À flor da pele
83 Mar profundo
Notas iniciais
Theodor
— Foi suicídio, é tudo que sabemos até agora. Estamos vendo as gravações do dia e averiguando como ele conseguiu com toda a segurança. — Stuart me diz ao telefone na manhã seguinte.
Diana está na cama encolhida, me encarando.
— Eu vou avisá-la. Obrigado, Stuart.
Desligo e deixo meu celular sobre o criado mudo, então vou para a cama e a puxo para meu colo. Acaricio seu rosto.
Não tem como ser delicado com isso.
— Ele se matou. — Deixo a bomba cair.
Ela não responde nada por um momento, então as lágrimas começam. Tudo que eu posso fazer é abraçá-la e respirar aliviado, assim como ela.
Ela não dormiu desde que saiu do hospital. Tira alguns cochilos quando tem alguém por perto, mas sempre acorda tendo pesadelos. Ela não fala sobre o que aconteceu, não recebe visitas. Nem a família ela tem recebido. Tem se trancado no quarto comigo toda vez que estamos em casa. Estou preocupado, mas sou grato de não ter sido excluído também.
— Vai ficar tudo bem amor.— Sussurro para ela, na esperança de alcançá-la.
Não vou dizer que sinto muito por aquele homem. Eu não sinto, até porque, agora há esperança de alguma melhora real.
*****
— Quero que veja uma coisa. — Digo a Diana duas semanas depois. Ela ainda está em minha casa.
E espero mudar isso hoje.
Ela se afasta do fogão, onde está preparando nosso jantar.
Anda até mim, falhando levemente em seu andar, pelo pé ainda se curando.
— O que é? — Ela sorri. Não chega aos olhos, porém. Aos poucos ela está chegando lá, a um estado de aceitação e começando a se curar, mas é um processo lento. Ela ainda chora durante a noite e me agarra durante o sono, como se sua vida dependesse disso. Mas ela também saiu de casa para ir as compras com Terry. E almoçou com Tyler essa semana. São pequenas grandes vitórias.
Um passo de cada vez.
Ela também recebeu Thomas duas vezes nesse tempo. E embora isso me coma vivo em ciúmes, eu posso ver o quanto isso é necessário.
Thomas e eu temos nossas diferenças. Ele se ressente por eu ter me envolvido com sua irmã. Eu me ressinto por ele ter roubado algumas namoradas, mas para a sorte dele, só as que não me importava. Com Diana ele não tentou nada, felizmente. Então posso dizer que estamos em paz.
E sinceramente, não acho que poderia confiar Diana a ninguém mais.
— Vamos, mostre-me!
Tiro a mão de trás das costas e entrego as fotos recém imprimidas. Não deixo de olhar em seus olhos e ver o exato momento em que ela percebe o que está olhando.
— São os desenhos que fiz para Abby.
— Sim.
Mas não são mais desenhos. Um dos quartos que ela desenhou naquele dia, em uma brincadeira, mandei que usassem o desenho como base para a decoração. O resultado foi ótimo. Thomas e Patrick estão eufóricos com a nossa primeira cabana reformada em Bora Bora.
— Está lindo, Theo.
Ela me abraça apertado. Seus abraços têm sido assim agora, apertados e tão cheios de significado. Como se ela tivesse medo de que fosse a última vez.
— Sim, ficou ótimo. Mas ainda falta vários outros que estão sendo reformados. E sem nenhum designer para planejar...
Ela me solta e me olha confusa.
Diana pediu demissão cinco dias depois de Bernard Mayfort se suicidou na cadeia, antes de ser transferido. Ela fez isso por meio do telefone, nem mesmo teve coragem de pisar no escritório de novo. Eu a entendo, até lá está impregnado dele. Talvez um dia ela possa passar por esses lugares em paz, mas agora, eu sei que ela precisa se afastar de coisas que a lembrem dele e do que viveu.
— Eu estou te oferecendo um emprego, caso ainda não tenha notado.
Ela deixa seus lábios esticarem em um sorriso. Verdadeiro dessa vez.
— Um emprego em Bora Bora?
Concordo.
— E você vai estar...?
— Em Bora Bora, é claro. — Rolo os olhos. — Alguém precisa supervisionar.
— Você está fazendo isso por mim? Para me tirar daqui?
— Sim. — Digo a verdade. — Mas não apenas por você. Por nós. Eu preciso deixar isso tudo para trás, assim como você.
Vou até o fogão e desligo e depois seguro sua mão. A puxo para a sala comigo, onde a faço sentar em meu colo.
Ela deixa as fotos de lado e descansa a mão em meu peito, sobre o coração. Outro gesto que tem feito com frequência depois do que houve.
— Eu tenho vivido tanto tempo tentando me vingar do meu pai, fazê-lo sentir as coisas que senti, mas a que preço? Eu quase perdi você, Diana. Isso cria novas perspectivas.
Não há palavras para descrever o quão bom é tê-la bem e saudável em meus braços.
— E a empresa do seu pai?
Dou de ombros.
— Eu não me importo. Quando estava tentando arruinar ele, fazia sentido estar lá. Mas agora que quero seguir em frente? Preciso largar esse osso. Eu tenho 30 anos, e não sou feliz. Quer dizer, não era. Agora eu encontrei algo que vale a pena e eu preciso me focar nisso. Gosto da perspectiva que a rede hotéis pode trazer, eu quero fazer isso. Mas quero fazer isso com você.
Ela acaricia meu rosto.
— Se não quiser isso, nós vamos para outro lugar. — Completo. Eu iria para o fim do mundo com ela. — Qualquer lugar, qualquer coisa. Eu só quero estar com você.
Fico nervoso pela demora de sua resposta, mas então ela sorri, aquecendo meu peito.
— Bem... Eu gosto disso.
Concordo, aliviado.
— Vamos nessa, Theodor. Eu quero isso. — Diz animada.
A abraço forte e beijo seus lábios. O primeiro contato sem cuidado em duas semanas e ela me corresponde com a mesma intensidade.
Tive medo de perdê-la para tudo o que aconteceu, mas a cada dia percebo que sua experiência serviu para fazê-la mais forte. E embora ame a antiga Diana também, eu sei que ela precisa disso. Ser mais forte. E isso é única e exclusivamente por ela mesma.
Ela descansa a testa no meu ombro.
— Você nunca me disse o nome da rede de hotéis de vocês.
Beijo seu cabelo e acaricio suas costas.
— Pélagos.
Como eu já esperava, ela levanta seu rosto lentamente e me encara, bufa, e então abre um sorriso bonito.
— Será que seu padrasto foi quem escolheu o nome do clube?
Sorrio largo. Fui descoberto!
— Eu acho que fui responsável por isso...
Então ela gargalha, pela primeira vez em muito tempo. E se esse não é som mais gostoso de sempre.
— Seu grande garoto mau!
— Ah, vamos lá, foi brilhante!
— Definitivamente, Theodor. Mas se seu pai não sabia que isso foi sua ideia, depois do Pélagos ele sabe.
Pélagos. Mar profundo, em grego.
Diz a mitologia grega que era uma ilha, para onde Helena de Troia foi após sua morte e reencontrou Paris, seu amor.
No fim das contas, eu acho que eu sou um romântico incorrigível. Ou, como Amy gosta de dizer, uma víbora.
— Então, namorado, nós leve para Pélagos!
Sorrio para ela, encantado com suas bochechas corando depois de tanto tempo.
— Seu pedido é uma ordem.
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