosto, que foi desde choque até... Mágoa. Embora nunca me ocorresse que Vitor conseguisse ficar magoado com alguma coisa, mas enfim.
— Então... – Ele pigarreou e voltou ao seu tom de voz normal. – O que pretende fazer em relação ao seu namorado sociopata?
— Ele não é um sociopata. – Ralhei. – E... Eu ainda não cheguei a essa parte...
Suspirei e Vitor revirou os olhos.
—Ah, pelo amor de Deus, Alex! O que você acha que é mais fácil? Cravar a faca aos pouquinhos, ou enfiá-la de uma vez? Porque você sabe que é isso que vai ter que escolher no final.
Dirigi um olhar mortal a ele, que apenas deu de ombros.
O problema é que Vitor apenas verbalizava o que eu já pensava há muito tempo. E, afinal, que outra opção eu tinha? Nenhuma!
Só que... Realmente, realmente mesmo, eu não queria fazer. Por que... Eu e Roberto chegamos a um ponto que, não dava para chegar nele e simplesmente dizer “Acabou. Valeu e até a próxima. Abraços!”.
Não. Eu teria que começar do zero. E de preferência, bem longe de Roberto. E talvez, longe de tudo por um tempo.
Eu estava totalmente entre a cruz e a espada.
E meu martírio era tanto, que eu sequer queria voltar pra casa. E não vou negar que passei a ignorar Roberto, da maneira mais descarada que eu conseguia, apenas para não me meter em mais discursões. Eu só queria... Paz!
Eu não queria brigar com ele! Eu odiava brigar com ele!
Tudo bem, eu sei que fugir do cara como o diabo da cruz era a maior das covardias. Mas... Eu não tinha mais o que fazer!
Eu só queria um tempo. Um tempo pra pensar. Tipo, em tudo! Mas eu não tinha isso! Vitor estava me pressionava tanto quanto Roberto. Era um turbilhão de “O que pretende fazer agora?”, “O que pensa em conseguir com isso?”, “até onde você vai com essa estupidez?”... Enfim.
E quanto mais eu pensava nisso, com mais raiva eu ficava. Parecia que estavam conspirando contra mim. Como se eu fosse um garotinho, cuja paixonite era total responsabilidade deles! Já não estava aguentando tanta discursão com Roberto, e tanto conselho infrutífero de Vitor.
Queria por cinco minutos, no mínimo, conseguir simplesmente, e magicamente, esquecer-me de todos eles.
Deixe me dar um conselho: Se algum dia, alguém lhe disser que a melhor maneira de curar um coração partido é com um novo amor, jogue ela na jaula de um tigre faminto, ok?
Três anos e quatro meses.
Foi o tempo que eu consegui ficar com Roberto, antes de finalmente desistir de vez, e perceber que eu estava perdendo meu tempo, minhas forças e meus cabelos com aquele tipo de coisa.
Roberto falava comigo tanto quanto eu com ele. Isto é, somente quando muuuito necessário. E pior, é que eu via nos olhos dele que não era aquilo que ele queria. Não era o que eu queria.
Por isso eu decidi desfazer aquela cama de gato na qual estávamos deitados.
Só que o tiro saiu pela culatra quando Roberto me pressionou na hora errada e de forma errada!
Foi assim que tivemos nossa ultima, e pior briga da história.
Era manhã de domingo. Não tínhamos que trabalhar e não tinha nada que me fosse convidativo de ficar em casa o dia inteiro com Roberto. Mas ainda assim, tentei ter esperanças, e sei lá, dar uma volta pela cidade.
Mas antes que eu pudesse deixar aquela casa, escutei a voz ríspida atrás de mim.
—Aonde vai?
Virei-me para ele, pensando mil vezes antes de responder.
— Sair. – Respondi com o obvio.
— Será que dá pra você sentar e conversar como uma pessoa normal, por cinco minutos antes de sumir pra Deus sabe onde?
Meu estômago se revirou.
Quando me pus de frente com Roberto, e olhei depois de tanto tempo em seus olhos – Os mesmos, que por algum motivo, me atraiam fatalmente. – eu vi muita coisa. Vi raiva, frustração... E amor.
E foi um saco! Porque aquilo só complicava mais ainda a minha cabeça.
—Você tem algo importante para falar? – Balbuciei nervoso.
— Eu... Estou tentando entender o que estamos fazendo. – Roberto começou com um tom contido e amargo. – Ou melhor... Como acabamos assim.
Ri. Mas ri de nervoso.
Ambos sabemos que eu sou o responsável pelo estado em que nos encontramos, mesmo sem que qualquer um precise dizer.
— Você apenas precisa que eu diga em voz alta? Isso é pra te fazer se sentir melhor? – Meu tom de voz saiu mais ríspido do que eu realmente queria.
Roberto vacila, mas agora que me tinha a sua frente, não parecia disposto a parar por ali.
— Eu sei aonde vai, Alex. Assim como eu sei com quem vai. – Disse, e eu o encarei.
— O que?
— E... Eu também sei o que você se esforça tanto em não transparecer. Eu sei. – Seu tom de voz era gelado, porém contido de completo descontentamento e frustração. – Mas você ainda é meu. Apesar de você se esquecer disso.
— Eu não sou seu! Eu não sou... Uma coisa que você simplesmente possui! – Frisei.
Roberto me olhou como se tivesse deixado todos os seus próprios pensamentos de lado, apenas para ler os meus.
— Eu vejo nos seus olhos o que você pretende fazer. – Ele balbuciou entre dentes. – Eu não vou perder você! Não depois de tudo o que passamos. – Suas palavras saíram em forma de um eco sombrio.
A intenção era que eu escutasse. Escutasse e fizesse algo a respeito. E não passar por cima, como eu já estava acostumado a fazer.
— Você sabe que essas são apenas suas palavras, certo? Suas conclusões também não são do meu interesse. Mas espero que saiba que você é paranoico. Já pensou em fazer psicoterapia? – O sarcasmo tomou conta da minha voz.
— Eu preciso bancar o gênio da lâmpada maravilhosa pra poder deduzir o que passa na sua cabeça, apenas porque aparentemente, você perdeu a sua capacidade de sentar e ter uma conversa civilizada com alguém! Mas que inferno! – Ele gritou.
Devolvi o olhar gélido dele. Eu sabia que sairia daquele apartamento mais uma vez, com uma guerra travada entre nós.
Porém, Roberto se levantou abruptamente e segurou meu braço com força.
— O que vai fazer? Sair com o idiota? – Ele dizia com um tom de voz duro, mesmo que eu percebesse uma parte histérica. – É isso que você faz sempre que temos um problema, não é?
— Você é ridículo! – Grasnei, arrancando meu braço de suas mãos.
Eu ainda consegui dar alguns passos em direção à saída, mas antes de chegar à porta Roberto me segurou mais uma vez. Só que dessa vez não foi para me deter. Ele me jogou brutalmente contra parede, pressionando meu corpo contra o dele. Então prendeu meus pulsos acima da minha cabeça, antes que eu sequer pudesse despertar do meu torpor causado por aquela cena, e me beijou. Furiosamente. Ele provavelmente esperava ser correspondido, mas eu estava paralisado!
Então forcei meu corpo a acordar e se tocar da situação bizarra que estava acontecendo.
Eu odiava medir força com ele. Aliás, eu nunca havia feito aquilo. E também não achava que seria necessário, até aquele instante pelo menos.
E eu não tive outra escolha a não ser empurra-lo com tudo que tinha para que ele saísse de cima de mim. E quando finalmente consegui fazer isso, Roberto se mostrava tão ofegante quanto eu.
— Mas... Que merda você está pensando? – Gritei com o pouco de ar que ainda entrava em meus pulmões.
Então eu olhei para seus olhos. Com toda aquela cor de ouro, e que reluzia algo que não lhes era familiar.
Medo.
Sim. Eu podia ver pelo seu rosto que Roberto parecia estar com medo. Medo que eu saísse por aquela porta, e não voltasse mais. Esse medo.
Mas... Digamos que se ele estava com medo por algo assim, eu estava em completo pânico pela situação que havia acabado de acontecer.
— Você está indo para o lado errado, Alex. Completamente errado... – Ele balançou a cabeça, parecendo magoado.
Eu meio arquejei e meio solucei, então acabou saindo um barulho que se parecia muito com um filhotinho de alguma coisa não identificada chorando.
— Ok. Então vou ser direto com você. – Eu havia sito tomado por uma raiva colossal. – Me livrar de Vitor, não me faria gostar de você. Eu não posso fazer isso. Então... Por favor, acorde do seu sonho, enquanto eu tento acordar do meu pesadelo, ok? Porque nós dois sabemos que isso foi completamente unilateral.
Achei que me sentiria melhor depois de desengasgar aquelas palavras, mas na verdade, me arrependi de dizê-las assim que fechei a minha boca. Estava me sentindo a mosca do coco do cavalo do bandido.
Eu estava precisando de um abraço e de alguém pra me dizer “vai ficar tudo bem”, mas ironicamente, a única pessoa que me vinha à mente para fazer isso, era a razão do meu estado lastimável.
Eu não queria ligar para Vitor. Porque Roberto estava certo. Eu não podia simplesmente recorrer a ele, que não havia nada a ver com a história, toda vez que eu me ferrasse. Não é como se a culpa fosse dele.
Na verdade... A culpa era toda dele sim!
Se Vitor nunca tivesse aparecido, se não tivesse me traído, se não tivesse voltado... Se não existisse... Aposto que nada disso estaria acontecendo.
Então disquei os números com fúria–Sim, eu comprei outro celular, já que Roberto achou que o outro fosse alado... –, sem nem me dar contar, e já estava berrando para o telefone:
— Seu grande babaca, filho da mãe! Eu deveria te afogar numa poça de lama! – Eu precisava redirecionar a minha raiva em alguma coisa. Achei que Vitor era perfeito para o cargo.
Mas é claro que ele não gostou de atender ao telefone e escutar aquilo.
— Mas que porra é esse agora, Alexander? Ficou louco de vez?— Ele espinafrou.
—Exato! Fiquei louco. Por sua causa.
— Que? – Então ficou silencio, e do nada, ele começou a gargalhar. – Me deixa adivinhar: Problemas no paraíso?
Como eu não respondi, já que minha garganta estava áspera de mais para isso, Vitor pareceu entender a gravidade da situação.
— Ops. Foi mal... Acabei de jogar álcool na ferida, não foi? – Seu tom de voz estava diferente. –Onde você está? Eu posso...
— Não. – Me apressei. – Eu quero ficar sozinho. – Ok, é claro que não queria. Mas também não queria a presença de Vitor.
— Certo. – Ele concordou brevemente. – Alex?
— O que? – Fechei os olhos e me recostei no banco.
— Estou indo para a Espanha daqui a algumas semanas.— Ele contou.
Eu fiquei entorpecido. Quer dizer, agora Vitor ia embora? Agora?
—Ah... Legal. – Respondi, na falta de argumento melhor.
— Vou morar lá pelos próximos cinco meses. – Ele continuou.
— Entendo. Boa sorte! – Desejei francamente.
— Ok, acho que você ainda não pescou o meu peixe. – Ele comentou. — Eu quero saber se você não gostaria de ir comigo.
— Eu? Na Espanha? Com você? – Acabei rindo.
— Acho que te faria bem, pelo menos por um tempo.
Certo. Eu precisava de um tempo, e aquela era a oportunidade perfeita. Mas mesmo assim, acabei respondendo:
— Ok, me de um tempo para limpar a cabeças, e depois eu te respondo, pode ser?
—Certo. Mas... Tente resolver, o que precisa ser resolvido o mais breve possível. – Ele aconselhou.
Eu não sabia o que ia fazer pelo resto do dia, mas estava decido a não voltar para casa aquela noite.
Eu acabei indo me hospedar em um hotel.
Não foi tão ruim assim fica trancado o dia todo no quarto, zapeando a Tv a cabo e tentando não pensar em Roberto. Não que isso tenha durando, já que as marcas em meus pulsos começavam a adquirir uma coloração roxa.
Dessa vez eu não bebi nada. Pelo contrário, me mantive completamente sóbrio para aprender a lição e não sair por aí me metendo aonde não devia.
E em algum momento, que eu não me lembro, acabei adormecendo. Sem me preocupar com nada.
Esse foi o problema. Não me preocupei com nada.
Quando despertei, já pela manhã, instintivamente, passei a mão pelo bolço e peguei o celular. E vi a visão catastrófica do que meu futuro me aguardava. Porque:
1-Eu estava hiper-super-mega-Power atrasado para o trabalho.
2- Eu tinha um quintilhão de chamada perdidas, sendo metade delas só de Roberto.
3- Eu não havia avisado a ninguém que ia desaparecer por um tempo.
— Puta merda! – Soltei, calçando os sapatos na velocidade da luz.
Certo, a merda já havia sido feita. Então eu não me importei de voltar em casa, tomar banho e me arrumar para parecer no mínimo apresentável.
“É hoje que Roberto vai me demitir. Ele já está Pê da vida comigo mesmo...”- Eu pensava com meus botões.
E sabe? Eu meio que mandei o dane-se para aquilo. Quer dizer, e daí que Roberto fosse me demitir? Seria menos um pentelho para eu lidar.
Cheguei à empresa recebendo olhares atravessados de todo mundo. Revirei os olhos. Ah, a superficialidade do escritório. Não vou sentir falta disso...
Quando me avistou, Marta veio em minha direção como se eu fosse a rainha de Inglaterra em pessoa.
— Graças a Deus, Alex! O que você queria? Nos matar de preocupação?
— Está tudo bem, Marta. Só perdi a hora... – Tentei acalmá-la. – Algo aconteceu enquanto eu estava fora?
— Fora o fato de todo mundo achar que você estava morto? Não... Nada de mais. – Ele franziu a testa. – Vocês brigaram de novo, não é? Quantas vezes por dia vocês brigam?
— Depende da lua. – Sorri para ela. – Eu não sei o que posso fazer se o cara é pirado, Marta!
— Isso porque você só sabe perturbá-lo, Alex. Parece que você não tem muita noção de quanto você está ligado ao humor dele! Quando vocês ficam bem, tudo fica bem. Quando estão mal, explodem e passam por cima do mundo como se só existissem vocês dois.
Fiquei piscando para ela, sem entender qual era a do sermão.
— Eu não fiz nada!
— Não fez? E como você acha que ele reagiu quando chegou hoje de manhã, e você não estava? Ou quando você não chegava de jeito nenhum e o pessoal do RH começou a fazer apostas de que você havia morrido?
— O pessoal do RH fez isso? – Perguntei boquiaberto.
— O que estou dizendo, Alex... É que ele estava furioso! Ou preocupado. Não sei bem...
— Certo. – Dei de ombros. – Eu já cheguei, não é? Não é como se...
— Alexander! – Alguém me chamou. Eu pensei em ignorar. Mas... Bom, aquilo não seria muito profissional da minha parte. Até porque, no devido momento, Roberto não era meu namorado problemático. Era meu chefe antipático. – Na minha sala. Agora.
Marta olhava apavorada para Roberto. E com razão. Eu sabia da expressão psicopática que ele mostrava. Mas aquilo já era de praxe pra mim. Por isso, dei um sorriso cínico a ele, e isso fez suas narinas inflarem e ele bufar como um touro.
— Eu esqueci a capa vermelha em casa. – Comentei, atravessando a porta que dava acesso a sua sala. Por falar nisso, Roberto quase a arrebentou quando bateu a coitada com toda força.
— Onde você estava? – Ele tentou conter a voz para não gritar. – Sabe ao menos que horas são?
— Eu dormi em um hotel. – Respondi.
— Dormiu em um hotel? – Parecia que eu havia atiçado sua ira com a minha resposta. – Com quem?
Joguei as mãos para cima, e pedi paciência para não manda-lo ir se ferrar, em pelo menos, cinco idiomas diferentes.
— Com o camareiro, Roberto! – Respondi, em uma mistura de raiva e sarcasmo. – Pelo amor de Deus. Agora você vai me importunar aqui também?
— E por acaso existe outra forma de falar com você, sem que você desapareça? – Ele espalmou a mesa. –Você não deveria sair sem me avisar desse jeito! Não pode fazer isso.
— É óbvio que eu posso! Eu posso até me mudar para a China se me der vontade. – E por mim, era discussão encerrada. Mas com um estalar de língua, acabei voltando atrás: – Desculpe ter chegado atrasado. Acontece que meu namorado é louco, teve uma crise ontem, e tentou me molestar! Acredita? Se quiser, posso chama-lo aqui para comprovar.
É claro que a intenção foi magoá-lo. Por isso fiquei observando o meu veneno fazer efeito, e Roberto me olhar como se eu acabasse de jogar um balde de água com gelo bem na cara.
— Certo. Você merece um pedido de desculpa. Eu... Eu não tentei te molestar. Eu só queria...
— Sim? – Interrompi. – O que queria? Que eu ficasse feliz? Pedidos de desculpas não voltam o tempo.
As últimas palavras foram ditas mais para mim, do que para ele.
— Agora, você quer mais alguma coisa de mim? Eu preciso começar a trabalhar para compensar o tempo perdido. – Falei por fim.
Virei os calcanhares e ia marchando para a porta, quando me ocorreu que... Eu poderia acabar com tudo ali mesmo.
Então não sei o que deu em mim. Apenas avancei contra a mesa de Roberto puxando uma folha branca e uma caneta e escrevendo com uma letra inteligível, porém garranchosa, as palavras “isso é um pedido de demissão”.
Obvio que, legalmente, era apenas um pedaço de papel com uma letra miserável de tão feia. Mas para Roberto, pareceu que estava segurando uma cobra coral.
— Espero que tenha entendido a mensagem. – Foi a ultima coisa que eu disse, antes de sair de vez da sala de Roberto.
E quando saí, lá estava o povo olhando para minha cara, com uma curiosidade de dar dó.
— O que foi? Estão admirando a minha beleza ou perderam algo na minha cara? – Gritei.
Rapidamente, voltaram a fazer o que eles tinham de fazer. E... Eu também. Bom, até Roberto voltar a minha mesa, rasgar folha na minha cara e dizer rispidamente:
— Você não pode pedir demissão!
— É obvio que eu posso! Qual quer pessoa do mundo, que possua uma carteira de trabalho fichada, pode pedir demissão.
Roberto se curvou para que seus olhos ficassem rentes com os meus, visto que eu estava sentado.
— Você não sabe o que está fazendo, Alexander. – Ele disse entre dentes. – Eu não sou um bom perdedor, então não me teste.
— Não estou te testando. Estou te dando o resultado, Roberto. Lide com isso. – Respondi.
Honestamente, a minha vontade, era de deitar em algum lugar e morrer. Só pra não ter que passar tanta raiva. Mas eu fiz algo pior que isso.
Escrevi para Vitor a tal mensagem.
“Essa relação nunca passou de um amor inventado. Não sei qual de nós dois é o mais louco. Eu ou ele. Talvez até nós dois. Mas eu já estou tão cansado... Não suporto mais.
Ainda essa semana, estarei colocando um ponto em tudo isso. Preciso me afastar. Incluindo, já assinei minha carta de demissão. Gostaria de saber se... Sua proposta ainda está de pé... E se estiver, quando poderei ir? Preciso que seja o mais breve possível.
Eu não CONSIGO amá-lo. Não desse jeito.
Quatro anos se passaram, e as coisas foram de mal a pior. E agora me vejo completamente amarrado a um manipulador.”
Eu não estava exagerando quando disse que eu e Roberto estávamos brigando demasiadamente.
Certo. Já não tinha sentindo adiar o inadiável. E talvez isso tenha acontecido como um sinal do universo. Assim, eu não precisaria mais ficar tão receoso em terminar com ele. Talvez aquilo fosse o motivo que eu tanto procurava.
Eu estava decidido a desistir de tudo que eu tinha aqui, e ir para a Espanha com Vitor, como ele sugeriu. Seria ótimo poder começar do zero, em um novo lugar, com novas pessoas.
E... Resolvi deixar Gustavo encarregado de jogar a bomba ao resto que ficasse por aqui.
Quer dizer, eu que não ia querer enfrentar a fúria de Camila e mamãe! E Gustavo se sairia bem. Ele era profissional em dar notícias cabulosas aos outros.
Não que ele tenha aprovado a minha decisão, é claro.
— Você enlouqueceu? Quer ir para a Espanha? Sozinho? Do nada? – Ele me questionou.
— Não vou sozinho. Vou com Vitor. E... Bem que estou precisando melhorar o meu espanhol.
— Ir com Vitor, é quase o mesmo que ir sozinho. Eu pensei que você odiava o cara!
— Não morro de amores por ele, mas também não o odeio. E... De certa forma, ele me apresentou uma solução para um, dos meus milhares de problemas.
— Seu problema se chama “Roberto”, não é?
Assenti.
— Ele... É tipo aqueles chefões de videogame, que nem com você vendendo a alma, consegue vencer.
Gustavo balançou a cabeça em desaprovação.
— Vocês estão tendo outra de suas crises existenciais?
Sorri do comentário.
— Não, Gustavo. Finalmente, cheguei à conclusão que esse meu namoro com Roberto foi uma loucura apenas movida por luxuria e falta de escrúpulos, da minha parte. Mas... Chega uma hora que as coisas precisam chegar ao final.
— Depois de tanto tempo? Você só caiu na real, depois de todo esse tempo, Por quê? O que mudou de antes para agora?
— Nada. – Respondi, olhando para minhas unhas roídas. – Esse é o problema. Nada mudou, Gustavo. Dias a após dia passando. E eu nunca estive apaixonado por ele. Nunca... Me senti apaixonado por ele.
Gustavo pareceu chocado com a minha franqueza.
— Mas... E ele?
— Bom, está fazendo drama e tempestade no copo d’agua.
— Ele... Sabe isso? Sabe que...
— Saber, eu acredito que ele saiba. Ele só prefere fingir que não.
Gustavo me encarou brevemente, depois suspirou e por fim disse:
— Você tem certeza disso? Tem certeza que é isso que quer?
Eu sorri mais uma vez para ele.
— Com a cabeça que eu tenho agora... Não acho que seja muito possível mudar o que já estar feito. Está na hora de dizer adeus ao meu príncipe, e botar o ponto final no meu não tão feliz conto de fadas.
...
Roberto resolveu me dar o troco aquele dia. Não foi para casa. E eu confesso que não me importei. Mais cedo ou mais tarde ele voltaria. E enquanto isso não acontecia, eu ensaiava o meu texto de despedida. Aproveitei também para arrumar as minhas coisas, e sem Roberto lá, era mais fácil de fazer aquilo.
Não fui trabalhar aquele dia. E o clima não estava colaborando, já que não parava de chover em momento algum.
Surpreendi-me, quando a aporta foi aberta, e uma figura, que um dia foi Roberto, passou por ela.
Ele estava... Patético. Sem outra palavra para definir. Que dizer, ele vestia as mesmas roupas do dia anterior, só que bem mais amarrotadas, os cabelos estavam horríveis, a barba por fazer e seu rosto só estava completando o caos.
Puxei o ar com força, para melhorar o aperto que senti ao ver aquilo.
Eu nunca, juro que nunca, quis ver Roberto daquele jeito. E é por isso que eu tinha que fazer o que ia fazer.
— Oi. – Falei. Eu não sabia como ia começar, e o texto que parecia maravilhoso na minha cabeça, havia desaparecido.
— Oi. – Ele me respondeu, com uma voz cansada.
— Está na hora de termos uma ultima conversa. – Ditei.
Ele me olhou sem expressão alguma.
— Agora não, Alexander. Dessa vez, eu que estou cansado de mais pra isso. Conversamos depois. – Ele disse, passando por mim e indo em direção ao quarto.
Engoli em seco e fechei meus olhos.
— Vamos acabar com isso. De uma vez.
Roberto estacou. Porque eu não sei, pois podia jurar que ele já esperava por aquilo.
— O que? – Ele falou ainda de costas.
— Roberto, isso não está dando certo! Você ao menos se olhou no espelho hoje? – Meus lábios estavam tremendo, enquanto eu falava. – Eu... Nunca quis isso! Eu nunca escolhi isso!
Roberto se virou para mim, como se a realidade finalmente houvesse caído sobre ele.
— O amor não é uma escolha, Alex.
— Sério, não vamos começar a falar de amor a essa altura do campeonato, ok? Por favor? – Praticamente implorei. – Apenas, vamos acabar com isso. Eu estou libertando você de mim, e só quero faça o mesmo.
Roberto atravessou a sala como um furacão.
— Você não pode estar falando sério!
— Bom, brincando, é o que eu não estou. – Disse firme. – Eu estou indo embora.
— Não! – Ele bradou. – Eu sei. Eu sei que o que está acontecendo não está certo, Alex. Mas você não pode ir embora. Eu não sou uma pessoa corajosa o suficiente para aceitar isso desse jeito. Não sou. Eu sou uma grande covarde que se recusa a ficar sem você. Não vá pensando que eu serei mais feliz se você se for. Eu já disse que sou um péssimo perdedor, e ainda não estou disposto a desistir. Porque que você pode se apaixonar por mim, tanto quanto eu sou por você. E se for preciso enfiar isto nessa sua cabeça dura à força, tudo bem. Eu não me importo em entrar em milhares de brigas contra você!
— Meu Deus! – Me irritei. – Você não poderia simplesmente aceitar a minha decisão como uma pessoa normal?
— Claro que não! Você é meu! Depois de todo esse tempo... Não podemos deixar de lado e esquecer!
— O que está feito, está feito. E não há mais nenhum “mas” entre nós. – Cerrei os dentes. – A gente realmente não dá certo junto.
Era, mais uma vez, a minha palavra contra a dele. Como sempre foi. E provavelmente, sempre seria.
Roberto não me respondeu com palavras. Na verdade, custaram alguns segundos para que eu finalmente percebesse a única lagrima que escorria pelo seu rosto. E mesmo assim, engoli toda culpa que caia sobre mim, e deixei meu orgulho falar mais alto.
— Você fez a sua escolha. Agora, eu estou fazendo a minha. Já está na hora de aprendermos a lidar com as consequências delas.
Só Deus sabe como eu ainda consegui sair daquele apartamento e chagar até o carro. E quando cheguei, por falar nisso, eu estava soluçando.
— Vamos lá, Alexander. – Eu dizia a mim mesmo. – Não é hora de chorar. Você precisa colocar a cabeça no lugar.
Então eu entrei no carro. Não sei o que estava mais acelerado: Minha mete ou a minha velocidade.
Existia algo. Algo pequeno, porém importante, que eu na minha ignorância, insistia em não notar. Mas que esteve ali, por muito tempo. O que era? Eu não podia me lembrar. Não podia, pois não se pode lembrar algo que você não conhece.
E eu não conhecia o que eu realmente sentia por Roberto.
O meu celular tocava, mas eu não dava atenção. E ainda chovia tanto.
Até ver pelo retrovisor um brilho familiar, e o barulho de um carro a toda velocidade. ELE. Eu sabia que era ele. Por isso eu mudei de faixa. Por isso, que tudo saiu tão do controle. E quando dei por mim, estava girando. Tudo estava girando.
Então ficou um grande silêncio por um breve momento. Antes do som me atingir mais uma vez.
Não perdi minha consciência assim de cara. Ainda fui capaz de perceber: Gritos, sirenes, e as hipnóticas luzes vermelhas e azuis. Alguém parecia me chamar desesperadamente, mas eu estava com sono de mais para prestar atenção.
Então pensei: "Ora, porque não tirar uma soneca? Já estou deitado mesmo..."
E acho que já sabemos como essa história termina.
Se fosse realmente para analisar, todos nós tivemos uma boa parcela de culpa. Todos nós tivemos nossos receios e nossos medos. Porém, enquanto eu me afundei em um mundo sem lembranças, Roberto ficou atormentado permanentemente com toda a culpa que nos sobrecarregava.
Posso afirmar com certeza que ele não queria mais tanto assim que a minha memória voltasse. Pelo menos, não quando ele percebeu que me tinha exatamente aonde queria. Afinal, quem melhor para cair no papo eloquente de Roberto, se não um garoto de quinze anos que ainda pouco sabia sobre a vida? Quem melhor para manipular?
Não tenho dúvidas que Roberto não queria que eu voltasse.
Bom, um pouco tarde para isso. Suponho...
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