À flor da pele
61 Aquela que não deve ser nomeada
Notas iniciais
Diana
É horrível. Tudo isso.
Não imaginei que meu reencontro com Ty poderia ser tão dramático. E isso é até inocente da minha parte. Não é como se não o conhecesse o bastante para esperar um golpe baixo. Mas doeu duplamente esse.
Primeiro porque tudo que eu esperava dele era um abraço. Mesmo que viesse seguido de ofensas. Mas ele decidiu que, com todo seu histórico de merda, poderia apontar o erro dos outros. É uma hipocrisia sem tamanho um homem que não conhece limites se achar no direito de julgar alguma coisa.
E segundo, porque agora tem Theo... Eu não sei como as coisas vão ficar.
Eu consigo o entender, ainda mais com ele se abrindo, como fez.
Quantas vezes desejei mal para minha própria mãe. Certas coisas marcam à nossa alma. Se levantar contra não é para todos. Dar o troco então...
Mas não é como se eu pudesse ter mudado alguma coisa. Hoje em dia, prefiro pensar que Eleonor apenas me educou de uma forma um pouco bruta, mas ainda sim, foi na boa intenção.
O amor é complicado. Os limites que são ultrapassados em seu nome, que nos marca o corpo, quebra o espírito... É difícil compreender como algo que deveria ser tão bonito, pode machucar tanto. As pessoas distorcem a forma de expressá-lo.
Theo beija minha testa. Ele me mantém apertada contra ele. Eu sei que todo esse carinho é uma forma de consolo. Só não sei para qual de nós. Talvez ambos. Eu me sinto um pouco rachada nesse momento.
Eu sinto-me tão confusa. Perdida no meio de um tiroteio, que não vi chegar e nem mesmo posso dizer quem começou. Mas eu sei que vou ser atingida se ficar parada, mas tenho medo de mover e levar uma bala da mesma forma. De um jeito ou de outro, eu me machuco nessa história.
– Você está chateada com Tyler? — Ele me pergunta.
Eu estou me fazendo a mesma pergunta desde que ele saiu.
– Eu deveria? — Jogo de volta, porque não faço ideia de qual é a resposta. Me magoou bastante vê-lo se voltar contra mim e tentar me machucar. Eu não esperava um ataque dele. Nem em seu pior humor achei que veria isso.
– Eu acho que ele agiu feito um idiota. Mas ele é assim mesmo, naturalmente, certo?
Consigo rir por um momento.
– Sim, esse é o Tyler.
– Sinceramente, Diana, se eu não fosse tão problemático, isso não teria acontecido. Acho que seria errado da minha parte incita-la a ficar com raiva dele, quando são os meus problemas que causaram essa bagunça. Mas, não precisa dizer isso a ele tão cedo. Deixo-o remoer em culpa por agora.
Respiro fundo. Tento contornar todas as minhas aflições, que não são poucas, e ficar no aqui e agora com Theo. Mesmo que minha mente tente forçar-me a ir em outras direções.
– Acho que ele merece isso, pelo menos. — Concordo.
Eu me pergunto como as coisas serão agora com Theo... Será que vamos ter a mesma sintonia que antes na cama? E fora dela? Parece tudo bem agora, mas não sei se posso aceitar tudo tão tranquilamente. E mais, pela primeira vez desde que o conheci, sinto uma vontade quase incontrolável de ir até o amigão Google e fazer uma pesquisa sobre ele. Passar em uma banca e comprar todas as revistas que ele foi citado. Estou curiosa e não sei se isso é saudável. Até mesmo porque, acho que ele me contaria tudo que perguntasse. Mas, de repente, tenho essa sensação de que preciso de mais fontes.
Não gosto dessa parte ciumenta e irracional que está se formando em mim. Cheira a problema.
Theodor
– Gostaria de ir para casa, agora. — Ela me diz.
Talvez as coisas não estejam tão bem quanto eu quero pensar.
– Eu vou levá-la.
Diana escapa de meus braços e deixa uma sensação de vazio.
– Vou arrumar minhas coisas.
Estou a perdendo. Mesmo com todo esse papo que tivemos, ela está escorregando por entre meus dedos.
– Está bem. Acho que aqueles cookies não vão rolar hoje, não é?
Ela me oferece um sorriso.
– Acho que hoje não.
Ela se afasta, saindo da sala.
Droga de dia!
Fico sentado, à espera dela. Não quero subir e acabar implorando para que fique. Theodor Blake não implora. E também não namora ou dá explicações...
Se passa quase uma hora, eu acho, quando ela está de volta, ainda com minha blusa. Pelo menos isso.
– Eu deveria ao menos te levar para almoçar em algum lugar. Você não comeu nada.
Ela concorda.
– Parece bom. Mas eu gostaria de trocar de roupa antes.
– Certo...
Ah, droga! Amy deve estar na casa de Diana, cuidado de alguns detalhes...
– Só me dê um minuto, vou mudar essa roupa.
Subo apressado, vou ao meu quarto e começo a vasculhar as caixas, atrás do meu celular. O encontro, com várias chamadas perdidas. Ignoro e ligo para Amy.
– Que foi?– Ela atende no primeiro toque.
– Estou levando Diana para casa.
– Ok, tudo certo lá. Os caras vieram bem cedo e acabaram logo.
– Ótimo. — Respiro aliviado. — Escuta... O Tyler esteve aqui. — Eu não sei porque conto... Mas eu quero dividir isso com alguém mais. E Patrick e Tom certamente vão rir e me lembrar de como tenho dedo para mulheres problemáticas.
– Deixe-me adivinhar, ele não ficou feliz?
– Ele contou sobre a... Sobre você sabe quem.
Amy bufa do outro lado.
– Meu deus, Theo! Daqui a pouco estaremos a chamando de "Aquela-que-não-deve-ser-nomeada".
– Dá azar dizer o nome dela. — Atiro de volta, a provocando.
– E olha o paganismo!– Diz rindo.
– Você disse, em primeiro lugar, que eu não deveria ficar repetindo o nome dela.
– Tanto faz.
Mulher maluca!
– O que a Diana achou da revelação? Ela fugiu?
– Não fugiu, me deu a oportunidade de falar e... Contei sobre meu pai.
– Uau, isso não se parece com algo que Edmond Dantès faria, ainda mais tão rápido! Cadê o mistério?– Ela ri.
– Ah, cale a boca. Você é uma péssima amiga!
– E ainda assim, você me ama!
– Por falta de escolha, tenha certeza. — A provoco, mas ela tem razão. Essa garota é tão amada quanto Jane. É uma parte muito importante da minha vida.
– Como ela reagiu?
– Inacreditavelmente, ela está sendo bem compreensiva. Mas... — Suspiro irritado. — Acho que deixamos passar alguma coisa, Amy. — Vou até a porta e olho o corredor. Está vazio. Fecho a porta. — Eu tenho motivos para acreditar que Diana possa ter sofrido algum tipo de abuso.
– Estupro?– Agora tenho sua atenção. Seu tom muda, está séria.
– Não exatamente. Violência doméstica, talvez.
Ela fica em silêncio.
A primeira chamada da curta carreira de tira de Amy foi violência doméstica. Quando ela e o parceiro chegaram, a mulher e sua filha estavam tão machucadas que eles acharam que estavam mortas. Amy ficou tão chocada que levou anos até nos contar isso, e não veio sem lágrimas.
– Verei o que encontro. Boa sorte.
– Certo. Vou precisar.
Desligo, então me troco. Colocando jeans e uma jaqueta preta por cima da minha camiseta. E é o melhor que meu humor vai permitir.
Assim que desço, saímos. Carrego a mala dela até meu carro, na garagem. Não conversamos, mas quando estamos no carro, ela deixa sua mão sobre a minha, que está em sua coxa.
Diana não está com raiva, mas não está normal também. A conversa que tivemos a incomodou e não faço ideia se foi a minha parte ou o quanto me deixou ver de si mesma e seu passado.
Ela nunca deixou de responder a qualquer coisa que envolvesse sua vida desde que nos conhecemos. Então, se coisas aconteceram e eu não estou sabendo, é porque estou fazendo as perguntas erradas. Mas ela me responderia se eu perguntasse diretamente?
Sigo para casa dela. Quando ainda estamos a uma quadra de distância, ela segura o ar e solta um som irritado.
– Você não fez isso, Theo!
Diana
Grades em cada uma das janelas. Em cima do portão e do muro, tem uma cerca elétrica. Tudo que eu deveria colocar, mas nunca fiz por ser caro demais.
Não é normal as pessoas terem tanta segurança por aqui, especialmente nesse bairro. As casas aqui não têm portões, ou muros. E sem dúvida não tem grades. Exceto a minha. Acho que invés de me proteger, isso deixa mais chamativo para os ladrões. É como se eu deixasse claro que tenho algo para eles roubarem.
– Acho que concordamos que sua segurança era uma droga. — Ele me diz serio, duro. Tentando mostrar que não está de brincadeira. Mas eu também não estou.
– É a minha casa, Theo, você não tinha o direito de alterá-la sem falar comigo.
Estou irritada. Nós poderíamos ter terminado minutos atrás, depois das revelações, e aí eu só estaria devendo uma fortuna para meu ex. Claro que, dever para namorado não é algo melhor.
– Diana... — Ele para o carro na frente da minha casa. — Eu nunca quero vê-la de novo como no dia que a encontrei naquele banheiro. Acuada, cega pelo medo, que nem mesmo me reconheceu. Discuta comigo sobre qualquer coisa, menos sobre sua segurança. Essa é a minha prioridade.
Suspiro forte, brava, não querendo ceder, mesmo que por dentro eu esteja muito agradecida. Esse foi um limite que ele não podia ter ultrapassado tão cedo.
– Eu não posso pagar por isso, e não me venha dizer que vai pagar. Eu não estou aceitando favores, dinheiro, ou qualquer porra, em troca desse relacionamento.
Ele arregala os olhos, surpreso. Não sei se pela minha reação ou pelo palavrão. Ou ambos.
– Eu não faço questão de receber por isso, mas se te deixa melhor, eu posso descontar do serviço que você vai prestar para mim.
Fico confusa por um momento.
– Meu apartamento, os projetos que você vai fazer.
– Oh, o projeto que eu nem mesmo aceitei?
– Você aceitou. — Ele cruza os braços e ergue uma sobrancelha, visivelmente me desafiando.
– Eu não estou lembrada.
– Você aceitou.
– Theo...!
– Você aceitou!
Que teimoso!
– Inferno! Ok! Desconte, mas eu não aceitei.
– Você acei...
Me inclino e tampo sua boca com a minha mão.
Ele começa a rir, deixa sua mão sobre a minha e mordisca meus dedos quando descobre sua boca.
– Teimosa.
–Teimoso!
– Vamos lá.
Ele sai do carro e dá a volta, abre a minha porta e me ajuda a descer. Depois pega a minha mala. Estou nervosa, não achei que estaria. É comum pessoas terem suas casas invadidas por criminosos, isso não significa que será algo mais de uma vez. Certo?
Será que levaram alguma coisa?
Os dedos de Theo encontram os meus e ele os entrelaça.
– Amy mandou trocar as fechaduras. — Ele diz e tira um bolo de chaves do bolso.
– Por isso não a vi hoje?
– Não... Ela fez isso antes de ir viajarmos, quando a levei para o hospital. Mas, de fato, ela estava aqui hoje, acompanhou a colocação das grades.
Amy... Ela é legal. Mas tenho essa inquietação em mim... Ciúmes talvez?
– Você já transou com ela? — Decido perguntar de uma vez e acabar com o mistério. Essa coisa de não falar claramente, não está funcionando hoje para mim.
É muito bizarro imaginar a ex de Theo responsável por minha segurança. Talvez Amy seja apenas uma boa amiga dele, ou talvez se finja, para poder sabotar seus relacionamentos.
– Que diabos, Diana! E não posso nem dizer que não mereci isso.
Ele me puxa em direção ao portão e abre o cadeado.
– Tem alguém que foi chamado para colocar uma fechadura elétrica, mas parece que não vem antes de quinta.
Ele ignora minha pergunta. Acho que eu sei o que isso significa...
Toda a fé que eu coloquei no Theo parece tremer por um momento. Minha necessidade de ir ao computador consultar a internet sobre ele é demais. Quase insuportável.
Quem sabe o que mais posso encontrar...
Ele fecha o cadeado atrás de nós e abre a porta, que por acaso é nova. Mais resistente.
– Tem um sistema de segurança novo também. — Ele me para na frente de um painel do lado de dentro da porta. — Você precisa cadastrar uma senha. Mas podemos fazer isso depois. E, sim. Eu transei com a Amy.
Eu sabia!
– Tipo, 12 anos atrás. — Ele completa.
– Oh... — 12 anos parece muito tempo...
– Éramos adolescentes curiosos. E embora eu fosse bem simpático, era um adolescente gordo, ignorado pelo pai e com uma mãe mal falada nas revistas. Garota alguma queria se aproximar. Então aconteceu e depois, nós decidimos que foi a pior noite de nossas vidas e decidimos esquecê-la.
Encosto na parede, e o encaro. Amy foi a primeira garota com quem ele transou... E provavelmente, ele tenha sido seu primeiro também.
Me sinto conectada a ele por ter tido essa experiência. Será que ela sente o mesmo? Será que depois de anos ela ainda se sente ligada por isso? Tipo, que seria capaz de arruinar seus relacionamentos? E Theo? Ele sentiu algo por ela? Ainda sente?
Será que ele a empregou porque não a quer deixar ir?
Droga, droga, droga! Não tinha um cara menos complicado para me envolver? Não que eu seja muito fácil, mas juntar dois desastres ambulantes não parece algo com futuro.
E mesmo com esse tipo de pensamento, não consigo odiá-lo.
– Theo a... — Começo.
– Não diga arrombador. — Me corta bruscamente — Por favor!
Me pego sorrindo.
– Eu ia dizer que acho que você não se dá os devidos créditos. E eu certamente teria dado uma segunda olhada para aquele gordinho misterioso das fotos na sua casa. Você era fofo, e ainda é...
Ele morde o lábio e então sorri, as bochechas ganham uma cor rosada. Ele me dá as costas e vai para a sala. Está envergonhado.
Fofo demais!
– E não me chame de fofo, mulher!
Começo a rir, mas o riso morre assim que me vejo de frente para as escadas. Eu começo a reviver, em minha mente, a última vez que estive aqui. O que aquele homem poderia ter feito se Theo não tivesse aparecido?
Vou para a sala e o encontro largado no sofá, com o controle na mão, apontando para a TV. Logo, uma imagem aparece e ele começa a passar os canais.
Eu devo a minha vida a ele. Ou pelo menos um não estupro. Quem sabe o que aquele cara poderia ter feito.
– Obrigada. — Eu falo, sentindo minha garganta se fechar.
Será que esse é o real motivo de toda a minha súbita compreensão e ligação a ele? Gratidão?
Ele se ergue um pouco, apontando a cabeça por cima do encosto.
– Por nada. Eu só quero que fique segura.
– Não pelas precauções... Quero dizer, por isso também. Mas eu digo... — Sinto meus olhos arderem. Não quero chorar. Menos ainda começar a ter uma crise aqui. — Por vir... E me salvar.
Ele deixa o controle de lado e se levanta, vem até onde estou e me abraça forte.
Eu gosto disso. De ter alguém olhando por mim. Alguém que me abrace quando estou terrivelmente confusa sobre tudo à minha volta. Me sinto tão emocional de repente. Acho que posso estar sentindo os efeitos da TPM.
Sinto os lábios quentes de Theo em minha testa.
– Sempre, amor. Sempre.
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