Águia Solitária
3 Capítulo II
Aos dezassete anos, Kate fora à Europa com os pais e no ano anterior tinha ido a Singapura e Hong Kong. Vira mais do que a maioria das raparigas da sua idade e, quando deslizava por entre os convidados parecendo mais uma adulta do que uma jovem, tinha um ar de maturidade. Era algo em que todos reparavam. Percebia-se imediatamente que Kate não só era muito feliz, como também se sentia perfeitamente à vontade na sua pele. Conseguia falar com toda a gente, ir a todo o lado, fazer quase tudo. Nada intimidava ou assustava Kate. Estava excitada com a vida, e isso percebia-se.
O vestido que ela usava no baile de debutantes em Nova Iorque fora encomendado em Paris na Primavera anterior. Era completamente diferente dos vestidos que as outras raparigas levavam. A maior parte deles era em tom pastel ou cores fortes. Mais ninguém usava branco, claro, por deferência para com a convidada de honra. E todas estavam encantadoras. Mas Kate estava mais do que isso, estava elegante e vistosa. Mesmo com dezassete anos tudo nela indicava que já era uma mulher e não uma adolescente. Não de maneira ofensiva, mas ela parecia exsudar uma espécie de sofisticação discreta. Não havia folhos, nenhuma saia comprida, nada de rendas ou debruns. O vestido de cetim azul-gelo era cortado no viés e parecia cobri-la como água, semelhante a uma segunda pele; as alças eram pouco mais fortes que fios. Realçava o seu corpo perfeito e os brincos de água-marinha e diamante que levava pertenciam à mãe e já haviam pertencido à avó. Brilhavam sempre que eram postos à vista pelo seu longo cabelo vermelho-escuro. Não se maquilhara, tendo posto apenas um pouco de pó-de-arroz. O vestido era da cor de um céu de Inverno gelado e a sua pele tinha a tonalidade e a macieza da rosa mais pálida. Os seus lábios eram vermelho-vivos e chamavam a atenção, pois ela estava constantemente a rir e a sorrir.
O pai estava a gracejar com ela quando se afastaram dos anfitriões e ela ria com ele, tendo pousado uma mão graciosamente enluvada de branco no seu braço. A mãe seguiu atrás e parecia deter-se de cinco em cinco segundos para conversar com os amigos. Pouco depois Kate avistara a irmã da debutante que a convidara para a festa no meio de um grupo de gente nova e abandonou o pai para ir ao encontro dela. Prometeram encontrar-se novamente no salão de baile e Clarke Jamison observou a filha com orgulho quando ela se aproximou do grupo de gente jovem e bonita e, sem que que desse por isso, todas as cabeças se voltaram na sua direção. Era uma rapariga estonteante. Passados alguns segundos viu que estavam todos a rir e a tagarelar e que os rapazes a haviam rodeado. Estivesse ela onde estivesse, fizesse o que fizesse, ele nunca se preocupava com Kate. Todos gostavam dela e eram rapidamente atraídos na sua direção. O que Elizabeth desejava era que Kate encontra-se um bom partido e casasse dentro de poucos anos.
Elizabeth era feliz com Clarke já há quase dez anos e desejava o mesmo para a filha. Mas Clarke fora persistente. Queria que Kate estudasse primeiro e fora fácil convencê-la. Era uma rapariga demasiado inteligente para não aproveitar isso, embora o pai esperasse que ela não trabalhasse depois de concluir os estudos. No entanto, era de opinião que ela devia usufruir do maior número de coisas possível e estava certo de que iria aproveitá-las bem. Kate candidatara-se a todos os colégios nesse Inverno e no ano seguinte entraria num, com dezoito anos. Andava muito animada com o assunto e concorrera a Wellesley, Radcliffe, Vassar, Barnard e a uma mão-cheia de outros que não lhe interessavam tanto. E devido à história do pai em Harvard, Radcliffe fora a sua primeira escolha. Clarke estava muitíssimo orgulhoso dela.
Kate saiu com os outros da sala de receção e dirigiu-se ao salão de baile. Conversou com as raparigas que conhecia e foi apresentada a dezenas de rapazes. Parecia perfeitamente à vontade a conversar com mulheres ou com homens, e dava a impressão que estes cada vez a seguiam em maior número. Achavam as suas histórias divertidas, o seu estilo excitante, e quando o baile começou ela era constantemente arrebatada das mãos do par por admiradores sucessivos. Parecia nunca terminar uma dança com o mesmo homem com quem a começara. Foi uma noite glamorosa e ela estava a divertir-se imenso. E, como sempre, as atenções não lhe subiram à cabeça. Gostava delas, mas sabia controlar-se.
Kate estava junto ao bufete a conversar com uma rapariga que entrara em Wellesley nesse ano e lhe contava todos os pormenores quando o viu pela primeira vez. Estava bastante atenta à conversa quando levantara o olhar e dera de caras com ele. Não percebeu porquê, mas havia algo hipnotizante. Não era muito alto, mas tinha ombros largos, cabelo escuro e um rosto cinzelado. E era consideravelmente mais velho do que os rapazes com quem dançara. Calculou que devesse ter perto de vinte e cinco anos quando deixou de ouvir completamente a rapariga de Wellesley e observou fascinada Logan Allbright a colocar duas costelas de borrego no prato. Usava casaco branco como os outros homens, mas parecia ligeiramente desconfortável e dava a impressão que teria preferido ficar noutro local. Logan continuou a avançar junto à mesa pouco à vontade, parecendo um pássaro gigantesco cujas asas tivessem sido inesperadamente cortadas e a quem só apetecia voar dali para fora.
Por fim, ele ficou apenas a centímetros de Kate, com o prato meio cheio na mão, e sentiu o olhar dela pousado em si. Baixou os olhos na sua direção, com uma expressão séria, e o olhar de ambos cruzou-se. Ficou imóvel durante um minuto, a observá-la, e quando ela lhe sorriu ele quase se esqueceu que tinha um prato na mão. Nunca vira ninguém como ela, tão belo ou cheio de vida. Havia naquela rapariga qualquer coisa de fascinante, e parecia que estava perto de algo cheio de luz ou olhava para uma luz muito intensa. Passados alguns segundos teve de desviar o olhar. Baixou os olhos mas não se afastou dela. Percebeu que não conseguia mover-se, que estava preso ao chão, e pouco depois voltou a olhar para ela.
Fale com o autor