Águas Claras
3 Você me tirava do meu mundo alternativo, isso me deixa completamente intrigada.
Notas iniciais
O sinal para o inicio das aulas havia acabado de tocar, enquanto isso eu ainda estava lá conectada ao olhar daquele garoto. Por um segundo, enquanto ainda me perdia em seus olhos que emitiam suas emoções mais profundas, pensei que poderia finalmente ter chegado ao céu, mas então algo ou alguém me empurrou fazendo com que cambaleasse e quase caísse no chão. Procurei o(a) culpado(a) em meio ao mutirão de alunos adentrando e ocupando a sala, e então para o meu total enfurecimento e alimento de meu ódio, vi Carla fitando-me enquanto esboçava um sorriso cínico e de aparência manipuladora. Semicerrei meus olhos em direção a garota, alguns naquele dia juraram ter visto faíscas saindo de nossos olhos, e então Carla se virou e segui em direção a sua cadeira.
Como todos já sabem, ironicamente falando, Carla e eu não somos o melhor exemplo de melhores amigas do mundo, desde sempre existiu um ar de competição entre nós, desde quando Carla entrou na escola e até os dias de hoje. Por motivos incubadores a menina sempre teve tal sentimento quanto a mim, alguns que já conhecem a história, dizem que é por pura inveja, já na minha humilde opinião, acho que é pelo fato de Carla ser extremamente esganada por atenção.
Carla Rider sempre foi uma daquelas garotas de espirito fútil, que sempre leva a sério quando o assunto é "aparecer", Carla é um dos tipos de garota que conheço bem, e como conheço aquela garota sem cérebro que tenta se enturmar com as pessoas mais conhecidas da sala, vulgo mais popular, por puro sentimento de “fama”. Exatamente aos seis anos de idade, quando ambas nos conhecemos, Carla quis juntar-se a mim pelo simples fato de eu ser amiga de todos, mas para isso ela precisou competir com Violet, que nos obrigou a fazê-la ir para o fundo do poço junto com seu ego e ambição.
Com o tempo fomos crescendo, e Rider achou outra maneira de aparecer, agora a garota simplesmente dedica todo seu tempo e devoção a tentar aparecer para os garotos da turma, sejam eles feios ou não, só que como em todo plano de aparição de Carla, uma falha se projetou, e essa era o simples fato de que a vida toda a menina sempre fora aquela garotinha gorda e ridicularizada da turma, mas seus quilinhos a mais não a fariam deixar sua obsessão, boatos de que até cinta e modelador a garota já usou para andar arrebitando a bunda por onde passa... Isso simplesmente me enoja.
O inicio da aula foi bem cansativo, como de costume, os professores dividiram a turma em duas partes pela primeira aula, e eu caí justo na parte em que não conhecia ninguém.
Eu estava desanimada pelo fato de Tyler realmente não ter ido ou entrado por aquela porta no começo da aula, mas a parte mais tola em mim dizia para que não perdesse minhas esperanças.
O sino tocou e os alunos saíram do laboratório de ciências e foram direto em direção ao pátio, o intervalo havia começado. Eu realmente não estava nem um pouco animada, eu estava torcendo para que na segunda aula Tyler entrasse por a porta do laboratório de ciências, ou ouvisse relatos de que o viram entrando no laboratório de informática, e por fim passássemos o resto do ano juntos.
Naquele momento uma parte de mim simplesmente se perguntava a todo segundo, como que eu ainda poderia querer estar ao lado de um cara como ele, mesmo sabendo de tudo o que ele fez e também desconfiando sobre o que não sabia que ele fez... Mas outra parte de mim, a parte que julgo a mais idiota e sem cabimento de mim mesma, teimava em pensar que ele poderia ter mudado e que talvez só tivesse faltado esse primeiro dia de aula.
Todas minhas tentativas de fingir que não me importava já eram falhas naquela altura do campeonato, eu apenas não falava com ninguém ou interagia com alguém, eu só conseguia ficar trancada. Trancada naquele meu mundo alternativo, que criei dentro de minha cabeça com o intuito de me desligar da porcaria que era o mundo real, e as vezes isso chegava a ser insuportável, estava saindo do controle, virando habito constante.
Estava sentada em uma das mesas do refeitório cercada por um grupo de amigos em volta da mesma mesa, eles riam, conversavam e pareciam divertissem, mas como sempre aquele mesmo complexo do universo paralelo me dominava e predominava em mim.
O ponteiro do grande relógio no fundo do refeitório marcava o passar dos segundos, que para mim mais pareciam minutos, tudo estava se movimentando em câmera lenta, eu estava ficando desconfortável e extasiada quanto àquela situação, podia jurar que meus neurônios haviam explodido, minha cabeça estava a mil. Os que não me conheciam tão bem, poderiam jurar que eu era só mais uma daquelas garotas estupidas que se irritavam facilmente com qualquer frescura que as rondava, mas pelo que percebi, Violet parecia entender muito bem do que se tratava.
Sem antes pensar, sair da mesa e fui ao banheiro, Violet não havia deixado ninguém ir atrás de mim, eu apenas queria ficar sozinha, como a mesma já sabia.
Me pus diante de um dos grandes espelhos que eram espalhados pelo banheiro feminino, eu estava péssima, mas meu rosto estava normal, acho que já havia me acostumado com aquela mesma expressão impregnada por meses em meu rosto.
Saí do banheiro e minha primeira reação foi subir um dos lances de escada que davam para os muitos corredores com salas da West High. Eu não via a hora de que o intervalo terminasse, já havia sido humilhada demais por um dia, precisava que aquela manhã acabasse rapidamente.
Depois de muito subir, e muito pensar, finalmente cheguei até o ultimo andar, aquele no qual o aspecto é tão obscuro quanto os boatos que ocorrem nele. Estava cabisbaixa, meus olhos ardiam, e lagrimas ameaçavam sair.
— Reservada demais para ficar com os amigos? – Uma voz masculina soou do fundo do corredor.
Em fração de segundos ergui a cabeça e passei a vista pelo local procurando o dono da voz do timbre sonoro grave. E então, lá estava ele de braços cruzados encostado na parede, os poucos feixes de luz vindos de uma janelinha no final do corredor faziam com que seu cabelo castanho meu ganhasse uma cor viva de destaque, seu rosto parte coberto pelas sombras davam a ele o aspecto de mais misterioso do que já era, suas mangas arregaçadas davam ar de moleque e um breve sorriso estampava-se em seu rosto.
— Anti-social demais para ficar sozinho pelos corredores da escola? – O respondi com outra pergunta.
Revirou seus globos oculares e redirecionou o rosto a luz, permitindo-me ver sua íris azulada como a água do mar. Enquanto o garoto conseguia deixar-me com as bochechas ligeiramente rosadas, um sorriso irônico projetava-se em seus lábios.
— Gosto de refletir. – Retrucou ele, enquanto apoiava a nuca nas duas mãos. – Mas você ainda não respondeu minha pergunta...
— Digamos que, ninguém tem o poder de escolher por quem se apaixona... — Disse enquanto seu sorriso se fechava e uma expressão pensativa tomava posse de seu rosto.
— Mas é possível se apaixonar mais de uma vez. – Sua voz era mansa e o timbre de voz grave, ele era misterioso de certa maneira sedutora. – Me chamo Nathan.
Pela primeira vez no dia algo me fez sorrir, era algo inexplicável, eu simplesmente sorri.
O sinal tocou e sem que pudesse dizer mais alguma coisa dei de ombros e segui até a sala de aula. Por um momento eu me via livre dos pensamentos sobre Tyler, estava relativamente bem, e como antes, algo naquele garoto me intrigava, e fazia com que me questiona-se sobre o que ele teria de tão especial.
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