Águas Claras
4 Amores vão e vem, mas amizades são para sempre
Notas iniciais
Eu já estava chegando ao prédio mais alto da Avenida das Rosas Azuis. Estava exausta, tudo o que mais queria naquele momento era tomar um bom banho quente e me enfiar entre as cobertas enquanto via as gotas de chuva escorrendo pelo vidro da janela de meu quarto, como se fossem lágrimas devidamente acompanhadas com musicas da lista de reprodução ironicamente nomeada de "Clubinho da Depressão".
Quando dei por mim mesma, já estava em frente a porta do apartamento 907. Toquei a campainha, e uma figura conservada de cabelos desbotados e óculos de lentes trincadas apareceu por trás da porta que se abria. Como esquecer de uma pessoa como aquela? De expressão tão familiar e tão única. Apesar de nunca ter me dado tanta atenção, minha vó é o mais próximo de figura maternal que eu tive durante toda minha vida.
Desde que me entendo por gente moro com meus avós, minha tia e Henry, meu primo. Quando eu era muito nova minha mãe foi embora com um cara que ela havia acabado de conhecer, me deixando para trás aqui na casa de meus avós, e antes disso, quando eu era ainda mais nova, ela se separou do meu pai, por motivos nos quais eu não ouso suspeitar.
Entrei dentro de casa enquanto via todos em suas rotinas normais, minha vó com seus afazeres na cozinha, minha tia tentando fazer com que Henry terminasse suas lições de casa, e meu vô no trabalho.
Passei direto por o corredor abrindo finalmente a ultima porta que havia nele, as lagrimas estavam ameaçando sair, minha cabeça estava confusa e meus devaneios estavam mais descontroláveis do que nunca.
A água morna corria por meu corpo levando consigo todas minhas dores e problemas, eu estava em paz comigo mesma, estava calma, minha alma viajava por outros mundos me tirando completamente de mim, era meu único momento calmo em meio a tanta confusão.
Saí do box, vesti meu roupão e por impulso fitei-me no espelho como todos os dias, eu olhava cada detalhe, a cor de meus cabelos, minha pele, e por fim meus olhos, e por fim paralisei enquanto olhava no canto mais profundo de minha íris, quantas histórias já não se passaram por ela, era como se ela fosse o códex de toda minha vida, toda minha existência, e então olhava profundamente minhas pupilas, era como se imagens de lembranças passadas passassem dentro delas como um devaneio sem fim, e como sempre, chegou aquela parte da história que não desejaria nem para o meu pior inimigo.
Senti gostas de água quente escorrendo por meus olhos, a raiva, a tristeza, a humilhação tomava conta de mim, sai de dentro do banheiro e corri para de baixo dos lençóis enquanto em um único reflexo os fones já estavam encachados em meus ouvidos enquanto musicas e mais musicas rondavam por meu subconsciente, era como se elas falassem comigo, lembrei de tudo que havia acontecido comigo até hoje, todas as avenças e desavenças, aquilo me corroía por dentro, era terrível.
Até que se chegou uma parte de uma das musicas em que se dizia:
"Quando ela era apenas uma garota,
ela tinha expectativas do mundo,
mas este escapou de seu alcance,
então ela fugiu em seu sono
e sonhou com o paraíso..."
E então as imagens foram sofrendo uma especie de fusão e mutação, e eu me via parada em frente ao ultimo corredor da High West, na verdade, eu não estava como eu mesma, eu estava vendo meu corpo em minha frente paralisado enquanto mais a sua frente estava ele.
Aqueles cabelo, aqueles olhos, aquela boca, me faziam desligar-me do mundo real e me trancar em um onde existia apenas eu e ele. Aquela voz de tom grave, com frases feitas e frases de efeito, tão verdadeiras e tão transparentes ao sentimento que havia por trás delas...
No estado em que me encontrava, até a pronuncia de cada silaba de seu nome fazia com que meus pelos da nuca se eriçassem. "Nathan".
Então, conforme o tempo foi passando, me perdi na terra de sonhos e felicidade, e depois só me lembro de ver nós dois juntos andando por uma das ruas ao lado da praia, de mãos dadas.
ALGUNS DIAS DEPOIS
...
Nem acredito que o menino misterioso com o qual me intrigava poderia ser alguém que marcou toda minha infância. Nathan e eu já havíamos estudado juntos quando pequenos, era bem legal esse fato de "amigos antigos que se reveem no futuro", mas ainda mais embaraçoso era que meu primeiro beijo foi com ele.
Fazia algum tempo desde que as aulas haviam começado, eu nem ligava mais para Tyler, nem lembrava da sua existência. Violet havia pegado pneumonia e estava internada, de vez em quando nós nos falávamos e eu ia visita-la, mas isso me deu a chance de me aproximar mais de Grace, que já conhecia a alguns anos.
Todos os dias sentávamos juntas acompanhadas é claro por Nathan, ele era bem divertido, descobri que aquele jeito misterioso era apenas uma fachada de novato, nós nos dávamos super bem. Ou pelo ao menos não pessoalmente...
Hoje sexta-feira, aconteceu algo histórico, finalmente eu e Nathan conseguimos falar mais do que um simples "oi" ou "tchau" durante as aulas (nós nos falávamos mais pelo chat.), e mais, supeito de que algo dentro de mim mudou, depois de o conhecer melhor, eu passei a não o ver exatamente como os mesmos olhos. Eu estava me precipitando eu sei, afinal, ainda estávamos no começo do ano letivo e era muito cedo para me declarar afim de alguém quem dirá apaixonada.
Cheguei em casa e fui fazer minha lição de álgebra, mas a ansiedade tomou conta de mim, não pude me conter e fui direto para o chat, era esse o horário em que geralmente Nathan geralmente estava online.
Assim que entrei sem nem ver as pessoas que estavam disponíveis Nathan automaticamente já havia me chamado para conversar.
Nathan(Online): Oi
Annie(Online): Oi ^^ Tudo bem?
Nathan(Online): Preciso falar com você...
Annie(Online): Sobre o que?
Nathan(Online): Já vem um tempo que eu estou percebendo que você é diferente das outras garotas... Venho te notando desde o primeiro dia de aula...
Annie(Online): Aonde você quer chegar com isso?
Nathan(Online): Acho que rola um clima entre a gente...
Annie(Online): O que? Como assim?
Nathan(Online): Eu também não sei, mas todos os dias quando acordo só penso em vir a escola para estar com você, sinto ciúmes quando você está com outros garotos... Não quero ficar escondendo isso, muito menos de você, mas venho descobrindo sentimentos fortes dentro de mim e todos eles são por você.
Eu fiquei sem reação, em pleno estado de choque, eu não sabia o que responder, muito menos como agir em meio aquela situação, era muito embaraçoso.
O final de semana passou bem rápido, mas do que eu imaginava, acho que minha ansiedade para poder ver Nathan no dia seguinte era tanta que até o tempo estava a meu favor.
Cheguei na sala de aula ainda um pouco vazia, Grace estava no seu lugar de costume, guardando a cadeira ao lado para que eu pudesse sentar ao seu lado, Nathan não havia chegado, o que me deixou curiosa.
— Tenho uma novidade! – Grace parecia empolgada.
— Pode contar... – Disse enquanto me acomodava em minha carteira.
— Ai é tão embaraçoso... – Ela parecia estar no mundo da lua.
— Ta ok... – Eu estava impaciente. – Pode chegar logo ao ponto? Obrigada.
— Então, eu acho que estou gostando de alguém... – Suas bochechas ficaram rosadas.
— Sério?! – Logo me empolguei. – De quem?
— Do Nathan.
Quando ouvi aquilo, meu mundo parou, engasguei com minha própria saliva, eu estava paralisada, não conseguia dizer uma minima palavra qualquer, meu peito começou a arder, meu coração estava acelerado, meus olhos arregalados e respiração ofegante.
— Ai nossa, o que foi? – Ela parecia preocupada.
— Nada... Só estou um pouco surpresa. – Fiz uma forcinha para as palavras saírem todas em um tom de voz padrão.
— Você ta pálida... – Ela comentava. – Quer que eu te busque um copo d'água?
— Não obrigada...
— E aí garotas! – Nathan chegava com um sorriso maroto no rosto e aquele jeito moleque que me enlouquecia. – Ei Annie, viu um fantasma ou uma barata passou por aqui?
— Haha... – Minha voz saiu mais aguda do que o esperado.
— Você ta legal? – Ele agora parecia tomar uma expressão séria. – Aconteceu alguma coisa.
— NÃO! – Grace deu um grito que fez com que todos da sala estranhassem seu comportamento. – Ela está bem. Não está Annie?
— Sim... – Minhas voz já se normalizava. – Estou.
— Que bom... – Nathan jogava suas coisas na carteira a frente de Grace, enquanto virava-se para conversar com ela.
Eu estava um tanto desconfortável quanto a situação, afinal, eu estava descobrindo coisas novas de mim mesma que nem eu sequer imaginaria que tivesse, eu com certeza sentia algo por Nathan... Mas será que valeria a pena arriscar minha amizade com Grace por um sentimento duvidoso?
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