Depois do magnífico baile de debutantes no Natal, e tal como desconfiara, Kate não teve notícias de Logan Allbright. Apesar do cartão-de-visita que o pai lhe dera, não telefonou. Ela leu artigos sobre ele e fez questão de procurar todas as notícias a seu respeito; viu o seu nome nos jornais e até nos documentários noticiosos passados no cinema quando ele ganhava alguma corrida. Batera vários recordes na Califórnia, fora elogiado pelo último avião que desenhara com a ajuda de Dutch Kindelberger e John Leland Atwood. Kate sabia agora que os voos de Logan eram lendários, mas ele encontrava-se no seu próprio mundo, distante do dela, e sem dúvida havia-a esquecido.

Parecia pertencer completamente a outra vida, a anos-luz da dela. E Kate estava certa de que nunca mais voltaria a vê-lo. Iria ler artigos acerca dele durante o resto da sua vida e recordar-se das horas que tinham passado a conversar uma noite, quando ela ainda era uma jovem.

Em Abril foi aceite em Radcliffe e os pais ficaram radiantes, tal como ela. A guerra não corria bem na Europa e falavam disso constantemente. O pai continuava a insistir que Roosevelt não iria permitir o envolvimento dos Estados Unidos, mas mesmo assim, os relatos do que ocorria na Europa eram perturbantes e dois rapazes que ela conhecia tinham ido para Inglaterra juntar-se à RAF.

Devido à guerra, já não podiam ir à Europa no Verão pelo que, pela segunda vez, passaram esse período em Cape Cod. Tinham lá uma casa e Kate sempre gostara de lá ir. Estava especialmente animada naquele Verão, uma vez que iria para o colégio no Outono. A mãe ficara satisfeita de ela não ter de ir para muito longe. Cambridge ficava apenas do outro lado do rio e Kate e a mãe trataram de todos os preparativos antes de irem para Cape, onde tencionavam ficar até ao Dia do Trabalho, a primeira segunda-feira de Setembro. Clarke visitá-las-ia aos fins-de-semana, como habitualmente.

Foi um Verão de ténis e de festas e de longos passeios na praia com os amigos. Kate nadava no mar todos os dias, e conheceu um rapaz muito simpático que ia para Dartmouth no Outono, e outro que entraria no segundo ano em Yale. Eram todos jovens abastados, inteligentes e com sólidos valores morais. Foi um Verão longo e despreocupado e as únicas sombras chegavam na forma das notícias vindas da Europa, que a cada dia que passavam eram mais preocupantes. Foi um Verão de batalhas ferozes e de más notícias vindas de todo o mundo.

Quando Kate não estava a pensar na guerra, pensava na sua ida para Radcliffe. Faltavam apenas alguns dias, e ela estava muito mais animada do que deixava transparecer. Muitos dos seus amigos do liceu tinham optado por não continuar os estudos. Ela era mais a exceção do que a regra. Duas das amigas tinham-se casado após o fim do liceu e outras três haviam anunciado os seus noivados nesse Verão. Com dezoito anos, Kate sentia-se já uma solteirona. Dentro de um ano, a maior parte teria filhos e ainda mais amigos seus ter-se-iam casado. Mas ela concordava com o pai, queria ir para o colégio, embora ainda não soubesse o que iria estudar.

Se o mundo fosse diferente, teria gostado de estudar Direito. Mas era um sacrifício demasiado grande. Sabia que se escolhesse a carreira de advogada talvez nunca pudesse casar. Era uma decisão que tinha de ser tomada, e o Direito como carreira não era um mundo para as mulheres. Iria estudar algo como Literatura ou História, com a vertente de Italiano ou Francês. Se não pudesse fazer mais nada, talvez um dia desse aulas. Mas, para além do Direito, mais nenhuma carreira a fascinava. E os pais partiam do princípio de que ela se casaria quando acabasse os estudos. O curso seria uma ocupação interessante enquanto esperava pelo homem certo.

O nome de Logan surgiu depois de ela o ter conhecido, uma ou duas vezes nos meses seguintes, não ligado diretamente a ela mas a algo novo ou importante que ele conseguira. O pai mostrava-se ainda mais interessado nele depois de o ter conhecido e mencionou-o a Kate mais do que uma vez. Mas ela não precisava de ser incitada, não o esquecera, embora não tivesse voltado a ter notícias suas. Era apenas uma pessoa muito interessante que ela conhecera e o seu fascínio acabou por esmorecer. Os seus outros interesses, como o colégio e os amigos, eram bastante mais reais.

Era o último fim-de-semana do Verão, o fim-de-semana do Dia do Trabalho, quando ela e os pais foram a uma festa a que costumavam ir todos os anos, normalmente depois de regressarem da viagem de Verão. A festa era um churrasco dado pelos seus vizinhos em Cape Cod. Toda a gente da zona ia, havia crianças e pessoas de idade e os anfitriões faziam uma grande fogueira na praia. Kate estava com um grupo de amigos a assar marshmallows e salsichas quando recuou um passo e esbarrou em alguém que não tinha visto. Voltou-se para pedir desculpas por ter-lhe dado uma pisadela, embora soubesse que não devia ter doído muito. Estava descalça, em calções. E ao levantar os olhos para a cara da vítima, descobriu espantada que se tratava de Logan Allbright. Assim que o viu, ficou especada, incapaz de falar, a segurar o espeto com o marshmallow a arder. Logan sorriu.

Notas finais
não sei se ficaram ansiosos ou não por saber o que vai acontecer a seguir, mas vou postar outro capítulo na terça-feira :)