Kate Jamison viu Logan pela primeira vez num baile de debutantes em Dezembro de 1940, três dias antes do Natal. Ela e os pais tinham ido de Boston a Nova Iorque passar uma semana para fazer compras de Natal, visitar amigos e ir ao baile. Kate era amiga da irmã mais nova da debutante. Não era normal as raparigas de dezassete anos irem a esses bailes, mas Kate surpreendera muita gente e tinha tanta maturidade para a sua idade que para os anfitriões foi fácil incluí-la.

A amiga de Kate sentira-se radiante, tal como ela. Era a festa mais bonita a que alguma vez tinha ido, e o salão onde ela entrou pelo braço do pai encontrava-se cheio de pessoas extraordinárias. Chefes de Estado, importantes figuras políticas, viúvas ricas e mães de família, e muitos jovens bonitos. Todos os nomes importantes da sociedade de Nova Iorque estavam presentes, e vários de Filadélfia e Boston. Setecentas pessoas conversavam nas elegantes salas e no lindíssimo salão de baile espelhado, e nos jardins havia uma tenda. Havia centenas de criados de libré a servi-los, uma orquestra no salão e outra na tenda. Havia mulheres bonitas e homens bem-parecidos, jóias e vestidos extraordinários e os cavalheiros envergavam casacos brancos. A convidada de honra era uma rapariga bonita, pequena e loira, com um vestido feito de encomenda a Schiaparelli. Aquele era o momento porque esperava toda a vida; estava a ser oficialmente apresentada à sociedade. Parecia uma boneca de porcelana ali com os pais a receber os convidados, e um criado anunciava o nome de cada um à medida que entravam com os seus fatos de noite.

Quando os Jamison entraram, Kate beijou a amiga e agradeceu-lhe tê-la convidado. Era o primeiro baile do género a que ia, e por momentos as raparigas fizeram lembrar o quadro de Degas com as duas bailarinas, ambas muito contrastantes. A debutante era pequena e loira, com um corpo suavemente torneado, ao passo que Kate dava mais nas vistas. Ela alta e magra, com cabelo acobreado-escuro que lhe dava pelos ombros. Tinha uma tez leitosa, enormes olhos azul-escuros e uma silhueta perfeita. E enquanto a debutante era contida e calma, de Kate parecia emanar eletricidade e energia. Quando era apresentada aos convidados pelos pais, olhava as pessoas nos olhos e deslumbrava-as com o seu sorriso. Havia algo no seu aspeto, e mesmo no formato da sua boca, que sugeria que estava prestes a dizer algo engraçado, importante, algo que os outros queriam ouvir e recordar. Tudo em Kate prometia excitação, como se a sua juventude fosse tão exuberante que ela tinha de partilhá-la. Destacava-se em todas as multidões, não só pela sua beleza, mas também pela sua argúcia e encanto.

Nascera quando os pais tinham alguma idade, após vinte anos de casamento, e, quando era bebé, o pai costumava dizer que valera a pena esperar por ela, e a mãe concordava prontamente. Adoravam-na. Nos seus primeiros anos ela fora o centro do mundo deles. O pai, John Barrett, casara com Elizabeth Palmer, cuja fortuna era ainda maior do que a dele. O pai de Kate era conhecido no meio financeiro pela sua sensatez e bons investimentos. E depois viera o colapso da Bolsa de 1929, arrastando o pai de Kate e milhares como ele num maremoto de destruição, desespero e perda. John perdeu toda a sua fortuna e apenas uma pequena parte da da mulher. Amigos de John suicidaram-se meses após terem perdido as suas fortunas, e dois anos depois John acabou também por ceder ao desespero. Ele fechara-se num quarto do primeiro andar, raramente recebia alguém e pouco saía. Kate mal o viu durante esses dois anos. John tornou-se inacessível, distante, solitário, e a única coisa que o animava era ver Kate, que na altura tinha seis anos, a trazer-lhe um doce ou um desenho feito por ela. Kate, um dia, encontrou a porta dele trancada e passado algum tempo a mãe proibiu-a de ir lá acima. Elizabeth não queria que ela visse o pai bêbado, em desalinho, com a barba por fazer, muitas vezes a dormir dias inteiros. John Barrett matou-se quase dois anos depois, em Setembro de 1931. Deixou para trás a viúva e a filha. Elizabeth fora uma das felizardas cuja vida não fora muito afetada, até perder John.

Kate ainda se lembrava do momento em que a mãe lhe contara. Estava sentada no seu quarto, a beber uma caneca de chocolate quente com a sua boneca, e quando viu a mãe a entrar percebeu que algo de terrível tinha acontecido.

A mãe não chorou quando lhe contou, disse-lhe com toda a simplicidade e calma que o pai fora viver para o Céu com Deus. Assim que a mãe pronunciou aquelas palavras, Kate teve a sensação de que todo o seu mundo lhe desabava em cima. Soube a partir desse momento que a sua vida nunca mais seria a mesma.

Kate assistiu muito solene ao funeral do pai, e nada ouviu. Depois disso, viveram na mesma casa, viram as mesmas pessoas. Kate continuou a frequentar a mesma escola. A mãe andava distante e perturbada dias a seguir ao funeral. Kate pensava que havia perdido os dois pais.

Elizabeth do que restava dos bens de John com o amigo banqueiro Clarke Jamison. Ele era um homem calmo, bondoso e um porto de abrigo. A esposa morrera há alguns anos devido à tuberculose, não tinha filhos e nunca voltara a casar. Passados nove meses da morte de John Barrett, ele pedira a mão de Elizabeth. Casaram catorze meses após o funeral, uma cerimónia simples que, para além dos noivos, contava apenas com a presença do sacerdote e de Kate, que assistiu a tudo de olhos muito aberto e expressão solene. Tinha nove anos. Clarke era não só um excelente marido mas também um maravilhoso pai para Kate. Clarke adorava-a, e esta adorava-o. Clarke passou os anos seguintes a tentar compensá-la da perda do pai. Era um homem tranquilo e carinhoso e foi com grande regozijo que viu a alegria e as travessuras voltarem a surgir em Kate. Clarke proporcionou a Kate toda a estabilidade emocional de que ela precisou depois da morte de John. Não lhe negava nada e estava sempre presente.

Todos os amigos de Kate acabaram por esquecer que ele não era o pai dela, e o mesmo aconteceu com ela. A porta que dava para a sala onde Barrett tinha morrido estava fechada, e Kate preferia assim. Não fazia parte da natureza de Kate viver agarrada à tristeza. Era o tipo de pessoa que parecia sempre impelida para a alegria, e proporcionava-a aos outros onde quer que fosse. O som das suas gargalhadas e o brilho do seu olhar criavam uma ura de alegria à sai volta. Nunca falavam de Clarke a ter adotado. Era um capítulo encerrado na vida dela, e ela ficaria chocada se alguém lho mencionasse. A paternidade de Clarke ao longo dos nove anos tornara-se uma parte tão integrante de si que Kate já nem pensava nela. Ele era realmente o seu pai de corpo e alma e Clarke pensava da mesma maneira em relação a ela.
Há muito que ela se tornara sua filha.

Notas finais
reviews, sim ?