À flor da pele
16 Sacrifício do egoísta
Notas iniciais

Diana
– Como foi para o trabalho?– Tyler me pergunta pelo telefone. Ele só me ligou agora, perto da hora do almoço.
– Hum... — Se ele pergunta, é porque não sabe. Certo? — Dei meus pulos, monstrengo. E eu quero meu carro de volta, Tyler!
– Relaxa, vou pegar o meu amanhã cedo.
Pegar? Sério isso?
– Seu carro realmente estragou?
– Foi o que eu disse na quinta, não foi?
Não acredito que esse cretino disse a verdade. É impossível saber se Tyler está falando sério sobre algo ou não.
– E a fantasia?
– Pego amanhã também, aí você prova.
– E a sua? As nossas serão combinando? — Pergunto, me lembrando de Theo. Ele disse que poderíamos combinar as nossas. O que seria muito constrangedor e motivo para fofocas. Imagino que vá ter repórteres lá, pelo menos na porta.
– De certa forma... Você verá amanhã!
– Não gosto das suas surpresas.
– Não cuspa no prato que come.
– Eu não como.
Ele gargalha.
– Você está bem? – Ele pergunta.
– Sim. Só queria ter dormido mais.
– Estamos na mesma, e quer saber? A dor de barriga vai voltar com tudo e vou tirar todo meu atraso do sono. Tô vazando! Te ligo depois.
E então ele desliga. Não sei como ele não foi demitido ainda. Tyler passa mais tempo em casa do que no emprego. E isso no horário de trabalho. Ele tem as piores desculpas da face da Terra, e sempre acreditam.
Deixo o celular sobre a mesa.
Me sinto um pouco estranha essa manhã. Cansada. Mas não fisicamente. É a minha mente, meu emocional que se encontra aos cacos.
É como se as coisas não fizessem sentido. Quando cheguei, o projeto do Hoen estava na minha mesa, de novo, com marcações feitas. Ele não gostou do banheiro. Fez uma observação onde dizia que eu quase acertei. Mas, também fez outras, pedindo para refazer tudo diferente do que estava, e pior, do que ele mesmo pediu antes. Ele o recebeu na sexta de tarde, pelas mãos do Dony, e deve ter passado o fim de semana inteiro pintando setas e escrevendo suas críticas nele, descontando a sua frustração por sabe-se lá qual motivo. Eu até gostava dele antes disso...
Há muito tempo tenho estado cansada desse emprego, mas agora, de repente, isso parece estar mais do que claro. Acho que chego ao prédio com um sorriso e ao entrar na empresa ele se vai. Meu mal estar em lidar com essas coisas parece estar sendo refletido nos meus desenhos, eu os olhei pela manhã e simplesmente pareciam de outra pessoa. Tenho perdido a minha identidade. E vontade...
Suspiro. Acho que passei a última hora assim, suspirando e enrolando. Me sentei em minha mesa, virei para a janela e fiquei observando a cidade. Pensando em tudo e ao mesmo tempo em nada. Confuso, não?
E ainda tem o Theo. A verdade é que a culpa pelo meu dia parecer tão estranho é, em partes, dele.
Eu não estou acostumada a querer coisas e as conseguir. Se eu quero algo, apenas digo a mim mesma não e fim de assunto. Menos com o Theo. Eu não consigo me lembrar quando foi que comecei a ficar tão obcecada por esse homem. Aquele trajeto da minha corrida foi alterado para parar lá perto dele. E o pior, sem intenção. Quando dei por mim, estava o vigiando todas as manhãs, espiando revistas que ele saia e prestando atenção às fofocas sobre ele.
Essa manhã, depois de ligar o computador, eu pensei seriamente em criar um alerta no Google para o nome dele. Isso é insano!
Eu o persigo e quando ele vem até mim... fujo.
Aquele quase beijo, de hoje mais cedo, teria sido incrível. Mal posso esquecer da primeira vez que ele me beijou. Às vezes acho que ainda posso sentir seus lábios nos meus se eu fechar bem os olhos e pensar sobre.
Quando nossa mente é aberta para coisas que antes pareciam impossíveis, e você passa a querer com todas as forças, e conseguir... O resto todo parece só um detalhe. Se eu posso desejar um homem tão incrível e ter sua atenção, por que não posso desejar outras coisas e, quem sabe, conseguir?
É como se tudo estivesse ao alcance de minhas mãos, só basta dar um passo. Um único passo. Mas eu temo que ele me leve ao abismo. Com o trabalho ou com Theodor Blake. Nem tudo que parece alcançável, de fato, é.
Suspiro mais uma vez. A última– Juro a mim mesma.
Me levanto e saio da minha sala, vou para o banheiro no fim do corredor, atrás da recepção. É uma sala relativamente grande, com uma bancada de duas pias e um espelho largo. Então duas portas, onde eram os sanitários.
Paro na frente do espelho e me estudo. Minhas bochechas andam bem vermelhas ultimamente. Quase como uma maquiagem, que dura 24 horas. Meus olhos ainda mantêm o mesmo brilho de horas atrás. Imagino se o quase beijo teria deixado meus lábios inchados. Ou ainda, se eu conseguiria ter apenas um beijo, caso o permitisse. Será que teria chego na hora hoje?
Me viro de lado, estudando meu vestido. Ele é negro, com bolinhas branca e um cinto negro preso na cintura. O comprimento dele vai até meus joelhos.
Quando encontrei Theo na sala, hoje de manhã, ele me encarou, sorriu e disse “Uau!”. Por três vezes.
Não vou mentir, eu não usei o vestido que separei para o dia de hoje. Simplesmente fui no que achava que me caia melhor. Eu me arrumei para impressionar hoje. Passei até mesmo base em minha canela, para disfarçar o hematoma. Não que tenha funcionado... Mas o vestido ficou bonito com o meu salto favorito. Eu coloquei meu melhor relógio. Ou o mais bonito, de acordo com meu gosto. Brincos pequenos com cristais de verdade e um delicado colar que meu pai me deu. Eu me senti poderosa ao deixar a minha casa. Me senti incrível e capaz de fazer qualquer coisa. O que só piorou a chegada no trabalho.
A porta é aberta atrás de mim e Terry entra.
– Ei você... — Ela diz desanimada. Não parece bem.
As roupas, geralmente sexys, estão bem comuns hoje. Jeans azul, camisa verde e saltos pretos. O cabelo está preso em um coque que parece ter sido feito em cima da hora. A maquiagem se resume a um batom vermelho.
– O que foi? — Pergunto a ela, que se senta na bancada da pia, e cruza os braços.
– Garry... — Garry é o namorado dela. Ou marido, depende do ponto de vista. Eles estão vivendo juntos por dois anos. Quando comecei a trabalhar na empresa ela estava se mudando para casa dele. — Ele está me traindo.
Levanto uma sobrancelha, estou realmente curiosa.
Garry não é lá o cara mais bonito do mundo. Aliás, nem bonito ele é...
Ele tem um cabelo preto bem ralo, com uma careca quase visível no topo de sua cabeça. Eu diria que em mais alguns meses algo ficará bem claro, tipo, seu coro cabeludo...
Ele tem a altura dela e uma barriguinha bem saliente. Nunca entendi o que ela viu nele. Ele não é um homem rico. Terry é bonita. Muito bonita, para dizer a verdade, do tipo que te ofusca mesmo que você esteja em suas melhores roupas. Talvez até se estivesse nua ao seu lado as chances seriam grandes de não ser notada.
Terry e Garry são o tipo de casal que você sabe que está junto por amor. Até o nome deles combina. É tipo coisa do destino!
– Te traiu ou você acha que traiu?
Ela cruza os braços e olha com atenção para dentro da pia, como se ali estivesse a resposta para todos os seus problemas.
– Eu disse a ele que ficaria com minha mãe no domingo. Queria surpreendê-lo com algo sexy. Comprei rosas vermelhas, espalhei as pétalas pelo quarto, comprei velas e champanhe, coloquei a menor lingerie que achei, e quando ele chegou... Estava acompanhado com sua assistente.
– Só acompanhado, certo? Poderia querer adiantar algum trabalho...
– Não, eles não me viram e entraram se agarrando.
Minha boca se abre.
– Aquela gordinha que está substituindo a Branca?
Ela concorda.
Branca é uma mulher de meia idade que trabalha como assistente na empresa do Garry, ela teve que se ausentar para uma operação. Não sei do que, não quis tantos detalhes... O caso é que, uma assistente temporária foi contratada enquanto Branca não voltasse.
Eu a vi uma vez na saída do trabalho, quando Terry me deu carona e passou para pegar Garry antes. A garota estava conversando com ele na entrada do escritório. Ela era totalmente estranha. E não era por ser gorducha. Ela tinha aquele olhar de peixe morto e toda vez que se movia esbarrava em alguém. Um completo desastre, atrapalhada, sem a postura que o seu trabalho exigia.
– Essa mesma.
– Oh, meu deus, Terry! Eu sinto muito.
Ela funga e leva a mão ao rosto, tirando uma lágrima da bochecha.
– E agora? — Lhe pergunto. Ela e Garry venderam seus apartamentos para comprar um maior.
– Eu o mandei sair. Mas ele não parece disposto. Então, pensei em sair eu, enquanto penso no que fazer.
– Vai ficar na sua mãe?
– Não. Nem tive coragem de dizer a ela. Ela irá rir por anos quando souber pelo quê fui trocada.
Ela finalmente me olha.
– Posso ficar na sua casa? É só por alguns dias, até eu descobrir o que fazer. — A pergunta me pega de surpresa. Acho que nunca tive alguém em casa por mais de uma noite. Fora Tyler, é claro.
– Claro. — Não, não quero. Não gosto de companhia. Não sei como me portar e não gosto de dividir minha comida! — Pelo tempo que precisar, vou gostar de alguém comigo.
Mentira!
Uma coisa que minha mãe me ensinou, é que não importa o que queremos quando alguém que amamos está em necessidade. Sacrifícios são válidos. Mesmo que eu não ame, tipo amar mesmo, a Terry. Mas ela é minha amiga e eu gostaria de fazer isso para ajudar.
Mentira!
A porta se abre e um cara gorducho, que não é o Garry e tão pouco Dony, coloca a cabeça para dentro.
– Esse é o banheiro feminino, Junior. — Terry avisa o filho do nosso chefe.
– Exato garotas! Banheiro, para fazer necessidades. — Ele diz e entra de vez. Fica ao meu lado e ajeita a gravata amarela, depois penteia os cabelos ruivos. E no caso dele são realmente ruivos. Terry tem uma cor de farmácia, daquelas bem vermelhas. Junior tem um tom mais caído para o laranja. E sardas. Muitas delas. — Se querem conversar, vocês podem voltar para casa, fazer um chá, alguns biscoitos e tornar tudo mais agradável. Porque não as estou pagando para ficar fofocando no banheiro.
Terry bufa e sai da bancada. Cruza os braços e o encara. Eu apenas observo, segurando o riso.
– Não é você que paga, Junior. — Ela o lembra. — Você mal sabe pentear esse cabelinho, que dirá ganhar dinheiro. — Terry completa.
Ele passa a mão sobre os cabelos de novo.
– Oh, venenosa hoje, Terry... — Damos às costas a ele e saímos do banheiro. Mas ele é insistente, vem logo atrás de nós no corredor.
– Eu poderia contar a meu pai sobre essas coisas, vocês sabem...
Ela para e respiro fundo. Pelo jeito o show vai começar cedo hoje.
Junior dá um passo para trás, cruza os braços. Terry se coloca a frente dele, cara a cara.
– Você é tão fofo, Junior. — Terry aperta as bochechas dele, que afasta sua mão e faz uma careta horrorosa. — Um bebê gigante! — Ela afina a voz, como uma criança — Guti-guti. — E então saímos, o deixando sozinho ali.
Admito que isso foi bem tranquilo. Provavelmente pelo espírito angustiado da Terry, porque geralmente a coisa fica tão feia que Dony ou Janine precisam intervir.
Vamos para minha sala. Assim que entramos, fecho a porta.
– Vou contar tudo para meu pai. — Eu engrosso a voz e imito o babaca do Junior.
Minha amiga ri e se coloca na frente da janela, de braços cruzados. Olhos vagos, tristes...
– É cada uma, amiga. Cada uma...
***
O ruim de fazer sacrifícios pelos outros, é que você é obrigado a entrar em suas batalhas e tomar suas dores.
– Você vai ficar com essa vagabunda? — Garry diz da porta.
Vagabunda? Eu? Por favor! Meu último beijo precisou de intervenção para acontecer. Não acho que eu entre nessa categoria.
Eu realmente pensei que quando Terry me perguntou se podia fica em casa, ela já tivesse uma mala no carro. Mas ter que ir a seu apartamento e a ajudar a arrumá-la... Foi o fim. Espero que ela saiba valorizar esse gesto de amizade, porque, definitivamente, não faço isso para todos.
Garry chegou enquanto eu tentava fechar uma das três malas que ela fez.
Ele ficou furioso. Disse que ela deveria ficar, que eles deveriam resolver seus problemas e que tudo ficaria bem. Ela negou. O mandou à merda. E isso foi bem divertido, na verdade, ele ficou todo vermelho, como um pimentão. Eu estava com Tyler no celular na hora e ele começou a rir e fazer piadas sobre Garry e Bob Esponja, então eu deixei um riso escapar.
Bem... A raiva dele se voltou para mim, então.
Terry e eu estamos no corredor, esperando o elevador. As malas são enormes e não acho que vá caber se ele vier ocupado.
Por sorte, quando ele chega, está vazio. Nós entramos e nos esprememos. Garry parece ganhar coragem para sair da porta e se aproxima do elevador, mas não mais que isso. Quando a porta, finalmente, fecha, respiro aliviada.
Talvez eu devesse parar de seguir os conselhos da minha mãe. Ela nem sempre está certa, eu deveria saber disso já.
Sacrifício não é para qualquer um.
Tem pessoas que não nascem com a essência da bondade, a ponto de realmente pensar nos outros primeiro. Sejam seres amados, apenas conhecidos, ou desconhecidos. Por que colocar os outros em primeiro lugar se você pode estar mais confortável nessa posição?
Eu sou egoísta, e pra dizer a verdade, esse parece ser meu melhor traço. O mais seguro...
Fale com o autor