À flor da pele
3 Meu design interior
Notas iniciais
Diana
Entro no prédio apressada. Tem uma fila para usar o elevador, fico atrás de um homem baixinho e careca. Praticamente posso ver por cima de sua cabeça por causa dos meus saltos. O elevador chega e cabe perfeitamente o homem e eu, mas ele fica parado, me impedindo de entrar e a porta fecha. Olho no meu pulso, estou sem relógio. Odeio quando esqueço as coisas, especialmente o relógio. O resto do dia parece todo desordenado e atrapalhado, sinto-me sem controle. O homem à minha frente começa a bater o pé, ansioso. Se ele tem tanta pressa, por que não pegou o elevador anterior, que ainda havia espaço?
Começo a coçar as costas da minha mão, é uma mania. Tyler diz que é um tic nervoso, não acho que chegue a tanto. Mas, é uma péssima mania, sempre tenho a pele arranhada nessa área.
O elevador finalmente chega, as portas abrem e três pessoas descem. O homenzinho começa a entrar lentamente. Até parece ter perdido toda a pressa que mostrou há segundos atrás. Talvez fosse apenas um tique nervoso. Como o meu caso... não, no meu não é. É só mania.
Aí!
Sinto minha mão arder. Entro no elevador, aperto o botão do sétimo e vou para o fundo do elevador enquanto mais algumas pessoas entram. Quando as portas se fecham e o elevador começa a subir, dou uma olhada em minha mão. Tem um risco vermelho nas costas e algumas marcas mais antigas com casquinha já para sair. Eu tento não fazer isso, mas é algo tão automático... Tyler diz que isso é automutilação, claro que é exagero. Como eu já disse, é só uma mania.
O elevador para duas vezes antes de chegar ao meu andar. Passo apressada pelo senhor careca e quase corro pelo corredor. Odeio atrasos! Alcanço a porta do escritório e entro. Sou recebida pela sala bem iluminada, com paredes todas trabalhadas, cada uma de um jeito diferente. Esse é o escritório dos Shepard, e também o mostruário para os clientes, paredes diversas, cada sala um tipo de ambiente. Para que fazer um catálogo se você pode mostrar algo ao vivo? Isso ajuda muito na hora de nos escolherem para algum projeto.
Meu trabalho não é exatamente a melhor coisa do mundo. Sou designer de interiores. No começo amava o que fazia, mas me sinto tão cansada e pressionada atualmente. Clientes e mais clientes. Reclamam disso, reclamam daquilo. Reclamam de tudo! Tem que melhorar aqui! Não gosto disso! Não gosto daquilo! Não há mais liberdade em fazer o que tanto me alegrava antigamente. O prazer se foi. Às vezes penso em largar tudo e tentar outras coisas. Mas esse ainda não é o caso.
Passo pela recepção e encontro Janine, a recepcionista. É uma garota jovem, uns 22 anos. Ela ganhou a vaga depois que seu estágio no escritório acabou. Ou talvez porque o filho dos Shepard parece ter gostado da moça... Nada a declarar quanto a isso!
– Bom-dia, Diana! — A garota loira de cabelos bem curtos e um terninho um número maior que ela, pelo menos, diz alegremente, mas olha para o relógio.
– Estou atrasada? — Pergunto, ao parar perto do balcão e recolher alguns documentos.
– Atrasada em relação à chegada de todos os dias, sim. Mas atrasada, não. Chegou com 15 de antecedência.
Ela sorri e correspondo, mas não estou feliz. Chegar meia hora antes dos meus chefes é justamente o que me faz passar o dia bem. Uso esse tempo para colocar a agenda do dia em ordem, me preparar mentalmente para o estresse diário de sempre e me convencer que eu preciso do emprego.
– Devo interpretar que a noite foi boa? — Ela pergunta com um sorrisinho malicioso, enquanto coloca alguns papéis na mesa para mim.
Janine é legal, mas tem que tomar muito cuidado com o que deixa escapar perto dela. A garota vaza mais informação que espião.
– Quem me dera! — Pego os papéis — Só um pneu furado mesmo. — Minto e sorrio. — Até depois, Jani!
– Até!
Vou em direção à minha sala, está tudo como deixei ontem. Persianas fechadas. Papéis devidamente em seus lugares. Mesa de desenho desligada, mas com os projetos que preciso acabar hoje já prontos para começar.
Deposito a papelada que Janine deixou separada para mim. Checo minha agenda de clientes e então guardo minha bolsa no armário, mas antes pego o celular e deixo na mesa.
Ligo minha mesa de desenho e me sento em frente a ela, checando o planejamento que fiz com o Sr. Hoen dois dias atrás e, então, começo a desenhar. Verifico meu pulso para as horas e me irrito mais uma vez pela falta do relógio. Me estico e pego o celular, o deixo próximo e uso para ver as horas. Em uma hora terei um cliente novo para atender. Meu chefe me avisou ontem antes de ir embora, nem tive tempo de me preparar emocionalmente para outra sessão mau gosto. Porque convenhamos, são raros os cliente que aparecem sabendo os limites de suas casa. Já atendi um que queria uma cozinha que tínhamos feito especificamente para um cômodo de 50 metros quadrados e a dela tinha 30. Tive que refazer o projeto todo e encontrar alguém para destroçar os móveis e refazê-los no tamanho que a chatice da cliente permitia. Ficou horrível! As portas largas dos armários é que davam o charme.
Faço alguns riscos, completando o banheiro que comecei ontem. Os armários, a pia, a banheira. Distraio-me lidando nisso e nem percebo quando Dony entra.
– Diana!
Assusto-me com sua figura tão próxima, praticamente em cima de mim, espiando o projeto.
Donald Shepard é meu chefe. Mas ele não gosta do nome, então todos o chamamos de Dony. Ele é um gordinho muito fofo e querido, assim como sua esposa. Mas apesar do carinho, o ambiente não se torna melhor. Continua sendo um saco, dia após dia, trabalhar aqui. E ainda tem o terceiro Shepard, Junior. Esse sim, insuportável!
– Bom-dia, Dony!
– Bom-dia. — Ele sorri ao espiar sobre meu ombro o desenho. — Isso está muito bom. É o projeto do Hoen?
– Sim. Ele pediu pra modificar uma enxurrada de coisas, então preferi recomeçar.
– Pessoas indecisas, eles acabam com nosso tempo e paciência, não?
Apenas sorrio pra ele.
Ele caminha para a porta, passa a mão pelos cabelos escuros e ajeita os óculos redondos.
– Não se esqueça de Harold, é daqui a... — Ele consulta o relógio – Meia hora, mais o menos. Esteja preparada.
Inveja do relógio dele!
Concordo e ele sai. Minutos depois uma batida.
– Entre.
Dessa vez é Terry, outra designer. Não diria que somos amigas, amigas, não como Tyler, pelo menos. Bem, ninguém é como Tyler, é até golpe baixo comparar. Mas, nós saímos juntas algumas vezes e ela é bem legal.
– Sabe quem chegou mais cedo? — Ela entra e senta na frente da minha mesa. Solta o coque e deixa os cabelos ruivos caíres sobre os ombros. — O tal do Harold.
– Tá de brincadeira! Não tá na hora...
Consulto o pulso... Droga. Sem relógio! Como pode um item desses, que deveria ser apenas um enfeite, fazer tanta falta.
– Isso não importa, o que eu vim dizer é que o nome feio e de velho não faz jus a figura. — Ela abre o casaco e então um botão da camisa, aprofundando o decote.
Cruzo os braços sobre o peito e a encaro.
– Você tem namorado! — A lembro.
– Mas não sou cega. — Ela pisca e levanta, puxando a saia preta pra cima, deixando o joelho a mostra. — Pode deixar que eu o acompanho até a sala de reuniões...
E com isso, ela sai.
Levanto e pego a pasta que preparei as pressas ontem.
Hora de mais uma reunião cansativa e sem um pingo de liberdade criativa.
***
“Como foi?”– Diz a mensagem de Tyler.
“Melhor do que eu esperava! Duas coisas. Homem bonito e aberto a ideias. Criatividade sambando e soltando rojões o/” – Envio.
Estou na minha sala, sentada com a cadeira virada para a janela, olhando a bonita vista da cidade.
O celular vibra.
“Isso garota! Um pouco de diversão fazendo essa coisa chata que você gosta! Uhull!"
Chega outra em seguida.
"Bonito em que nível?”
“Nível: posso te comer por um ano inteiro sem enjoar!”
O celular toca. Tyler é uma figura.
– Estou trabalhando! — Digo ao atender.
– Eu também! Mas me diga, como ele é?
Rio. Tyler não é homossexual como aparenta às vezes. Ele não vê muita diferença, na verdade. Ele diz que existem pessoas comíveis e pessoas não comíveis e o sexo não importa. Então... Eu diria que ele se encaixa mais na categoria bissexual. Mas ele diz que não é isso também. É um cara confuso, isso sim!
– Louro, cabelos compridos, olhos castanhos, queixo quadrado...
– Adoro queixo quadrado!– Ele diz do outro lado.
– E casado... A aliança é enorme, o brilho dela fez meus olhos arderem! — Rio.
– Oh, que pena. Ele flertou?
– Um pouco... — Ele olhou muito para minhas pernas e de Terry, que fez questão ficar na sala lançando olhares nada discretos. Também elogiou minha blusa... Eu chamaria isso de flertar, Tyler não, por isso deixo os detalhes de fora.
– Talvez esteja aberto então, para algo casual!
– Não que eu esteja interessada, ok? — Deixo claro. Ele tem essa mania de querer escolher meus parceiros. Claro que nunca dá certo. Ele tem dedo podre para homem. Meus maiores desastres românticos foram com as indicações dele.
– Claro que não está. Quem estaria interessada em um cara de queixo quadrado quando o grande Theodor Blake está querendo a comer no jantar? Ladra de amigos!– E assim ele desliga.
Bobo!
Lembro-me que deixei o convite no carro do Tyler, nem mesmo vi o lugar e o horário da festa. Gostaria de ter visto, assim poderia... Espiar e me preparar para o que está por vir.
Confiro o pulso para ver as horas. Droga, sem relógio. A toda hora, esqueço-me disso. Odeio não tê-lo pego. Se eu tivesse com meu carro, poderia ir em casa na hora do almoço, mas como vim com Tyler...
Talvez comprar outro relógio... Isso! Parece uma ótima ideia, já que estava querendo um novo mesmo.
Checo o celular, falta meia hora para ir almoçar. Aproveito esse tempo para acabar o projeto do Sr. Hoen, mas estou impaciente. Ansiosa. É horrível não ter o controle das coisas. Não que um relógio me dê isso. Mas ele me dá a ilusão! Começo a coçar as costas da mão. Está ardendo um pouco, mas tira um pouco a atenção do meu pulso e do que falta ali. Não, definitivamente não tira! Só fico mais ansiosa a cada momento. Pergunto-me se tudo isso é por causa de um relógio, mesmo. Talvez Tyler tenha razão e essa mania, talvez, só talvez, não seja mania.
Olho em volta, tudo está organizado. Tudo que me falta fazer é acabar esse maldito desenho e então ir para meu almoço e logo depois começar a pensar numa proposta para o tal Harold. Que, de fato, era muito bonito. Mas não como certo alguém que continua vindo em minha mente e um convite com uma nota particular. O que isso significa?
***
"Cadê você?"– Digito pra Tyler.
Estou esperando faz meia hora na frente do prédio que trabalho, nada dele. Consulto meu novo relógio. Trinta e dois minutos, para ser mais exata. Ele não atende o celular, estou ficando preocupada.
Baixo o celular e começo a coçar as costas da mão. Onde infernos Tyler se meteu? Será que foi acidente?
Todo tipo de coisa ruim começa a passar pela minha cabeça. Então escuto a buzina, mas não é o carro de Tyler que para à minha frente. É um outro. Um que vejo todo dia em minhas corridas.
O vidro de trás é abaixado e a figura de Theodor sorri pra mim.
– Carona, senhorita?
Então o topete de Tyler entra no campo de visão e o sorriso malicioso que ele me lança explica muita coisa.
Theodor desce do carro, está com calça cinza de mais cedo, mas a parte de cima do terno se foi, assim como a gravata. A camisa esta com um botão aberto no pescoço e as mangas dobradas. Sexy.
Aproxima-se e toca meu braço enquanto se inclina e beija minha bochecha, dessa vez mantendo distância dos meus lábios. O cheiro bom de seu perfume toma conta do ar.
– Oi! — Ele diz com um meio sorriso muito, mas muito charmoso. Ou talvez sejam os anos sem sexo que tornem tudo tão sexy.
– Oi, Theodor.
– Theo, Diana, me chame de Theo, ok?
Nossa... ok... Definitivamente ok!
Theo, Theo, Theo, Theo!
– Claro, Theo.
Os olhos dele parecem verdes agora por causa a luz do Sol, que ainda brilha.
– Vocês vão entrar ou se comer aí mesmo na rua? — A voz de Tyler diz, Theodor... Theo, sorri e revira os olhos, se afasta e segura a porta para que eu entre.
Sento ao lado de Tyler que levanta uma sobrancelha e me dá seu sorriso mais filho da puta. Aquele que diz "Eu sou foda, sua vadia". É, ele tem um desses!
Theodor senta a meu lado e sua coxa se cola a minha, me fazendo chegar um pouco mais perto de Tyler, para que ele caiba. Mas ainda ficamos colados.
– O que aconteceu? — Pergunto olhando para meu amigo, que continua como o cabelo exatamente igual a mais cedo. Não sei o que ele passa no cabelo, mas é muito bom. Nenhum fio fora do lugar.
– Meu carro quebrou, dá pra acreditar?
Não mesmo! Aquele carro que ele cuida mais que a ele mesmo? Duvido!
O motorista liga o pisca e entra na avenida principal. Ele nem olha pra trás. O vejo todos os dias em minha corrida, mas nunca de perto. Nem sei qual é o rosto que tem, e o espelho não está numa posição muito favorável ao lugar que estou.
– O Theozito aqui ofereceu carona pra nós! E um drink, certo?
Theo ri.
– Bem, sobre o drink acabei de descobrir. Mas tá ótimo. Diana, está livre agora?
Não, na verdade, preciso fazer um planejamento e separar minha roupa e achar meu relógio e...
– Claro! — Respondo e levo um beliscão na cintura. Tyler...
– Vou ligar para Jane, que tal?
Droga! Jane dá arrepios...
– Excelente! — Theo diz ao meu lado.
Tyler pega o celular e disca o número. Ele estava com o celular o tempo todo e não me atendeu ou respondeu as mensagens antes. Dessa vez eu que dou um beliscão nele, na cintura. Ele dá um pulinho no banco e dá um tapa da minha mão, então leva o celular ao ouvido e começa a falar.
Sinto algo quente tocar minha mão. Theo a segura e ergue um pouco, passando o dedo pelos arranhões.
– O que foi isso? — Ele pergunta sério.
Se eu disser mania, Tyler vai começar com o discurso "tic nervoso" e me fazer parecer uma doida.
– O gato... da minha amiga.
Ele continua passando o polegar sobre as costas da minha mão, me deixando ansiosa. A sensação é boa, mas Tyler não vai perder a oportunidade de fazer comentários maldosos. Ele continua no telefone, diz o lugar para a pessoa do outro lado. Tenho a impressão que conheço o endereço citado, mas estou distraída, criando mentiras em minha mente.
– Um gato no trabalho? — Pergunta incrédulo.
Claro, tem marcas recentes, não só as antigas. Não dá nem para mentir e dizer que foi ontem. Tem até um fiozinho de sangue.
– A... — Sou cortada.
– Mentira, ela é alérgica a gatos! — Tyler responde, acabou a chamada. Estou corada, nem olho para Theo.
Tyler toma minha mão da de Theo e estuda, tento me soltar, mas ele segura firme. Logo começa a fazer os mesmos círculos com o polegar que Theo fazia antes.
– Não é nada! — Digo por fim e puxo minha mão, escondendo abaixo do casaco no meu colo.
Não perco a olhada que Tyler troca com Theo. Sinto que vão insistir no assunto, então o mudo.
– E então, para onde vamos?
– Pro Sherazz.
Sherazz é um bar restaurante que abriu próximo à minha casa. Fica mais próximo onde Theo mora, na verdade. Nunca fui lá, mas Tyler fala sobre o lugar faz um bom tempo.
Bem, se meu amigo sair do meu pé, talvez seja possível aproveitar a noite.
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